Li O senhor das moscas e gostei, mas discordo do livro. A meu ver, não sei se de modo intencional, o enredo do romance dialoga diretamente com o mito freudiano de Totem e Tabu; mas, aqui, trata-se de um totem às avessas. Enquanto que, para Freud, o totem representa o pai morto e instala o tabu do incesto e o nascimento da cultura; no romance de Golding, o totem representa a própria morte da função paterna e da cultura. Na distopia de Golding, a morte da função paterna seria a morte da cultura e um retorno-viagem a uma espécie de barbárie pós-cultural. Em Freud, o totem instaura a Lei, em Golding, o totem abole a Lei. Para o primeiro, se Deus está morto, nada é permitido; para o segundo, se Deus está morto, tudo é permitido.
Como ficção, ambas as obras são válidas; como genealogia da cultura, não. Estou um pouco cansado do pessimismo. Resolvi mudar o olhar. Deu trabalho, mas consegui. E as visões, tanto de Freud quanto de Golding, são pessimistas demais para o meu gosto atual. À Freud, faltou a lição do perspectivismo nietzschiano, sua ideia de cultura é tautológica, monótica. Sem sair de seu lugar étnico e cultural, Freud propõe um início edipiano, para variar, que seja universal; mas que, em verdade, é só o início do Patriarcado. Há muitas culturas em que quem manda na parada é uma Deusa e não um Deus; uma mãe e não um pai; e, mesmo o núcleo familiar, em muitas tribos, é dispensável. A visão de Freud, com a qual Golding parece dialogar, vem de Hobbes, Schopenhauer etc e tals... Ela enxerga apenas um lado do ser humano e o vê como motor universal: o homem é mau por natureza e a cultura coloca-lhe rédeas para a sua própria sobrevivência. Na minha própria caminhada pela vida, vi que o ser humano não é só bom, nem só mau por natureza. É uma mistura confusa das duas coisas. Em São Paulo, um homem de passado duvidoso entra em um prédio em chamas para tentar salvar desconhecidos e acaba morrendo quando o prédio desaba. Nos States, o país do pai, centenas de bombeiros entram numa torre na mesma situação para fazer o mesmo... O ser humano é o único animal capaz do sadismo; mas também o único capaz da graça. E o único animal que sente prazer ao ver outro animal, da mesma espécie ou não, ser torturado; mas também é o único capaz de dar sua própria vida para salvar uma criança desconhecida. Quando o assunto é gente, não há fórmula universal.
O paradigma patriarcal não é o único, é só um entre outros: o vitorioso. Não é à toa que Freud não entendia o que queriam as mulheres. Sinto que, aos poucos, estamos construindo um novo paradigma mais ligado ao feminino, à empatia, ao cuidado, à responsabilidade pelo outro. É um trabalho longo e árduo e quem sabe se, ao findá-lo, não poderemos instalar um novo totem que simbolize a mãe, o seio, o amor; no lugar de uma cabeça de porco apodrecida?
