O escritor Gláuber Soares fala um pouco sobre o seu processo criativo,
sua vida, suas leituras, suas influências, conversa ainda sobre a origem do seu
segundo livro e primeiro romance publicado Face
Emplumada, a sua estreia na literatura foi com o livro de contos Remédio Forte, o qual foi traduzido e
será lançado esse ano na Argentina...
Seu primeiro livro publicado foi a coletânea de contos Remédio Forte; entretanto, você já
escrevia textos de maior fôlego antes de se dedicar à forma mais sintética que
constitui o conto. Como se dá a passagem de uma forma literária à outra no seu
processo de criação? Quando começa a escrever, você já tem certeza da extensão?
Ou aos poucos o texto vai se constituindo como romance, novela ou conto?
No início, só
pensava em textos mais longos. Já imaginava o começo, o meio, o fim. No ano de
2000, comecei a escrever o meu primeiro romance finalizado (não publicado). Em
2002, ele estava pronto -- no formato tradicional de livro daria umas 160
páginas. Somente após participar de uma oficina de criação literária, em 2010,
comecei a escrever contos, meio que por obrigação. Praticando, acabei me
apaixonando também pela forma dos contos. Suas nuances. Hoje, geralmente, eu
penso: tal enredo daria um romance ou conto. Mas Face
Emplumada desorganizou a minha lógica. Comecei escrevendo o que seria
um conto. O texto foi ficando mais longo, pedindo mais personagens, enfim,
percebi que ali a melhor forma seria uma novela ou romance.
Já que mencionou a criação de
personagens, devo dizer que achei muito interessante a galeria de personagens
que atravessam Face Emplumada, desde o cabeleireiro queer Sandrinho até o Seu Galdino da fazenda Asa
Azul. Considerando que a construção de um romance envolve cinco instâncias que
se interpenetram (a saber, o tempo, o espaço, a linguagem, o enredo e as
personagens. Há romances cuja força motriz está no tratamento do tempo, como À
sombra do vulcão, de
Malcolm Lowry; há romances cujo centro é a desterritorialização, o tratamento
do espaço, como On the road, de Kerouac; Clarice Lispector desconstrói a linguagem, Luiz Brás
recoloca o enredo em evidência e ao falar de Dom Casmurro, logo pensamos na personagem enigmática de Capitu...) Você diria que,
enquanto criador, a sua maior potência está na criação das personagens ou em
uma das outras quatro instâncias? Sei que tais categorias não surgem
compartimentadas quando se escreve algo, mas quando você relê o trabalho, onde
você acha que está a maior força da sua escrita?
Rapaz,
neste ponto não sei se tenho a melhor resposta. Não costumo consumir energia me
autoanalisando. Nem tenho as
ferramentas teóricas para isto. Mas, sem fugir de uma resposta, eu me preocupo
mais com a linguagem e com o enredo, balancear essas duas instâncias. As
performances, forças das personagens, a meu ver, vêm como consequências deste
balanceamento.
Acho que a linguagem também é uma força da sua prosa: enxuta, desenvolta, variável; vai das gírias mais urbanas à musicalidade mais sertaneja. Penso, inclusive, ser um traço extremamente original da sua escrita esta mistura do provinciano e do cosmopolita, do urbano e do rural. Já na epígrafe, você une provérbio baiano e David Bowie. A trajetória de Gustavo vai do interior de São Paulo, à capital paulista e de lá à Quixadá. Na música, também muito presente no livro, nós vimos essa antropofagia, essa deglutição do pop pelo pelo sertanejo, tanto no tropicalismo, quanto no mangue beat. Diz aí, na literatura quais são suas influências na criação deste estilo híbrido? E nas outras artes? Quais são os artistas de esferas exteriores à literatura que influenciam sua escrita?
