sexta-feira, 13 de setembro de 2019

NA FERIDA


 Em O mal-estar na cultura, Freud retoma uma questão que já perpassa alguns textos de Maquiavel, Schopenhauer e Nietzsche. É o seguinte, o ser humano tem uma face violenta, bestial, animalesca que a cultura – ou civilização - tenta amansar; funciona – der Kultur - como se fosse uma espécie de brida, freio mesmo. Daí o mal-estar, ou alguém imagina que o cavalo se sente confortável com um freio de ferro na boca? Essa parece ser uma lição que esquecemos. Vivemos tão ime...rsos na imagem, querendo parecer bonzinhos, que mentimos para os outros e para nós mesmos sobre a besta em nós. Acho que os antigos compreendiam muito melhor esta questão e incorporavam sua sombra coletiva por meio da catarse: daí as tragédias gregas, o prazer da guerra nos heróis homéricos, as arenas romanas, as mortes públicas na Idade Média. Havia aí um veio para descarregar a volúpia animal, o ódio, a raiva, a ira, a violência. A alma também precisa cagar! Nós suprimimos tais tendências e esperamos que elas milagrosamente desapareçam. Acho que colocamos fé demais no poder da cultura enquanto amansador das bestas. E aí o animalesco explode em focos, em outros pontos, na sociedade, seja por meio dos crimes de ódio – acho que não existem crimes de amor – seja por meio das posições políticas que se situam nos extremos. Quando apertamos demais o parafuso, ele espana. Estou falando tudo isso porque enxergo um estádio de futebol como um espaço pós-moderno de catarse. A torcida ali dentro cospe o que há de mais vil e violento em sua alma. Para algumas pessoas, xingar o juiz é suficiente. Para outras, no entanto, a violência acaba extrapolando o âmbito verbal. É uma questão complexa. Semana passada um juiz parou um jogo por conta de gritos homofóbicos. É a recomendação da FIFA; ela mesma corrupta e violenta. Eu, é claro, sou totalmente a favor; mas fico me perguntando: vigiar e punir é suficiente, muda de fato o interior das pessoas violentas, preconceituosas, homofóbicas? Qual seria o espaço da educação na conscientização? O Estado detém o monopólio da violência para coibir a violência; penalizar – com cadeia que a gente sabe que não resolve – é algo que contribui para a diminuição da homofobia ou só aumenta a ignorância e o ódio latente? Eu não tenho resposta, mas não me contento com as repostas superficiais que estão sendo oferecidas. Repito: qual é o papel da educação na conscientização das pessoas?
Boa semana.

FLUÊNCIA

Quando os sábios do Oriente insistem que é preciso calar o desejo, referem-se ao desejo do ego; do cogito que se imagina puramente racional, mas é desejo tanto quanto razão. Há que se distinguir desejo, vontade e fluência. O desejo é egoico; a vontade é aquela que tanto Schopenhauer, quanto Nietzsche e o primeiro Cioran enxergaram. A vontade é menos individualizada que o desejo. O problema é que enxerga a natureza apenas como luta. A fluência é próxima do ela vit...al, de Bergson. É a naturalidade criativa com que o rio flui para o mar, sem desejo. Quando o sábio cala o desejo, é para seguir a fluência, não é para morrer em vida. É por isso que Deleuze, Guattari, Foucault, _____________ não convencem em sua desconstrução do sujeito. Permanecem presos ao desejo, às máquinas desejantes que se apropriam do eu. Heidegger afirmava que, antes de Dizer, precisamos ouvir o Ser (Eu Sou). Quando calamos o desejo, ouvimos a fluência, a voz do Ser. Estamos de acordo com o destino do mundo. E, se pensamos, é o pensar do Ser: o modo como o Ser se manifesta unicamente no ente humano; pensar poético que supera o Humanismo e dá ao homem a possibilidade de pensar com humildade, em consonância com a Terra.

