Há noites nas quais tenho dificuldades para dormir e, em muitas delas, alta madrugada, fritando feito sardinha entre os lençóis, levanto irritado, com o intuito de matar algumas muriçocas e - derrotado - ligar a televisão. Ontem foi uma dessas. Zapeando, alta madrugada, chovendo forte lá fora, topei com uma película estranha que estava começando. Parecia algo do expressionismo alemão, dos anos vinte; silhuetas distorcidas, cenários fúnebres, a fotografia, a ausência de som; tudo-tudo levava a crer que se tratava de um filme centenário, ou quase; uma ficção científica. O título, não sei se fiel ao original, era Os olhos do assassino. Na trama, um médico, após grave acidente, sofre um transplante de olhos - cirurgia que parece antever o transplante de córnea - e recebe os olhos de um assassino. Aos poucos, após o transplante, o médico começa a mudar. Primeiro se torna pessimista, depressivo, vê em todos os acontecimentos o lado negativo. Como se fosse consequência natural de uma visão sombria do mundo, o protagonista se torna violento. A princípio, agride a família com palavras; em seguida, fisicamente. Por fim, mata a todos, e torna-se um criminoso, uma espécie de serial killer. Quando desliguei a televisão, um dia nublado amanhecia. Perturbado, escovei os dentes e voltei 'a cama. Fechei os olhos e suspirei, mas quem foi que disse que consegui dormir?
sábado, 4 de janeiro de 2020
E O CORAÇÃO É UM BAILARINO
Anteontem, comemoramos o nascimento de uma criança há mais de dois mil anos em Belém. Como tudo mais que fazemos, no entanto, a comemoração era como o sonho de um sonâmbulo. É que agimos pela tradição, porque os pais de nossos avós faziam assim, porque todos agem assim. É mais o instinto de manada que o nascer do Cristo que nos leva a comemorar o Natal. Quase nunca nos perguntamos pelo significado e, quando o fazemos, aceitamos a resposta de terceiros, não investigamos nosso ser para entender o que o nascer dessa criança nos diz. É em nosso coração que o menino nasce diariamente, é o nosso coração que tem de renascer criança. O coração da criança diz sim e não, mas não visa o lucro. A criança conversa com as flores e ama o que é. A criança é boa e não sabe de moral. Sua bondade não é uma luta entre o espírito e o corpo, mas o fruto de sua integração com todas as cores do mundo. O que se pode aprender de Deus numa Igreja pintada de cinza-escuro, cheia de gente séria, coberta da cabeça aos pés, reprimindo seus desejos? Nada. Deus é simples – você pode dar a ele a máscara e o nome que quiser – e habita os corações alegres. Toda tormenta é distância de Deus; mas, como disse o outro, o mais profundo é a pele e, quando parecemos mais distantes do Amor, mais próximos estamos. A tormenta é a pedagogia pela qual Deus nos oferece o seio. E digo sem medo de errar que quem não clamou é que não sofreu ainda. Não é no comércio com os homens que a criança se manifesta: Cristo não foi crucificado pra me presentear com um carro zero; pelo contrário, é na ação sem qualquer interesse, sem necessidade de plateia, ou lucro, que o menino dança em nosso coração. O natal representa então, em mim, o desejo de servir, de cuidar, a humildade, o amor, a ausência de interesse, de desejos egoísticos. E todo dia é Natal quando ajudamos o vizinho a aparar a grama, ou quando tomamos café e perguntamos pra atendente de olhar triste se está tudo bem, se ela está precisando de alguma coisa. É Natal quando fazemos algo por alguém apenas por fazer. E quando o menino põe na rua os pés descalços se encanta com a dança das andorinhas, com a solidez das pedras, com a vastidão do mundo. Natal é ter o coração contente, é dançar, é cuidar e servir. É ter a dignidade de, sendo o Mestre, lavar os pés dos discípulos. O nascimento dessa criança simboliza em nós a conciliação com o Deus-Juiz e nos faz dançar nas ruas, junto ao Deus dos nãos, porque agora já não temos corpo, somos inteiros coração e o coração é um bailarino.