Acho que a linguagem também é uma força da sua prosa: enxuta, desenvolta, variável; vai das gírias mais urbanas à musicalidade mais sertaneja. Penso, inclusive, ser um traço extremamente original da sua escrita esta mistura do provinciano e do cosmopolita, do urbano e do rural. Já na epígrafe, você une provérbio baiano e David Bowie. A trajetória de Gustavo vai do interior de São Paulo, à capital paulista e de lá à Quixadá. Na música, também muito presente no livro, nós vimos essa antropofagia, essa deglutição do pop pelo pelo sertanejo, tanto no tropicalismo, quanto no mangue beat. Diz aí, na literatura quais são suas influências na criação deste estilo híbrido? E nas outras artes? Quais são os artistas de esferas exteriores à literatura que influenciam sua escrita?
Na literatura,
curto bastante o João Antônio, Luiz Bras, Marcelino Freire, Patativa do Assaré,
Lygia Fagundes Telles, entre outros. Nas artes plásticas, Carybé, o mais baiano
dos argentinos, sua vasta obra me desperta a atenção. A música sempre me
influenciou. Das batidas às letras; de Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi a Morrisey
e Ramones. Lembro-me que ainda no meu primeiro romance citado, imaginava o
projeto do livro com um CD encartado, ou seja, tinha a sua trilha sonora. Em Face Emplumada, Bowie foi um
dos músicos que me inspirou, ajudou a dar o tom.
O que mudou e o que se manteve na sua escrita de Remédio Forte a Face Emplumada?
Remédio
Forte foi uma coletânea de contos.
Havia a preocupação social, passagem do tempo, a morte – temas que dão
unidade ao livro. Algumas narrativas, como Próximo,
Juntinhos, Rio Cachoeira, Isabela e
o conto que dá nome ao livro já sinalizavam para este estilo
mais impregnado que em Face Emplumada. Acredito que não houve
mudança, talvez tenha tido um amadurecimento, uma afirmação.
Você publicou Face
Emplumada por uma editora independente, como enxerga o mercado editorial
brasileiro?
Para quem
está preocupado com a arte, e não em ser uma celebridade, o
comportamento do mercado não faz muita diferença. Levando em conta os
números da população brasileira, o nosso mercado editorial, principalmente o
literário, é incipiente. Somos um dos países da América Latina em que
menos se lê. As grandes editoras ganham dinheiro vendendo livros
didáticos para os governos. No gênero Literatura, meia dúzia delas formam uma
elite que se mantém no topo com os best-sellers importados. Com
alguma exceção, não estão preocupadas com a literatura brasileira, desejam
o lucro fácil. Os prêmios literários ajudam a maquiar. Tentam,
com o glamour, iludir, e até têm conseguido, como se a desprezada
literatura nacional tivesse, de fato, importância. O que sobrou da
mídia não percebe o engodo. Um outro vilão são as
livrarias. Não investem no processo de publicação – tudo bem, este não é o
papel delas, no entanto, as livrarias só querem levar vantagem. Muitas só
aceitam livros em consignação e pra pagar à editora, quando pagam,
pedem um prazo de 90 dias. É claro que os maiores grupos editoriais
têm poder de negociação. O que não impediu a excelente
Cosac Naify, há pouco, noticiar que vai fechar, dando como um dos
motivos este longo prazo. Ainda assim, diante de tanta
dificuldade, nem tudo está perdido. As pequenas editoras, com as
suas pequenas tiragens, continuam fomentando a nada incipiente
arte literária brasileira.
Há algo que você gostaria de dizer, mas não foi perguntado
nesta entrevista? Fique à vontade.
Apenas
dizer para os leitores ficarem atentos com a cena literária paulista. Você
sabe, Daniel, temos uma geração de ótimos escritores. Poesia, romance, conto,
há muita coisa boa sendo feita por aqui. O seu romance A Delicadeza dos
Hipopótamos, por exemplo, é um livro sensacional. Enfim, prestigiem mais a
literatura brasileira.

