sexta-feira, 27 de julho de 2018

O esquecimento é um duro aprendizado


O esquecimento é um duro aprendizado, mas a gente não começa a sentir paz até aprender a esquecer. Como esquecer uma humilhação? Uma humilhação daquelas que  marca a alma da gente feito ferradura? Sofrida, esta humilhação, ainda, talvez, na infância. Lembro que Freud lutou a vida inteira com a imagem do pai sendo humilhado por um soldado alemão; quando ele, o futuro pai da psicanálise, era só um pirralho catarrento. Tenho uma amiga que aparenta ser muito forte. Sabe comandar. É responsável. Cuida da família e do trabalho; mas, eu, quando olho pra ela, me pergunto: será que está em paz? Não sei os caminhos pelos quais ela teve de passar. Imagino a infância pobre, pobre. Os sofrimentos. As roupas simples, limpas, mas remendadas... A boneca de sabugo de milho. Ela constituiu identidade ao redor da ferida, não sucumbiu a ela é certo. Tornou-se forte. Colocou a armadura. Jurou que nunca seria humilhada outra vez. Não queria lembrar a terra empoeirada, a água-esquitossomose, o rio cortando a cidade. Cresceu, estudou, trabalhou, ganhou dinheiro, cargo de chefia, respeito. De qualquer modo, quando alguém luta uma vida inteira assim é impossível ser feliz, porque somos aquilo contra o que nos insurgimos. Dar ordens é uma forma de negar o que dói, de negar a mágoa. É uma delícia esconder-se, mas é uma tragédia não ser encontrado. No fundo, minha amiga anseia alguém que descubra a ferida, e acolha a dor, e assopre, e apague a mágoa. Isso que ela esconde é o que ela mais quer que alguém entenda, sem julgamentos. No entanto, algo assim tão íntimo, tão profundo, não pode ser entregue de bandeja pra qualquer um, pra alguém que possa humilhá-la mais uma vez. Ela só mostraria a ferida para alguém em quem tivesse plena confiança. E é tão difícil confiar em alguém, não é mesmo? A gente segue pela vida sem conseguir esquecer e, se não esquecermos, corremos o risco de correr a vida em vão. Quando a morte chegar, a gente pode perceber horrorizado que perdeu a vida por causa de uma chaga que infligiram na nossa carne muito tempo atrás. A gente alimentou a pereba e só. Queria dizer pra minha amiga que ela não é a ferida. É só deixar de arrancar a casquinha que a coisa cicatriza. Se a gente não consegue perdoar, é preciso ao menos aprender a esquecer. Porque, caso contrário, ficamos rabugentos, dizendo coisas do tipo: de que adianta a lua vermelha, o eclipse bonito, o sol, o mar, a criança, se eu estou com dor? Quando a gente está sofrendo não consegue nem curtir um dia bonito.

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