O bêbado chamava-se Francisco. Havia mais de dez anos, quando tinha por volta de cinquenta, abandonara mulher com quatro filhas e foi viver nas ruas. Anos atrás, tinha sido homem: trabalhara, construira casa, estivera ao lado da mulher, segurando sua mão, no momento dos partos; agora, era um bêbado, como todos os outros bêbados do centro. Já não sabia se tinha começado a beber por conta de toda aquela culpa, ou se sentia culpado por beber tanto. Os últimos dez anos eram um bloco indiscernível, no qual bebia para dormir e acordava para beber. E, no entanto, lá no centro, no cerne, no meio no coração dele, havia ainda tanto amor! Tanta vontade de se doar ao mundo, de ajudar seu semelhante, o calor da centelha divina; mas a bebida. Havia um cão-companheiro que, certa vez, recebera spray de pimenta nos olhos por tentar defendê-lo. Era tudo.
Na manhã em que a coisa aconteceu, Francisco já tinha dado algumas beiçadas no corote de um amigo. Fazia sol depois de uma semana inteira de chuva. Sem entender direito, olhou para o alto das escadarias da catedral e viu o circo armado: o homem com o revólver apontado para a cabeça da moça; a gente da tevê; a gritaria; os policiais ao redor. Todos somos feitos de luz e sombras. Sorrateiro, vivido, malandro velho das ruas, Francisco subiu como quem não queria, pela lateral, enquanto a polícia se comunicava com o criminoso pelo megafone. O próprio sequestrador não entendeu quando aquele velho sujo, esquálido, semimorto se aproximou e pulou sobre ele. Não sabia que a moça feita refém tinha idade semelhante à de qualquer das quatro filhas do velho e que aquela batalha era seu modo de se redimir, seu jeito de dizer: errei muito, meninas; mas nunca foi um plano magoar vocês, agora dou minha vida, ainda que não valha muito, para saberem o quanto as amo. E Francisco Lima lutou com o sequestrador. E recebeu três tiros na barriga. E não resistiu; mas a moça, uma balconista, saiu ilesa.
- Ele foi um herói – disse o representante da polícia militar.
Em seu enterro, porém, numa cova comum, num cemitério de periferia, não havia nem dez pessoas.
Só uma das filhas compareceu.
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020
A SEGUNDA MANHÃ
Certa manhã, G. acordou cedo e se sentiu muito só. Ao tentar jogar a coberta para o lado, notou que ela parecia uma chapa de metal. Por toda a vida, tivera intensas variações de humor; naquela manhã, contudo, a sensação de culpa, e perda, e dor, e ciúme, e autopiedade, e angústia; em outras palavras, confusão, era muito maior. Lentamente - a coluna curva como tivesse noventa anos, embora acabasse de chegar aos quarenta – escovou os dentes, separou a louça suja na pia e começou a lavá-la. No fundo, preferia estar morto. Matar-se, no entanto, também era trabalhoso e ele pensou nos filhos, nos pais, nas mulheres que amava, em seus cães, amigos e flores. E se fosse o contrário? Já não tinha direito. Todos estamos espalhados. O jeito era coar um café forte e continuar. No quintal, os cães latiam brincalhões, felizes que o dono tinha acordado. Sempre há anjos. Ele colocou ração e água. Lá fora, no mundo grande, a ganância e a injustiça prosseguiam. Lá fora, todo mundo reivindicava alguma coisa. Chorou, andava muito ultimamente: qualquer beijo de novela, qualquer tragédia de noticiário. Tanta dor sem pássaro! Tanta pobreza sem sombra! A falta até de pão. Como era verão, as pessoas exigiam gelo, ninguém, porém, se dispunha a encher as forminhas. Os bichos é que sabiam doar, sem espera. E, sem exigir, também recebiam. Eram alimentados; tinham sempre água fresca na tigela; o cocô era retirado e o quintal lavado diariamente. Quando G. os banhava, nos dias mais quentes, massageava as barrigas... Não se pode exigir amor. O amor é sempre doação. Para G., as manhãs eram sempre piores, depois o dia engrenava; mas, naquela, ao ligar a mangueira para limpar a sujeira dos bichos, percebeu um arco-íris se formar sobre o feixe. Aos poucos, as cores espalharam-se pelo ar. Deus não manda telegrama. Como se lhe fora revelada, G. viu a verdade de todas as coisas e tudo era tão bonito! E a beleza incutia nele a vontade de ser bom; de sair à rua e perguntar às pessoas o que elas estavam precisando. Viu os cães por dentro e eles não eram feitos de órgãos, mas de cores e energia. Havia agora em seus olhos uma espécie sonar. De um presente ao outro, as formas dissolveram-se. Ainda havia contornos; mas, como no quadros de Vincent, era preciso estabelecê-los na marra, com uma linha grossa. Nada era isolado. Todas as coisas eram vivas e tocavam o cerne umas das outras, como se não houvesse mais pele. A dança que ele via não era dos átomos, era mais profunda; mais profunda que a valsa dos elétrons, mais profunda que o samba das energias. Como que carregada por uma mão invisível, a angústia partiu. Tudo se fez leve. As vértebras corrigiram-se edificadas de baixo para cima por uma coluna de ar. Os cães sorriram e, como numa nova manhã dentro da outra, o sol deu a graça de seu poder. Ainda trêmulo, trôpego, lívido, G. agradeceu e, voltando a face aos céus, pôde apenas murmurar:
- Misericórdia... Misericórdia...
