quarta-feira, 4 de março de 2020

A LITERATURA E O SILÊNCIO

 A literatura é um jogo entre o atual e o virtual, o fato e o que poderia ser para além de todas as possibilidades: o inesperado; yin e yang, enfim; palavra e silêncio, o visível e o invisível. Um texto não diz tudo, porque o mundo é impronunciável em sua totalidade. Se conto a história de João, não conto a de José e, ainda que José aparecesse, seria sob outro ponto de vista. Então, há algo incomensurável que seria a soma de todos os livros escritos e... todos os livros possíveis e impossíveis em estado de latência, quase-coisa, campo quântico. Este todo é o silêncio. Num texto, o silêncio é o que permeia o espaço entre uma palavra e a outra. É mesmo o solo de onde cada palavra floresce. O texto era impossível antes de escrito e, no entanto, alguém foi lá e arrancou a primeira palavra junto ao silêncio e o impossível foi se tornando fato à medida que uma palavra à outra se conectava. Então, o silêncio, por ser tudo ao mesmo tempo, não pode ser dito, não há palavra que o abarque. Talvez a sílaba OM. O bom escritor não é grande apenas por aquilo que diz; mas, sobretudo, por aquilo que cala. Há uma figura de linguagem que representa este ponto de vazio nas coisas que escrevo: a elipse. Ela torna o silêncio presente e deixa o vazio para que o leitor preencha com sua própria palavra. Faz do leitor um autor também. A relação autor-leitor é sedução, dança, é cópula; o texto só ganha sentido quando os dois se entendem: ambos criam juntos o sentido que, em mim, é sempre amor.

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