A
melhor crítica que li sobre certos filmes pretensiosos e vazios foi feita por
Alfred Hitchcock em entrevista a François Truffaut. Num momento tenso da
conversa, no qual Truffaut pede insistentemente que Hitch defenda o seu O homem errado, o cineasta inglês se sai
com esta pérola: “Mas, me diga, você quer me fazer trabalhar para os cinemas de
arte?” Está aí um comentário que desfaz diversos imbróglios da crítica. Muitas
vezes o crítico torce o nariz para uma obra porque ela não vai pelos caminhos
que ele julga artísticos, sem levar em conta a intenção do artista e o fato de
ele ter ou não conseguido atingir seus objetivos. Em outro momento do
comentário sobre este mesmo filme, Hitchcock ressalta: “Mas você deve se
lembrar de que O homem errado foi
feito como um filme comercial”.
Tudo isso me veio à mente depois de
assistir a Moonlight:
Sob a Luz do Luar. Trata-se de
um filme comercial, linear, por vezes emotivo demais, mas sem dúvida um bom
filme, melhor que muitos goddard´s. O filme conta a história de um menino
negro, pobre, homossexual (?), desde a infância até a vida adulta. É um filme
doloroso, que retrata bem o que é ser gay na periferia, país no qual o que
impera não é a sensibilidade, mas a força física e a intimidação. O enredo é
dividido em três partes. Na primeira, vemos Chiron, o protagonista, ainda
menino, crescendo numa vizinhança pobre de Miami. Por ser tímido e sensível,
Chiron é perseguido pelos demais meninos. A mãe do protagonista é viciada em crack,
paradoxalmente é em Juan, o traficante da vizinhança, que Chiron encontra amparo.
Algumas cenas chamam a atenção, as mais belas envolvem a relação do menino com
o mar - que atravessa todo o enredo - e com a dança.
Na segunda
parte, encontramos Chiron já adolescente, magrelo, desengonçado, descolado do
mundo que o cerca e da existência; sofrendo violências ainda mais severas. A
mãe desce abaixo no abismo do vício. Há aqui ainda a descoberta do amor e da
sexualidade, além de uma viragem do protagonista que, pela primeira vez, deixa
de ser passivo e passa a revidar: já não oferece a outra face.
A terceira
parte começa com o close numa boca forrada de dentes de ouro; é a boca de
Chiron adulto. Agora um homem alto e musculoso que dirige um carrão ouvindo rap. Sabemos que se tornou traficante e
transformou o corpo numa armadura. Mas Chiron não consegue dormir durante a
noite. É atormentado pela própria cegueira de seu desejo. O desejo não conhece
moral, desrespeita as regras do tráfico. Uma noite, o amigo da adolescência,
que foi o dono de seu único beijo, de seu declínio e de seu ponto de mutação,
liga. O passado volta então ao presente. Na verdade, o passado sempre esteve
lá. O passado não foi, o passado é. Se o passado tivesse ficado no passado,
seríamos puros como Adão, como os bebês, não sofreríamos.
O filme levou três Oscar´s
nas categorias: melhor filme, melhor roteiro e melhor ator coadjuvante: Mahershala Ali. Acredito, entretanto,
que a melhor atuação é de Trevante Rhodes que interpreta Chiron já adulto. Ele
consegue passar a dor, a ternura, o amor, a confusão do personagem em um único
olhar.
Seria interessante estabelecer uma conexão entre Moonlight: Sob a Luz do Luar e O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee. Homens em ambientes de homens brutos, mas apaixonados entre si. Um Romeu e Julieta gay seria Romeu e Romeu ou Julieta e Julieta. Quando o mundo no qual estamos inseridos não nos aceita, não nos reconhece, não nos acolhe; nós também não nos aceitamos, reconhecemos ou nos acolhemos. Não nos resta então outra alternativa a não ser nos voltarmos contra este mundo, mesmo porque estamos doentes. O ser humano precisa de outro ser humano que lhe abrace e lhe devolva a pele e os contornos quando está em dispersão. O ser humano precisa de outro que lhe sussurre: “eu te compreendo, não há porque pedir perdão”.
A trilha
sonora é magnífica, muito soul, muito som da motown, rap, sonzeira de
malandro, já começa com a porrada Every
nigger is a star, passa por Caetano Veloso cantando Cucurucu paloma e chega ao auge com Hello stranger, de Bárbara Lewis.
A fotografia
em tons de azul, refletindo uma parábola que Juan conta ao menino Chiron na
primeira parte do filme, também é muito eficiente.
Acho que
vale à pena assistir, levando no coração a advertência: não é fácil ser
sensível na periferia.








