Quando criança, vivia num orfanato. Em tempo de piolho, tinha a cabeça raspada, o que era duro para uma menina em devaneio. Não havia princesas carecas; modelos tampouco. Adulta, ao ser diagnosticada com, recusou o tratamento e não havia outro motivo a não ser o apego às madeixas. Com muito custo, uma rede de mulheres convenceu-a, talvez tarde demais, a lutar. Ao caírem-lhe os primeiros cachos, contudo, viu brotar nas costas as penas primevas.
E até hoje ninguém descobriu se ela, no fim das contas, transformou-se num pássaro ou num anjo.🌻
sábado, 4 de janeiro de 2020
DEMIS ROUSSOS
Tudo aquilo que não é alimentado, morre. Até a melancolia. Quando fui poeta, bebia a noite inteira nos bares do centro de Assis e voltava pra casa pouco antes do dia amanhecer. Na madrugada, meus pensamentos ganhavam as pernas e eu gostava de caminhar pelas ruas vazias. Vez por outra; um gato, um cão, ou um fantasma cruzavam meu caminho. Sabe, minha saudade é mórbida feito obesidade; nunca está saciada; vaso vazio, beliscão na beira da alma. Chegava ao meu quarto, número catorze da moradia estudantil, quase-manhã, e ficava olhando os caminhões subindo a Raposo Tavares: cada caminhão, um caminhoneiro; cada caminhoneiro, um universo. Putas fumando crack na beira da estrada. Crianças dormindo em barracos de madeira. Quão distante pode o nosso coração chegar? Eu sentia o mundo inteiro. Arte não é questão só de interioridade. É questão de mergulhar e chegar até o ponto em que o eu é outro. Mais que empatia. Sentir fora. A gente existe é dependurado no Mistério. Há um verso do Drummond: “E o hábito de sofrer, que tanto me diverte, é doce herança itabirana”. Feito gato brincando com o rato, eu farreava com a tristeza do mundo. A tristeza, essa dor funda que é como uma machadada no meio da gente, tem uma dimensão transcendental. Quando vamos até o fundo mais fundo, rasgamos a lona e chegamos ao outro lado: o fundo torna-se então superfície. No cara ou coroa, escolhemos o lado de uma moeda sem lados. E me lembro do Parque de diversões no Itaim Paulista, onde hoje é a Loja Marisa: pipoca, algodão doce, meus quinze anos de boy e, de repente, Demis Roussos cantando alto no meio da tarde periférica: o milagre de se ter uma alma e a alma ser tocada por uma canção. Já não era então uma namoradinha, mas minha própria alma quem dançava comigo; lenço azul carregado pela brisa, cor clara dançando delicada no nada. Alma: sinônimo de nossa delicadeza. Ontem eu estava dirigindo, no fim da tarde, por uma rodovia. Havia nuvens carregadas no céu e, mesmo assim, o sol de mil tons encarnados. A sensação voltou: um casamento desfeito, dois filhos, mais de quarenta anos. Minha saudade vem antes, depois é que surge o acontecimento. A mesma epifania de Assis, daquela tarde no parque de diversões em 1995... Era como escrever três vezes o mesmo poema, sem tê-lo decorado e sem mudar uma vírgula. Era a alma tocando o eu de novo. Neste estado de Deus, de existir no interior do Amor, ficou difícil dirigir. Parei no primeiro posto. Bebi um café. Fui ao banheiro. E chorei.
Qual é a raiz quadrada de um ser humano?
Quando foi que me deu esse defeito de amar assim?🌻
Qual é a raiz quadrada de um ser humano?
Quando foi que me deu esse defeito de amar assim?🌻
VOLANTE
Você sabe que, na periferia, a gente pode até ter um pouco de dificuldade-desinteresse de aprender Português, Ciências ou Matemática; mas o que ninguém tem mesmo é desinteligência pra guiar um Opala, ou empinar uma moto. Gosto de dirigir. Se você quer saber, o livro que mais reli durante a jornada foi o On the Road, do Kerouac. Não tive muitos carros e nunca consegui comprar o que queria. Gosto mais de carros antigos, saca? Uma vez, até fui ver um Maverick lindão, todo original; mas acabei voltando com um Up, porque é mais econômico e eu tenho filhos pra criar. De motorzão de foguete a motorzinho de dentista; fazê o quê, né? A vida tem dessas coisas.