TESOURO DE UM AMOR QUE VAI CHEGAR

 O que eu vendia era morte, Senhora sabe, mas também era sonho, serenidade, sorriso, som de passarim no mato de manhã... Fim feito colo de mãe; menino entrado no riacho; mocita recebendo regla primeira. De negócio não entendo e de trabalho não gosto. De meu feitio é entrar n’água, qualquer filete já me cura um pouco. E, nas Minas, subia nos morro e olhava o imenso. É Deus, num sabe, aquilo que não cabe na gente, extravasa: tantão de tão; Imens...idades. Quando vem o Mayor é ansim, com pézim de bailarina, como quem não quer, e é sol se pondo, avermelhando, u’as nuvem, azul de dez diferenças: o sol. Parecia que não era nada e então é lágrima que corre porque é boniteza demais pra pele de menos: o sol. E é Deus-menino pregando peça, tecendo beleza no céu e derramando do coração da gente: o sol. Eu queria era ser livre e olha onde vim. Qualquer maneira, quando a gente caminha na beira, não tapa o sol com a. Eu penso é que tudo é Deus espalhado: cheiro de cravo, calor de canela, passarim, joaninha, cheiro de erva, a folhinha que morre quieta entre as pedras do rio; mãe minha fofocando na janela e a música que tocava no meu radim de madrugada. Vou dizer, Senhora, eu descolava da vida quando a solidão vinha morar ni mim. Doía tanto que eu nem sabia respirar; que dirá dizer a outrem. Falar? Falo. Primeira coisa que vier? Pois é nome próprio: Mariana. Mariana-mulher, massa do pão e luz do suor. Conto. Tinha u’a menina cuja graça era Sandra e eu gostava dela de muito. Sim. Mas não dizia, porque tinha medo. Uma vez, comprei bombom, mas não dei. Era amor de menino, puro que nem mel quando gente aperta a colmeia entre as mãos lavadas. Eu tinha amigo, nome não digo. Amigo meu devera. Era carne e unha, unha e carne. Onde um parava, outro demorava. Pois eu amava a menina e não dizia porque. Tímido? Sim, até hoje quando não conheço e onde tem gente demais. Fico sem jeito. Enfim, gente estudava tudo junto e Sandra, no fim, se-enamorou-se foi desse amigo meu. Perderam junto a virgindade. E eu? Fiquei chorando só, de madrugada, doendo, criando bolha no coração, ouvindo rádio romântico. Meu amor e amigo meu; meu destino em solidão. Óia, hã. Sei que pegaram namoro e garraram andar de mão dada pela rua. Meninada bulia comigo. Menino sente pena não. Por despeito, fui pra zona, levado por patrão meu. Moço novo, dono da padaria onde eu vendia sonho nessa época. É aí que entra Mariana.
- É cabaço – disse a Dona – e cabacim assim quem quebra é Mariana.
Tinha idade mesma; ou quase.
- Vou cuidar de você. – E me abraçou pelada, cobra di vrido. E, se Deus fez coisa melhor que corpo de mulher, esqueceu de pôr no mundo. – Vou te ensinar o amor. – E foi, Mari-mariana.
Saudade, sim.
Que foi feito da casa de nossa infância, Senhora?

BUM, BUM, BUM

O milagre o povo sabe o que significa. Ele mudou da água para o vinho - dizem. Querendo dizer que a pessoa parece outra, mas que, na verdade, apenas voltou pra casa. Resgatou a criança. É sintomático que, na parábola, isso ocorra numas bodas, em Canaã. No casamento com o Sagrado, ou melhor, em nossa reconciliação, mudamos, reencontramos a criança em estado de brincadeira e inocência. Quero largar a carcaça no deserto e regressar ao lar do meu coração, agora livre de toda fuligem e ferrugem. Em breve, será tempo de pipa outra vez. E o céu há de se vestir com a cor de todo menino.
Estou pronto.
A casa está limpa.
Venha pra morar de vez dentro de mim.

COMO?

 Já o que dói em mim não é a dor que a vida impõe. Julgo-me musculoso suporte para qualquer chaga. O que hoje me fere é a dor que espalho ao passar: o inseto esmagado pelos meus pés cegos, a vida ceifada - mesmo vegetal - que alimenta minha rotina, a mulher cujo anseio não posso atender. Ando tão difuso que já não sei se o que dói em mim é meu rim ou o rim do mundo. Não há delicadeza que nos impeça de ferir. E quando cravo a enxada no chão, ainda que seja para plantar amor e ternura, ouço os gritos sagrados da Terra. Como?