UM CRISTÃO CARRASCO
No futuro não poderemos dizer eu não sabia: o golpista sempre conta com a ganância de sua vítima. O drama se repete como farsa. Há, no fundo de todo ser humano, uma dor, uma ferida, uma falta, uma saudade danada de não sei o quê. No passado, as religiões concebiam esse lugar como passagem para o sagrado; mas o tempo e a História, nós sabemos: penso, logo existo; cientificismo; materialismo rasteiro; Deus está morto; o homem – o homem – o homem; esquecemo-nos que a gente acontece é dependurado no Mistério. Por muito, a angústia foi o caminho para a fé; com o passar e a secularização de tudo, a riqueza tomou o lugar. Já não suportamos a falta e buscamos preenchê-la. Acontece que essa fresta é o lugar por onde ouvimos o sussurro sagrado e, abarrotá-la de, só nos faz ficar mais surdos e mais feridos. O capitalismo entendeu rápido a fenda e usou-a como lugar da oferta. Bastava oferecer ao cidadão algo que prometesse preencher este hiato que o "cliente" compraria. Acontece que tudo que se tem e se conquista não preenche o vazio; o qual é mesmo – e já – Deus, feito a foz de um rio, cujas águas se confundem com as do mar. Muitas Igrejas que aí estão não oferecem o sagrado; mas Deus como meio de se conseguir coisas bem mundanas. É uma mistura aloprada de livre mercado e religião, com o Estado servindo cão de guarda da propriedade. E aí acontece o absurdo de se rezar para pedir um carro melhor que o do vizinho, uma lancha, uma viagem ao exterior... e tudo isto é pedido em nome de alguém que foi torturado e morto. É desonestidade espiritual (e muita) da vítima. Vários líderes dessas Igrejas apoiaram isto que está no poder e levaram consigo seus fiéis, os quais abriram mão da liberdade para não ter a responsabilidade por seus atos, só que não. Jesus disse coisas muito simples e resumiu tudo num só mandamento: Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo. Como alguém que defende a tortura e a morte pode se dizer cristão? Não é o Cristo que Bolsonaro defende é a propriedade. Toda a vida poderia ser o tempo de ajustarmos nossa conduta aos propósitos maiores que você pode chamar de Deus ou Humanidade; mas gastamos a vida querendo ajustar a conduta do vizinho que é gay, da vizinha que usa minissaia, dos moleques que ouvem funk. Amai ao próximo como a ti. Primeiro é preciso se amar, sem vaidade, reconhecer em si a dignidade de um ser que é - sem necessidade penduricalhos. A partir daí, reconhecendo em mim a ferida primeira, é fácil ver que o outro também vem ferido, precisando de abrigo e compreensão. Não tem erro e, se a coisa complicar, é só ficar ao lado dos mais pobres, dos injustiçados, dos mais fracos, dos perseguidos. Foi o que Jesus de Nazaré fez.
A MALDADE JÁ VIMOS DEMAIS
Quando eu era menino, Dona Norma já era idosa. Pense numa pessoa difícil! Pois era Dona Norma! Nunca gostou de nenhum vizinho. Se estávamos brincando na rua e a bola caísse no quintal dela, era bola morta, porque a velha pegava uma faca e. Na nossa frente e tudo. Sem dó, nem. Depois jogava os pedaços no asfalto. Os vizinhos diziam que ela nem sempre tinha sido assim. Fora uma moça muito alegre e altiva; mas, depois que o marido, desgostou da vida. Nem o filho a visitava. Assim que ganhou corpo de homem, partiu para e nunca mais. Sobre Dona Norma, mais três coisas: é magra, pinta os cabelos de vermelho e fuma o tempo inteiro. Agora, Alice.
Há uns cinco anos, o filho de outra vizinha se casou e comprou a casa ao lado da padaria. Umas quatro ou cinco casas depois da casa da Dona Norma, descendo a rua. Deste matrimônio, nasceu Alice, que hoje deve contar uns três aninhos. Pois bem, ninguém nunca soube que Dona Norma gostasse de criança; pelo contrário, só que Alice, tendo aprendido a andar e falar, passou a esperar Dona Norma todos o dias, no portão. Dizem que, a princípio, a velha sequer respondia, mas a menininha é insistente:
- Oi Do’a Noma, bô dia! – Oi Do’a Noma, voxê vai a padaía?
Um dia, a idosa não resistiu e, ao voltar, trouxe um chocolate.
- Bigadu, Do’a Noma!
