Eu ouvi:
Romi era senhora de uma beleza exuberante; mas, mais que a beleza, era sua magnética pureza, seu trato reto, a honestidade de seu sexo, que faziam com que todos no reino orbitassem seu coração. Simplesmente era bom estar perto dela. Tanta boniteza, no entanto, não lhe trazia felicidade. Homens e mulheres sofriam por Romi e ela se enternecia. Não era confortável à sua alma humilde causar tanta dor. De fato, não é que as pessoas quisessem se apossar do destino da moça; muito pelo contrário, o problema era que, quem conhecia Romi, não conseguia imaginar para si um futuro no qual ela não estivesse. Mais de um tentou suicídio. E Romi sofria do sofrimento que causava; ela, no entanto, era o que era, apenas, sem trama ou cálculo. O que ninguém sabia era que Romi estava doente; seu coração, aos poucos, rachava-se como terra esturricada. Por já não suportar mais sofrer e causar, a moça decidiu se trancar na Torre do Espírito e lá permanecer por exatos dez anos; até que se esquecessem de sua existência. Só então voltaria. Mais velha. Mais seca. Muito menos atraente.
Primeiros dias, uma multidão montou acampamento ao pé. Estavam dispostos a esperar ali pelos dez anos seguintes. Findado o primeiro mês, contudo, a maioria tinha desistido. Depois de um ano, havia meia dúzia de pretendentes. E, no início do terceiro ano, restava apenas Guaccaluz, o poeta maltrapilho.
Durante nove anos, trezentos e sessenta e quatro dias, Guaccaluz esperou. Alimentando-se de mel, gafanhotos e do que o povo dava, sofrendo as agruras do clima: passou frio, passou calor, passou fome e não desistiu. Na noite que antecedia a liberdade de Romi, contudo, Guaccaluz se levantou - decidido, descalço, sem olhar para trás - e caminhou para. Quando abriu a porta da Torre na manhã seguinte, Romi não encontrou pessoa, só uma rosa vermelha que o poeta deixara na soleira antes de.🌻
segunda-feira, 11 de novembro de 2019
O OLHO INTERIOR
Há dentro de mim um olho que, quando chuto uma pedra, fixa-se no dedão; que, quando me sinto triste, volta-se para o coração e que, quando resolvo uma equação do segundo grau, engaja-se no raciocínio lógico. O grande poder desse olho, no entanto, consiste em repousar sobre e ver-se a si mesmo. Neste instante, todas às máscaras tomam a forma do rosto e o sol se põe a pino. É meio dia no meu interior. Todos os meus gestos se tornaram devoção.
ESTILO
Não sei muito bem o que é estilo. Qual é o estilo da água? Ela que, maleável, ganha a forma daquilo que diz. Talvez o estilo seja um modo de ser; um gosto: olho a roseira e o girassol; eles dizem todo o tempo sobre boniteza. Mas como eu, sendo tantos, posso ter um estilo se aquilo que escreve em mim é sempre o outro; aquele que - maior - me ultrapassa? Há em mim um mineirinho, menino ainda; que, em sua simplicidade, aconselha meu olho primevo. Há uma prostituta portuguesa que ama o amor. Há uma adolescente que espera o príncipe e chora assistindo a sessão da tarde. Há um peão de obra; um médico; um louco; um bêbado; um monge. Cada um diz a seu modo, mas todos tentam dizer o indizível: a vida, Deus, o amor, a justiça, a verdade, o encontro. Na escola onde trabalho, estudam muitas crianças especiais. Boa parte não fala; sorri apenas. Mas há o Ozi, que é down. Ele fala uma língua só sua, como se fosse uma língua do “p”: ninguém entende. Ele se esforça, aponta com os dedos, faz gestos, todo um teatro. Em seu lugar, outros teriam desistido. Ozi, contudo, teima, insiste em dizer: pepepêpêpê. E vocês precisam ver o modo como ele sorri e balança a cabeça quando entendemos o que quer dizer. É gordinho, fofo, levanta os braços curtos e nos abraça quente– sempre sorrindo. Aos poucos, descobri que gosta do Chaves e de pastel de feira. E, outro dia, estava triste: pepepepêpêpê! Chorando, pepê. Era saudade. Pai e mãe tinham se separado e o pai nunca mais tinha ido vê-lo. Coisa de cortar o coração. Conseguimos falar com o pai por telefone e, na segunda-feira seguinte, o Ozi chegou todo alegre, tinha comido pastel no domingo e com o pai. Especial, Ozi? Pê! (joia com a mão) Tinha de tudo dentro? Pepê! É essa língua do “p” que quero alcançar; e esse pastel, e esse domingo; e esse pai e seu filho muito especial. Estilo? Não tenho a menor ideia do que seja.
