É pelo umbigo que os outros me penetram. Então, quando falo com alguém com quem não queria, tento tampar, de modo sorrateiro, por baixo da blusa, o umbigo com a mão esquerda. Tem gente que diz que o umbigo é espelho, marca de nosso narcisismo, a gente só olha o próprio umbigo, né? Aceito que pode ser, mas não só. O umbigo é mais. O umbigo é a marca de nossa ferida ontológica no corpo. A cicatriz de nossa individuação. A prova de que éramos uno com e, um dia, fomos arrancados de Deus. O umbigo é a prova de que o ventre, antes tão largo e acolhedor, tornou-se estreito num dado momento e precisamos saltar para a Terra, esse outro ventre, só um tiquinho maior: umbigo. Umbigo que se apaga quando voltamos pra casa, findada a jornada. E quando digo que minha ferida reconhece a ferida alheia, é porque meu umbigo se abre, feito rosa vermelha, para o umbigo do outro. Ele, meu irmão/irmã, assim como eu, também tem umbigo. Então sei que preciso ser paciente porque vem ferido, vem magoado, todo lascado; vem com a alma cheia de bolhas tal qual ovo na frigideira. Ser humano é ser atravessado pela dor. Mais que a razão, é a capacidade de doer que nos diferencia: mais que animal racional, o humano é o animal que dói. E Adão não tinha umbigo. Assim como os anjos também não. De alguma forma continuavam/continuam íntegros no Uno. Os seres humanos, por outro lado, têm um abismo na barriga. Se mergulharmos nele, encontraremos Deus do outro lado de braços abertos; tal qual pai que pede que o filho pule no seu colo dentro do rio. Pode pular, Ele não vai tirar os braços no instante final.
Tinha mais coisas pra dizer, só que não sei como. Queria terminar isso e também não sei como. Vá lá, entonces: o umbigo é a o portal da empatia; porque, pelo meu umbigo, reconheço o umbigo alheio. Se você permitisse, beijaria seu umbigo todas as manhãs; tal qual um Deus que beija as chagas de seus filhos leprosos.
Queria que o mundo fosse um lugar mais feliz e os umbigos, em vez de marcas de egoísmo, seriam marcas de irmandade como eu vejo.
Agosto chegou tropeçando.
quinta-feira, 1 de agosto de 2019
A CARTOLA DO MAGO ESTÁ VAZIA
Eu queria falar desses cachorros que uivam a noite inteira e parecem cantores de blues. Queria falar de limões e espinhos. Queria descansar minha cabeça dura no seu ventre molhado. Queria dormir, escrever, esquecer, esvaziar tudo o que sou num canto escuro. Há algo aqui que pulsa e treme: neon vermelho. Só que eu não sei escrever isso. Não quero organizar, porque organizar, em muito metro, é destruir. Sempre me sento para escrever e confio que o texto virá. Devo ter fé no escritor que sou. É impossível escrever e, contudo, veja quantos livros nas estantes. Ponho-me em marcha e o mar se abre – depois. Mas hoje não. O caos se nega a parir a estrela bailarina. Do que é que falávamos mesmo quando nos desentendemos? Isso tinha mesmo importância, ou era só orgulho? Ou medo de colonização? Ou trauma do homem anterior? Esse mesmo que não sou. Deixo as certezas para as redes sociais. Hoje sou só esse não-saber. Essa perplexidade sem nome. Essa confusão por dentro que me revira as vísceras. Você me bagunça todo, menina, e, quando saio na rua depois, mesmo não bebendo mais que água mineral, toda a gente me olha como se eu estivesse muito louco. Não tem mesmo muita diferença entre estas manhãs e aquelas de ressacas. Seria tão mais fácil dizer de modo simples: foi mal, ou: eu errei. Mas não, construímos uma Fenomenologia do Espírito para justificar um não sei o quê. O que foi que se passou mesmo? Tateio e não encontro coisa. A cartola está vazia. Não há nome para essa loucura. É o Diabo na rua no meio do redemoinho. É uma ânsia de. E tem aí esse presidente... Os filhos... E os índios se fodendo... E esse povo dividido em corpo e alma. Eu sou só energia; solidão atravessada pelas muitas caravanas. "Esperanças!" - você frita como se falasse de Supernovas. "Intensidades!" - você diz. Um Buraco Negro é o devir de toda Supernova. E esperanças existem muitas, aos montes, expostas nas prateleiras dos botecos, mas não para nós. Você me morde e eu te mordo. Quero beijar tua boca, mas minha gengiva sangra. Não sei se isso é sexo ou guerra: essas testas que se batem como metais. Esse egos doidos que não cedem nem ao gozo. E isso tudo aqui é um não-texto, porque o silêncio me toma pelo avesso e eu sufoco se não escrevo, mas não sei o que é. Sinto-me cego, num quarto escuro, à procura de uma porta preta que não está lá. Se tentasse ler os diários de Kafka hoje, cometeria suicídio. Escorpiões, crisântemos, cavalos e cavalos marinhos. Todo amor dilacera – Adelaide Do Julinho escreveu num poema de pedra. Deixe-me ir. Preciso andar. Vou por aí a procurar rir pra não chorar.
Isso tudo me cansa, muda a cor da minha energia.
Isso tudo me cansa, muda a cor da minha energia.
DINOSSAUROS
Há tardes em que fito o poente e fico pensando: o que será que os dinossauros sentiram quando olharam o céu e tiveram a certeza de que aquela era a última vez? É nessa hora que sinto o couro grosso sobre a carne dura, os dentes todos em presas transformados e percebo garras no lugar das mãos. Sim, alguns tiranossauros choraram ao guardar os filhotes brincando pela última vez.
O meteoro já rasgava o céu.
Como é triste não ser um deus.
O meteoro já rasgava o céu.
Como é triste não ser um deus.
CIGANO
nasci do vão que treme entre duas placas tectônicas. Mamei do magma das fissuras. Então se achegue com cuidado, maninha; pois posso incendiar teu ventre com minha indigência. Mas meu fogo, depois do gozo, é puro carinho e cuidado. Eu queria te levar ao silêncio de onde nascem todos os poemas. E andar com você, mãos dadas, pela quina. Acho que é amor. Ou, no mínimo, dispersão. Não tenha medo. Segura o calor. Essa labareda estendida é só minha mão. Vem, é tempo de ser Sol e ensinar o mundo a tecer manhã.
DE UM CURTIS A OUTRO
Uma das minhas bandas favoritas sempre foi o Joy Division. Por muito tempo, cultivei o lado sombrio e vesti roupas pretas. Há certo fascínio em arrancar as casquinhas das próprias feridas. E eu era menino e ficava de noite arrancando cada casquinha que encontrava até que a ferida voltasse a sangrar. Não sossegava. E, como seria natural, nutria fascínio por Ian Curtis, gênio que deu cabo de si aos vinte e três. Mas, aí, tive filhos, vivi, peguei bicho pra cuidar, plantei flores. Já não visto tanto preto. Mudei de Curtis. Agora, não ouço tanto o Ian, fico mais com o Mayfield. Não precisamos ter vergonha de nossa alegria só para parecermos profundos. Ser negro me dá esse direito e consciência. O mais profundo é a pele; superfície pura. A gente pode optar pela alegria sim; mas, no Ocidente, alegria parece ser sinônimo de alienação. A gente pode ser alegre sem ser alienado. Até porque resistir não é só suportar, mas enfrentar com força, alegria e energia. Samba é resistência e jazz, e blues, e soul. Eu me mantenho em movimento e coloco meu terno cor de laranja pra trabalhar. Alegria, sol e sensualidade; transbordamento e esperança. Nesse som; repetição e diferença, jazzy. O tema é dado e repetido várias vezes, mas nunca do mesmo modo, há mil variações possíveis sem que o horizonte se perca. E há tambores, bateria, ESSES TAIS METAIS! Na metade da canção, o som parece que vai acabar; só que não, há uma pausa e tudo se repete sobre a forma vazia do tempo. Repete-se o ciclo inteiro – que é ele mesmo estruturado sobre repetições diferentes - sob novo eixo... Esse sopro alucinado, orgástico. O tempo fora dos eixos do qual Hamlet falou. Eterno retorno sim, só que da diferença. Isso é tão preto – mas com roupa colorida! - e me dá tanto ânimo pra retornar ao trabalho depois das férias. É um prenúncio do dance, do house, da música eletrônica: essa bateria... Arruma espaço na van e vamos lá trampar! Eletrificados!
move on up.
move on up.
CORAÇÃO-CABARÉ
Se teu coração não for como um cabaré
Se ainda fizeres distinção
Se nele não couber o mundo inteiro,
Ainda não será um coração e a criança não terá nascido.
Teu coração deve ser como uma puta
- APRENDE O AMOR COM AS PUTAS –
E entregar misericórdia até ao canalha
Até ao político canalha
Até ao clã Bolsonaro
Teu Amor deve doar e doar e doar até
Ou não será ainda Amor, mas vaidade
E a vaidade te torna igualzinho àqueles que não cabem no teu próprio coração.
Se ainda fizeres distinção
Se nele não couber o mundo inteiro,
Ainda não será um coração e a criança não terá nascido.
Teu coração deve ser como uma puta
- APRENDE O AMOR COM AS PUTAS –
E entregar misericórdia até ao canalha
Até ao político canalha
Até ao clã Bolsonaro
Teu Amor deve doar e doar e doar até
Ou não será ainda Amor, mas vaidade
E a vaidade te torna igualzinho àqueles que não cabem no teu próprio coração.
COMUNISMO
Nunca li Marx direito porque nasci poeta e meu trabalho é sonhar. A Revolução que vislumbrei acontece depois e nela há lugar para abelhas, borboletas e bolhas de sabão. Vi o que o ser humano poderia ser. Vi que o trabalho poderia ser poesia, quando todos cuidariam do bem do irmão ao lado; quando o homem deixaria de ser um Sísifo-Diário, realizando tarefa sem sentido, para ser o grande agricultor celeste; e a alface que plantei estaria bem ali ao lado, no prato de minha irmã. Quem não levantaria jovial para labutar assim? E a família encontraria seu fim. Não porque ela é em si má, mas porque seria vista como posse, mesquinharia. Haveria uma só família; a humanidade. Um pai, o Céu; uma mãe, a Terra. Já não existiria o meu filho ou o seu filho, só nossas crianças. E a apresentação do meu filho, ou as notas dele, não seriam mais importantes que as do seu. E o amor seria um transbordamento de ser, sem contorno. Ainda que pudesse ser dirigido a um objeto, não existiria esse sentimento de posse e ninguém poderia mais dizer: meu marido, ou minha mulher. Já ninguém seria escravo de ninguém, algemados aos boletos bancários e às muitas dívidas cotidianas. E o sexo já não seria essa masturbação a dois, mas uma doação de amor, um cuidado com o outro, festa, alegria: crianças brincando com os corpos. O pronome eu seria abolido de vez para a construção de um grande nós. E a natureza seria sagrada como a barriga de Deus. E a mulher, esse Deus escravizado, seria adorada num altar, já não mais serva do amor masculino, mas professora do corpo, bailarina do prazer, encarnação do milagre que é trazer vida ao mundo. Todos os corpos seriam belos, porque não haveria comparação, cada corpo já é em si um milagre. E o corpo, agora liberto e feliz, seria a fonte de mil volúpias e gozos; e já nenhum prazer poderia ser chamado pecado, tal palavra perderia significado. O corpo como perfeição. E já ninguém trabalharia doze horas por um prato de arroz com feijão. E ninguém viveria em barraco ou mansão. Cada mulher seria Eva e cada homem, Adão e, mesmo Deus seria desnecessário, pois se manifestaria em carne e osso no meio da rua, na mão estendida, no peito aberto de cada irmão. Não haveria necessidade de louvar um Deus silencioso em templos, porque o maior dos templos seria o corpo de meu semelhante. Vem comigo, me ajuda a construir, eu vi. O além do homem não está em Nietzsche, mas em Maiakóvski. Cuidemos de nós, façamos do nosso cantinho de mundo horta e jardim... Sem ciúme, sem inveja, sem mesquinharia, sem comparações, sem miséria; só amor; o muito-muito amor, esse outro nome da palavra comunismo, anarquismo, cristianismo... Ressuscita-me, enquanto toco esse noturno louco na flauta dos esgotos.
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