Dona
Celina era uma professora à moda antiga. Tinha se formado depois dos quarenta
anos. Os filhos, criados e ela, como gostava muito de crianças, resolveu se
dedicar ao magistério. Dona Celina falava manso, com um timbre suave, seus
diários eram encapados com papel estampado por corações.
-
Como sempre, diários impecáveis, Dona Celina! – dizia a coordenadora e apertava
com gosto o carimbo.
Nos
dias de festa, Dona Celina levava comida. Prendada, gostava de cozinhar, e
bordar, e tricotar... Bela, recatada e do lar, sim senhor. Seus pratos eram
famosos tanto entre alunos, quanto entre professores. O pessoal comia até se
esbaldar.
Até
que um dia apareceu uma estagiária. Menina nova, trazia propostas pedagógicas
inovadoras. Misturava capoeira e literatura, RAP e escultura, matemática e
pintura. Tudo o que a menina fazia dava liga; acontecia conforme o previsto.
Aos poucos, a estagiária começou a se destacar. Ajudava os outros professores em
seus projetos. Organizava a criançada nos dias festivos. Até a coordenadora
andava elogiando a menina.
Dona
Celina sentiu a fisgada. Ciúme fere, inveja dói. O pior de tudo foi quando,
durante uma comemoração, tanto Dona Celina quanto a estagiária levaram pratos
parecidos. O pão de torresmo de Dona Celina ficou esquecido; nem professores,
nem alunos tocaram no assado. Quanto ao pão vegano da estagiária, não sobrou
migalha. Dona Celina recolheu o prato intocado, preparado com tanto carinho e
levou de volta. Ciúme fere, inveja dói. Isso não ficaria assim.
Na
segunda semana de outubro, durante as comemorações dos dias das crianças e dos
professores, Dona Celina ficou encarregada de levar o bolo. A estagiária trouxe
coxinhas de jaca. Desta vez, para felicidade geral, todos comeram tanto do
prato da estagiária, quanto do da professora mais antiga. Depois do bolo, no
entanto, o mal estar foi geral. Professores e alunos saíram em disparada em
busca de banheiro. Todos eles, os banheiros, estavam trancados e ninguém sabia
das chaves. Muita gente fez as necessidades nas calças. A escola ficou um
cheiro...
Horas mais tarde, a chave
apareceu bem ali, em cima da mesa dos professores. Houve quem desconfiasse que
ou algum dos pratos estava estragado, ou alguém havia colocado laxante na
comida. Mas quem?
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