"Ela tinha os cabelos raspados. E as asas
tatuadas nas costas, muito mais que questão estética, pareciam uma
reminiscência do céu. Quem olhasse uma única vez, perceberia que ela não era
daqui. Não digo desta cidade entre montanhas e vales que bem poderia ser uma
dessas cidades do sul de Minas com nome de mulher: Cristina, Virgínia,
Cruzília... Dizendo que não era daqui, quero dizer que ela não era deste mundo.
Tinha um quê de anjo, de onça machucada, de touro ajoelhando, de passarinho
molhado, só, perdido do bando. Havia anos que partira para as capitais com o
intuito de cantar. Passou por Belo Horizonte, Rio, São Paulo, Florianópolis...
Cantava músicas aqui da terra onde nasceu que é o mesmo que cantar canções
universais. O lugar da nossa infância é um símbolo do mundo. Também cantava jazz,
bolero, coisas suas... Quando cantava, sentia-se. Estava para o que era. Ficava
curada. A boca gritava uma corrente elétrica cheia de raiva-amor-ternura-delicadeza-fúria-ódio-flor-força-desespero.
A garganta era muito mais passagem que porto. Não ligava para a parte técnica,
embora ela estivesse lá; e sorria quando alcançava as notas mais difíceis
untando-as de sentimento. Considerava aquilo um desafio diante de toda a raça
humana. O segredo era respirar com o coração. O Bem-te-vi não lê partitura e,
no entanto, entoa muito bem o seu refrão. Era gente? Bicho triste? Anjo?
Mistura de touro e beija-flor? Energia iluminada, isso é que sim... Quando
fechava a boca, no entanto, não tinha lugar no mundo, não cabia na vida.
Brincadeira de criança; era como se a vida fosse uma cavidade redonda e ela um
pino quadrado. Já que ninguém pode cantar vinte e quatro horas por dia,
trezentos e sessenta e cinco dias por ano; na maior parte do tempo, ela doía:
um filhotinho de porco-espinho parecido com todos os outros, mas seu couro,
feito manto de Deusa-mãe, fora vestido ao avesso. Alma cuja boca Deus beijou."
O trecho acima é o primeiro parágrafo do romance GERAES, PARA FAZER DOWNLOAD DO TEXTO COMPLETO, CLIQUE AQUI.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019
domingo, 27 de janeiro de 2019
MÉNAGE À TROIS - TRECHO CAP. 22
As
duas línguas se revezavam sobre minha pica; às vezes as bocas se beijavam sobre
a cabeça. Paraíso, que paraíso? De repente, virou putaria, elas nem riam mais.
Tiraram as roupas. Eu coloquei as duas no sofá com as pernas abertas e fiquei
louco, que nem cachorro novo, pulando de uma xana para a outra. Não conseguia
me concentrar numa só. Fartura, teu nome é amor! O quepe estava torto na minha
cabeça; os óculos escuros, dependurados na orelha. Arranquei o uniforme e me deitei
no sofá. Então uma delas se sentou no caralho, enquanto a outra sentou com a
boceta na minha boca. Brincamos assim por um bom tempo, depois as meninas
trocaram de lugar. No meio da foda, eu tinha de pensar em outra coisa. Se
ficasse concentrado, gozava na mesma hora. Tinha de me distrair um pouco e
depois voltava. Então as minhas companheiras se encaixaram num meia nove, a
Anabela por cima. Empurrei o pau e ele escorregou gostoso. De vez em quando,
tirava da boceta da Anabela e colocava na boca da Duda. Aí fiquei maldoso.
Tirei o pau e lambi com força o cu da Anabela. A menina gemeu. Cuspi. Passei o
dedo. “Vou tentar!” Pensei. Se ela reclamasse, eu parava. Para minha surpresa,
quando enfiei a cabeça, ela gemeu. Empurrei mais um pouco – é preciso carinho
quando se está comendo um cuzinho; se forçar, machuca, ainda mais um rabinho
apertado como aquele – ela relaxou, aceitou a pica. Passando a cabeça, o resto
escorrega. A própria Anabela arrebitou a bundinha dura e empurrou para trás.
Enquanto isso, a Duda, garota esperta, chupava o clitóris. Quando estava tudo
dentro, a coisa ficou fácil. Segurei a danada pelo cabelo e soquei até o talo.
Ela rosnou, gemeu, pulou. Mandei brasa. Não foi preciso muito. Em pouco tempo,
Anabela gozava.
- Quero que você encha a cabeça da minha pica de merda, safada – falei.
- Quero que você encha a cabeça da minha pica de merda, safada – falei.
E aí ela recebeu com força.
- Vou encher seu cuzinho de porra.
Aperta o rabinho no meu pau!
- Vai, vai, vai.
- Vou, vou sim, gostosa.
