Porque existe muita brutalidade no mundo, há tanta gente doida,
perdida, má. Basta ir a qualquer competição de futebol infantil para ver os
pais digladiando-se na plateia, enquanto as crianças – em breve expulsas do
paraíso – ainda; sim, ainda; estão mais preocupadas em se divertir, em brincar.
“Nunca desista, Enzo!” – Gritou um pai ao meu lado, ainda ontem, para o filho:
o menino tinha cinco anos.
Ainda pensava na final do campeonato na escolinha do meu filho, quando
fui tomar café agora há pouco. Do lado de fora da padaria, há um pequeno
canteiro onde nasce uma palmeira e um pequeno jardim que as pessoas usam de
cinzeiro. Na televisão ligada, aparecia a cara feia e plastificada do Michel
Temer, vangloriando-se de sua mais recente conquista: “O Brasil está no caminho
certo”! Enquanto meu pão não ficava pronto, desviei os olhos da máscara no
monitor. Lá fora, uma mãe fumava e mexia ao celular, enquanto o filho, um
menino de dois anos no máximo, brincava no jardim. Parecia um esquimozinho, todo
agasalhado, toquinha e cachecol. Via-se que era um menino bem cuidado. Em
determinado momento, o menino arrancou uma flor! Pessoas passavam apressadas...
O chapeiro corria com os lanches... A balconista trouxe um cesto de pão... A
mãe fumava, coçava a testa, cochichava ao celular, dava o que tinha; mas foi o
filho quem levou a flor mais bela, do mais belo jardim, colhida depois de
enfrentar frio, neve, intempéries, batalhas, tempestades, à sua rainha. Ela
jogou o cigarro no chão. Recebeu a flor sem desligar o celular. Eu lancei um
pedaço de pão até um cachorro vesgo que olhava faminto do lado de fora. O menino
voltou a brincar. Pouco depois, a mãe desligou o celular, atirou a flor ao
chão, pegou a mão do filho com pressa e o arrastou até o carro. Em nenhum
momento ele deixou de olhar para trás, para o troféu caído no chão que as
pessoas esmagavam ao passar.

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