E as lágrimas que atravessaram o rosto já não eram de tristeza, mas de alegria e de uma certeza que não mora neste mundo. Por trás das formas individuais, tudo era tão belo e ele sabia que não teria de carregar o peso de seu eu por toda a eternidade. Quando chegasse a hora, seria tão bom partir, para que outros.🌻
- Misericórdia... Misericórdia...
E as lágrimas que atravessaram o rosto já não eram de tristeza, mas de alegria e de uma certeza que não mora neste mundo. Por trás das formas individuais, tudo era tão belo e ele sabia que não teria de carregar o peso de seu eu por toda a eternidade. Quando chegasse a hora, seria tão bom partir, para que outros.🌻
SERENIDADE
Rapaz, espie só como o cão é. Ainda agora fiz um post aqui dizendo que tal filme era bom. Pois me sai um abençoado, sabe Deus de onde, e escreve nos comentários: “teu cu!”😱 Bem assim, no meio de uma tarde de domingo. E agora é bagunçado assim, é? O que ele não sabia é que ando meditando duas vezes por dia, caminhando, andando de bicicleta e comendo banana, amêndoa, chocolate amargo, cápsula de magnésio e tudo mais que produz serotonina. Quero ser uma pessoa melhor, sabe? Um cabra calmo. Pusitivo. Mudar até, quem sabe, pra Calmão Viana – Mogi das Cruzes. De modo que tirei de letra. É! Aí minha filha, que tava aqui, disse assim: “Pai, me leva ali no shopping Itaquera?” E eu: “Claro, meu anjo!”, isso porque sou deveras muito sereno, e prestativo, e espiritualizado. No caminho, levei uma fechada daquelas. Respirei fundo e segui. Disse a mim mesmo: “em Buda e no Cristo cuspiram na cara”. Foi. Isso é nada comparado. E aí chegamos ao shopping e demorei quarenta minutos pra achar uma vaga. Domingo e tals. Fiquei nervoso? Eu? Praticante de meditação e hatha yoga? Que nada! Aí pensei: “vou naquelas cadeiras de massagem pra relaxar. Estou perdendo um tiquim da serenidade.” Pois fui lá e me sentei na cadeira. Que aconteceu? A diaba engoliu minha nota de vinte! É, perdi meus vintão e fiquei sem massagem. Tentei ligar no número que tinha lá e ninguém atendeu. Melhor aceitar a perda. Bens materiais, cousa pouca. E daí resolvi ir ao Extra, porque se você comprar mais de quarenta reais, não precisa pagar o estacionamento. Pois fui, comprei um bocado de coisa, até umas ameixinhas de vinte contos pra soltar o intestino. Quando saí, tava uma chuva danada e eu tinha lavado o tênis sexta-feira. Corri até o carro. Cheguei à catraca pra sair, cadê o tíquete? O povo buzinando. Não teve Cristo que achasse o papel. Mais meia hora até retornar e achar outra vaga. Corri, debaixo de chuva, até o caixa do estacionamento; mas não consegui resolver, pois precisava saber o número do chassi. Voltei correndo – o tênis encharcado, o cu molhado, chovendo horrores – peguei o documento, preenchi os papéis, tudo em duas vias. E o preço por perder o tíquete? Quarenta estalecas! Reclamei de leve. Sabe o que a moça respondeu?