segunda-feira, 16 de julho de 2018
quarta-feira, 11 de julho de 2018
NOTA SOBRE MEDITAÇÃO
Os dias mais tenebrosos que atravessaram na caverna, os meninos do time Javalis Selvagens permaneceram em silêncio, meditando. Existem múltiplas técnicas de meditação, mas todas elas buscam silenciar os pensamentos, encontrar a paz. O teatro freudiano de Édipo começa quando a criança percebe que há um eu, um pai, uma mãe; mas, muito antes disso, já havia a vida. A meditação nos leva ao centro da Vida e só a Vida pode curar a vida. O básico, de todos os métodos, consiste em observar os pensamentos. É como se, em vez de virarmos os olhos para fora, voltássemos para dentro, observássemos o que se passa com nossa respiração, com nosso corpo e pensamentos. Não há necessidade de julgamento, porque o julgamento é ainda uma formação do eu e o eu é algo cultural, criado de fora para dentro pelo próprio pensamento. É difícil para nós, ocidentais, nascidos no seio do cogito cartesiano compreender que não é o eu que engendra o pensamento, mas o contrário. O simples fato de estarmos atentos, de observarmos o que se passa no nosso interior, faz com que as muralhas caiam. A meditação não está necessariamente ligada a qualquer religião; ela, no entanto, nos religa ao fluxo vital. Há, na própria Bíblia Sagrada, uma flor que aponta para a meditação. Trata-se da passagem do livro de Josué sobre o cerco de Jericó. Durante seis dias, o povo israelita permaneceu em silêncio ao redor da muralha e, no sétimo dia, ao gritarem, a muralha caiu por si mesma. Ao observarmos nossos problemas, nossas muralhas internas, nosso ego, tudo isso se enfraquece e, com o tempo, desmorona. De acordo com um koan, espécie de enigma zen, olhamos outra vez e notamos que o ganso está fora da garrafa. Há algo para além dos sentidos e da razão que nos chega na forma de Intuição – Bergson percebeu isso -, mas a Intuição só se nos dá quando estamos vazios, silenciosos, atentos à sua voz. Sexo e meditação são folhas da mesma árvore e todas as folhas são do vento.
segunda-feira, 2 de julho de 2018
Ménage à trois - trecho
Elas gargalharam e continuamos com o jogo. Como é bom e saudável brincar de médico. Boca daqui, boca de lá, seios contra meu peito, seios contra minhas costas e mãos que me acariciam o saco, e dedos que entram e saem manchados de mel. Eu parecia um menino em loja de brinquedo, criança em doceria, não sabia quem beijar, quem chupar, quem lamber primeiro. A flor do desejo e do maracujá, eu também quero beijar! E quando eu pus o pau na xoxota da Anabela, ele escorregou como se fosse sugado. Difícil é segurar o gozo numa hora dessas. A língua da Duda se revezando entre meus mamilos e o clitóris da Anabela. E, então, tirar de dentro de uma, esticar o couro, libertar a cabeça dura e enfiar no corpo da outra; sem deixar de dar atenção aos seios excitados que me invadem a bocam e mudam de posição e tornam-se clitóris. Gostinho de café e gozo. E, aí, mudar de posição, mais, assim, para evitar o gozo que para experimentar novo prazer.
— Estou quase gozando! – alguém geme.
— Goze!
— Segura mais um pouquinho.
E vamos assim, afinando a orquestra, ganhando entrosamento, atacando com coesão, os três na mesma afinação, no mesmo instante; até que gozamos, os três juntos, dentro e fora e do lado. Perdido nas tramas do desejo e porra de amor escorrendo entre coxas, nádegas e barrigas.
— Estou quase gozando! – alguém geme.
— Goze!
— Segura mais um pouquinho.
E vamos assim, afinando a orquestra, ganhando entrosamento, atacando com coesão, os três na mesma afinação, no mesmo instante; até que gozamos, os três juntos, dentro e fora e do lado. Perdido nas tramas do desejo e porra de amor escorrendo entre coxas, nádegas e barrigas.
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quarta-feira, 20 de junho de 2018
Por um novo paradigma
Uma caricatura do paradigma patriarcal
que comanda o mundo há muito e que, pelo jeito, ainda vai demorar um bom tempo
para ser dissolvido é o governo de Donald Trump, as crianças mexicanas
enjauladas como bichos, longe dos pais; mas não só. Temos aí os brasileiros
fazendo besteira na Rússia, nossa violência no trânsito, em casa, nas favelas.