Ela gritou, tremeu, suspirou. Eu
também gozei e, depois, deixei o pau descansando... Porra de amor escorrendo
pela bunda dela, descendo pelas pernas... E Anabela chorou. Teve uma crise de
choro. Caiu de lado e colocou o travesseiro no rosto... Coitada da Duda, só ela
não tinha gozado. Eu, porém, sou um homem honrado. Não deixaria a menina na
mão. No amor há uma única regra: não se pode ter prazer sem dar prazer! De modo
que caí de boca, mesmo esgotado. Um bom oficial não foge ao seu dever. Não
precisei chupar muito para a Duda gozar também. Ela estava excitada. Quando
gozou, não tirei a boca, continuei mamando até ela não aguentar mais, apertando
os bicos dos seios com as mãos...
- Pode gozar, safada, goza que eu
quero engolir todo seu gozo... Enche minha boca... – sussurrei.
Gozou e, ao contrário da Anabela,
teve uma crise de riso. Como é leve o semblante de alguém que acabou de gozar!
Uma ria e a outra chorava. Depois inverteram os papéis, chorando e rindo, e se
abraçaram. Eu fui ao banheiro tomar um banho. Estava todo melado. Nada como a
criatividade na hora do amor.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2019
O PIOR LADO DE NOSSA ALMA
Não gosto de ficar falando de política nas redes
sociais porque acho que não resolve coisa alguma. As discussões não buscam a
criação da verdade, visam apenas a ânsia de ter razão. Além disso, cada um vive
aqui numa bolha na qual a maioria das ideias dos amigos é semelhante. Isto
posto, queria dizer que Bolsonaro era o pior que podíamos eleger! Primeiro
porque não é honesto porra nenhuma. Segundo porque é um intelecto nulo. Uma
besta sem figura geométrica que sirva de adjetivo. Em Davos, não funciona ficar
fazendo símbolo de arma, ou gritando preconceitos, ou falando bobagens, como
combater o comunismo, por exemplo. De comunista, os governos anteriores não
tinham coisa alguma. Terceiro, não bastasse o intelecto nulo, é um coração
vazio, sem empatia, sem poesia, sem verdade. Um papagaio decoraria frases
feitas muito melhor. Quarto, como sempre acontece aos que gritam sua macheza,
não passa de um tremendo covarde. Basta observar o olhar intimidado na Suíça.
Este é o tipo escroto que, no trabalho, grita com a faxineira, mas baba o ovo
do patrão. É fácil falar alto com a Venezuela em pedaços, quero ver é dizer
algo sensato, levantar a cabeça e olhar de igual para igual com um Donald Trump.
Para quem tinha Ciro Gomes, Haddad, Marina; ou, se você é mais conservador, o Meirelles,
o Amôendoim, qualquer um, porra! Eticamente, provamos ser um bando de filhos da
puta – pelo menos a maioria. Esteticamente, mostramos que somos um povo cafona,
grosseiro, um mau gosto verde e amarelo. Humanamente, provamos nossa
desumanidade. Como é que pode um povo que inventou o samba, a bossa nova, o
baião, ser, paradoxalmente, tão cruel? Como é que um povo que pariu um Milton,
um Drummond, um Rosa ser tão destrutivo? Mais uma vez me vem à mente a imagem
do IT, do Stephen King: se por um lado somos alegres, palhaços, quase cordiais;
por outro somos assassinos; e a balança está pendendo para o lado das sombras.
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segunda-feira, 21 de janeiro de 2019
O GIGOLÔ DO CARMA
Há no homem parado, alguma coisa quebrada:
Osso, casa, coração, vidraça.
Há no homem, uma coisa pelo meio,
Situada entre o menino e a asa.
O coração deste homem é borboleta em estado de crisálida;
Magnólia manchada de medo;
Anjo com pata machucada.
Cabe no meio do mundo pós-moderno um homem assim tão manco?
Como posso ser real? – ele se pergunta. – Se me sinto como um enigma que ninguém sequer se deu ao trabalho de tentar desvendar?
Aos poucos desaparece de vez.
E o cão jogado na calçada
Lambe a ferrugem
Fitando o futuro.
Osso, casa, coração, vidraça.
Há no homem, uma coisa pelo meio,
Situada entre o menino e a asa.
O coração deste homem é borboleta em estado de crisálida;
Magnólia manchada de medo;
Anjo com pata machucada.
Cabe no meio do mundo pós-moderno um homem assim tão manco?
Como posso ser real? – ele se pergunta. – Se me sinto como um enigma que ninguém sequer se deu ao trabalho de tentar desvendar?
Aos poucos desaparece de vez.
E o cão jogado na calçada
Lambe a ferrugem
Fitando o futuro.
domingo, 13 de janeiro de 2019
AINDA EXISTEM REVISTAS PORNOGRÁFICAS?
