segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

La littérature et la vie, ou de la littérature est la vie


Os seres humanos, diferentemente dos demais animais, têm o dom da linguagem, dominam a fala e, em muitos casos, a escrita. Seria o caso, então de esperar, que se entendessem melhor. Não é o que acontece. Não houve um só dia sem guerra, assassinato, estupro, barbárie, selvageria neste planeta desde que o mundo é mundo. Seria também o caso de se esperar que os falantes de uma mesma língua se entendessem melhor que aqueles que falam diferentes idiomas. Também não é o caso. O caso é que a língua é um instrumento para o diálogo. E, para dialogar, é necessário, em algum momento, esvaziar o pote, tornar-se ouvido, esquecer o ego, acolher o outro. Há muito esquecemos a lição taoísta do silêncio e do vazio. Construímos casas, prédios, paredes, mas o que os faz funcionais são as portas e janelas pelas quais podemos entrar, junto à luz, à noite, ao outro, à natureza e ao Fora.
Nos meios virtuais então é que o desentendimento se faz maior ainda. Você diz A, o interlocutor entende B e completa com C, D e E; no mínimo por causa de um dos três motivos seguintes. 1 º) porque pretende demonstrar erudição. 2º) porque é burro mesmo. 3º) porque sua xícara está cheia e ele pretende apenas colonizar o outro. Há um provérbio chinês - não sei se se encontra no Tao te Ching, ou num dos livros de Chuang Tzu - que narra a visita de um erudito a um monge – acho que se trata do próprio Chuang -. O anfitrião oferece chá ao erudito, o qual aceita. O monge então enche a xícara do erudito até derramar e, mesmo depois, continua a despejar o chá. Vendo tal despautério, o erudito protesta:
- Não está vendo que a xícara já está cheia e o chá está derramando a um bom tempo?
Ao que o monge responde:
- Vós sois como está xícara, vindes me procurar, carregado de conceitos, para saber sobre o TAO. Para perceber o TAO é preciso primeiro compreender o vazio. Se queres sentir o TAO, esvazia primeiro tua xícara.
Escrevo tudo isto tendo em mente a literatura. Se na linguagem corriqueira já é difícil dizer caneca e o outro entender caneca, imaginem na literatura, onde caneca pode significar Guaccaluz, seu nome eterno, sua alma? Vou tentar aqui, portanto, ser o mais didático possível para evitar mal-entendidos, principalmente por parte dos eruditos. Não há vida sem literatura, assim como não há literatura sem vida. Literatura é vida, vida é literatura. Não creio em alter-ego, eu-lírico, narrador. Tudo isto é pouco importante diante da grandeza da literatura. Que é então a literatura? Resposta: uma travessia, uma passagem de vida, uma busca por si mesmo e pelo outro.   Quero com isso dizer que devemos todos nos vestir de noiva e sair por aí pedindo carona? Não. Revolucionar a vida é revolucionar a literatura e vice-versa, mas não se trata de viagens exteriores, não se trata de ruído, de fazer papel ridículo. É preciso aprender a viajar sem sair do lugar. Encontrar-se primeiro, depois esvaziar-se para a travessia do outro. Não é uma viagem do dentro, mas da porosidade. Fazer da carne um queijo suíço, por onde o outro, os arquétipos, encontrem passagem. E Flaubert? Le juste mot? E Balzac? E todos os objetivistas? Já posso ouvir as perguntas. Este lugar do qual trato dilui as fronteiras entre subjetivo e objetivo. O mais objetivo já é subjetivo, ou Flaubert não teria dito Emma Bovary c’est moi, e o contrário também é válido. Por mais intimista e confessional que seja uma literatura, ela descreve, em última análise como um corpo, uma consciência, sentem um tempo histórico determinado (o dasein de Heidegger). Por outro lado, a literatura mais objetiva parte da pena de um autor que provavelmente teve a infância negligenciada, amores não correspondidos, contas a pagar. Inverte-se o prisma, mas a equação é a mesma. A ordem dos fatores não altera o produto. É isto que nenhum curso de letras, ou oficina literária ensina. A lição é primeiro ser, individuar-se, correr a aventura de seu próprio mito para depois esvaziar-se e estabelecer uma zona de vizinhança com o outro, dividir o pão, trazer o mundo aos olhos do outro e enxergá-lo pelo olho alheio. É isto que Deleuze diz por meio do conceito de agenciamento, tão importante no modo como o autor francês enxerga a literatura. Kerouac precisou correr mundo, Clarice não saiu do lugar, mas ambos nos falam da viagem, que não é mais que a busca da placenta, do irmão escuro que nos fazia companhia na água, na indivisibilidade. Para aquele que cria, a arte é a tentativa de substituição desta falta primeira, que nos dilacera já no nascimento. Todo ser humano carrega o vazio de seu duplo nas costas. Tentativa inútil, obviamente. A literatura, ou qualquer arte, é a busca desta comunhão sem fendas. Não interessa se o autor pretende estabelecer um grande painel da sociedade em seu tempo, ou de sua alma em seu tempo. Quando Balzac diz Le père Goriot, diz Balzac; quando Vincent pinta seu cachimbo, diz Vincent; quando Magritte pinta um rocha, com um barraquinho em cima, flutuando sobre o mar, está criando um lugar para a mãe que encontrou morta na areia da praia –  ela, a mãe, havia cometido suicídio – quando tinha catorze anos; quando Clarice nos fala do encontro entre uma menina ruiva e um basset vermelho, está falando de tudo o que perdeu. O problema é confundir a verdade fictícia, com a busca da verdade filosófica e religiosa que perdurou até Nietzsche. É preciso estar disposto a substituir a busca da verdade[1] pela potência do falso. A literatura é uma invenção de verdade.  Toda autobiografia é fictícia.
Sei que estou pisando em solo flácido, areia movediça, beira de rio. Afinal são séculos e mais séculos nos quais se prega a verossimilhança. São décadas de foco narrativo, tempo, espaço, personagens, enredo. A questão fica muito mais fácil assim, a trilha já está palmilhada; a estrada, asfaltada. Provavelmente serei mal compreendido pelo menos em metade do que disse. Os púcaros estão demasiadamente cheios. Por mim tudo bem. Como disse Emerson: ser grande é ser mal compreendido. Não que eu seja grande. Tenho 1,80, mas arrisco entrar sozinho na floresta e nela me perder caso perda o fio-ariadne das palavras. O risco de não voltar é grande, e quando não voltamos, encontramos os hospícios de braços abertos e mãos cheias de psicotrópicos.
Ah! Esquecia-me, o concretismo é uma bosta!