Houve um tempo em que eu trabalhava do outro lado da cidade e, nos dias de chuva, ia de carro. Eu ouvia minhas canções, olhava os pingos no para-brisa, pensava na vida, na infância, nos buracos negros, em Deus, no sentido de tudo isso aqui; brisava, ora pois... E até perdia a vontade de trabalhar, porque a imaginação floresce atrás do volante. Meu filho João é igualzinho; temos até uma coleção de miniaturas: de Chevete e Santana a Corvete e Marta Rocha.
E aí, outro dia, estava vendo o documentário do Scorsese sobre a Rolling Thunder Revue e descobri que o Dylan também gosta de dirigir. Era ele mesmo quem conduzia o ônibus da turnê. Você imagina quanta coisa ele deve ter começado a criar ali, atrás do volante. É que quando a gente dirige, entra meio que em estado meditativo; ao mesmo tempo em que estamos completamente atentos, também damos espaço para que o inconsciente desabroche.
No princípio, eu queria era ter mesmo um carrão antigo, quando pudesse. Neil Young tem uma coleção deles. Hoje tenho preocupações ambientais e tento fazer ao menos minha parte. Recentemente, li um artigo sobre a nova Kombi, elétrica, e fiquei pensando que daqui a uns vinte e cinco anos, quando me aposentar, ela já não vai estar mais tão cara. Em sonhos me vi numa Kombi elétrica, toda equipada pra servir de moradia, percorrendo as praias do Nordeste, as montanhas de Minas, as planícies do cerrado, a floresta amazônica, chegando até o Peru, às margens do lago Titicaca... E uma velhinha companheira pra beijar antes de dormir. E o som no talo tocando Credence Clearwater Revival! Sonhar não custa caro.
Houve um tempo em que eu trabalhava do outro lado da cidade e, nos dias de chuva, ia de carro. Eu ouvia minhas canções, olhava os pingos no para-brisa, pensava na vida, na infância, nos buracos negros, em Deus, no sentido de tudo isso aqui; brisava, ora pois... E até perdia a vontade de trabalhar, porque a imaginação floresce atrás do volante. Meu filho João é igualzinho; temos até uma coleção de miniaturas: de Chevete e Santana a Corvete e Marta Rocha.
E aí, outro dia, estava vendo o documentário do Scorsese sobre a Rolling Thunder Revue e descobri que o Dylan também gosta de dirigir. Era ele mesmo quem conduzia o ônibus da turnê. Você imagina quanta coisa ele deve ter começado a criar ali, atrás do volante. É que quando a gente dirige, entra meio que em estado meditativo; ao mesmo tempo em que estamos completamente atentos, também damos espaço para que o inconsciente desabroche.
No princípio, eu queria era ter mesmo um carrão antigo, quando pudesse. Neil Young tem uma coleção deles. Hoje tenho preocupações ambientais e tento fazer ao menos minha parte. Recentemente, li um artigo sobre a nova Kombi, elétrica, e fiquei pensando que daqui a uns vinte e cinco anos, quando me aposentar, ela já não vai estar mais tão cara. Em sonhos me vi numa Kombi elétrica, toda equipada pra servir de moradia, percorrendo as praias do Nordeste, as montanhas de Minas, as planícies do cerrado, a floresta amazônica, chegando até o Peru, às margens do lago Titicaca... E uma velhinha companheira pra beijar antes de dormir. E o som no talo tocando Credence Clearwater Revival! Sonhar não custa caro.
