terça-feira, 19 de novembro de 2019

O OUTRO



 Se procurar direitinho, você vai perceber dentro de si um outro. Forte, imutável, silencioso, iluminado e, ao mesmo tempo, misterioso. Enquanto um eu tagarela, o outro observa. Diante deste outro que me é para além de mim, ajoelho-me - fiel e altar - e ofereço o que tenho: minha alegria, minha festa, esta insegurança diante de meu semelhante, esta dor que não cala, meu coração partido. O outro é o buraco no fundo da agulha por onde passo pra me fazer eterno, infinito, ilimitado, sagrado. Há em cada um de nós uma fissura que nos leva a. É inútil procurar fora aquilo reside em nosso próprio coração. Você é maior que a História do mundo. No parque de diversões da alma, a criança-criação segura uma maçã do amor. Deus é simples.🌻

BITUCA E TÍ TUNICO

Meu tio Antonico tinha setenta anos, mas parecia ter sete. Era especial. Pequenim, a cabecinha branca, magro-magrim. Foi menino a vida toda. Era do lado italiano da família e gostava de. Conhecia pelo canto. “Ói, hum, trinca-ferro... Ói, ô, é coleirinha!” Era do tempo antigo e, infância vasta, confundia amor e posse. Tinha viveiro onde criava muito, mas de preferencia era um só. Passo preto. Bonito, vistoso, peito estufado, cantadô do grave ao agudo, solfejado; em sendo macho, tinha coração de fêmea, o bichim. Nome dado foi Bituca, em virtude de minha prima, Madá, que era do lado mineiro e escutava o Clube; momento em que o passarim cantava ainda mais alto, desafiado, disputando com o outro. Foi Madá também quem contou causo, no intuito de conscientizar. Disse que o povo furava os olhos de passo preto na intenção de afinar o canto. Nesse dia, o tio chorou. Maldade muita pra imaginar um coração sem mancha. Madá continuou. Era judiação sim; mas também o era manter os bichim tudo assim... preso: mesmo conversando, limpando, dando carinho e alpiste do melhor. “Os bichinhos são do céu e não da gente”. Madá, pedagoga severa. Ensinava o certo pela autoridade; sem vislumbre de delicadeza. Aos pouquim, tio Tunico foi soltando. Mas chorava sempre. E adoecia. Tinha febre alta e caganeira. A vó brigava: “Pra que isso Madá? El’é menino.” E a prima: “Menino também distingue”. E foi que foi. E o tio se-desfez-se da íntegra, mas do Bituca não conseguia, posto que preferido. “Agora canta pra Madá”. Dizia o menino envelhecido. E o preto cantava de um jeito. “Agora canta pra nona.” E o bicho atendia de outro. “Agora pro papai.” E o bichim enchia o peito, s’exibia-se e cantava de perfil, qual tenor italiano. Bom, bonito. Mas deu-se num sábado, feriado da proclamação. O tio tava zelando, limpando o viveiro e, no descuido, deixou a porta aberta. E Bituca, o assum preto, partiu sem olhar. Do jeito que tava tudo, meu tí deixou. Largou o mundo e correu chorando pro quarto. Ali ficou toda a noite; sem saída. Madá teve de dar calmante do forte; do contrário, ninguém dormia. Mesmo assim, tí Tunico só calou quando raiava; momento em que nós, os outros, também.
Amanheceu dia de domingo e a casa inteira acordou em sonho. Pela alegria do canto e a força do fôlgo, era Bituca quem voltava, solfejando a melodia do papai. O tio correu. Dentro do viveiro, a porta ainda aberta, Bituca meso cantava sorrindo. E foi reencontro de sorriso e cheiro, carinho e cuidado. Os dois juntos: um inocente e um passarim. Daí por, tio Tunico percebeu que o bicho queria ser livre e não tornou a fechar; mas o passarim.
Toda tarde saía pra passear pelo mundo; dia seguinte, no entanto, entrava outra vez, por vontade, pela portinhola aberta e cantava que cantava pro meu tio especial.
Quem ama, volta.🌻

