Mora em mim uma besta
Que se revela ante a luz transversal
Se fujo, ela me persegue
Se a ignoro, ela se avoluma
Se se sente ofendida, ela agride
A besta é a antípoda do anjo.
Mora em mim um anjo
O qual não depende de elogio
Se fulano cai, ele estende a mão
Se cicrano agride, ele abraça
Se beltrano odeia, ele estende amor na varanda
O anjo é a utopia do eu.
Se habito o anjo,
A besta ruge
Se me entrego à besta,
O anjo chora
Mas, se me instalo na luz
É a própria luz quem se diz de meu vazio:
A sombra se dissolve quando o relógio marca meio dia.
sexta-feira, 12 de junho de 2020
NÃO NOS ENSINARAM A FAZER AMOR
Já falei aqui sobre meu primeiro contato com a sexualidade, por meio de uma revista, encontrada há tempos, no lixo. Há algo muito errado no modo como nossa sociedade lida com o sexo e a gente só pode mudar isso junto, conversando. Enquanto nos livros, revistas e demais publicações voltadas às meninas, o sexo aparece como o resultado de um jogo de sedução entre uma mulher e uma espécie de príncipe; os meninos vão aprendendo daqui e dali, com os amigos, na maior parte das vezes por meio da pornografia. Então, enquanto as meninas esperam fazer amor, os meninos creem que se espera que eles façam sexo. Claro, há toda uma corrente de força e poder masculino - bem como do feminino - que se liberta no sexo. O corpo sabe, naturalmente; e tudo o que é natural é bom e é belo. Não é disso que estou tratando; mas do fato de que, para os meninos, há uma dissociação entre amor e sexo. E aí, quando o sentimento mais poderoso que pode existir entre seres humanos faz visita, não sabemos muito bem o que fazer; porque o amor é ternura, ânsia de cuidado e o sexo é a maior expressão de amor possível; por outro lado, há a imagem pornográfica, a insegurança masculina e a competição patriarcal, a dolorosa pergunta interna: e se outro for e fizer melhor que eu? A gente segue medindo as genitálias a vida inteira; obcecados pela performance, quando bastaria ser quem somos, ouvir o corpo que nos acolhe. É preciso que se diga: quando há amor, vai amor também aí, no meio dessa confusão toda. Depois de tanto tempo, sinto vontade de pedir perdão às companheiras que caminharam ao meu lado durante uma parte da jornada. Acho que fiz o melhor que podia, mas perseguia, inconsciente, uma meta e o gesto de fazer amor é um acontecer, um entregar-se, doar e receber; não é um jogo de futebol, ou uma corrida na qual temos de ser o melhor do mundo. O duro é que quando um menino percebe isso, já é homem. Foi ferido e feriu muita gente. Às mulheres que se deitaram algum dia comigo, peço perdão se soei artificial, se não fui suficientemente delicado. Eu não sabia o que fazia. Ainda estou aprendendo a viver e a amar🌻
quarta-feira, 3 de junho de 2020
O DIA EM QUE VI MINHA MÃE CHORANDO NA COZINHA
Fui o único a correr para abraçar meu pai quando ele parou o Fusca em frente de casa. A mãe continuou na cozinha, coando o café; enquanto nenhuma de minhas quatro irmãs mais velhas saiu do quarto para cumprimentá-lo ou pedir a benção. Eu, no entanto, tinha sete anos; de modo que, não importava o que falassem, meu pai era meu herói. “E aí, molecão!” – disse ao me entregar um boné original do Santos FC. Ajudei-o com uma das sacolas, enquanto ele carregava as malas para dentro. Meu pai era o homem mais alegre que já conheci. Quase aos cinquenta, ainda tinha a mesma energia que eu. Como nosso quintal era grande, passávamos os dias jogando bola, peteca; ou pegando amora, atemóia, manga, ameixa no pé. Agora, havia quase um ano que eu não o via. Tempos antes, o pai tinha conhecido uma mulher no trabalho e se apaixonado, e saído de casa. Foi um ano