Importa?🌻
Importa?🌻
REGISTRO CIVIL DE PESSOAS NATURAIS
Há mais mistérios entre o céu e a terra. Eu era estudante em Assis quando conheci André. Era um cara legal, mas tinha um defeito imperdoável: não suportava música. A cura psíquica acontece por meio da luz da consciência; não digo razão, consciência. Pois bem, André era um cara atlético, culto, curioso, sensível; jovem, enfim. Certa feita, fomos a um daqueles bailes de quinta que aconteciam na Unesp: eu e ele, ele e eu. Um baile para um cara que desteta música é provação, mas eu era insistente. De modo que, lá pelas tantas, manhãzinha já, começou a tocar Andança, com a Beth Carvalho, pra mandar o povo embora mesmo. Olhei meu amigo, nem sei o porquê, e ele se dissolvia em lágrimas. Soluçava. Via-se que estava abalado. Passou. Houve outros encontros, filmes, livros, garotas, estudos. Nos anos subsequentes, contudo, André e eu nos afastamos. Ele deixou de jogar futsal com a gente. Trancava-se no quarto, taciturno, e, se estudava, era muito pouco. A tal noite negra da Alma de que fala San Juan de la Cruz fazia visita. Quando percebeu que estava afundando – de modo definido e irrevogável - meu amigo resolveu pedir ajuda. Foi só e por conta ao Núcleo de Psicologia buscar tratamento. Eu sabia que o pai dele tinha morrido enquanto a mãe estava grávida. De modo que meu amigo nunca conheceu o pai e acho que isso pesava. Ele estava em tratamento havia mais de um ano, quando apareceu na quadra da Universidade pra jogar com a gente outra vez. Estava mais calmo; de boas; mais feliz mesmo.
- Que aconteceu, bro? – perguntei, findado o jogo.
- Eu descobri, mano, e, quando você descobre, consegue meios de lidar com a coisa. Você sabe, nunca conheci meu pai e sempre odiei música. Até outro dia, não sabia que meu pai era músico, vai vendo. Só depois do tratamento foi que confrontei minha mãe e descobri que meu pai era músico e adorava tocar aquela música que tocou na festa aquele dia, Andança. A mãe disse inclusive que, no momento em que fui concebido, tocava aquela canção, ela se lembra. Pai adorava o Paulinho Tapajós e tocava a canção pra ela todo santo dia, no começo da gravidez. Depois que ele morreu, ela ainda ouvia a música no disco e chorava. Era luto. Aí, quando nasci, tomou decisão. Queria luz. Quebrou o disco e nunca mais ouviu aquela canção ou outra qualquer. Em casa, a gente não ouvia música. Nunca tivemos um rádio sequer.
- Mas o Buda não ficou no castelo e um dia teve de sair.
- E encontrou seu destino.
- E encontrou seu destino.
Enquanto caminhávamos para casa no meio do pasto – camisa no ombro, tênis nas mãos – ele tirou uma gaita do bolso e começou a tocar e, olha, tocava como ninguém. 11:11. André, meu amigo. É🌻
- Que aconteceu, bro? – perguntei, findado o jogo.
- Eu descobri, mano, e, quando você descobre, consegue meios de lidar com a coisa. Você sabe, nunca conheci meu pai e sempre odiei música. Até outro dia, não sabia que meu pai era músico, vai vendo. Só depois do tratamento foi que confrontei minha mãe e descobri que meu pai era músico e adorava tocar aquela música que tocou na festa aquele dia, Andança. A mãe disse inclusive que, no momento em que fui concebido, tocava aquela canção, ela se lembra. Pai adorava o Paulinho Tapajós e tocava a canção pra ela todo santo dia, no começo da gravidez. Depois que ele morreu, ela ainda ouvia a música no disco e chorava. Era luto. Aí, quando nasci, tomou decisão. Queria luz. Quebrou o disco e nunca mais ouviu aquela canção ou outra qualquer. Em casa, a gente não ouvia música. Nunca tivemos um rádio sequer.
