Os
seres humanos, diferentemente dos demais animais, têm o dom da linguagem,
dominam a fala e, em muitos casos, a escrita. Seria o caso, então de esperar,
que se entendessem melhor. Não é o que acontece. Não houve um só dia sem
guerra, assassinato, estupro, barbárie, selvageria neste planeta desde que o
mundo é mundo. Seria também o caso de se esperar que os falantes de uma mesma
língua se entendessem melhor que aqueles que falam diferentes idiomas. Também
não é o caso. O caso é que a língua é um instrumento para o diálogo. E, para
dialogar, é necessário, em algum momento, esvaziar o pote, tornar-se ouvido,
esquecer o ego, acolher o outro. Há muito esquecemos a lição taoísta do silêncio e do vazio.
Construímos casas, prédios, paredes, mas o que os faz funcionais são as portas
e janelas pelas quais podemos entrar, junto à luz, à noite, ao outro, à
natureza e ao Fora.
Nos
meios virtuais então é que o desentendimento se faz maior ainda. Você diz A, o
interlocutor entende B e completa com C, D e E; no mínimo por causa de um dos
três motivos seguintes. 1 º) porque pretende demonstrar erudição. 2º) porque é
burro mesmo. 3º) porque sua xícara está cheia e ele pretende apenas colonizar o
outro. Há um provérbio chinês - não sei se se encontra no Tao te Ching, ou num
dos livros de Chuang Tzu - que narra a visita de um erudito a um monge – acho que
se trata do próprio Chuang -. O anfitrião oferece chá ao erudito, o qual aceita.
O monge então enche a xícara do erudito até derramar e, mesmo depois, continua
a despejar o chá. Vendo tal despautério, o erudito protesta:
-
Não está vendo que a xícara já está cheia e o chá está derramando a um bom tempo?
Ao
que o monge responde:
-
Vós sois como está xícara, vindes me procurar, carregado de conceitos, para
saber sobre o TAO. Para perceber o TAO é preciso primeiro compreender o vazio.
Se queres sentir o TAO, esvazia primeiro tua xícara.
Escrevo
tudo isto tendo em mente a literatura. Se na linguagem corriqueira já é difícil
dizer caneca e o outro entender caneca, imaginem na literatura, onde caneca
pode significar Guaccaluz, seu nome eterno, sua alma? Vou tentar aqui,
portanto, ser o mais didático possível para evitar mal-entendidos,
principalmente por parte dos eruditos. Não há vida sem literatura, assim como
não há literatura sem vida. Literatura é vida, vida é literatura. Não creio em
alter-ego, eu-lírico, narrador. Tudo isto é pouco importante diante da grandeza
da literatura. Que é então a literatura? Resposta: uma travessia, uma passagem
de vida, uma busca por si mesmo e pelo outro.
Quero com isso dizer que devemos todos nos vestir de noiva e sair por aí
pedindo carona? Não. Revolucionar a vida é revolucionar a literatura e
vice-versa, mas não se trata de viagens exteriores, não se trata de ruído, de
fazer papel ridículo. É preciso aprender a viajar sem sair do lugar. Encontrar-se
primeiro, depois esvaziar-se para a travessia do outro. Não é uma viagem do
dentro, mas da porosidade. Fazer da carne um queijo suíço, por onde o outro, os
arquétipos, encontrem passagem. E Flaubert? Le
juste mot? E Balzac? E todos os objetivistas? Já posso ouvir as perguntas.
Este lugar do qual trato dilui as fronteiras entre subjetivo e objetivo. O mais
objetivo já é subjetivo, ou Flaubert não teria dito Emma Bovary c’est moi, e o contrário também é válido. Por mais
intimista e confessional que seja uma literatura, ela descreve, em última
análise como um corpo, uma consciência, sentem um tempo histórico determinado
(o dasein de Heidegger). Por outro
lado, a literatura mais objetiva parte da pena de um autor que provavelmente
teve a infância negligenciada, amores não correspondidos, contas a pagar.
Inverte-se o prisma, mas a equação é a mesma. A ordem dos fatores não altera o
produto. É isto que nenhum curso de letras, ou oficina literária ensina. A
lição é primeiro ser, individuar-se, correr a aventura de seu próprio mito para
depois esvaziar-se e estabelecer uma zona de vizinhança com o outro, dividir o
pão, trazer o mundo aos olhos do outro e enxergá-lo pelo olho alheio. É isto
que Deleuze diz por meio do conceito de agenciamento,
tão importante no modo como o autor francês enxerga a literatura. Kerouac
precisou correr mundo, Clarice não saiu do lugar, mas ambos nos falam da
viagem, que não é mais que a busca da placenta, do irmão escuro que nos fazia
companhia na água, na indivisibilidade. Para aquele que cria, a arte é a
tentativa de substituição desta falta primeira, que nos dilacera já no
nascimento. Todo ser humano carrega o vazio de seu duplo nas costas. Tentativa inútil,
obviamente. A literatura, ou qualquer arte, é a busca desta comunhão sem
fendas. Não interessa se o autor pretende estabelecer um grande painel da
sociedade em seu tempo, ou de sua alma em seu tempo. Quando Balzac diz Le père Goriot, diz Balzac; quando
Vincent pinta seu cachimbo, diz Vincent; quando Magritte pinta um rocha, com um
barraquinho em cima, flutuando sobre o mar, está criando um lugar para a mãe
que encontrou morta na areia da praia – ela, a mãe, havia cometido suicídio – quando tinha
catorze anos; quando Clarice nos fala do encontro entre uma menina ruiva e um
basset vermelho, está falando de tudo o que perdeu. O problema é confundir a
verdade fictícia, com a busca da verdade filosófica e religiosa que perdurou
até Nietzsche. É preciso estar disposto a substituir a busca da verdade[1]
pela potência do falso. A literatura é uma invenção de verdade. Toda autobiografia é fictícia.
Sei
que estou pisando em solo flácido, areia movediça, beira de rio. Afinal são
séculos e mais séculos nos quais se prega a verossimilhança. São décadas de
foco narrativo, tempo, espaço, personagens, enredo. A questão fica muito mais
fácil assim, a trilha já está palmilhada; a estrada, asfaltada. Provavelmente
serei mal compreendido pelo menos em metade do que disse. Os púcaros estão
demasiadamente cheios. Por mim tudo bem. Como disse Emerson: ser grande é ser mal compreendido. Não
que eu seja grande. Tenho 1,80, mas arrisco entrar sozinho na floresta e nela
me perder caso perda o fio-ariadne das palavras. O risco de não voltar é
grande, e quando não voltamos, encontramos os hospícios de braços abertos e
mãos cheias de psicotrópicos.
Ah! Esquecia-me, o concretismo é uma bosta!
[1]
E nós sabemos por meio de Nietzsche quem é e o que almeja de fato aquele que
almeja a verdade: tripudiar sobre a vida.







