segunda-feira, 16 de julho de 2018

UM TOTEM SEM TABU

Li O senhor das moscas e gostei, mas discordo do livro. A meu ver, não sei se de modo intencional, o enredo do romance dialoga diretamente com o mito freudiano de Totem e Tabu; mas, aqui, trata-se de um totem às avessas. Enquanto que, para Freud, o totem representa o pai morto e instala o tabu do incesto e o nascimento da cultura; no romance de Golding, o totem representa a própria morte da função paterna e da cultura. Na distopia de Golding, a morte da função paterna seria a morte da cultura e um retorno-viagem a uma espécie de barbárie pós-cultural. Em Freud, o totem instaura a Lei, em Golding, o totem abole a Lei. Para o primeiro, se Deus está morto, nada é permitido; para o segundo, se Deus está morto, tudo é permitido.
Como ficção, ambas as obras são válidas; como genealogia da cultura, não. Estou um pouco cansado do pessimismo. Resolvi mudar o olhar. Deu trabalho, mas consegui. E as visões, tanto de Freud quanto de Golding, são pessimistas demais para o meu gosto atual. À Freud, faltou a lição do perspectivismo nietzschiano, sua ideia de cultura é tautológica, monótica. Sem sair de seu lugar étnico e cultural, Freud propõe um início edipiano, para variar, que seja universal; mas que, em verdade, é só o início do Patriarcado. Há muitas culturas em que quem manda na parada é uma Deusa e não um Deus; uma mãe e não um pai; e, mesmo o núcleo familiar, em muitas tribos, é dispensável. A visão de Freud, com a qual Golding parece dialogar, vem de Hobbes, Schopenhauer etc e tals... Ela enxerga apenas um lado do ser humano e o vê como motor universal: o homem é mau por natureza e a cultura coloca-lhe rédeas para a sua própria sobrevivência. Na minha própria caminhada pela vida, vi que o ser humano não é só bom, nem só mau por natureza. É uma mistura confusa das duas coisas. Em São Paulo, um homem de passado duvidoso entra em um prédio em chamas para tentar salvar desconhecidos e acaba morrendo quando o prédio desaba. Nos States, o país do pai, centenas de bombeiros entram numa torre na mesma situação para fazer o mesmo... O ser humano é o único animal capaz do sadismo; mas também o único capaz da graça. E o único animal que sente prazer ao ver outro animal, da mesma espécie ou não, ser torturado; mas também é o único capaz de dar sua própria vida para salvar uma criança desconhecida. Quando o assunto é gente, não há fórmula universal.
O paradigma patriarcal não é o único, é só um entre outros: o vitorioso. Não é à toa que Freud não entendia o que queriam as mulheres. Sinto que, aos poucos, estamos construindo um novo paradigma mais ligado ao feminino, à empatia, ao cuidado, à responsabilidade pelo outro. É um trabalho longo e árduo e quem sabe se, ao findá-lo, não poderemos instalar um novo totem que simbolize a mãe, o seio, o amor; no lugar de uma cabeça de porco apodrecida?

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