Como todo pioneiro, Freud cometeu muitos erros (o conceito de inveja do pênis nas meninas, por exemplo), mas também acertou bastante e, algumas de suas ideias, experimentei no meu próprio corpo; dentre elas, talvez a mais marcante seja o complexo de castração. Agora que descobri, por meio da meditação xin zhai fa, parece tão óbvio! Durante mais de 20 anos, no entanto, esteve lá e eu não via. No início da minha vida sexual, dos 15 aos 22 anos, tive problema de impotência. Quer dizer, em termos, eu tinha ereção o tempo inteiro; mas, no momento exato da penetração, naqueles poucos segundos, de cara pro gol, o pênis cedia. Minha primeira namorada, meu primeiro amor-imenso, começou a namorar comigo virgem e virgem terminamos. Ambos gozamos muitas vezes, é claro, porque o corpo tem muitos caminhos, mas nunca pude penetrá-la – enquanto isso, bebia. E, pra dizer a verdade, vinte e tantos anos depois, isso ainda dói, mas do que é que eu estava falando mesmo? Sim, Freud e a castração. No meu caso, aconteceu assim: eu tinha cinco anos e meu irmão e um primo mais velhos me mostraram umas revistas pornográficas. Fiquei tarado. Na escolinha, no pré-pré-segundo-estágio, tirava o pintinho pra fora o tempo todo. Um dia, a professora viu. Nunca vou esquecer o modo como me fulminou com os olhos. A mãe foi chamada. Disse que nunca passara vergonha tão grande e que, no fim de semana, contaria ao meu pai. Passei a semana inteira tentando suborná-la com desenhos, num processo de medo e angústia extremos: de nada adiantou. No sábado, mãe e pai, em sessão solene, chamaram-me pra conversar e eu entreguei todo mundo. Depois disso, quando chegava perto dos outros meninos e eles estavam conversando, imediatamente o papo parava, porque o alcaguete tinha chegado. Esse meu primo mais velho, que era órfão, foi inclusive mandado para a casa das irmãs no Paraná. Pior que dedo-duro, nem talarico. Pra resumir, no fim das contas, acho que associei sexo e culpa. Só quando encontrei uma mulher mais velha, a mãe da minha filha, foi que resolvi o problema. Como era muito sexual e mais experiente, ela me conduzia por seus buracos sem deixar que eu abrisse os olhos. Menino em loja de doces, aí eram plantões de trinta e seis horas seguidas. Essa mulher – meio maluca – tirou-me muita coisa, quase a vida inclusive, mas me deu muito também, coisas importantes; entre elas uma filha linda e uma vida sexual. É sempre assim na vida: a gente perde umas coisas, mas ganha outras. É chato para um homem adulto falar de seus fracassos, mas são nossos fracassos e não nossas conquistas que nos tornam humanos. No cristianismo oriental, é dito que Deus criou o mundo e ama os homens pela sua fraqueza e não por sua onipotência. Potência.
ESTETICA-MENTE
Esse negócio de indústria cultural me faz pensar
que um cara assim como Adorno morre agarrado ao próprio monstro que combate.
Quando se luta com monstros podemos nos tornar facilmente um deles. Olhar
demasiadamente um abismo, faz o abismo ver nosso sem-fundo também. Se por um
lado, o frankfurtiano desvenda todos os truques da indústria cultural para
manipular nossos afetos; por outro, concebe a arte como uma série de outros truques
para burlar a tal indústria, a vanguarda. Dois lados da mesma moeda. Taí, não
creio no termo vanguarda em arte, pq arte não é ciência, não caminha em ritmo
linear de desenvolvimento. Como mostrou Floriênksi, a arte do Renascimento não
é melhor que a arte da Idade Média. Também não fico com os termos kantianos o
Belo e o Sublime, ainda que penda mais para o lado do Sublime, essa beleza que
aterroriza. Penso no homem do subterrâneo de Dostoiévski vomitando contra tais
termos. Creio na estética das flores, da beleza feminina que brota
espontaneamente; mais próxima talvez da fenomenologia, mas esse rótulo também
não. Seria assim mais ou menos como contrapor a arte do Clube da Esquina ao
Tropicalismo. O Tropicalismo é mais racional, planejado, arquitetado. O Clube é
fruto de uma série de sincronicidades, de encontros sem intenção, uma Intuição
que raciocina: movimento do Ser. É mais taoista, wu wei etc e tals... Vou por
aí, pensando que, no fim das contas, a beleza vem do gosto; mas do gosto que
brota quando conseguimos nos desvencilhar de todos os condicionamentos
culturais e encontramos algo que, sendo nosso ser mais íntimo, já é uma
centelha universal: poderíamos chamar de alma? E outra, a sobrancelha natural,
parece-me mais bela que todas as sobrancelhas pintadas.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2019
O ASTRONAUTA
O amor pega muito bem em canções pop
& romances românticos.
Na prática, é bicho frágil, não resiste aos encanamentos entupidos,
Contas acumuladas & roupas sujas.
Dura bem pouco, o amor:
Neblina na manhã e, quando abrimos as janelas, passou;
Já é início do processo de separação,
Este sim, demorado.
Para cada ano de amor, outros três são gastos em rompimento.
É a putrefação, não o encantamento o que pode durar uma vida inteira.
Animais adaptáveis, acostumamo-nos ao tédio.
Cedemos à preguiça,
Vamos ficando,
Carregando o cadáver nas costas,
Ignorando os vermes pelo chão.
***
Cuide da alimentação.
Controle o colesterol.
Não fique ao relento.
Sinto muito.
Quero ver você feliz.
Acabou.
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