Em O mal-estar na cultura, Freud retoma uma questão que já perpassa alguns textos de Maquiavel, Schopenhauer e Nietzsche. É o seguinte, o ser humano tem uma face violenta, bestial, animalesca que a cultura – ou civilização - tenta amansar; funciona – der Kultur - como se fosse uma espécie de brida, freio mesmo. Daí o mal-estar, ou alguém imagina que o cavalo se sente confortável com um freio de ferro na boca? Essa parece ser uma lição que esquecemos. Vivemos tão ime...rsos na imagem, querendo parecer bonzinhos, que mentimos para os outros e para nós mesmos sobre a besta em nós. Acho que os antigos compreendiam muito melhor esta questão e incorporavam sua sombra coletiva por meio da catarse: daí as tragédias gregas, o prazer da guerra nos heróis homéricos, as arenas romanas, as mortes públicas na Idade Média. Havia aí um veio para descarregar a volúpia animal, o ódio, a raiva, a ira, a violência. A alma também precisa cagar! Nós suprimimos tais tendências e esperamos que elas milagrosamente desapareçam. Acho que colocamos fé demais no poder da cultura enquanto amansador das bestas. E aí o animalesco explode em focos, em outros pontos, na sociedade, seja por meio dos crimes de ódio – acho que não existem crimes de amor – seja por meio das posições políticas que se situam nos extremos. Quando apertamos demais o parafuso, ele espana. Estou falando tudo isso porque enxergo um estádio de futebol como um espaço pós-moderno de catarse. A torcida ali dentro cospe o que há de mais vil e violento em sua alma. Para algumas pessoas, xingar o juiz é suficiente. Para outras, no entanto, a violência acaba extrapolando o âmbito verbal. É uma questão complexa. Semana passada um juiz parou um jogo por conta de gritos homofóbicos. É a recomendação da FIFA; ela mesma corrupta e violenta. Eu, é claro, sou totalmente a favor; mas fico me perguntando: vigiar e punir é suficiente, muda de fato o interior das pessoas violentas, preconceituosas, homofóbicas? Qual seria o espaço da educação na conscientização? O Estado detém o monopólio da violência para coibir a violência; penalizar – com cadeia que a gente sabe que não resolve – é algo que contribui para a diminuição da homofobia ou só aumenta a ignorância e o ódio latente? Eu não tenho resposta, mas não me contento com as repostas superficiais que estão sendo oferecidas. Repito: qual é o papel da educação na conscientização das pessoas?
Boa semana.