O tal paradigma patriarcal independe de o sujeito ser homem ou mulher, visto
que já tivemos uma Margareth Tatcher, uma Condoleezza Rice... Ele é algo estrutural, caracterizado pela
completa falta de alteridade, de empatia. O outro é visto como objeto ou
inimigo. O planeta? Mais um brinquedo a ser explorado. Pura testosterona,
competição, egoísmo e pouco cuidado. No fundo, está a fraqueza, a insegurança e
o medo da morte, afinal, é preciso escrever nome na eternidade, realizar algo
imenso, como Áquiles em Troia; é necessário fazer algo heroico custe o que
custar, mesmo que seja um heroísmo às avessas, tipo Trump. A valorização do
feminino não é apenas um esforço por garantir representação de mulheres nas
mais variadas esferas, é construir, ainda que aos poucos, um novo paradigma
onde o cuidado seja o essencial, onde consigamos nos colocar nos sapatos do
outro, onde a mãe seja mais importante que o herói. É uma mudança profunda e
radical, mas também é uma das poucas saídas para as próximas gerações. Um pouco
mais Winnicott e um pouco menos de Freud. As sementes estão sendo plantadas,
mas o polo fascista também se enrijece, pois se amedronta.
domingo, 17 de junho de 2018
Um triângulo de dois lados
Para o Dr. Pedro
Britto Braga
O senhor sabe que sou um homem
empírico. Para mim, o que não chega aos sentidos, não existe. O meu triangulo
tem só dois lados: o conhecido e o desconhecido... E eu quero lá saber do incognoscível?
Daquilo que pode haver para além do corpo, mas não captamos porque o corpo
somos nós? Isto posto, quero relatar-lhe um caso que aconteceu na minha família
mesmo. Eu esbarro em dizer, mas esse seu problema pode ter origem numa outra
dimensão; muito embora, nessa instância, eu mesmo não creia. Mas não é preciso
a gente crer em alguma coisa para que ela exista. Podemos não acreditar nessa
mesa antiga que nos separa e, no entanto, ela vai continuar aí: sólida, rígida,
impassível, não é mesmo? O senhor me fala de obsessores e diz que é pela
linguagem que se reconhece o Espírito, como se a comunicação entre mundos fosse
uma questão linguístico-literária? Posso aceitar coisa assim, porque sei que
não são só os escritores que criam uma língua própria dentro da língua mãe.
Cada um de nós combina as palavras de um jeito singular, como se esse modo de
junção fosse uma espécie de impressão digital anímica: Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal Pedro Páramo.
O caso que me intriga e que agora vou lhe relatar, entretanto, não envolve
a palavra. Ressalto que não creio e, contudo, vi com esses olhos que a terra há
de. Assunte:
Sou o mais novo de uma família de
três irmãos, o único vivente. Nasci quinze anos depois do mano do meio e hoje
já tenho setenta e dois. Daí que, comigo, há de morrer o mistério... O que,
para dizer a verdade, é bom, pois não creio em mistérios e também não acredito
que vá durar tempo suficiente para passar a estória adiante – ele disse com uma
ponta de ironia, mas sem sorriso. - O que lhe narro, meu amigo, passou-se com
meus irmãos. Preste atenção: quando os dois ainda eram jovens, num dia de
bebedeira, no Recife antigo, fizeram combinação:
- Quando tu morrer, mano, vou tomar
uma cachaça da peste!
- Não, eu que vou tomar uma cachaça
da peste quando tu morrer!
Tempo veio e tempo foi. Mário, o
mais velho, tocou a vida. Estudou, tornou-se advogado. Um dos mais requisitados
de todo o estado de Pernambuco. Casou, teve duas filhas, entro para a política.
Já Paulo, perdeu-se na vida, como se diz por aí. Dividia noites e dias entre
bares, bicos e cabarés. Mesmo no final, sempre tinha alguma rapariga apaixonada
por ele, tratando... Alguém que cuidava do homem de meia idade como de um
menino. Por Canário do Reino, ou só Canarim mesmo, é que Paulo ficou conhecido
no Recife. Levava sempre um violão debaixo do braço e gostava de cantar. De vez
em quando, empenhava a viola em troca de cana. Teve muitos filhos, mas não
tratou de nenhum. Viveu como passarim, cantando, brincando, pulando de galho em
galho. Quando morreu, já não tinha um documento sequer, papel nenhum. No
velório de Paulo; eu já morava aqui em São Paulo onde estudava Medicina; tive
de voltar às pressas para o Recife. Eu estava lá. Eu vi. Não foi ninguém que me
contou, não senhor... No enterro - cheio de bêbados, e putas, e bandidos, e veados
- caburé fugiu das árvores, espantado por uma revoada de canários; pássaro por
demais difícil de se ver por aquelas bandas. Sim, senhor, estou-lhe dizendo... Mesmo
naquela época, o homem já tinha engaiolado quase todos. E os bichinhos cantavam
com gosto, na copa das árvores. Só se vendo para crer. O povo chorou.