CANÇÃO AOS OUTROS
Não tenho ídolos
Títulos e honrarias não me interessam ou impressionam
Libertei-me do meu próprio julgamento e da necessidade de reconhecimento alheio
Por ser flauta, eu poderia criar – e crio – o que quisesse,
Mas não me importam críticas ou elogios
Como louco, escrevo e jogo fora
Como rosa, desabrocho e de mim me olvido
Todas as minhas ações são uma oração ao Deus que mora em mim e me ultrapassa
E, quando digo “eu”, não há vã vaidade ou egoísmo
O eu-profundo é o mundo:
O menino caído
A árvore concretada
O cão abandonado na rodovia
O mendigo espancado
O assum preto com olhos furados só pra cantar melhor
Não me falem de política
Não enalteçam torturadores diante de mim
Tampouco me digam do Humanismo
É por erguer ao Homem um altar que a Terra tornou-se uma cloaca
Eu sigo é a vida
(O cântico alegre das plantas
O rabo ambidestro dos cães
O refrão do Bem-te-vi
O sorriso sincero das crianças)
E a vida não se justifica nas glórias da civilização e da sociedade
Mas no amor profundo à Terra
E no respeito e louvor a seus filhos:
Títulos e honrarias não me interessam ou impressionam
Libertei-me do meu próprio julgamento e da necessidade de reconhecimento alheio
Por ser flauta, eu poderia criar – e crio – o que quisesse,
Mas não me importam críticas ou elogios
Como louco, escrevo e jogo fora
Como rosa, desabrocho e de mim me olvido
Todas as minhas ações são uma oração ao Deus que mora em mim e me ultrapassa
E, quando digo “eu”, não há vã vaidade ou egoísmo
O eu-profundo é o mundo:
O menino caído
A árvore concretada
O cão abandonado na rodovia
O mendigo espancado
O assum preto com olhos furados só pra cantar melhor
Não me falem de política
Não enalteçam torturadores diante de mim
Tampouco me digam do Humanismo
É por erguer ao Homem um altar que a Terra tornou-se uma cloaca
Eu sigo é a vida
(O cântico alegre das plantas
O rabo ambidestro dos cães
O refrão do Bem-te-vi
O sorriso sincero das crianças)
E a vida não se justifica nas glórias da civilização e da sociedade
Mas no amor profundo à Terra
E no respeito e louvor a seus filhos:
UM VENTO BULIÇOSO
Aquilo que é humilhado é sempre o ego, nunca o Ser. Talvez não seja correto usar a palavra humilhação, mas a expressão “posto em seu devido lugar”. É que o ego é uma excelente ferramenta; o problema é quando tenta fazer como Cláudio, tio de Hamlet, e usurpar o trono. Todos nós somos multidão, mas aquele que conduz a carruagem deve ser sempre Krishna, Cristo, o Ser, a centelha divina. Então, ontem, por ser meu primeiro diz de férias, resolvi subir uma pedra. Gosto disso. Mais que esporte, trata-se de um exercício espiritual. No alto de uma montanha, a gente ocupa outra vez o lugar de criatura. É difícil dar valor excessivo ao eu quando você está sobre uma pedra de três bilhões de anos. Ainda assim, sobre a matéria sólida, você vê caminhar uma caravana de formigas; e percebe que a Divindade está inteira tanto na rocha, que impassível observou gerações, quanto na menor das formigas. Tudo aquilo que é, é digno. E dignidade é bem diferente de vaidade. É olhando do alto de uma montanha que a gente percebe o quanto é minúsculo e, ainda assim, único, raro: digno.
Já estávamos próximos ao topo quando ouvimos as primeiras súplicas. Alguém tinha saído de sua casa, numa quinta-feira a tarde, para escalar uma montanha e, lá do alto, em completa solidão, conversar com Deus. O homem tinha uma voz embargada e gritava, chorando, entregando-se inteiro; pedia, simplesmente, misericórdia, amor; e diminuía-se para acolher o sagrado.
Continuamos e, a cada passo, a voz tinha um tom mais elevado. Meu coração gelou. Senti vergonha por testemunhar tamanha nudez: “Ó Senhor, sei que não mereço; mas, por misericórdia, volta teu olho amoroso a este teu servo indigno que sofre e que geme!” Era um homem negro, de cabelos brancos, beirando os cinquenta anos. Estava ajoelhado, prostrado, as mãos estendidas como se pedisse esmola; a cabeça encostada na rocha. O topo é estreito. Não há como se esconder no topo de uma montanha e o homem sentiu nossa chegada. Levantou então a cabeça e nos encarou com a face dilacerada, coberta de catarro e lágrimas. Recompôs-se. Limpou o rosto com a camisa e nos cumprimentou. Abriu uma garrafa de água. Tomou um gole. Despediu-se. E iniciou a descida. Senti culpa. Se tivéssemos chegado pouco depois, talvez o homem já tivesse terminado.