ruim, aquele. Eu não sabia o que tinha feito de errado para ele me abandonar assim. Além disso, as dificuldades financeiras. Não chegamos a passar fome, minha irmã mais velha já trabalhava e a mãe pegava roupas para passar em casa. Houve, todavia, noites em que jantamos os abacates colhidos do pé; com pouco açúcar, inclusive. Só que agora ele estava de volta, meu Pai, e eu estava disposto a esquecer tudo aquilo; como se não tivesse passado de um sonho ruim. O resto da família, no entanto. “Oi, Maria.” – ele disse, beijando mamãe no rosto. Ela permaneceu. Era uma mulher séria; sempre com os cabelos presos num coque e vestimentas muito sóbrias. Seus únicos prazeres eram ler e tocar, no piano, os hinos de nossa Igreja. Entregou uma xícara de café. Ele bebeu devagar. Houve um silêncio denso, como se só os dois existissem no mundo. Depois, meu pai foi para o quarto ajeitar suas coisas no guarda-roupa. Eu junto, agarrado. No fundo, tinha medo de perdê-lo outra vez. Quando estávamos no quarto, no entanto, o pai me entregou uma caixinha com um relógio lindo dentro. “Por que você não vai levar pra sua mãe?” Obedeci, mas quando voltei para a cozinha, a mãe estava descabelada, chorando, soluçando; agarrada à pia como se pudesse ser levada por um ciclone, caso soltasse. No chão, a xícara quebrada em mais de mil pedaços. Fiquei ali, na cozinha de casa, com aquela caixinha nas mãos por mais de trinta anos🌻
O SALTO
Observo meus cães. Estão bem. Encaixados em seus corpos, sem passado ou futuro. Se brigam, não se arrependem, não pedem desculpas; entendem-se naturalmente em seguida. Não há a angústia funda, a dúvida, a aflição de ter de decidir entre o que o instinto grita e a promessa feita ao outro. Ao ser humano é vedado o caminho animal. Do cão ao homem, a consciência dá um salto. Não nos é possível retroceder, só nos resta saltar de novo. O que é grande no ser humano é sua dor. A aflição de ser um Deus preso a tripas e que acaba sabendo de seu fim. Se não sou meu cão, tampouco sou Deus. E é aí que, a partir de um gesto de reverência, torno-me oco, túnel, corda estendida entre o animal e Deus, porque contenho os dois. Há um lugar – no Ser - a que chegamos quando as pupilas, mesmo com as pálpebras fechadas, voltam-se, por si mesmas, ao alto. Um ponto vazio que é ao mesmo tempo passagem e fronteira; eternidade e queda no tempo. Se me assento neste lugar, posso ver meus movimentos no mundo como se fossem de outra pessoa. Posso falar de mim na terceira pessoa. Amor. Quieto neste vazio, não estabeleço diferença entre mim e os corpos que me cercam. Amor. O egoísmo, a ganância, a ira, o ódio, não existem aí; porque o que observo é tanto meu corpo, quanto o corpo do vizinho no mundo e eles não diferem. Amor. Já não me identifico com o “eu”. Só há um sujeito nesta frase e ele não é o ser humano. O salto não é para menos consciência, mas para mais. “Abrirmos a cabeça para que afinal floresça o mais que humano em nós”. Todas as crises apontam para este lugar, mas só uma prática cotidiana sedimenta a trilha para que não haja diacronia entre o eu-vazio e o eu-telúrico. No princípio, o eu-telúrico age e o eu-vazio se manifesta em seguida. Com a prática, ambos passam a atuar em uníssono e é aí o Além do homem, a Iluminação, o Despertar, o Cristo, o Nirvana. Se lemos tantos livros, o que esperamos para ler nossa própria atividade mental? Podem me ignorar; podem matar meu corpo; podem até ferir meus sentimentos, mas nada podem fazer contra mim. Já não sei se sou eu quem vive na Desmesura ou se é a Desmesura quem vive em mim. Não há contornos quando saímos para dentro🌻
segunda-feira, 1 de junho de 2020
QUE É PENSAR?