- Não tenho culpa do Senhor ser descuidado! - Assim na lata. E eu? Sabe o que foi que eu fiz?
Respirei fundo, entoei o mantra om com toda vibração do meu ser e, só de raiva, permaneci calmo, sereno, impassível. Aqui na zona leste de São Paulo, gente, pode até ter alguém calmo que nem eu, mais calmo não existe😇. E ponto! Agora contrarie pra ver.😅
- Não tenho culpa do Senhor ser descuidado! - Assim na lata. E eu? Sabe o que foi que eu fiz?
Respirei fundo, entoei o mantra om com toda vibração do meu ser e, só de raiva, permaneci calmo, sereno, impassível. Aqui na zona leste de São Paulo, gente, pode até ter alguém calmo que nem eu, mais calmo não existe😇. E ponto! Agora contrarie pra ver.😅
SOBRE BACURAU
Bacurau é uma alegoria tosca; mas isso não é defeito, pelo contrário: vem daí sua força. A alegoria é um braço da metáfora mais ligado à moral e arte e moralidade não combinam. Mesmo que não exista o parágrafo final com a inscrição: moral da história; na alegoria, subentende-se tal sentença. Ela, a alegoria, é ligada à fábula e, quando acontece, conecta-se facilmente o significante ao significado; não tem erro; é o momento em que a linguagem conotativa está mais próxima da denotativa. Em Bacurau, o enredo é uma alegoria do momento político atual. Em arte, prefiro outro ramo da metáfora: o non-sense, bastante explorado pelos surrealistas e por gente como Kafka, ou, no cine, David Lynch. Encontramos aí o absurdo, o irreconhecível e o significante pode conectar-se a múltiplos significados. A linguagem artística é a linguagem condensada e carregada à enésima potência. No caso de Bacurau, por outro lado, a mensagem tem um desespero e um vigor muito mais ligado ao político que ao estético e, em verdade, o desleixo estético também é um manifesto estético, como no caso do Punk. Um Madmax no sertão pernambucano não poderia soar como a nouvelle vague.
Outro ponto que chama a atenção é o pastiche, recurso usado à exaustão e com maestria por Tarantino. Em Bacurau, percebe-se o tempo todo o diálogo com outras obras: dos discos voadores toscos de Ed Wood à pílula de realidade de Matrix. Como desde o primeiro modernismo, passando pela tropicália, nossa tradição é identificada conceitualmente à antropofagia, creio que isso também é uma nota positiva no contexto geral da película. O Kleber Mendonça não recorta e cola, mas engole, deglute e defeca algo diferente, original em certo sentido; assim como o mangue beat também fez.
Como professor, gostei do momento em que o prefeito descarrega um caminhão de livros no meio da cidade. Não é outra coisa o que os governos, mesmo de gestões de esquerda, fazem há algum tempo. Incentivar a leitura não é só despejar livros.
Pra encerrar, reafirmo que Bacurau é um bom filme e, grande parte das críticas que ouvi em relação, referem-se ao pouco refinamento estético. Negócio é o seguinte: pobre não tem etiqueta, não enfeita o prato pra comer. O feio é o belo às avessas. No final dos anos setenta, por não ter instrumento de sopro, um jovem brincou com uma vitrola encontrada no lixo e nasceu o hip hop. Uma coisa não exclui a outra: pode-se muito bem gostar de O cidadão Kane e de Bacurau; do mesmo modo como gosto de Bach e dos Ramones.
Abaixo às cercas embandeiradas que separam quintais.
Outro ponto que chama a atenção é o pastiche, recurso usado à exaustão e com maestria por Tarantino. Em Bacurau, percebe-se o tempo todo o diálogo com outras obras: dos discos voadores toscos de Ed Wood à pílula de realidade de Matrix. Como desde o primeiro modernismo, passando pela tropicália, nossa tradição é identificada conceitualmente à antropofagia, creio que isso também é uma nota positiva no contexto geral da película. O Kleber Mendonça não recorta e cola, mas engole, deglute e defeca algo diferente, original em certo sentido; assim como o mangue beat também fez.
