terça-feira, 7 de agosto de 2018

A MALDADE DE GENTE DE BEM

Dona Celina era uma professora à moda antiga. Tinha se formado depois dos quarenta anos. Os filhos, criados e ela, como gostava muito de crianças, resolveu se dedicar ao magistério. Dona Celina falava manso, com um timbre suave, seus diários eram encapados com papel estampado por corações.
                - Como sempre, diários impecáveis, Dona Celina! – dizia a coordenadora e apertava com gosto o carimbo.
                Nos dias de festa, Dona Celina levava comida. Prendada, gostava de cozinhar, e bordar, e tricotar... Bela, recatada e do lar, sim senhor. Seus pratos eram famosos tanto entre alunos, quanto entre professores. O pessoal comia até se esbaldar.
                Até que um dia apareceu uma estagiária. Menina nova, trazia propostas pedagógicas inovadoras. Misturava capoeira e literatura, RAP e escultura, matemática e pintura. Tudo o que a menina fazia dava liga; acontecia conforme o previsto. Aos poucos, a estagiária começou a se destacar. Ajudava os outros professores em seus projetos. Organizava a criançada nos dias festivos. Até a coordenadora andava elogiando a menina.
                Dona Celina sentiu a fisgada. Ciúme fere, inveja dói. O pior de tudo foi quando, durante uma comemoração, tanto Dona Celina quanto a estagiária levaram pratos parecidos. O pão de torresmo de Dona Celina ficou esquecido; nem professores, nem alunos tocaram no assado. Quanto ao pão vegano da estagiária, não sobrou migalha. Dona Celina recolheu o prato intocado, preparado com tanto carinho e levou de volta. Ciúme fere, inveja dói. Isso não ficaria assim.
                Na segunda semana de outubro, durante as comemorações dos dias das crianças e dos professores, Dona Celina ficou encarregada de levar o bolo. A estagiária trouxe coxinhas de jaca. Desta vez, para felicidade geral, todos comeram tanto do prato da estagiária, quanto do da professora mais antiga. Depois do bolo, no entanto, o mal estar foi geral. Professores e alunos saíram em disparada em busca de banheiro. Todos eles, os banheiros, estavam trancados e ninguém sabia das chaves. Muita gente fez as necessidades nas calças. A escola ficou um cheiro...
Horas mais tarde, a chave apareceu bem ali, em cima da mesa dos professores. Houve quem desconfiasse que ou algum dos pratos estava estragado, ou alguém havia colocado laxante na comida. Mas quem?

                

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