“Desculpe por não ser alegre”. Foi a primeira coisa que ele disse. No meu trabalho, enfrento todo tipo de homens: escrotos, pegajosos, chauvinistas, alegres, babacas; mas os que mais me procuram são os tristes. Deve haver um motivo. Sou garota de programa e não comecei ontem. De modo que conheço um pouco do ofício. Sei o que sei. Em sua grande maioria, são carentes, os homens. Eu ouço. Dou o que querem. Não é apenas um ou outro que prefere conversar. Pornografia eles vêm em toda parte, basta abrir um site; aceitação e abertura não. Ele veio com os amigos. Estavam dispostos a fazer farra. Os cartões de crédito não tinham limites e clientes assim são bem tratados. Eu não sei o que nos aproximou. Eu poderia ter encostado em qualquer outro, só que não. Alguma força, talvez, como aquela que opera entre o Sol e a Terra, entre a Terra e a Lua, entre a Lua e o mar, entre o mar e os afogados: a limalha de ferro ganhando a forma do ímã oculto; destino, enfim. Ele me tratou com carinho, mas fez com força. Um homem pode muito bem ser forte e terno ao mesmo tempo. E disse uma coisa:
- Eu já estou morto!
De um modo tão verdadeiro que quase pude ver através dele. Se abrisse a camisa naquela hora, creio que enxergaria o coração trincado como se fosse de vidro. Os heróis falham. Alguns homens são seres humanos. Temos de chamar as coisas pelo nome e aquilo era uma tremenda suruba. Acontece que, uma hora lá, ele me chamou para um quarto separado. Trepamos como. Pouco antes de amanhecer, pediu que eu buscasse mais uma cerveja. Demorei um pouco, porque estavam fechando o caixa. Quando voltei, ele tinha se enforcado com o lençol amarrado ao suporte da televisão. Como assim? Aquela carne roxa flutuando feito assombração? Semana seguinte, não consegui trabalhar. Agora, queria saber, que tipo de dor leva alguém a cometer suicídio, a se enforcar porra, no meio de uma orgia?
quinta-feira, 7 de maio de 2020
A VIDA: UMA FACETA
A vida é narrativa. Todos estamos aqui contando uma história com nossa fome, carne e sangue. Eu, por exemplo, quero escrever o romance sobre o poeta-jardineiro ferido, instável mentalmente, mas que ainda luta pra crer no amor e no ser humano. É a história do que somos que contamos a nós mesmos e aos outros. Sempre que atravessei uma grande dor, tentei caminhar como Elvis Presley, ou como Marlon Brando, em O último tango em Paris.
ANJOS
Devo confessar: passei dias difíceis. Sou nervoso, instável, acelerado; faço quatro ou cinco coisas ao mesmo tempo. Hiperativo. Estou sempre voltando com a pamonha. A gente busca o que não tem; daí a prática espiritual. Essa é uma das faces, a outra é o oco. Simplesmente não sinto. É como se fosse para outro lugar e observasse um robô aqui embaixo, limpando o coco dos cachorros, lavando o quintal, a louça, fazendo o café. É como se alguém desligasse a televisão da tomada bem no momento do gol. Cria-se, entre mim e minha própria vida, um abismo. Quem acompanha o que escrevo, deve ter observado o urubu sentado sobre as palavras. Sinto muito. Preciso, no entanto, escrever cru como me dói. Caso contrário, não me livro e, daí, corro perigo. Enfim, andei bem mal. Uma estranheza no sol, no ar, nas pessoas, no meu quarto, em tudo. De repente, eu era um estrangeiro de mim mesmo. Moro só com meus cachorros e eles percebem tudo. Preocupam-se. Ao colocar água e comida, já não fazia cafuné na Dara ou jogava a bolinha pro Bruxo buscar. Ele insistia. Pegava a bola e soltava perto de mim. Mas eu não tinha forças. Estava liquidado. Os cães, todavia, não desistem. Então, hoje de manhã, estava lavando a louça, como sempre faço, com a janela aberta. O Bruxo se aproximou e soltou a bolinha da boca bem ali. Como eu continuasse em silêncio, esbravejou latindo por uns cinco minutos.