[1] E nós sabemos por meio de Nietzsche quem é e o que almeja de fato aquele que almeja a verdade: tripudiar sobre a vida.

sábado, 17 de dezembro de 2016

ALEPPO, CONCRETO E OUTRAS QUEBRADAS

G.K. Chesterton, pensador conservador inglês, dizia que "o perigo de o homem deixar de acreditar em Deus era começar a acreditar em qualquer porcaria: o concretismo, por exemplo." Não sei como ele previu o concretismo (delimitemos no registro do poema) já que morreu antes, em 1934; mas estes gênios - no sentido do romantismo - têm o órgão de vidência aguçada. Outro dia, por conta da morte do Gullar, e de uma postagem minha, houve aqui uma arenga danada. Pois bem, volto a ela, porque a resposta boa, pra mim, só vem depois, tenho o raciocínio lento. Na ocasião, um dos contendores. Homem ilustre, ilustrado e indignado colocou o vídeo acima em um de seus argumentos. Como que pra intimidar. Você sabe com quem está falando? Olha o Lattes desse Campos. Bem, tô cagando pra isso. No vídeo, tem o Haroldo de Campos falando umas bobagens. Sempre desconfiei que esses concretos tinham pés de barro, agora tenho certeza. Não que eu fique julgando cada palavra de um palestrante. Mas, quando o sabichão confunde Newton e Einstein logo de cara, depois diz que conheceu fulana "pela primeira vez", a gente começa a desconfiar. O vídeo só corrobora o que eu dizia, Haroldo de Campos não é poeta, o Físico aí, o tal Menezes, durante toda a entrevista é muito mais poético que ele, ao comparar o amor à poesia e ao trazer a lembrança de Vanzolinni, por exemplo. O representante do poeta fica sem palavras, é um robô da poesia. Na verdade, Haroldo é o anti-poeta, a anti-poesia. A diferença entre ele e João Cabral, é que um é um poeta magro, econômico, revolucionário e o outro é um charlatão rechonchudo, se passando por magro. Quer dizer que sabe de tudo, faz pose de que sabe de tudo; mas tudo nas coxas, soltando as maiores idiotices, atolado de leituras (superficiais, é bom que se diga) e atrofiado de sentimentos. Cabeça enorme, coração minúsculo. Cita Pessoa, O fingidor, mas se esquece do verso "a dor que deveras sente", porque a carapaça estética nunca deixou que ele sentisse coisa alguma. Um poeta de sentimento atrofiado é de lascar. E o que diz sobre Baudelaire e Mallarmé, foi dito por pelo menos uma dúzia de alemães e franceses antes, qual é "donc" (é importante o "donc", pois é ele que Mallarmé tenta pensar em diálogo com Descartes: Je pense, donc Je suis) a novidade? Outra coisa, esse papo de superar o discurso: 1º - em arte não existe superação, a física quântica pode ser mais acertada que a newtoniana; mas a pintura de Mondrian não é maior que a de Bosch ou Goya. 2º - Nada é superado fazendo-se pior. 3º - Não superaram o discurso, mas o inflaram, uma vez que, para que as palavras dispersas na página fizessem algum sentido, foi necessária toda uma construção conceitual ensaística. 4º - Quem superou a palavra, o discurso, pela via da própria palavra, foi Clarice Lispector. A palavra é uma forma pequena para um bolo grande demais, Clarice transformou a própria forma em bolo. Começo a desconfiar até das traduções, os malandros diriam recriações, para que não se possa contestar. O corvo por Fernando Pessoa, bate O corvo do Haroldo sem fazer força. Enquanto isso, em Alepo e em outras quebradas, os pais estão matando as filhas, antes que elas, além de mortas de qualquer modo, sejam também estupradas, sodomizadas, torturadas. Todo esteticismo é fútil. E não me venham falar que só a forma revolucionária faz o poema revolucionário. O poema nada pode diante do horror. Que pode uma flor diante do matadouro?
 O mediador da coisa ainda é o Cortela, o dos dedinhos: "Posso, mas não quero, quero, mas não devo, devo mas não pago." E lá vem ele sério...

