quinta-feira, 19 de março de 2020

ESSA VONTADE DE MORRER

Quando você vive muito tempo com uma pessoa e ocorre a ruptura, não é só do outro que você sente saudade. É de você mesmo e do mundo como era. Um mundo que agora está morto - para sempre. Em que parte do Universo uma manhã pode se esconder?
Eram os anos 1980. Ela achava que eu era gay. Sequer passava pela sua cabeça que eu era devoto. Vivíamos na mesma casa. Ela num quarto, eu no outro. Quando ela levava alguém para amar, podia ouvir os gemidos fluindo pela casa. Eu, assexuado, máquina celibatária; eu, monge, robô com a face maquiada e unhas pintadas de preto. Eu admirava Gabriella porque ela era tudo o que eu não conseguia ser: “Quando durmo com uma pessoa, Dani, entrego todo meu amor, tudo, tudo que sou e que tenho! Durante uma noite, eu dou”. Por meu lado, queria interagir com o mundo, mas me faltavam forças. Aquilo que corta nossas asas está sempre dentro. Ela, por seu turno, parecia fluir com a vida. Numa noite cantava num bar, na outra fazia strip. Doía-me o modo como desperdiçava seu mistério. Deitando-se com pessoas que só estavam interessados em sua_____: homens que só tinham aprendido a contar dinheiro; mulheres cujas mãos estavam vazias de delicadeza. Ela me atraía pela sua lacuna. Por aquilo que não tinha. A dor funda, e silenciosa, e sem nome; enigma; vontade-de-imensidão. No amor, a gente só dá o que não tem. Quando a doença chegou, Gabriella foi uma das primeiras. Cuidei dela. Levei ao médico. Dei banho. Limpei o cu quando ela não conseguia. Pouco antes de, ela me disse: “Sabe, não ligo de morrer. Era isso que eu ansiava. Não suportava mais. Uma noite, pedi ao Universo que me mandasse o fim”. E, no entanto, sempre me parecia tão feliz! No dia do enterro, nenhum dos seus muitos amantes compareceu. Tive de dividir as alças do caixão com os coveiros. Ao voltar pra casa, nesta mesma tarde, encontrei, no guarda-roupa dela, um caderno, no qual ela desenvolvia uma história em quadrinhos. Era uma narrativa muito meiga - o contrário do que ela mostrava ao mundo - na qual uma coraçãozinha solitária, vermelha, com boca, olhos, mãos e perninhas, encontrava um coraçãozinho solitário da mesma estirpe e, juntos, de mãos dadas, ambos saíam para conhecer, enfrentar e desfrutar o mundo.
O coração masculino, assim como eu, usava batom preto. Tarde demais nesta pátria de desencontros.🌻

Nenhum comentário: