1 -) Samuel, em Poética, Manuel Bandeira diz: “Estou
farto do lirismo comedido / Do lirismo bem comportado / Do lirismo funcionário
público com livro de ponto / Expediente, protocolo e manifestações de apreço ao
Sr. diretor.” Em Tesouro, você
escreve: “me lembro da vez / em que você
mijou nos meus pés / enquanto tomávamos banho / naquele hotel escroto na
Armênia; / - foi a maior declaração de amor que já recebi.” Diz aí, você vê
alianças entre a Poética do Bandeira
e sua própria poética? Há uma conexão entre estas declarações viscerais?
bem,
Daniel, vejo aproximações & distanciamentos. Bandeira teve um papel
importante na minha formação de leitor de poesia! no decorrer do traço, fui me
afastando, mas trago comigo as leituras excessivas do livro “a cinza das
horas”, primeiro do Bandeirão, com aquele tom melancólico & delicioso sabor
de hemoptise. Talvez, com o peso dos anos tenha mais conexão as visceralidades
que com Manuel! me agrada muito a ideia de escrita enquanto queda & também
horror, no sentido de relato (distorcido & delirante na mesma medida em que
tenta ser registro fiel) do quanto existir é um espanto.
2-) Abismo é uma palavra recorrente nos seus poemas. Em Abrindo Abismos, você escreve: “pertenço
à classe das fendas”. Além disso, o poema que encerra o livro intitula-se O Abismo é Um Instante. Quando abismo não aparece, surgem vocábulos
similares como, por exemplo, oco.
Certa vez, comentando a poesia de Artaud, Blanchot escreveu que, em Artaud, o
que é primeiro não é o ser, mas a fenda e a fissura. Na canção Anthem, Leonard Cohen escreveu algo
como: “Há rachaduras em tudo é assim que a luz entra”. E no Tao Te Ching, Lao-Tsé diz que erguemos paredes
e casas, mas é pelas janelas e portas que a luz e nós mesmos podemos entrar.
Sem mais delongas, qual é a importância do abismo, da fenda, do vazio na sua
poética e na sua vida?
uau,
que pergunta difícil! talvez nunca consiga respondê-la, o que não é a mesma
coisa de não ter o que falar a respeito. a questão da fenda, da fratura, do
abismo, são inquietações que me acompanham desde muito (sem que eu soubesse
disso, claro), acho que o abismo me é ontológico! penso que talvez só seja
possível estar no mundo humano através da fenda. a escrita se faz letra na
fratura. e talvez possamos pensar esse vazio, que é diferente do Nada, ao menos
pra mim, no sentido de um lugar. um lugar entre eu & o(s) outro(s). por
exemplo: o que eu escrevo não é o que o outro entende, e o que o outro me
comunica não é o que eu entendo. desse equívoco, desse tipo de ruído &
desencontro, é possível criarmos um espaço potencialmente habitável. nem em
mim, nem no outro. mas entre. um lugar quase, paradoxal e precário, um terceiro
lugar viável onde talvez possamos construir um idioma possível ao “nós”. esse
“fazer-junto” este terceiro lugar é possível através de um gesto corajoso, um
convite ao diferente (o não-eu), para que ele coabite & construa comigo
esse espaço quase, insustentável por natureza. possível por definição. esse
espaço entre é lugar do Fazer, de um fazer poético, que não tem necessariamente
ligação com um fazer poesia, verso. Vejo essa disposição poética no sentido de
uma condição de Fazer existência no momento em que ela acontece, um viver
criativo. podemos fazer um bolo criativamente e nunca escrever um poema e,
ainda sim, sermos muito mais criativos que um tanto de fazedores de poesia
& prosa!
com
relação ao nosso traçado, meu amigo, acho que o escritor, nem tanto no que
escreve (o produto de sua criação, sua escolha estética & de estilo etc.),
mas na disposição a inscrever, faz registro dessa queda da certeza de sermos
entendidos. entretanto, só é possível registrar (fazer letra) habitando esse
espaço entre, que talvez nem seja um lugar, visto que fisicamente não é
visível, hehe, mas uma disposição ao risco & ao encontro com a diferença, o
nada, enfim, o abismo.
3-) A sua poesia, apesar de ser
sempre muito suja, muito corporal, muito rueira é também uma poesia muito
culta. Há nela desde Kierkegaard, até o Fiat Tipo. Como você concebe sua
estética? Não gosto muito desta palavra; mas, na falta de outra melhor...
Hehe,
também me incomoda um pouco essa palavra, mas talvez possamos pensa-la no
sentido de uma sensibilidade & de um estilo mesmo. na verdade, nem eu sei
muito bem como cheguei nisso. meus livros anteriores são completamente
diferentes uns dos outros, acho que estava na procura de um “jeito”, e talvez
tenha sido encontrado por ele. podemos pensar que tem algo a ver com o que
escrevi na pergunta anterior, uma disposição existencial de tentar (nem sempre
é possível) despir meu narcisismo (não abandoná-lo) da certeza delirante de ser
entendido pelos outros. esse gesto é cruel, um pouco masoquista & quedante.
Escrevo desse lugar e por conta dele. então, se posso pensar numa estética, é a
estética do chão.
4-) No poema A Nick Cave´s Call - em minha opinião um dos mais tocantes do
livro, principalmente o verso: “a ausência, já presente, de meu pai.” - você
descreve seu início na escrita aos nove anos, já dedilhando na máquina de escrever
“frases sem sentido”. Conte-nos mais a respeito. Que forças o impeliram a
escrever? A poesia está em tudo quanto é lugar, mas como foi seu início nos
poemas?
então,
eu era poeta e não sabia. a gente nunca sabe na verdade, né? a poesia é “o
princípio do prazer no uso da linguagem”, me disseram certa vez. e eu
acreditei! então, ela não precisa ter um porquê, dar respostas, indicar
caminhos, elevações espirituais ou qualquer merda dessas. poesia é. é fazer.
demorei muito pra entender algo disso aí. dito isso, eu não tive uma criação
“intelectual”, embora tenha aprendido a ler & escrever aos três anos de
idade, minha família não tem uma tradição de leituras, pra você ver, aprendi a
ler com as legendas do filme “a hora do pesadelo” que meus pais assistiam,
hehehe. mas eu gostava de fazer letra, sempre gostei. empiricamente, meu
primeiro contato com poesia foi através do punk. me envolvi com a cultura punk
aos 13 anos & aquilo me virou do avesso. lendo zines, letras de bandas como
Cólera e Olho Seco, aquilo me tomava o corpo (só de falar me lembro & me
arrepio nos pelos do braço!). dali foi um passo para montar minha primeira
banda. acabei tocando bateria por acidente, mas de um jeito ou de outro, eu
sempre acabava escrevendo as letras. meus cadernos escolares eram cheios de
letras, eu tinha ideia o tempo todo, era uma maluquice do caralho, mas era
delicioso! nessa fase, descobri também a poesia, no verso mesmo. Augusto dos
Anjos foi o primeiro poeta que li fora daquela chatice que nos ensinam que é
poesia na escola. o ensino de literatura na escola muitas vezes é tão
antierótico que torna a coisa traumática, bicho! O tempo foi passando e a
poesia ficou no meu íntimo, não falava pra ninguém, escondi tanto que esqueci
que gostava. fui relembrar na faculdade de comunicação. E através de uma pessoa
que se tornou grande amiga pra vida. o nome dela é Cris Amorim, no meu primeiro
ano de curso, super bicho do mato, achando que o ambiente acadêmico não era pra
mim, encontrei com ela e através dos nossos papos, ela me disse: “cara, por que
você não começa a escrever poesia? você é poeta, porra!”. Ela me apresentou
Maiakovski, Augusto dos Anjos, que me foi um reencontro potente. A partir daí
fui lendo & lendo & lendo, conhecendo mais poemas & poetas, quando
me vi, estava também escrevendo.
5-) Velho, vejo em seus poemas
tudo quanto é tipo de referência – do artista enquanto liquidificador -. Desde
Nick Cave e Joy Division, passando por Burroughs e o já citado Kierkegaard.
Quem são seus heróis? Os caras que dizem algo que fala ao seu coração e com os
quais você estabelece, de algum modo, aliança?
putz,
isso sempre é transitório, né? mas a gente tem uns de cabeceira, não importa a
hecatombe que nos tome, é com esse pessoal que a gente conta no final. Como
escrevi na pergunta acima, Augusto dos Anjos é um deles. Tenho um ritual
obsessivo de comprar várias edições do “Eu”, é meio doentio, mas acho que quero
guardar ele só pra mim, tirar do mundo, saca? Hahaha. É bizarro.
Bom,
se eu puder listar, Augusto já está aí, colocaria mais ou menos assim: Freud,
Sándor Ferenczi, Melanie Klein, Kafka, Burroughs, Poe, Lovecraft, Ginsberg,
Sylvia Plath, Emily Dickinson, Juan Gelman, Hilda Hilst, Eunice Arruda, Roberto
Piva e Manoel de Barros. Essa turma faz os dias melhores por aqui.
6-) Se houve algum assunto que
você queria abordar, mas este entrevistador não perguntou, essa é a hora. Diga
o que quiser. Faça aí suas considerações finais. Desde já agradeço a entrevista
e a atenção. Abraço, compadre.
agradeço
o interesse & a leitura de meu livro! Acho que por aqui está bom, falei pra
caralho, haha,
grande
abraço fraterno, bicho!
Penalux, 2017