Pensar é raro. A maior parte do tempo, repetimos aquilo que a sociedade, a escola, a família, o hábito gravou na gente. Uns vêm de famílias humildes e repetem os adágios que a sabedoria popular consagrou. Outros vêm de famílias cultas e repetem as grandes pérolas da cultura. Você já leu um clássico e sentiu no fundo do coração que aquilo dialoga com sua jornada? Sentiu que o texto é uma reformulação das questões que acompanham o homem desde que, saído da caverna, numa noite estrelada, o primeiro hominídeo contemplou as estrelas e se perguntou: por quê? A maioria de nós atravessa a vida adulta sem ter um pensamento (as crianças pensam, daí a fala poética); porque o pensamento é impessoal e não sou eu quem pensa, mas a humanidade quem pensa em mim. Quando calo “meus” pensamentos é que o pensamento acontece; ele é fruto do vazio. E, com o excesso de informação e acontecimentos, pensamos menos ainda. Tudo aquilo com que os jornais, a televisão, a internet nos bombardeia diariamente são os empecilhos ao pensar. A escultura já está na pedra; o pensamento desbasta. E não há pensamento positivo ou negativo: ambos são apostas; hábito de revisitar algo já pensado. O pensamento é novo, vem do vazio e acontece naquela quina de tempo em que o que não há, passa a haver. Lembre das grandes descobertas científicas, de Newton a Einstein, passando por Marie Curie. Todos eles debateram-se com um problema. Quebraram a cabeça. Esgotaram-se. Quando, por fim, distraíram-se, quase desistindo, aconteceu a descoberta: o pensamento. Não há excesso de pensamento, o que há é o excesso de ruído e barulho da mente individual. Imersos na confusão diária, não ouvimos o sussurro que vem de outro lugar: o pensar pedindo passagem.🌻
O LOUCO E A COSTUREIRA
O que ainda me enternece são as coisas pequenas, a alegria do menino ao conseguir amarrar os cadarços pela primeira vez; a menina voluntariosa brincando de carrinho; um pai acalentando o filho; um casal de mãos dadas na praça; skatistas limpando o entorno do half pipe recém construído no Parque Santa Rita. É daí que recolho forças para continuar. Mas mais que tudo isso, ontem meu coração transbordou diante do louco apaixonado pela costureira. Já falei dele aqui. Mora na praça Mãe Preta, Parque Santa Rita. Tenta organizar seu mundo escrevendo no chão. Há ali um livro a céu aberto. Em cada esquina, mora um Bispo do Rosário. Ontem, saí, devidamente mascarado, para dar uma caminhada. Se a gente não morre de Covid, mas corta os pulsos, morre do mesmo jeito. Todas as dores procrastinadas visitaram-me nesta quarentena; às vezes fica foda. Enquanto caminho, vou lendo as frases do Du, o louco. Como as coisas que escrevo, de vez em quando há sentenças bem tristes, solitárias; mas também há muita alegria, esperança, amor - sempre. Notei que, nos últimos tempos, havia muitos poemas de amor. É, o Du está apaixonado. Puxei papo: “Pra quem são todos estes poemas?”. “Ah, Profe, é tudo pra menina que trabalha ali na confecção. Todo dia, ela ia comprar o pão pros funcionários e eu ficava olhando, agora que tá tudo fechado, fico com saudade”. Du não quer realizar seu amor. Reconhece sua condição. Para ele, basta ver a costureira passar com o saco de pão e nada mais lhe falta; seu dia está pleno. E é essa coisa tão singela que me salva; acalma o coração; me faz acreditar quando perco a fé, sabe? E eu me lembro daquele Amor de que fala São Paulo em Coríntios 13: “O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.” Obrigado, Du, por mais esta lição.🌻
NO PONTO MORTO O CARRO NÃO MORRE
Há, no alto ou no fundo da consciência, um eu-vazio que pode observar o modo como o eu-telurico age. Neste lugar, toda angústia se desfaz. De lá, agimos pela inação e podemos decidir, a partir do modo como o eu-telurico atua no mundo, se vamos ficar nervosos, alegres, tristes ou indiferentes. As emoções perdem poder. O eu-vazio, quando conduz a carruagem, é neutro, passagem para a atuação do TAO, o qual atua também nos acontecimentos. Todo desfecho é bom quando o eu-vazio se revela belo, por inteiro, e exige seu direito ao trono.
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