- Como é? Vamos brincar, ou vai continuar de fuleiragem? Reage, homem! Deixe de ser frouxo! Bora! Olha esse sol!
Só parou quando fui até o quintal e joguei a bolinha longe. Aí, então, o Bruxo abriu o maior sorriso do mundo e saiu correndo louco, mobilizando todos os seus músculos de um pastor alemão de um ano e meio. Vocês precisavam ver. Pura vida, hermano! Foi lindo!🌻
- Como é? Vamos brincar, ou vai continuar de fuleiragem? Reage, homem! Deixe de ser frouxo! Bora! Olha esse sol!
Só parou quando fui até o quintal e joguei a bolinha longe. Aí, então, o Bruxo abriu o maior sorriso do mundo e saiu correndo louco, mobilizando todos os seus músculos de um pastor alemão de um ano e meio. Vocês precisavam ver. Pura vida, hermano! Foi lindo!🌻
ROCK N´ ROLL LULLABY
Trabalhando por quase vinte anos em escolas da periferia, testemunhei de tudo. Vi alunos serem presos, perdidos, mortos; mas o que mais acontece é a gravidez precoce. Todo ano, meia dúzia de meninas de dezesseis, catorze, doze anos, tornam-se mães. Por mais que a gente dialogue, alerte, não adianta; elas teimam em repetir o destino das próprias mães. Sempre ajudo como posso. Durante a gravidez, os professores passamos trabalhos. Quando a criança está prestes a nascer, alguém organiza um chá de bebê com o intuito de arrecadar fralda, lenço umedecido, Hipoglós. E, aí, depois que o neném ganha o mundo, a mãezinha volta à escola pra mostrar seu tesouro. Toda orgulhosa, mãe-mesmo-já, tira o xale e desvela o rostinho:
- Não é linda, profe?
- É a criança mais linda que já vi.
E sempre é mesmo, a mais linda. E então, elas caminham pelo colégio. As amigas brigando pra segurar o rebento como se fosse boneca. Algumas podem pegar um pouco no colo, mas só as mais chegadas. Fico feliz quando o paizinho vem junto também; orgulhoso, peito estufado, por ter feito papel de sujeito homem. Geralmente, no entanto, as meninas vêm só. Do mesmo modo como alerto sobre a gravidez indesejada, sempre jogo limpo em outros aspectos: “mais cedo ou mais tarde, o sexo vai acontecer” - e, para as meninas: “por mais que amem, façam só o que tiverem vontade”. – aos meninos: “respeitem as minas; sempre!”
Todo mundo sabe. Sou louco por música. Vou de Bach a Benito de Paula sem trocar o paletó. Modéstia à parte, conheço um pouco. Sei uma canção para cada ocasião. Quando uma visita assim acontece; no momento em que subo as escadas para a sala de aula; vou cantando uma canção que ouvi quando criança, a qual trata de uma mamãe-criança ninando o filho com canções rock n´roll. E sigo só, cantarolando baixinho, como se fosse uma prece, imitando o coro dos Beach Boys: “Shanãnãnã It'll be all right / Sha-na-na-na-na, Just hold on tight.”
Mãe, estende teu manto amoroso sobre estas crianças inocentes!🌻
- Não é linda, profe?
- É a criança mais linda que já vi.
E sempre é mesmo, a mais linda. E então, elas caminham pelo colégio. As amigas brigando pra segurar o rebento como se fosse boneca. Algumas podem pegar um pouco no colo, mas só as mais chegadas. Fico feliz quando o paizinho vem junto também; orgulhoso, peito estufado, por ter feito papel de sujeito homem. Geralmente, no entanto, as meninas vêm só. Do mesmo modo como alerto sobre a gravidez indesejada, sempre jogo limpo em outros aspectos: “mais cedo ou mais tarde, o sexo vai acontecer” - e, para as meninas: “por mais que amem, façam só o que tiverem vontade”. – aos meninos: “respeitem as minas; sempre!”
