Gosto de artistas que não fazem concessões, de Van Gogh a Leonard
Cohen, mesmo porque as pessoas querem o que lhes é familiar e a pressão externa
é sempre por mais do mesmo. O que é original causa estranheza, sussurra-nos
histórias de mundos que sucumbiram no lado obscuro do tempo, enquanto o lado
luminoso, do tempo, nos revela a História, mas também a orquídea, a pedra e o
pássaro. A maior forma de respeito ao publico é não fazer concessões a ele. Não
que aquilo que é hermético será necessariamente bom, mas, ao tentar facilitar as
coisas para o público, subestimamos o público. Traímos o pacto de cumplicidade.
Pensar no leitor é enganar o leitor. Pensar na plateia é enganar a plateia. A
arte ousa o fracasso. Mesmo porque em nosso tempo tudo é, há muito se sabe,
industrializado, padronizado, higiênico, palatável: da água de coco ao livro do ano. Os
escritores dão a luz aos livros que gostariam de ler - com os demais artistas
ocorre algo similar - por isto há sempre um fantasma de leitor no ombro de quem
escreve que é, em última instância, seu próprio reflexo. Quando deixamos de ouvir este leitor para
ouvir a voz do mercado, quebramos o contrato, fraturamos o esqueleto ético que
nos mantém de pé. O artista pode ser (e sempre é que ainda não chegue as vias
de fato) um assassino, como Villón; um
ladrão, como Genet, mas sempre há nele algo de puro e numinoso: é a sombra do
contrato entre a pena e o daïmon, o sussurro da obra virtual; do texto, quadro
ou canção em estado de latência, pulsando ao lado da História.
Mescla de anjo e fezes, o artista não segue as leis sociais[1],
não se preocupa com a cortesia - esta forma institucionalizada da mentira -, mas
acolhe sempre as exigências e leis inquebrantáveis da obra, buscando
aproximar-se do bolo. A palavra é uma forma pequena para um bolo grande demais;
o ato de transformar a própria forma em bolo é a estética em seu sentido amplo.
A estética não é um julgamento técnico e sim aisthésis: percepção, sensação, sensibilidade, atração pela beleza
no sentido mais amplo: o encantamento mesmo do bebê pelo seio e o leite. Quando
traímos esta lei, a lei da obra, por motivos mercadológicos... Quando somos um
invólucro frágil, covarde, para os pensamentos em busca de pensador... Quando confundimos
a arte com artifícios meramente técnicos... Então quebramos o pacto est-ético e
não somos dignos sequer de abrir um livro do Fernando Pessoa.
imagem: Fernando Rocha
[1] Não se trata de privilégio, paga-se um preço alto e muitas vezes se é preso - em cadeias ou manicômios - por isto.
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