O DIA MAIS FRIO DO ANO

VANDRÉ: Às vezes ainda tenho vontade de ligar pra me desculpar ou ofender, mas é inútil. Fiz de tudo que estava ao meu alcance, empenhei meu mundo e mais: apresentei-te minhas amigas do sagrado feminino, levei-te às reuniões do coletivo, ao meu restaurante vegano favorito, aos protestos por Lula livre, por um país melhor e até frequentei sozinho todas as reuniões para desconstrução da masculinidade tóxica - fiz de tudo pra evitar o mansplaining e o manterrupt; ainda assim, ó Manuela, tu me deixaste no dia mais frio do ano, por um... um... um bolsominion, argh; o qual, por pura maldade, ainda comeu todo meu pudim de leite condensado de soja que estava na geladeira. Não tens ideia do quanto me dói ver tuas fotos no rodeio de Barretos, fazendo arminha com as mãos, ao lado dele.
MANUELA: Nada pessoal, Vandré, é que você me dava nos nervos, querido! Até pra lavar louça tinha discurso, embasamento teórico e citação filosófica, um saco! E tudo era uma questão política e tals: o patriarcado. E quando, por acaso, eu inventava de ler um poema, tu citava uma porra de uma escritora negra, ou indígena desconhecida. Já passou pela sua cabeça que a poeta pode ser mulher, negra, anã, lésbica e perneta e, ainda assim, escrever mal? Tudo tinha de ser por uma minoria, molecular, marginalizada. Todo esse papo furado mudou o quê? E tem mais, gosto é de homem com pegada na cama, não tenho paciência pra minúcias. Teu sagrado masculino era lento feito o Suplicy. Enquanto a gente acampava nas maiores roubadas, ele me hospeda nos melhores hotéis; enquanto tu me davas miçangas, ele me presenteia com diamantes. Algumas mulheres querem é segurança e, quanto ao seu pudim vegano, você tem ideia de quantas aves e javaporcos são mortos para preservar um único campo de soja?

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

O DESAPEGO

Eu ouvi:
Romi era senhora de uma beleza exuberante; mas, mais que a beleza, era sua magnética pureza, seu trato reto, a honestidade de seu sexo, que faziam com que todos no reino orbitassem seu coração. Simplesmente era bom estar perto dela. Tanta boniteza, no entanto, não lhe trazia felicidade. Homens e mulheres sofriam por Romi e ela se enternecia. Não era confortável à sua alma humilde causar tanta dor. De fato, não é que as pessoas quisessem se apossar do destino da moça; muito pelo contrário, o problema era que, quem conhecia Romi, não conseguia imaginar para si um futuro no qual ela não estivesse. Mais de um tentou suicídio. E Romi sofria do sofrimento que causava; ela, no entanto, era o que era, apenas, sem trama ou cálculo. O que ninguém sabia era que Romi estava doente; seu coração, aos poucos, rachava-se como terra esturricada. Por já não suportar mais sofrer e causar, a moça decidiu se trancar na Torre do Espírito e lá permanecer por exatos dez anos; até que se esquecessem de sua existência. Só então voltaria. Mais velha. Mais seca. Muito menos atraente.
Primeiros dias, uma multidão montou acampamento ao pé. Estavam dispostos a esperar ali pelos dez anos seguintes. Findado o primeiro mês, contudo, a maioria tinha desistido. Depois de um ano, havia meia dúzia de pretendentes. E, no início do terceiro ano, restava apenas Guaccaluz, o poeta maltrapilho.
Durante nove anos, trezentos e sessenta e quatro dias, Guaccaluz esperou. Alimentando-se de mel, gafanhotos e do que o povo dava, sofrendo as agruras do clima: passou frio, passou calor, passou fome e não desistiu. Na noite que antecedia a liberdade de Romi, contudo, Guaccaluz se levantou - decidido, descalço, sem olhar para trás - e caminhou para. Quando abriu a porta da Torre na manhã seguinte, Romi não encontrou pessoa, só uma rosa vermelha que o poeta deixara na soleira antes de.🌻

O OLHO INTERIOR

Há dentro de mim um olho que, quando chuto uma pedra, fixa-se no dedão; que, quando me sinto triste, volta-se para o coração e que, quando resolvo uma equação do segundo grau, engaja-se no raciocínio lógico. O grande poder desse olho, no entanto, consiste em repousar sobre e ver-se a si mesmo. Neste instante, todas às máscaras tomam a forma do rosto e o sol se põe a pino. É meio dia no meu interior. Todos os meus gestos se tornaram devoção.