SERENADE

 Deus num tem pressa; não há carreira no eterno. Age na lei do manso, Deus. Tem cavalo que. Uno passa a mão no focinho e o bicho oferece a cabeça; cheio de Deus por dentro e milagre no olho. Cachorro também. E gato. E os homens; na música, gente bruta fica delicada, um precisa do outro, outro necessita do um: vamo fazê isso junto? Um acompletando o outro, que nem humanidade, ciranda, criança de mão dada à roda do quintal. Serenade, sol, sereno, geada nas planta de man...hã; nuvem na baixa em riba do pasto. E na cidade também tem, mas é menos: vi criança de rua brincando com bebê que tava em cadeirinha, banco de trás de carrão importado, hein? E sorriam, os dois, sem saber de abismos. Mas o sinal: verde vã esperança: vrum. E foi. Deus. Deixou perfume de flor. Vontade de suspirar dentro da gente e ajudar a quem precisa. Passou passarim e era Deus de novo, se amostrando pra outro que nem percebeu. Num é só Diabo, Deus também mora no detalhe; tudo pequenim, delicado, amoroso: cafunês. Milagre não num faz estrondo. Eu via, pois, tempo que vendia doce, tinha vô, tiozim-já, que levava a neta no ponto, cinco hora da manhã, e só voltava pra casa depois que a menina entrava no buzo, sô. Como é o nome disso? É Amor. É Humano. É Deus. Oferenda de tudo que se é ao outro. Quem ama fica miudim pra se alegrar na grandeza do outro. É Deus no meio; na semente rompendo a casca, no pintim trincando o ovo. Quem quiser que explique, eu suspiro e choro. Sou cientista não. Menino admirado. U’a veiz, Senhora, fiquei tão triste que pensei morrer. Tenho disso. Triste que nem bicho triste. Que nem sinal de fábrica às sete da manhã. Que nem... Peguei faca na cozinha e tava em ponto de rasgar a goela de ponta a; mas Deus entrou na mão e eu desviei a faca pro bucho e a ferida se-fez-se filha e flor e Sofia; u’a rosa vermeia crescendo em mim; que era o Cristo mesmo feito em flor. Eu sinto, Senhora, que não estou dentro: neste cuerpo cheio de nervo, osso e veia; eu fico é Fora e me visito vestido de brisa, suavidá, Amor meso, uai. Que diferença faz se esse cuerpo não for? Se ele roxear e apodrecer? Eu continuo, no Fora, no meio de Deus, atravessando a brincadeira entre menino milionário e menino de rua. E o que fui – e que só eu podia ser – fica também, na palavra, dentro de quem cuido e amo: u’a rosa, u’a Benedita.
Meu nome já não pode ser Mineirim, só Amor.

domingo, 25 de agosto de 2019

FILHOS, LENNON, BILAC E CARTOLA

Cada um cria os filhos do modo como consegue e acha melhor. Aqui em casa é na base da liberdade. Nunca mandei o João ou a Sofia lerem um livro, mas tenho muitos livros e eles me viam lendo muito um tempo atrás. Com a música é do mesmo jeito. A gente divide. Com o Lennon, por exemplo, numa parte da viagem, o rádio é dele; na outra, é meu. Gosto muito de ouvir uns funks, no flow etc e tals... A gíria é a língua em devir; língua menor, máquina de guerra, you know, toda essa baboseira conceitual. Mas, durante o meu comando, eu é que comando, uai; ainda que a Arte chegue sem precisar de mando. Outro dia, tocou Morro Velho, do Bituca, e, quando terminou, o Lennon - João - estava trêmulo, tocado por aquele enredo tão triste e aquela música mineira de carro de boi; som que viajou trezentos anos só pra chegar aos nossos ouvidos. É assim: um dia videogame, outro dia Cervantes, ou. Sem pressa e sem pressão. Funcionou muito bem com a Sofia. Ela se tornou um mulherão. Maior orgulho do papai aí. Mas eu queria mesmo voltar ao som do carro. Hoje, tocou Cartola, O mundo é um moinho, e eu expliquei a história da canção, dando uma enfeitada pra aumentar o drama. Vi o João em silêncio, sorvendo cada palavra, cada acorde. O milagre também é estético. Quer coisa mais bonita que um milagre assim, segunda-feira de manhã? Enfim, deixei o João na escola e voltei pensando no Cartola e no milagre que ele é. Não acho Bilac ruim, não; mas creio que sua obra maior foi mesmo o Cartola. Um acadêmico e um favelado. Coisas do Brasil. Como é que pode um homem sem qualquer instrução formal ser um gênio da língua feito Agenor? A forma como usa a segunda pessoa do singular, o tu, faz o amor ganhar um patamar transcendental: "devias vir para ver os meus olhos tristonhos". Fala de um amor que atravessou o mundo em caravelas, navios negreiros e foi aportar em meio aos barracos da favela. Os vivos do tempo presente somos a boca e a voz de todos os mortos. Quando digo olá, até Camões diz comigo. O grande barato de ser brasileiro, e que nada tem a ver com odiar, é ser liquidificador. O ponto exato onde o batuque de origem mama-África encontra o barroco-católico-português e o culto à mata do guerreiro-índio-menino. Foi uma boa aula pra mim e meu filho. Fomos visitados.
Boa dia e boa semana, amigos.