sexta-feira, 20 de julho de 2018

NOTAS SOBRE O ROMANCE - I

Acho que foi Walter Pater quem disse que a poesia é a mais sublime das artes escritas, mas o romance é a mais difícil. Tendo a concordar com ele e explico o porquê. No país da escrita, o poema é como a paixão, ao passo que o romance é como o amor; o poema é assim como um encontro, ao passo que o romance é o casamento. É um trabalho contínuo, tenaz, diário - o romance. Há dias em que as palavras brilham, que sentimos estar em contato com algo pulsante que se escreve por si só. Há outros dias em que parecemos um funcionário de escritório, colocando apenas as tarefas adiante. Essa mistura de sagrado e de banal se revela também no texto e, por isso, o romance, ainda mais que o conto, é o gênero literário mais próximo da vida real. Nele coexistem os momentos luminosos da travessia, como o nascimento de uma criança, o desabrochar de um amor, a morte de um amigo; mas cabem também os momentos mais corriqueiros que constituem boa parte da travessia: a jornada de trabalho, o cafezinho no boteco da esquina, o pão de queijo, os boletos bancários; as coisas mais pueris e as mais elevadas lado a lado, como na vida. O poema crava os dois pés no transcendental; o conto trata apenas do momento luminoso; já o romance é essa mistura de deuses e fezes, de cores e poeira; de Iluminação e burocracia. No meio do caminho, duvidamos de nossa capacidade, pensamos em desistir, ficamos enjoados, enojados, um do outro, nós e o texto. Como menino sobre bicicleta, só há uma coisa a fazer: seguir adiante. Tanto no poema quanto no conto, aquele que escreve não tem tempo de duvidar. Escreve-se com o gosto do início e todos os começos são joviais. O romance acolhe a dúvida, arrasta-se, aceita a crise, e então, um belo dia, por conta própria, as palavras tornam a brilhar. Na luta de boxe de Cortázar, marcamos mais um ponto importante... Ganhamos fôlego para mais algumas páginas. Entre montanhas e vales, seguimos sem parar e um dia, como na vida mesma, encontramos o ponto final entre os pontos finais. É mais um bloco de vida terminado, um monólito largado no mundo. Alívio!

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