Foi a conta. Daí pra frente, todos os dias, quando vai comprar sua carteira de cigarros, Do’a Noma traz sempre alguma coisinha pra amiga. Quando demora, Alice grita no portão.
Ontem, quando saí pra pedalar, Dona Norma segurava um gatinho nas mãos e Alice acariciava a cabecinha. Cada uma de um lado do portão. Meu coração transvasou. Acho que 2019 não foi fácil pra ninguém; mas, ver esse gesto de singela delicadeza entre as duas, encheu-me de esperança para 2020. A maldade já vimos demais.
Há uns cinco anos, o filho de outra vizinha se casou e comprou a casa ao lado da padaria. Umas quatro ou cinco casas depois da casa da Dona Norma, descendo a rua. Deste matrimônio, nasceu Alice, que hoje deve contar uns três aninhos. Pois bem, ninguém nunca soube que Dona Norma gostasse de criança; pelo contrário, só que Alice, tendo aprendido a andar e falar, passou a esperar Dona Norma todos o dias, no portão. Dizem que, a princípio, a velha sequer respondia, mas a menininha é insistente:
- Oi Do’a Noma, bô dia! – Oi Do’a Noma, voxê vai a padaía?
Um dia, a idosa não resistiu e, ao voltar, trouxe um chocolate.
- Bigadu, Do’a Noma!
Foi a conta. Daí pra frente, todos os dias, quando vai comprar sua carteira de cigarros, Do’a Noma traz sempre alguma coisinha pra amiga. Quando demora, Alice grita no portão.
Ontem, quando saí pra pedalar, Dona Norma segurava um gatinho nas mãos e Alice acariciava a cabecinha. Cada uma de um lado do portão. Meu coração transvasou. Acho que 2019 não foi fácil pra ninguém; mas, ver esse gesto de singela delicadeza entre as duas, encheu-me de esperança para 2020. A maldade já vimos demais.
A NOITE MAIS LINDA DO MUNDO
Num tempo de Krill, Malta e Conti beer, ela me pagou dezesseis latas de Skol, numa festa, no campus da UNESP – ASSIS. De tarde, tinha feito calor; mas, no começo da noite, choveu. Mês de novembro. Naquela época, Rogê e Francisco ainda estavam. Naquela época, eu era um alcoólatra na ativa e ela me pagou dezesseis! Não era suficiente para me deixar, devo admitir, mas ajudava a atravessar a noite. Naquela época, vivíamos da Bolsa de Auxílio ao Estudante – dinheiro contado para o arroz-ovo e ela desfalcou seu orçamento para me pagar dezesseis. Eu, sem uma lata na mão, não cabia em canto. E ela sabia. E me amparou. Tivesse juízo, vazava na mesma. Ficou; ela, foi. Uma noite, assustamos a amiga: trocamos as camisas e, com elas, as personalidades: assumi seu modo de, a camiseta do Mickey, os trejeitos. Lembro da blusa branca com babados, antes da festa, da calça jeans, o sapatinho. E ela passando batom, diante do espelho oxidado, Betsebá, escovando os cabelos. Éramos muito pobres e muito lindos! Sonhávamos ser escritores, estudávamos o Francês. E atravessamos o pasto na ida e atravessamos o pasto na volta. Estrelas cadentes, a lua cheia, o céu de Assis, cheiro de estrume, castelos de ar: o ovo é o caos do pássaro, irmã. No palco, tocavam os Insetos. Eu tive um sonho estranho; paredes desmoronavam sob o peso.
E voltamos, foi, e fizemos, como fazíamos todas as noites, sob as cobertas. Foi.
Não dissemos. Oh, não!
Mas lembro ter pensado de mim para comigo: “acho que estou”.
Quanto ao pano dos confetes, já passou meu carnaval.
E voltamos, foi, e fizemos, como fazíamos todas as noites, sob as cobertas. Foi.
Não dissemos. Oh, não!
Mas lembro ter pensado de mim para comigo: “acho que estou”.
Quanto ao pano dos confetes, já passou meu carnaval.