Eu respirei fundo. Entreguei. Olhei as carretas minúsculas, menores que insetos, cruzando a estrada que rasgava o vale e fiquei pensando qual seria a chaga daquele ser humano?Talvez tivesse um filho no presídio, uma mulher doente; talvez sentisse apenas uma culpa esmagadora por algum erro da juventude.
Pouco depois, um avião cruzou o céu e um vento buliçoso acariciou meus cabelos como se fossem as mãos invisíveis do Maior.
Já estávamos próximos ao topo quando ouvimos as primeiras súplicas. Alguém tinha saído de sua casa, numa quinta-feira a tarde, para escalar uma montanha e, lá do alto, em completa solidão, conversar com Deus. O homem tinha uma voz embargada e gritava, chorando, entregando-se inteiro; pedia, simplesmente, misericórdia, amor; e diminuía-se para acolher o sagrado.
Continuamos e, a cada passo, a voz tinha um tom mais elevado. Meu coração gelou. Senti vergonha por testemunhar tamanha nudez: “Ó Senhor, sei que não mereço; mas, por misericórdia, volta teu olho amoroso a este teu servo indigno que sofre e que geme!” Era um homem negro, de cabelos brancos, beirando os cinquenta anos. Estava ajoelhado, prostrado, as mãos estendidas como se pedisse esmola; a cabeça encostada na rocha. O topo é estreito. Não há como se esconder no topo de uma montanha e o homem sentiu nossa chegada. Levantou então a cabeça e nos encarou com a face dilacerada, coberta de catarro e lágrimas. Recompôs-se. Limpou o rosto com a camisa e nos cumprimentou. Abriu uma garrafa de água. Tomou um gole. Despediu-se. E iniciou a descida. Senti culpa. Se tivéssemos chegado pouco depois, talvez o homem já tivesse terminado.
Eu respirei fundo. Entreguei. Olhei as carretas minúsculas, menores que insetos, cruzando a estrada que rasgava o vale e fiquei pensando qual seria a chaga daquele ser humano?Talvez tivesse um filho no presídio, uma mulher doente; talvez sentisse apenas uma culpa esmagadora por algum erro da juventude.
Pouco depois, um avião cruzou o céu e um vento buliçoso acariciou meus cabelos como se fossem as mãos invisíveis do Maior.
DESEJO-LHE O MELHOR
Vai vendo como o Diabo é sujo. Quando conheci Ana, ela já estava com passagem comprada para a Inglaterra, onde estudaria por dois anos; mas um coração serve mesmo é pra gente se apaixonar e não deu outra. Todas as outras eram vaidosas, quase artificiais. Ana não. Ela nunca se maquiava ou pintava as unhas. Era o que era e daí vinha todo seu encanto e magia. Naquele tempo, eu tocava baixo numa banda e ela começou a me acompanhar em todos os ensaios.
- Você vai ser meu John e eu serei sua Yoko.
- Mas quem tocava o baixo era o Paul.
- Então serei sua Linda.
E ela se sentava ao meu lado no sofá rasgado e me ouvia tocar. E eu a via e tudo nela era tão. Colamos, ora essa. O tempo era curto. Em dois meses, ela cruzaria o Oceano. A vida é a arte do encontro, embora haja tanto. Ao lado dela, eu me sentia como se estivesse com um amigo. E dizia tudo o quê. Ela também. Não tínhamos segredos; sequer sexuais. E a cama nos era suficiente. Às vezes, ficávamos dias deitados, revezando sexo, razão e chocolate. Paixão da grossa.
Uma noite, na cama, depois de termos devorado uma melancia gelada, o rosto dela se iluminou como se fosse tocado por uma luz sobrenatural, e meu coração se expandiu como se, e eu falei:
- Vou sentir sua falta quando você for.
- Eu também.