Todo mundo sabe. Sou louco por música. Vou de Bach a Benito de Paula sem trocar o paletó. Modéstia à parte, conheço um pouco. Sei uma canção para cada ocasião. Quando uma visita assim acontece; no momento em que subo as escadas para a sala de aula; vou cantando uma canção que ouvi quando criança, a qual trata de uma mamãe-criança ninando o filho com canções rock n´roll. E sigo só, cantarolando baixinho, como se fosse uma prece, imitando o coro dos Beach Boys: “Shanãnãnã It'll be all right / Sha-na-na-na-na, Just hold on tight.”
Mãe, estende teu manto amoroso sobre estas crianças inocentes!🌻
segunda-feira, 4 de maio de 2020
EU JÁ ESTOU MORTO
Faço o melhor que posso com o que me foi dado, mas parece que estou sempre aquém. Hoje, foi aniversário do meu filho mais novo. Pois é, parece que nasceu ontem. Lembro de, no dia, chorar no banheiro, cansado, depois de passar a noite acordado, apoiando o parto. No mesmo dia, no cartório, o escrivão estranhou o nome longo; o sobrenome Lennon ali no meio. “É que sou fã do Paul McCartney” - brinquei. Agora, o cara tem catorze anos, bigode fino e fala grosso. A festa foi na chácara do meu ex-sogro. Cheguei cedo e levei presente. Cumprimentei minha ex, a família inteira: sogra, sogro, as irmãs, o irmão que costumava beber comigo. Todos me ignoraram - absolutamente. Mesmo meu filho se recusou a estender a mão quando ofereci o embrulho. Tenho parcela grande de culpa. Assim como cheguei, saí: cedo, invisível. Pra piorar, quando cheguei em casa, liguei a televisão e passava um filme em preto e branco sobre um rei da Dinamarca que tinha sido muito poderoso; mas que, agora, era só um fantasma triste, impotente; arrastando correntes pelos corredores de seu próprio castelo.
Mais tarde, quando olhei chorando o espelho oxidado do meu próprio banheiro, vi que o fantasma era eu.
Mais tarde, quando olhei chorando o espelho oxidado do meu próprio banheiro, vi que o fantasma era eu.
OS HERÓIS FREQUENTEMENTE FALHAM
Há ferimentos tão profundos que só podem ser feitos pelas pessoas que amamos. E só elas ferem assim, porque só elas podem consolar. A família inteira estava comemorando o ano novo na praia. Como tinham bebido bastante, ninguém percebeu quando o adolescente começou a andar de costas, em direção ao mar. Por mas que sua alma dissesse pra voltar, ele não conseguia: as pernas tinham se rebelado. E continuaram andando, mesmo quando ele já não podia manter o nariz pra fora da água. E as pernas continuaram andando - pra trás, rumo ao mar escuro - até o menino morrer afogado.
APERTE O N. 2
O marido tinha um senso de humor peculiar; parecido com o do protagonista de Ensina-me a viver. Alguns dias, antes de trabalhar, enquanto tomava café, brincava dizendo que odiava tanto o emprego que um dia jogaria o carro de frente com um caminhão só pra se livrar. Ela não ria, ralhava. Qual não foi seu espanto, certa manhã, ao ligar a televisão, num desses programas matinais, e reconhecer o carro do marido envolvido num acidente. O motorista morrera carbonizado. Só a placa do veículo permaneceu intacta. Pelo resto da vida, ela teria de conviver com a pergunta: acidente ou suicídio? O sorriso triste - sempre triste - dele!
Simplesmente não conseguia entender.
Simplesmente não conseguia entender.
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