- Mas o Buda não ficou no castelo e um dia teve de sair.
- E encontrou seu destino.
- E encontrou seu destino.
Enquanto caminhávamos para casa no meio do pasto – camisa no ombro, tênis nas mãos – ele tirou uma gaita do bolso e começou a tocar e, olha, tocava como ninguém. 11:11. André, meu amigo. É🌻
FESTEJO
Tudo o que sou se abre em festa para celebrar a chegada do outro como ele é. Morando em mim, já não quero me colocar como parâmetro; tampouco penso em mudar aquele que vem. A correção não cabe a mim, mas a essa senhora severa chamada Vida. Mal consigo plantar flores no meu próprio caminho, por que me preocupar em aparar a grama do vizinho? E, se o outro me parece sovina, sinto prazer em pagar a conta. Que diferença fazem vinte reais na totalidade da vida? Se o outro é agressivo, assumo minha parcela de responsabilidade, varro só meu lado da rua e o milagre acontece: o outro, por conta própria, começa a varrer o lado dele. Se o outro é inculto, estúpido, raivoso, culto e vaidoso, metido 'a besta, não discuto. Há uma força muito maior que eu capaz de corrigí-lo ou quebra-lo; assim como eu mesmo me quebrei e troquei minha pele pelo couro do cão atropelado no acostamento. A vida é assim, pode demorar anos; mas, ou você assimila que só pode cuidar de si mesmo, que é só um servidor da Vida, ou você naufraga. Isso quer dizer que você tem de se anular? Óbvio que não, quer dizer que você pode dizer o que pensa sem agredir e que é possível não aceitar provocação. Fica fácil quando você cultiva em si o amor sem objeto. Amor que escorre no leito dos rios banhado de perdão. Há mestres por toda parte, vestidos de bicho, nuvem, planta, rio ou gente. O homem, que nesta terra miserável mora entre feras, sente inevitável necessidade de ser beija-flor.
A FILOSOFIA E A VIDA
Não me lembro quem foi que disse que encarava a Filosofia como um ramo da Literatura Fantástica. Sou desses também. Não creio em sistemas, porque a vida não cabe em gavetas e percebo, nos filósofos que li, que cada um enxerga uma franja do real; mas nenhum ser ou sistema é capaz de dar conta da totalidade da vida: talvez os grandes instrutores como Jesus, ou Sidarta. Enfim, os filósofos erram, mesmo aqueles que já não criam em sistemas. A Filosofia francesa da segunda metade do século XX, por exemplo, fortemente influenciada por Nietzsche, já não acreditava em sistemas: Deus estava morto enquanto conceito e, junto com ele, o fundamento e a busca pela verdade. A verdade seria, a partir de Nietzsche, uma construção temporal e haveria forças sociais operando sobre aquilo que chamamos de. Não haveria uma verdade transcendental, a qual alcançaríamos por meio de um método eficiente. É isso que chamam de implosão da metafísica. É legal! É bonito! Contudo.
