O esquecimento é um duro aprendizado, mas a gente não começa
a sentir paz até aprender a esquecer. Como esquecer uma humilhação? Uma
humilhação daquelas que marca a alma da
gente feito ferradura? Sofrida, esta humilhação, ainda, talvez, na infância.
Lembro que Freud lutou a vida inteira com a imagem do pai sendo humilhado por
um soldado alemão; quando ele, o futuro pai da psicanálise, era só um pirralho
catarrento. Tenho uma amiga que aparenta ser muito forte. Sabe comandar. É
responsável. Cuida da família e do trabalho; mas, eu, quando olho pra ela, me
pergunto: será que está em paz? Não sei os caminhos pelos quais ela teve de
passar. Imagino a infância pobre, pobre. Os sofrimentos. As roupas simples,
limpas, mas remendadas... A boneca de sabugo de milho. Ela constituiu identidade
ao redor da ferida, não sucumbiu a ela é certo. Tornou-se forte. Colocou a
armadura. Jurou que nunca seria humilhada outra vez. Não queria lembrar a terra
empoeirada, a água-esquitossomose, o rio cortando a cidade. Cresceu, estudou,
trabalhou, ganhou dinheiro, cargo de chefia, respeito. De qualquer modo, quando
alguém luta uma vida inteira assim é impossível ser feliz, porque somos aquilo
contra o que nos insurgimos. Dar ordens é uma forma de negar o que dói, de negar
a mágoa. É uma delícia esconder-se, mas é uma tragédia não ser encontrado. No
fundo, minha amiga anseia alguém que descubra a ferida, e acolha a dor, e
assopre, e apague a mágoa. Isso que ela esconde é o que ela mais quer que
alguém entenda, sem julgamentos. No entanto, algo assim tão íntimo, tão
profundo, não pode ser entregue de bandeja pra qualquer um, pra alguém que possa
humilhá-la mais uma vez. Ela só mostraria a ferida para alguém em quem tivesse
plena confiança. E é tão difícil confiar em alguém, não é mesmo? A gente segue
pela vida sem conseguir esquecer e, se não esquecermos, corremos o risco de
correr a vida em vão. Quando a morte chegar, a gente pode perceber horrorizado que
perdeu a vida por causa de uma chaga que infligiram na nossa carne muito tempo
atrás. A gente alimentou a pereba e só. Queria dizer pra minha amiga que ela
não é a ferida. É só deixar de arrancar a casquinha que a coisa cicatriza. Se a
gente não consegue perdoar, é preciso ao menos aprender a esquecer. Porque,
caso contrário, ficamos rabugentos, dizendo coisas do tipo: de que adianta a
lua vermelha, o eclipse bonito, o sol, o mar, a criança, se eu estou com dor?
Quando a gente está sofrendo não consegue nem curtir um dia bonito.
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