ESTILO

Não sei muito bem o que é estilo. Qual é o estilo da água? Ela que, maleável, ganha a forma daquilo que diz. Talvez o estilo seja um modo de ser; um gosto: olho a roseira e o girassol; eles dizem todo o tempo sobre boniteza. Mas como eu, sendo tantos, posso ter um estilo se aquilo que escreve em mim é sempre o outro; aquele que - maior - me ultrapassa? Há em mim um mineirinho, menino ainda; que, em sua simplicidade, aconselha meu olho primevo. Há uma prostituta portuguesa que ama o amor. Há uma adolescente que espera o príncipe e chora assistindo a sessão da tarde. Há um peão de obra; um médico; um louco; um bêbado; um monge. Cada um diz a seu modo, mas todos tentam dizer o indizível: a vida, Deus, o amor, a justiça, a verdade, o encontro. Na escola onde trabalho, estudam muitas crianças especiais. Boa parte não fala; sorri apenas. Mas há o Ozi, que é down. Ele fala uma língua só sua, como se fosse uma língua do “p”: ninguém entende. Ele se esforça, aponta com os dedos, faz gestos, todo um teatro. Em seu lugar, outros teriam desistido. Ozi, contudo, teima, insiste em dizer: pepepêpêpê. E vocês precisam ver o modo como ele sorri e balança a cabeça quando entendemos o que quer dizer. É gordinho, fofo, levanta os braços curtos e nos abraça quente– sempre sorrindo. Aos poucos, descobri que gosta do Chaves e de pastel de feira. E, outro dia, estava triste: pepepepêpêpê! Chorando, pepê. Era saudade. Pai e mãe tinham se separado e o pai nunca mais tinha ido vê-lo. Coisa de cortar o coração. Conseguimos falar com o pai por telefone e, na segunda-feira seguinte, o Ozi chegou todo alegre, tinha comido pastel no domingo e com o pai. Especial, Ozi? Pê! (joia com a mão) Tinha de tudo dentro? Pepê! É essa língua do “p” que quero alcançar; e esse pastel, e esse domingo; e esse pai e seu filho muito especial. Estilo? Não tenho a menor ideia do que seja.
Importa?🌻

REGISTRO CIVIL DE PESSOAS NATURAIS



Há mais mistérios entre o céu e a terra. Eu era estudante em Assis quando conheci André. Era um cara legal, mas tinha um defeito imperdoável: não suportava música. A cura psíquica acontece por meio da luz da consciência; não digo razão, consciência. Pois bem, André era um cara atlético, culto, curioso, sensível; jovem, enfim. Certa feita, fomos a um daqueles bailes de quinta que aconteciam na Unesp: eu e ele, ele e eu. Um baile para um cara que desteta música é provação, mas eu era insistente. De modo que, lá pelas tantas, manhãzinha já, começou a tocar Andança, com a Beth Carvalho, pra mandar o povo embora mesmo. Olhei meu amigo, nem sei o porquê, e ele se dissolvia em lágrimas. Soluçava. Via-se que estava abalado. Passou. Houve outros encontros, filmes, livros, garotas, estudos. Nos anos subsequentes, contudo, André e eu nos afastamos. Ele deixou de jogar futsal com a gente. Trancava-se no quarto, taciturno, e, se estudava, era muito pouco. A tal noite negra da Alma de que fala San Juan de la Cruz fazia visita. Quando percebeu que estava afundando – de modo definido e irrevogável - meu amigo resolveu pedir ajuda. Foi só e por conta ao Núcleo de Psicologia buscar tratamento. Eu sabia que o pai dele tinha morrido enquanto a mãe estava grávida. De modo que meu amigo nunca conheceu o pai e acho que isso pesava. Ele estava em tratamento havia mais de um ano, quando apareceu na quadra da Universidade pra jogar com a gente outra vez. Estava mais calmo; de boas; mais feliz mesmo.
- Que aconteceu, bro? – perguntei, findado o jogo.
- Eu descobri, mano, e, quando você descobre, consegue meios de lidar com a coisa. Você sabe, nunca conheci meu pai e sempre odiei música. Até outro dia, não sabia que meu pai era músico, vai vendo. Só depois do tratamento foi que confrontei minha mãe e descobri que meu pai era músico e adorava tocar aquela música que tocou na festa aquele dia, Andança. A mãe disse inclusive que, no momento em que fui concebido, tocava aquela canção, ela se lembra. Pai adorava o Paulinho Tapajós e tocava a canção pra ela todo santo dia, no começo da gravidez. Depois que ele morreu, ela ainda ouvia a música no disco e chorava. Era luto. Aí, quando nasci, tomou decisão. Queria luz. Quebrou o disco e nunca mais ouviu aquela canção ou outra qualquer. Em casa, a gente não ouvia música. Nunca tivemos um rádio sequer.
- Mas o Buda não ficou no castelo e um dia teve de sair.
- E encontrou seu destino.
- E encontrou seu destino.
Enquanto caminhávamos para casa no meio do pasto – camisa no ombro, tênis nas mãos – ele tirou uma gaita do bolso e começou a tocar e, olha, tocava como ninguém. 11:11. André, meu amigo. É🌻