Deleuze, por exemplo, um dos grandes, propõe no lugar do fundamento, da identidade e da busca pela verdade, a potência do falso. Olha o perigo! Para Deleuze, a Arte seria o espaço que, despreocupado com a ânsia, instauraria a verdade ao nascer: pura imanência. Na prática, o que a gente viu no século XXI não foi a ascensão da Arte, mas das igrejas neo-pentecostais. E, se já não havia uma verdade transcendental, e muito menos o olhar crítico ao Acontecimento, o que passou a dar o tom não foi a Literatura ou o Cinema; mas as fake news. Se tudo é discurso, então tanto é válido dizer que eu sou um ser humano como dizer que a Terra é plana, ou, retrocesso dos, que vacina faz mal. No fim das contas, o real sempre escapa ao pensamento, o que mesmo em Filosofia ainda é raro. Mesmo os filósofos não pensam porque lhes falta a humildade necessária para ser apenas passagem para os pensamentos em busca de pensador. A verdade, o pensamento vêm de outro lugar. E é com os cães que se aprende sobre amor de doação e lealdade; qualidades sem as quais o raciocínio se torna nulo ou nefasto. Mesmo a cabeça tem de passar pelo coração. Bom dia🌻
Deleuze, por exemplo, um dos grandes, propõe no lugar do fundamento, da identidade e da busca pela verdade, a potência do falso. Olha o perigo! Para Deleuze, a Arte seria o espaço que, despreocupado com a ânsia, instauraria a verdade ao nascer: pura imanência. Na prática, o que a gente viu no século XXI não foi a ascensão da Arte, mas das igrejas neo-pentecostais. E, se já não havia uma verdade transcendental, e muito menos o olhar crítico ao Acontecimento, o que passou a dar o tom não foi a Literatura ou o Cinema; mas as fake news. Se tudo é discurso, então tanto é válido dizer que eu sou um ser humano como dizer que a Terra é plana, ou, retrocesso dos, que vacina faz mal. No fim das contas, o real sempre escapa ao pensamento, o que mesmo em Filosofia ainda é raro. Mesmo os filósofos não pensam porque lhes falta a humildade necessária para ser apenas passagem para os pensamentos em busca de pensador. A verdade, o pensamento vêm de outro lugar. E é com os cães que se aprende sobre amor de doação e lealdade; qualidades sem as quais o raciocínio se torna nulo ou nefasto. Mesmo a cabeça tem de passar pelo coração. Bom dia🌻
EDUCAÇÃO
A justiça é como mãe que tem filho predileto. Naqueles campos de várzea, ao menos uma vez por mês, aparecia um defunto. A ROTA agia. Extremo leste, barro, mato alto, violência: notícias no Afanásio Jazadji sobre a captura do Chico Pé de Pato. Os meninos, brincávamos como podíamos. Quando começaram a asfaltar as ladeiras, fazíamos campeonatos de carrinho de rolimã. Isso foi depois. Antes, havia o morro e, lá embaixo, os campos. Depois da aula, meu irmão mais velho e eu íamos até lá pra jogar bola. Pai e mãe trabalhavam o dia todo. De modo que ficávamos os dois. Um dia, surgiram tratores, escavadeiras, caminhões. Os campos seriam substituídos por conjunto habitacional. Nós pulávamos o muro do terreno do seu Dito e ficávamos lá de cima, olhando os trabalhos. Mas chegou janeiro e, com o mês, as chuvas. A obra teve de ser interrompida. Os buracos que serviriam de alicerces aos prédios, tornaram-se piscinas naturais. A molecada inventou brincadeira. Descíamos o morro escorregando na lama e... ti-bummm, na água barrenta lá embaixo. Pra não apanhar das mães, muitos meninos nadavam pelados pra não sujar a roupa. Éramos barulhentos, maritacas nos pés de coquinho. Meu irmão e eu nadávamos de short que depois lavávamos em casa. Um dia, enquanto a molecada brincava, surgiram três malandros mais velhos. Ficaram fumando maconha enquanto brincávamos; olhos de rapina. Um deles me chamou. Na mesma hora, meu irmão apareceu com um tijolo na mão, ameaçando. O malandro riu, os outros dois se juntaram. Meu irmão jogou a pedra e corremos; subindo o morro com a habilidade de quem nascera ali. Mas havia outro menino, mais novo que eu, o Piolho, que estava nadando só, pelado. Não deu outra. Pegaram o negrinho e arrastaram pra trás dos montes de terra. Ali, estupraram-no. Ouvimos os gritos, jogamos pedra e corremos. Passamos o resto da tarde escondidos, com medo. Quando voltamos pra casa, a mãe já nos esperava. Cipó do pé de manga na mão. “Passem aqui. Se correr vai ser pior.” Passamos. Meu irmão levou uma cipoada e se trancou no banheiro. Eu fiquei e absorvi. A notícia tinha corrido o bairro. Piolho estava no hospital. Levara mais de vinte pontos no cu. Havia algo de sombrio naquele solo. Depois que a COHAB foi construída, um menino de catorze anos matou a família inteira ali. Depois, na Febem, cometeu suicídio.
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