MATEMÁTICA
O pensamento é raro. Preocupação não é pensar. Ressentimento não é pensar. A culpa e o remorso não são pensar. O hábito não é pensar; a opinião pessoal tampouco. O pensamento acontece quando a mente vazia - oficina do novo - abre-se para receber o irreconhecível, o não-visto, o não-pensado, o quase-já. Ele, o pensamento, irmana-se aos bailarinos e às bolhas de sabão; tem a leveza e a força do olho d'água que rompe a linha de terra. Pensar vem de fora, mas nos atravessa como se fôssemos um instrumento bem afinado. Qual fora? O outro. Qual outro? Aquele do qual a parede nos separa, para o qual nos falta sentido, e, no entanto, nos sussurra o coração. E não alcançamos. E perdemos o fôlego. O caminho que leva à Verdade está vedado; na parede, porém, há pequenas rachaduras. Daí emana o quê, o nunc, o portanto, o instante-ahora - local onde dançam colados o que é e o que já não; o que é e o que ainda não. Tudo aquilo que é, guarda uma face proporcional do outro lado da parede-espelho. A alma é o jarro e a experiência é a água. O que se repete ou permanece é o jarro, não a água. Ou melhor, o que se repete ou permanece é o contorno vazio de um interior vazio onde poderia haver um jarro. Em todo camaleão, a Verdade se expressa como mudança; em todo leão, como autoridade; em todo pássaro, como canto. No ser humano, a Verdade se derrama. No menino, é inocência; no ancião, sabedoria; num homem força; no outro, esperteza; no outro, sinceridade; na mesma mulher astúcia e perdão. A humanidade é o topo não por dominar a Terra, por exauri-la e torná-la matéria morta; por tratar a mãe como puta. A humanidade é o topo porque é múltipla ao ponto de, no ser humano, toda a criação se observar e se pensar. É no homem que Deus se rejubila do que criou. O homem não é o animal racional. O raciocínio lógico é parte menor. Na onça pintada, a intuição se faz mandíbula e graça; no pavão, pintura, mas o ser humano é o único lugar onde a intuição se faz pensamento; a fonte onde a Verdade, cristalina, se faz palavra, onde Deus se faz poema.
ULTRALEVE
Quando nos anos noventa Leonard Cohen voltou de um retiro de seis meses na montanha, num bangalô sem luz elétrica ou água encanada, um repórter perguntou ao poeta pelas dificuldades que atravessara:
- Foi fichinha. Difícil mesmo é o casamento.
Embora pareça lugar-comum, toda prática espiritual nos incita a despertarmos a melhor versão de nós mesmos. Ninguém está aqui para corrigir o outro. Por mais equivocado que o outro esteja, não posso mudá-lo; não tenho qualquer controle sobre ele. Só tenho controle sobre minhas próprias reações diante das atitudes alheias. Há, então, dois caminhos num relacionamento: ou eu busco trabalhar em mim as imperfeições que vejo no outro, porque todo casal acaba por se tornar um pouco espelho; ou justifico minha inércia espiritual e meus erros por meio dos erros do outro. Isto quer dizer que o outro estará sempre certo? Não. Quer dizer que o outro – e seus erros – são meu espelho e lâmpada. Espelho porque enxergo no outro aquilo que o ego não me deixa ver em mim mesmo e lâmpada porque a convivência aponta senderos. No caminho monástico, encontro-me no confronto comigo mesmo. No caminho partilhado, descubro-me na lida comigo e com o outro. Não há caminho melhor ou pior, pois todas as trilhas espirituais levam ao topo da montanha, ao centro da própria alma. A alma é o paradigma, o Maior dentro de cada um de nós, e toda maldade é, de fato, distância dela. Quanto mais longe estamos da Fonte, mais o eu-egóico se torna poderoso. Não há outro Diabo senão esta parte de nós que sempre nos diz que somos imensos, que temos razão, que somos, de alguma forma, melhores que nosso semelhante. Crime e castigo trata disso. Todos nós convivemos com Deus e o Diabo diariamente: a alma e o eu-egóico. A primeira é generosa, humilde, criativa, delicada, luzidia, terna; o segundo, o contrário, e seu maior trunfo é esconder-se, é influenciar e ditar reações sem ser notado. Toda vez que é descoberto, no entanto, o eu-egóico, covarde e vazio, esconde-se nas sombras. Quando a luz da alma ilumina o demônio-ego ele se dissolve feito entidade de filme B. Todo peso no relacionamento é sintoma da doença egóica, porque o amor é leve - ultraleve - mesmo depois da tensão. Quando há amor e ocorre conflito, o conforto que sentimos depois, na reconciliação, é como o relaxamento que toma nosso corpo depois que sustentamos um asana difícil. Mas por que foi que falei tudo isso mesmo? Sim, o relacionamento. Ele pode nos levar a viver de acordo com a alma; ou pode nos levar a deixar que o eu-egóico cresça e conduza a carruagem do Ser para a tragédia. O outro nos ensina sobre perdão, generosidade, paciência. Ensina-nos inclusive a dizer não, a sermos assertivos. Ensina-nos até sobre desapego e sobre deixar ir. Quando a convivência já nada desperta de bom, é hora de ir ou deixar o outro ir. Neste mundo nada morre, nada nasce, tudo se transforma: o amor erótico, passada a tormenta do divórcio, se transforma em amor fraternal. Eros reveste-se de ágape. Em outras palavras, o amor é querer sempre ver o outro bem; é reduzir nosso tamanho para se realizar nas conquistas do ser amado; é doar-se. O resto é egoísmo, posse: o Diabo mesmo possuindo o coração da gente.