Como professor, gostei do momento em que o prefeito descarrega um caminhão de livros no meio da cidade. Não é outra coisa o que os governos, mesmo de gestões de esquerda, fazem há algum tempo. Incentivar a leitura não é só despejar livros.
Pra encerrar, reafirmo que Bacurau é um bom filme e, grande parte das críticas que ouvi em relação, referem-se ao pouco refinamento estético. Negócio é o seguinte: pobre não tem etiqueta, não enfeita o prato pra comer. O feio é o belo às avessas. No final dos anos setenta, por não ter instrumento de sopro, um jovem brincou com uma vitrola encontrada no lixo e nasceu o hip hop. Uma coisa não exclui a outra: pode-se muito bem gostar de O cidadão Kane e de Bacurau; do mesmo modo como gosto de Bach e dos Ramones.
Abaixo às cercas embandeiradas que separam quintais.
MEIA-IDADE
Menina, olhando em retrospectiva, parece que foi ontem: você dorme com dezoito e acorda com quarenta; só que não. Muitas coisas rolaram: casamentos, filhos, empregos. Quer saber de uma coisa? Em todas as vezes que esquentei a cabeça, em cada uma das noites de insônia, por mais que eu tenha uma imaginação porreta, jamais vislumbrei o futuro que se tornou presente. Então, você que é jovem, relaxe e respire, você está no lugar certo e nada está sob controle. Não quero com isso dizer que tudo vai acontecer de acordo com seu sonho e que basta você desejar e todo o universo vai se movimentar e tals. Comigo foi bem o contrário e, quer saber, dou graças! O que eu queria não era o que me tornaria um ser humano melhor. O que é um ser humano melhor? É bem simples: aquele que se sabe parte. Parte de uma comunidade na qual você tem de atuar sem querer mandar, parte da raça humana, parte – muito idiossincrática – da espécie animal, parte de um planeta que a gente tem de cuidar; porque nossa vida acaba, mas o mundo não e as crianças confiam tanto! O sistema econômico vigente tem de alimentar nosso ego, pois sem o ego e sem os desejos, ele morre. Então é preciso alimentar a ideia de que somos mais bonitos, melhores, mais sábios; enfim, a última bolachinha do pacote. A vida assim não é uma celebração, mas uma competição, na qual só os vencedores têm direito a celebrar. Eu queria ser um astro do rock, sabe? Viver loucamente e morrer jovem. Não rolou. Quis ser um escritor reconhecido. Não rolou. Fui ficando humilde. Desejei ao menos viver da minha pena; tampouco. Eu, cada vez menor e menor até caber no meu destino que é ser professor de uma escola no bairro onde nasci. Para o ego foi uma surra; mas ainda posso cantar com os amigos, se quiser, e nada me impede de escrever diariamente. Quando deixa de se comparar com os outros, de querer ser mais, a gente se percebe único e daí vem uma dignidade que não é do ego. Você se sabe singular, mas não especial e é só de mãos dadas que funcionamos, porque nenhum ser humano é autossuficiente. Um cozinha bem, outra escreve, outro assenta tijolos. Só junto, em comunidade, que a gente beira a perfeição; pois o que falta em um ser humano, sobra no outro. Na prática da vida, não há um saber melhor que o outro; pois, para que o Doutor faça sua palestra, é preciso que as faxineiras limpem a sala, e que uma porção de pedreiros tenham assentado os tijolos, e que um técnico tenha ajeitado o som. Como no milagre dos peixes, cada um dá o pouco que tem e nada falta. No fim das contas, todo mundo devia ser aplaudido de pé. Sim, o meio da vida parece chegar de repente. Solte as rédeas e procure agir de acordo com; pra saber o quê, exercite o silêncio. Coisas muito boas acontecem sempre. Eu, por exemplo, não fiquei careca – ainda.😉
QUALQUER MANEIRA DE AMOR
O que é melhor, meu irmão, o ódio ou o amor? Se você respondeu o ódio, deve estar sofrendo mais do que é suportável e eu me solidarizo com sua dor. Se respondeu amor, eu complementaria que o amor, como tudo que é vivo, quer se expressar e que, dentre as muitas formas de se expressar o amor, o sexo é uma delas. Você poderia me falar da tal ordem natural das coisas e eu responderia que a ordem natural entre almas é o que vale, sabe? Há muito, o sexo humano se distanciou do animal e, mesmo no sexo animal, há inúmeras espécies que se relacionam com seres do mesmo sexo. O sexo animal é para a reprodução. O sexo humano pode ser uma necessidade física; mas é, sobretudo, expressão de amor. Se fôssemos falar de ordem natural, teríamos de excluir todos os métodos contraceptivos. E, mesmo o nosso presidente tão conservador, fez duas vasectomias numa só vida. Então, que problema há no modo como duas pessoas que se gostam expressam esse amor? Se elas se abraçam, se apertam as mãos, se se beijam, ou se transam, que mal há? E, ainda que não seja amor, no modo como duas pessoas sedentas saciam sua sede? O problema? Qual? O macaco deseja banana; a vaca, o capim; mas eu almejo a felicidade; o outro deseja um carro; um terceiro, conhecimento. O desejo no ser humano também é bem diferente. Se você crê que temos uma alma por que, quando se trata de sexo, acha que devemos nos ater ao animal? Eu fecho com o Rosa: "qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura". Tudo o que precisamos: mais amor e menos julgamento; mesmo porque o próprio amor é já a ausência de julgamento.