- É o espírito de Canarim cantando –
disse uma puta velha.
O povo chorou mais: Canarim não
valia nada, mas era bom; já Mário era bom, mas não valia nada – diziam. O
senhor sabe como o povo é. Meu irmão Mário estava muito abalado. Eu estava lá.
Eu vi. Não foi ninguém que me contou. Assim que foram descer o caixão, Mário se
machucou. Cortou a ponta do indicador e o sangue respingou no caixão, na terra,
pela cova inteira. Dos olhos do meu irmão Mário não escapou uma lágrima. Quando
caminhávamos para o carro, o dedo do meu irmão mais velho pingava feito pescoço
de galinha sangrada. Paramos numa lanchonete ali mesmo, no Cemitério de Santo
Amaro. Mário perguntou ao dono do estabelecimento:
- O senhor tem aí alguma coisa pra desinfetar
esse corte?
- Só pinga mesmo.
Nesse instante – meu irmão me disse
mais tarde -, Mário se lembrou do acordo fechado com o Paulo, muitos anos
antes. Jogou um pouco de cachaça no corte e entornou o resto. Foi a conta,
daquele exato momento em diante, Mário começou a beber e não parou mais até ele
mesmo morrer de cirrose uns anos depois.
Shakespeare, o senhor sabe, tem uma
frase famosa que diz que há mais mistérios entre o céu e a terra do que julga
nossa vã filosofia. Não creio, já disse ao senhor que meu triângulo só tem dois
lados, mas como explicar os fatos que ainda agora lhe narrei?
O que eu poderia dizer ao meu
psiquiatra?
Nada.
Fiquei em silêncio, só pensando que,
por mais céticos que sejamos, uma hora ou outra, algo nos abala e perdemos o
centro, divagamos, atravessamos as horas recordando o vale das maçãs.
sexta-feira, 16 de março de 2018
TUDO QUE VOCÊ PRECISA É...
Filósofos e filósofas são, em geral, seres mancos de amor. Cabeças grandes demais para corações atrofiados. A maioria não sabe de si; são muito bons em pesar, analisar, sintetizar, avaliar, julgar; mas se esqueceram de olhar pra dentro. É bem o que Nietzsche diz logo no início de Genealogia da moral. Eles, os pensadores, podem destrinchar as estruturas sociais, as induções culturais que nos constituem enquanto indivíduos; mas muito poucos sabem o valor de um beijo, de um abraço. Ninguém nasce mulher, torna-se; mas para a além das pressões sociais, que exigem um padrão de comportamento, há o olho da mãe no olho bebê enquanto o amamenta e isso é revelação primordial: amor. Nem tudo é um constructo sociocultural! Talvez, eles, pensadores e pensadoras, morram abraçados ao monstro que combatem porque não conseguem superá-lo, ir além. Não conhecem a totalidade de si mesmos, olharam demais para fora. Quando combatemos monstros, corremos o risco de nos tornarmos um deles. Quando olhamos por muito tempo um abismo, o abismo também olha pra dentro de nós.
Dizem que homem não chora, não dá defeito, tudo suporta sem demonstrar fraqueza. Somos programados pelos super-heróis, pela escola, pelas instituições religiosas para sermos duros, impenetráveis. Nem batman, nem o super-homem são raquíticos. Acontece que, um dia, a cachorrinha aqui de casa foi atropelada. Não sabíamos se estava viva ou morta. Meu filho de dez anos esperou as notícias na casa da minha mãe enquanto fui conferir o que havia acontecido. A Piti estava morta. Precisei dar um jeito no cadáver. Voltei pra casa da mãe. Ele perguntou, ainda tentando segurar pela mão o fiapo de esperança:
- E aí, pai?
