Wished
I could be in your heart
To be one with your love
Wished I could be in your eyes
Looking back there you were, and here we are
Moody Blues
Abiloaldo Gilgamesh Amaral, meu amigo,
era um homem muito melancólico e... feio. De tão feio, quando nasceu, o médico
em vez de dar uns tapinhas no bumbum do novo ser humano para que ele pudesse
respirar, espancou a mãe. O doutor perdeu o direito de exercer a medicina, enlouqueceu,
foi preso em manicômio judiciário; houve passeatas feministas por todo o país
durante o julgamento. Abiloaldo já nasceu sob o signo da desgraça e, quando
cresceu, se tornou poeta. De inspiração drummondiana, vivia repetindo os versos
do mineiro: “E o hábito
de sofrer, que tanto me diverte, é doce
herança itabirana.” Frequentamos a faculdade de Letras, no interior de
São Paulo, juntos. Seu rosto parecia uma obra de arte, um quadro cubista: olhos
para um lado, nariz para o outro, orelhas na frente da carona de bolacha
traquinas. Nada em sua silhueta era simétrico. Enquanto eu sofria a
invisibilidade, ele sofria por ser notado. Ninguém passa por este planeta sem
sofrer, mas alguns são assinalados. Grifados com a caneta vermelha de Deus.
Aos vinte e
poucos anos, numa noite em que estávamos só nós dois, ouvindo música na
república na qual vivíamos, confessou nunca ter dado um beijo em quem quer que
fosse. Aos trinta e poucos, veio passar uns dias comigo: a primeira e única
namorada tinha lhe dado um pé na bunda e ele mergulhara na depressão feito
surfista no mar.
- É como um
mar, mas um mar de piche... Quanto mais tento sair, mais o negrume se agarra à
minha pele, ao corpo. E faz tanto frio...
Em casa, ele
passava a noite inteira acordado, fazendo barulho e, quando minha mulher e eu
saíamos para trabalhar, ia se deitar. Andava bebendo também. Já não tinha
esperanças, dizia. Ela, a minha garota, já estava perdendo a paciência.
- O cara é
meu amigo. Não posso jogar ele na rua.
- Não
aguento mais. Além de triste e feio, ele é folgado. Quando chego em casa – ela chegava
primeiro que eu -, está tudo sujo... Copos, pratos e panelas na pia e ele
deitadão, roncando. Vai ser triste assim no inferno.
- Tem um
pouco de paciência, de empatia. Você já reparou no rosto do cara?
- E como não
repararia.
- Então... E
se fosse você? Se tivesse nascido com um rosto daqueles?
- Cometeria
suicídio antes da puberdade.
***
Nunca usei celular.
Tenho aversão à tecnologia. Ainda escuto música em vitrola. Certa manhã, estava
em sala, dando aula, quando me chamaram na secretaria: alguém queria falar
comigo ao telefone. Era meu amigo. Estava bêbado, desesperado. Tinha tentado
suicidar-se. Larguei tudo e corri pra casa. Nós tínhamos vivido quatro anos sob
o mesmo teto. Quando cheguei, minha mulher já estava lá, bem como a ambulância
e a voiture policial... Ele, deitado
no sofá.
- O que você
fez?
Ficou quieto,
não respondeu. Ela me mostrou uma cartela vazia de comprimidos. Ele tinha
tomado uma caixa inteira de comprimidos de maracujina, calmantes naturais. Eu
tinha em casa álcool, água sanitária, cartelas e mais cartelas de alprazolam 6
mg, sertralina, cloridrato de naltresona, chumbinho, mas ele escolhera
maracujina para cometer suicídio. Não estava assim tão afim de morrer.
- Ele é tão
patético! Chega a despertar a solidariedade na gente – disse minha mulher mais
tarde, quando estávamos na cama, enquanto cruzava os braços para que eu não
tocasse seus seios.
***
Tocamos o
barco.
Abiloaldo,
lentamente, começou a melhorar. Às vezes, quando chegava do trabalho, antes de
parar o carro, ouvia o Tim Maia cantando Sossego
alto nas caixas de som. Ele maneirou na bebida e começou a limpar a casa
enquanto estávamos fora. Minha mulher já não reclamava tanto quanto antes.
Muito pelo contrário.
Um dia
cheguei do trabalho e a casa estava vazia. Nem meus discos estavam mais lá.
Sobre a mesinha de centro da sala, um bilhete da minha mulher que começava
assim: “Você pediu que eu tivesse um
pouco de empatia pelo Abiloaldo. Segui seu conselho e percebi que ele tinha uma
alma linda...”
Os dois
tinham fugido juntos. Apaixonaram-se. Abiloaldo – o talarico - tinha uma linda
alma para compensar a desgraça do rosto. E eu que achava que com ele não corria
perigo...
Montanhas
são lugares altos e mulheres são seres complexos. Quando cometemos adultério, a
culpa é nossa... Quando elas cometem, a culpa também é nossa...
Eu tinha
pelo menos mais uns trinta anos pela frente, mas me sentia fraco demais para
suportar tanto futuro nos braços.
A vida não é
estranha?
A vida não é
mesmo muito estranha?

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