E sabe o que aconteceu depois? Chorei, lagarto. E ela me ofereceu o seio como se eu fosse uma cria faminta.
No dia final, fui levá-la ao aeroporto e nos despedimos apenas com um beijo no rosto.
- Desejo-lhe o melhor, Ana.
- Você não sabe onde eu estava quando me encontrou. Não havia luz lá, meu amorzinho. Você me salvou.
Avianca.
Olhos cheios de água.
Dali a dois anos, já não seríamos os mesmos. Esconderijos. Também o amor é uma questão de tempo. Ou acontece na hora exata, ou se perde. Às vezes você viaja e encontra, em uma parada qualquer, a menina que tem aquele olhar, mas ela está indo no sentido oposto ao seu...
Enfim, dali por diante, nenhum de nós seria o mesmo. Todo encontro nos acrescenta; seja pela dor, seja pelo prazer.
Como é rico viver!
- Você vai ser meu John e eu serei sua Yoko.
- Mas quem tocava o baixo era o Paul.
- Então serei sua Linda.
E ela se sentava ao meu lado no sofá rasgado e me ouvia tocar. E eu a via e tudo nela era tão. Colamos, ora essa. O tempo era curto. Em dois meses, ela cruzaria o Oceano. A vida é a arte do encontro, embora haja tanto. Ao lado dela, eu me sentia como se estivesse com um amigo. E dizia tudo o quê. Ela também. Não tínhamos segredos; sequer sexuais. E a cama nos era suficiente. Às vezes, ficávamos dias deitados, revezando sexo, razão e chocolate. Paixão da grossa.
Uma noite, na cama, depois de termos devorado uma melancia gelada, o rosto dela se iluminou como se fosse tocado por uma luz sobrenatural, e meu coração se expandiu como se, e eu falei:
- Vou sentir sua falta quando você for.
- Eu também.
E sabe o que aconteceu depois? Chorei, lagarto. E ela me ofereceu o seio como se eu fosse uma cria faminta.
No dia final, fui levá-la ao aeroporto e nos despedimos apenas com um beijo no rosto.
- Desejo-lhe o melhor, Ana.
- Você não sabe onde eu estava quando me encontrou. Não havia luz lá, meu amorzinho. Você me salvou.
Avianca.
Olhos cheios de água.
Dali a dois anos, já não seríamos os mesmos. Esconderijos. Também o amor é uma questão de tempo. Ou acontece na hora exata, ou se perde. Às vezes você viaja e encontra, em uma parada qualquer, a menina que tem aquele olhar, mas ela está indo no sentido oposto ao seu...
Enfim, dali por diante, nenhum de nós seria o mesmo. Todo encontro nos acrescenta; seja pela dor, seja pelo prazer.
Como é rico viver!
OS OLHOS DO ASSASSINO
Há noites nas quais tenho dificuldades para dormir e, em muitas delas, alta madrugada, fritando feito sardinha entre os lençóis, levanto irritado, com o intuito de matar algumas muriçocas e - derrotado - ligar a televisão. Ontem foi uma dessas. Zapeando, alta madrugada, chovendo forte lá fora, topei com uma película estranha que estava começando. Parecia algo do expressionismo alemão, dos anos vinte; silhuetas distorcidas, cenários fúnebres, a fotografia, a ausência de som; tudo-tudo levava a crer que se tratava de um filme centenário, ou quase; uma ficção científica. O título, não sei se fiel ao original, era Os olhos do assassino. Na trama, um médico, após grave acidente, sofre um transplante de olhos - cirurgia que parece antever o transplante de córnea - e recebe os olhos de um assassino. Aos poucos, após o transplante, o médico começa a mudar. Primeiro se torna pessimista, depressivo, vê em todos os acontecimentos o lado negativo. Como se fosse consequência natural de uma visão sombria do mundo, o protagonista se torna violento. A princípio, agride a família com palavras; em seguida, fisicamente. Por fim, mata a todos, e torna-se um criminoso, uma espécie de serial killer. Quando desliguei a televisão, um dia nublado amanhecia. Perturbado, escovei os dentes e voltei 'a cama. Fechei os olhos e suspirei, mas quem foi que disse que consegui dormir?
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