- Ela morreu, João.
O menino, que aos dez já tentava agir como machinho, pediu colo e choramos abraçados, juntos, doloridos, coração a coração. E, neste momento, estávamos num lugar muito além de todas as pressões sociais, longe da ilusão de um eu-individual, criado pela cultura, separado da flor e do beija-flor. Não existia sequer a lembrança de que precisávamos ser vencedores-fortes. Longe daquilo que se impõe enquanto padrão materno, há a beleza da barriguinha do bebê em contato com a mão da mãe. Longe do padrão pai-indestrutível, há o hálito do filho ao acordar. O amor, assim como a morte, não é uma criação cultural.
Longe das teorias, há o Sol e a Terra, o yin e o yang, o feminino e o masculino, homens muito femininos e mulheres muito másculas e entre e, para além de ambos, o amor e olhos que não mentem.
Dizem que homem não chora, não dá defeito, tudo suporta sem demonstrar fraqueza. Somos programados pelos super-heróis, pela escola, pelas instituições religiosas para sermos duros, impenetráveis. Nem batman, nem o super-homem são raquíticos. Acontece que, um dia, a cachorrinha aqui de casa foi atropelada. Não sabíamos se estava viva ou morta. Meu filho de dez anos esperou as notícias na casa da minha mãe enquanto fui conferir o que havia acontecido. A Piti estava morta. Precisei dar um jeito no cadáver. Voltei pra casa da mãe. Ele perguntou, ainda tentando segurar pela mão o fiapo de esperança:
- E aí, pai?
- Ela morreu, João.
O menino, que aos dez já tentava agir como machinho, pediu colo e choramos abraçados, juntos, doloridos, coração a coração. E, neste momento, estávamos num lugar muito além de todas as pressões sociais, longe da ilusão de um eu-individual, criado pela cultura, separado da flor e do beija-flor. Não existia sequer a lembrança de que precisávamos ser vencedores-fortes. Longe daquilo que se impõe enquanto padrão materno, há a beleza da barriguinha do bebê em contato com a mão da mãe. Longe do padrão pai-indestrutível, há o hálito do filho ao acordar. O amor, assim como a morte, não é uma criação cultural.
Longe das teorias, há o Sol e a Terra, o yin e o yang, o feminino e o masculino, homens muito femininos e mulheres muito másculas e entre e, para além de ambos, o amor e olhos que não mentem.
quinta-feira, 8 de março de 2018
AMOR-NAVALHA
- O amor tem
muito de lençol, mas também muito de navalha, Bahia – ele me dizia de seu leito.
Estávamos internados numa comunidade terapêutica para pessoas com problemas
ligados ao álcool ou a outras drogas. - Nessa época, eu bebia conhaque, Bahia –
continua. - Ele, por essa luz que me alumia, não bebia nada. Era um rapaz ainda
novo, vinte e poucos anos. Trabalhador, cumpridor. Palavra dele, gente podia
fazê fé. Se dizia ansim: amanhã chego às quatro da manhã; dez pras quatro, o
homem estava lá. Mas mulher e mistério que embaralha o juízo da gente, ou não
é? O muito amor é trem por demais de perigoso, cambia fácil no ódio demasiado. Quando
terminava o serviço, nem banho ele tomava na obra; passava água nos braços e no
rosto e corria pra pegar o trem das cinco e quinze. Se saía de casa, era só pra
tomar um suco com a esposa. Por essa luz, Bahia. Casado de novo - a gente dizia
- isso depois passa. Passa nada... Aí aconteceu de vagar um serviço de copeira no
escritório da construtora que era ansim bem de frente da obra, mesmo rumo. A
moça era bonita, sou franco em falar, Bahia, nem parecia pobre, porque pobre, mesmo quando é bonito, tem o rosto maltratado, o cabelo judiado. Enquanto
assentava bloco, Januário, essa era graça dele, via a mulher limpando o salão,
passando pano na vidraça, servindo café do outro lado da rua. Um ria de cá, a
outra sorria de lá. É bonito, némemo, Bahia, quando a gente vê um casalzinho ansim
jovem ainda gostando forte um do outro? Faz a gente crer na vida como em Deus;
mas, nesse mundo tem gente ruim, Bahia, gente invejosa; felicidade do outro
ofende, esfrega na cara a sujeira da alma nossa. Se bem alembro, o fuxico
começou com um tal Iago Biobá.