quinta-feira, 23 de janeiro de 2020
ABRE AS ASAS SOBRE NÓS
Você quer saber o que nos esgota? Isso de ser humano. Em tese, ser humano é ter capacidade de escolher; de decidir e nomear o que é certo e errado. No entanto, isso, que também pode ser chamado de livre-arbítrio ou liberdade, mais que uma dádiva, pode ser uma maldição. Mal abrimos os olhos e já temos de decidir se primeiro escovamos os dentes, ou se acordamos o filho. Quando chega o momento das grandes decisões, então, estamos esgotados. Terminamos ou continuamos um relacionamento? Mudamos ou não de emprego? Desde Nietzsche, já NÃO temos o consolo de que, se estivermos ao lado do Bem, do Belo e da Verdade, estaremos escolhendo o certo; porque, como mostrou o filósofo alemão, todas essas coisas podem ser construtos sociais: o que é bom em uma sociedade, pode não o ser em outra. Nietzsche, bem como Freud, desconfia da capacidade da razão de escolher. Para o primeiro, o que nos guia, mais que a razão, é a vontade de poder; para o segundo, o inconsciente. Os pensadores da dúvida sobre a dúvida, nos dizem de instâncias anteriores à razão. Algo que algumas religiões antigas já sabiam. É Bergson, contudo, quem traz de modo sistêmico uma instância para além da razão como método: a intuição. Há no ser humano uma sabedoria anterior ao raciocínio lógico que pode ser chamada de elã vital. Em A evolução criadora, Bergson investiga como a vida é criativa. Feito a água, ela sempre cria um modo de contornar ou resolver os problemas que surgem. Isso desde as bactérias até os tigres. Em nosso corpo, agora mesmo, há uma sabedoria para além da razão, mantendo todas as funções vitais em funcionamento. O coração bate. Quem ordena? Essa instância subsiste no ser humano e se manifesta na gente sob a forma de intuição. O problema é que a mente racional, embora seja uma excelente ferramenta, faz um barulho danado e não nos deixa ouvir os sussurros desse saber ancestral. No taoísmo, hinduísmo e budismo, a meditação é um modo de calar a mente racional para ouvir essa voz interior que também pode ser chamada de Deus na gente. No cristianismo, temos a oração. Agora, voltando ao início, ao problema de ter de escolher. Na verdade, nunca decidimos nada, a gente se perde é no barulho da mente e nas armadilhas de sua máscara, o ego. Isso é o que nos esgota. No fundo, sempre sabemos o que é melhor de cara, mas tentamos analisar, e analisar, e analisar, e procrastinar; porque, muitas vezes, o que devemos fazer é o mais difícil. Na minha vida, tento fazer o seguinte. Quando tenho de decidir sobre algo, vou ao banheiro e respiro fundo, em silêncio, por uns cinco minutos. Assim que a primeira decisão se forma, eu a sigo, não contesto. E vou, uai! Todas as grandes criações humanas são, na verdade, impessoais. Elas surgem de uma intuição primeva; daí por diante, é trabalho da mente e do ego transformá-la numa teoria, num sistema, numa escultura, ou num poema🌻.
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