- Foi fichinha. Difícil mesmo é o casamento.
Embora pareça lugar-comum, toda prática espiritual nos incita a despertarmos a melhor versão de nós mesmos. Ninguém está aqui para corrigir o outro. Por mais equivocado que o outro esteja, não posso mudá-lo; não tenho qualquer controle sobre ele. Só tenho controle sobre minhas próprias reações diante das atitudes alheias. Há, então, dois caminhos num relacionamento: ou eu busco trabalhar em mim as imperfeições que vejo no outro, porque todo casal acaba por se tornar um pouco espelho; ou justifico minha inércia espiritual e meus erros por meio dos erros do outro. Isto quer dizer que o outro estará sempre certo? Não. Quer dizer que o outro – e seus erros – são meu espelho e lâmpada. Espelho porque enxergo no outro aquilo que o ego não me deixa ver em mim mesmo e lâmpada porque a convivência aponta senderos. No caminho monástico, encontro-me no confronto comigo mesmo. No caminho partilhado, descubro-me na lida comigo e com o outro. Não há caminho melhor ou pior, pois todas as trilhas espirituais levam ao topo da montanha, ao centro da própria alma. A alma é o paradigma, o Maior dentro de cada um de nós, e toda maldade é, de fato, distância dela. Quanto mais longe estamos da Fonte, mais o eu-egóico se torna poderoso. Não há outro Diabo senão esta parte de nós que sempre nos diz que somos imensos, que temos razão, que somos, de alguma forma, melhores que nosso semelhante. Crime e castigo trata disso. Todos nós convivemos com Deus e o Diabo diariamente: a alma e o eu-egóico. A primeira é generosa, humilde, criativa, delicada, luzidia, terna; o segundo, o contrário, e seu maior trunfo é esconder-se, é influenciar e ditar reações sem ser notado. Toda vez que é descoberto, no entanto, o eu-egóico, covarde e vazio, esconde-se nas sombras. Quando a luz da alma ilumina o demônio-ego ele se dissolve feito entidade de filme B. Todo peso no relacionamento é sintoma da doença egóica, porque o amor é leve - ultraleve - mesmo depois da tensão. Quando há amor e ocorre conflito, o conforto que sentimos depois, na reconciliação, é como o relaxamento que toma nosso corpo depois que sustentamos um asana difícil. Mas por que foi que falei tudo isso mesmo? Sim, o relacionamento. Ele pode nos levar a viver de acordo com a alma; ou pode nos levar a deixar que o eu-egóico cresça e conduza a carruagem do Ser para a tragédia. O outro nos ensina sobre perdão, generosidade, paciência. Ensina-nos inclusive a dizer não, a sermos assertivos. Ensina-nos até sobre desapego e sobre deixar ir. Quando a convivência já nada desperta de bom, é hora de ir ou deixar o outro ir. Neste mundo nada morre, nada nasce, tudo se transforma: o amor erótico, passada a tormenta do divórcio, se transforma em amor fraternal. Eros reveste-se de ágape. Em outras palavras, o amor é querer sempre ver o outro bem; é reduzir nosso tamanho para se realizar nas conquistas do ser amado; é doar-se. O resto é egoísmo, posse: o Diabo mesmo possuindo o coração da gente.
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