Brincando, que peão brinca mesmo, não tem jeito, ô raça, ele falou ansim: “vê
lá que a moça de Januário tá de graça com Seo Armando, engenheiro, mulher
formosa como aquela, não tem como se contentar com ajudante de pedreiro”. Sou
franco em falar, Bahia, espreitei, pra ver se era à vera, mas qual nada. A moça
era séria. Peão é bicho invejoso, Bahia: os menino começando a vida e vem uma
alma sebosa dessa pra espalhar discórdia. Nem foi de um dia pro outro, foi não;
demorou. De toda forma, a conversa se espalhou na obra. Januário passava sério,
alguém jogava piadinha e se ria, às veis, mesmo sabendo que nem era verdade. Só
pra ver o oco, azedar o pé do frango do semelhante. E aí Januário ficou sabendo,
meu fí... Quis matar um, levantou enxada pra outro. “Se acalma, Bahia, vai fazê
fé em conversa de Tiriça. ” – Falei. Ele ouvia eu. Deu abrigo à palavra que
soltei. Mas, desse dia em diante, não ria mais pra menina do outro lado, no
escritório, só espreitava: a cara ruim, o coração cimentado. Dava a hora de ir
embora, ele ia na frente, deixava a moça pra trás, ela dava umas corridinha,
tentando acompanhar, mas qual o quê? Homem é bicho orgulhoso, quando empedra o
peito, nem brisa fresca atravessa. E aí sucedeu. A trilha da desgraça tava no
chão, só que ninguém enxergava, tá bom? Bem no dia da mulher, 8 de março, me alembro como
se fosse hoje. Seu Armando deu um buquê de flor pra menina. Pra quê, némemo?
Não sabe que homem bruto é bruto e mais nada? Pois na hora do café, Januário
soube. Atravessou a rua, entrou no escritório, jogou o buquê na cara do
engenheiro e picou a pá na cabeça... Uma, duas, três, quatro... Dez vezes...
Até a cabeça do homem virá uma pasta. A moça correu pra obra. Januário veio,
não era gente, era o cão. Ela gritava que não tinha feito nada, que era
inocente; mas ele não cria. Tava cego. Ela correu pra trás de um, pra trás de
outro. Todo mundo de esguelha. Januário com a navalha na mão. A moça tentou
subir escada, trupicou, a pobre. Caiu mole no chão, pedindo pelo amor de Deus.
Januário beijou na boca e, ainda beijando, cortou a garganta da moça, até quase
arrancar a cabeça. Os zóio dela, menino... quanta dor tamanha de morrer pelas
mãos de quem amava! Parecia os zóio da virgem. Quando saiu de cima, Januário
caiu de lado e desandou chorar, nem fugir tentou... Eu vi, mas não foi só eu.
Todo mundo viu. Uma imagem igualzinha da moça soltou do corpo dela. Era a
menina e não era, era ansim, feito ela, só que só numa luz, uma luz avermelhada,
que se largou do corpo e foi subido pro céu de braços abertos, parecia
crucificada tal qual Cristo nosso Senhor. Por essa luz, Bahia. Eu chorei, teve
mais gente que chorou. Acho que era a alma da menina, vermelha, ensanguentada.
E se perdeu por trás das nuvens...
Silêncio e
pensamento.
Eu só almejava
ir embora. Enquanto esperava o sono em silêncio, pensava na vida e nas
mulheres, agora tão distantes, que amei.
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