Primeira conexão: Memórias do subsolo, de Dostoiévski. Há, no filme, dois níveis de seres: os da superfície, ou os ricos; e os do subsolo, que não sabemos bem se são ratos, baratas, fantasmas, seres humanos, ou algum outro tipo de ser metamorfo. É sintomático que, tanto a família-parasita, quanto o marido da governanta, vivam em porões. Existe alguma coisa errada na economia mundial que empurramos para o esgoto. A busca pelo pão no subsolo é guerra sem regras. Salve-se quem puder! Uma cena que resume: a filha-parasita fumando um cigarro sobre a privada entupida que transborda depois da enchente. Os excluídos são como o esgoto que, há qualquer momento, pode irromper e acabar com a festa, como de fato ocorre no fim da película. Vale destacar que são reconhecidos, os pobres, pelo cheiro. E é pelo cheiro, assim como é por causa do sol n’O Estrangeiro, de Camus, que ocorre o assassinato do patrão: não tivesse tapado o nariz para pegar as chaves sob o corpo do marido da governanta, não teria.
Por outro lado, e isto talvez seja o diferencial do filme, os pobres não são retratados como anjos, ou simples vítimas, como uma parcela da esquerda almeja. Pelo contrário, os pobres são mais canalhas que os ricos, ética é adorno burguês. Um dos diálogos da família-parasita dá a dimensão: os ricos não têm dobras. E, se são bons, não é por mérito, mas porque não têm de se preocupar com o esgoto entupido, com as contas vencendo, com a chance de perder tudo a cada chuva - como está acontecendo agora mesmo em Belo Horizonte, no Guarujá, em cidades do Rio - com a impossibilidade de ir para a universidade mesmo tendo capacidade. É fácil ser ético quando se tem internet ilimitada e as preocupações se resumem à decoração da festa de aniversário do filho mimado.
O humor ácido é outra nota a se destacar. Tal qual o Coringa, o protagonista de Parasita não consegue conter o riso desesperado-desesperador diante da tragédia.
Acho que os dois filmes mais importantes de 2019, Coringa e Parasita, apontam para o mesmo lugar: não há paz sem justiça social. Isto não quer dizer que há, necessariamente, mocinhos e bandidos. Há a macroestrutura injusta que desemboca no psicopata – Coringa; ou no antiético e amoral - Parasita. Se é verdade que há na arte um poder de vidência e profecia, como Kafka provou com sua vida e palavra, o futuro que nos espera é tenebroso. Enquanto isso, a gente espera a catástrofe com uma gargalhada maquiada no rosto. Sextou.
Por outro lado, e isto talvez seja o diferencial do filme, os pobres não são retratados como anjos, ou simples vítimas, como uma parcela da esquerda almeja. Pelo contrário, os pobres são mais canalhas que os ricos, ética é adorno burguês. Um dos diálogos da família-parasita dá a dimensão: os ricos não têm dobras. E, se são bons, não é por mérito, mas porque não têm de se preocupar com o esgoto entupido, com as contas vencendo, com a chance de perder tudo a cada chuva - como está acontecendo agora mesmo em Belo Horizonte, no Guarujá, em cidades do Rio - com a impossibilidade de ir para a universidade mesmo tendo capacidade. É fácil ser ético quando se tem internet ilimitada e as preocupações se resumem à decoração da festa de aniversário do filho mimado.
O humor ácido é outra nota a se destacar. Tal qual o Coringa, o protagonista de Parasita não consegue conter o riso desesperado-desesperador diante da tragédia.
Acho que os dois filmes mais importantes de 2019, Coringa e Parasita, apontam para o mesmo lugar: não há paz sem justiça social. Isto não quer dizer que há, necessariamente, mocinhos e bandidos. Há a macroestrutura injusta que desemboca no psicopata – Coringa; ou no antiético e amoral - Parasita. Se é verdade que há na arte um poder de vidência e profecia, como Kafka provou com sua vida e palavra, o futuro que nos espera é tenebroso. Enquanto isso, a gente espera a catástrofe com uma gargalhada maquiada no rosto. Sextou.
2 comentários:
Também me marcou o diálogo sobre as dobras. É um resumo do porquê fica tão mais fácil seguir "regras" quando não estamos ou somos perturbados de alguma forma. Porém, ao mesmo tempo que a riqueza facilita o cumprimento dos acordos sociais e a miséria os dificulta, ainda somos capazes de cumprir os acordos e, mais que isso, sentir-se bem e grato ao fazer, independente de quanto temos ou onde estamos. Talvez aí resida a graça. Mas o que considero mais importante e mais difícil é não me dispor a julgar a atitude alheia, seja qual for, é nisso que tento não me perder. Obrigada por escrever!
Também me marcou o diálogo sobre as dobras. É um resumo do porquê fica tão mais fácil seguir "regras" quando não estamos ou somos perturbados de alguma forma. Porém, ao mesmo tempo que a riqueza facilita o cumprimento dos acordos sociais e a miséria os dificulta, ainda somos capazes de cumprir os acordos e, mais que isso, sentir-se bem e grato ao fazer, independente de quanto temos ou onde estamos. Talvez aí resida a graça. Mas o que considero mais importante e mais difícil é não me dispor a julgar a atitude alheia, seja qual for, é nisso que tento não me perder. Obrigada por escrever!
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