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

O Grupo de Trabalhos de Filosofia da Diferença,



Por essa época, eu andava bem quieto no meu canto, mas acabei me metendo em mais uma enrascada por causa da minha mulher – ia dizer companheira; mas, quando uso o termo, penso no Lula usando uma peruca loira -, a famosa e formosa escritora Márcia Barbieri, aquela mesma que escreveu o best-seller A Puta.[1] Provavelmente vocês não saibam, mas ela não gosta quando as coisas estão muito calmas; então, sempre inventa alguma atividade e me arrasta junto. Já fiquei plantando bananeira por uma hora num curso de yoga, já paguei pra derrubar parede com marreta - tratamento anti-stress -, já fui a uma macarronada num cemitério em noite de sexta-feira treze - performance, entendem, coisa muito artística. Engraçado que a macarronada não saía e eu lá, com fome, vendo umas bestas gritar e jogar molho de tomate uns nos outros. Geralmente sou calmo, mas com fome ou insônia, acesso o escorpião do signo. Falei pra Márcia:
            - Se um filho da puta desses jogar molho em mim o pau vai cantar aqui.
            - Relaxa, você é muito quadrado, não precisa ficar nervoso.
            - Já é quase uma da manhã e ainda não jantei.
           - Fique tranquilo, o macarrão já vai sair. Se deixar, você só quer saber de ficar em casa, precisa sair, conhecer pessoas, expandir a mente, fazer contatos, ver o mundo.
            Nada respondi, mas nunca estive a fim de conhecer pessoas ou fazer contatos. Sou doente. Só estou nessa de escrever por causa do dinheiro. Se não tivesse vendido a impressionante soma de 60 livros do meu último romance e ganhado um pirulito de direitos autorais, já teria desistido. Vai vendo.
            De todas as nossas aventuras, não há, contudo, uma que se compare à participação no Grupo de Trabalhos de Filosofia da Diferença. Foi lá que conheci a legendária figura de Jacques Françoise, aquele que usa cachecol - ou ao menos echarpe - tanto no inverno quanto no verão. Aconteceu assim: a Márcia encasquetou de entrar no mestrado para estudar Deleuze e o primeiro passo sugerido foi a entrada no Grupo. A princípio, resisti. Não fui aos primeiros encontros. Como acontece com Nietzsche e Raul Seixas, meu problema não é com Deleuze, mas com os deleuzianos. Ficava em casa ouvindo Thin Lizzy. Uma sexta-feira, entretanto, resolvi acompanhá-la.
            No começo, até que gostei. Tudo parecia tranquilo, salvo o visual das figuras. Normal, como disse um amigo cearense certa vez: São Paulo é uma espécie de Nova Iorque. Ele não conhece as entranhas da cidade. Tomamos café descafeínado. Comemos um bolinho integral, umas bolachas. Uma turma saiu para fumar uns cigarrinhos de tabaco orgânico. E aí, depois, fomos para a mesa começar a leitura de Diferença e Repetição:
            Apresentei-me e fiquei ao lado da Márcia. Antes de começarmos a leitura, entretanto, um rapaz puxou conversa com Jacques Françoise:
            - E aí gostou da cerimônia?
            - Ó sim interessantíssima. Sinto que é preciso implodir o monoteísmo. As religiões de origem africana são uma opção: multiplicidade. O candomblé é um devir.
       Deleuze é o filósofo contemporâneo do devir. Para ele, todo devir é minoritário, qualitativamente. Assim, seus seguidores todos querem fazer parte de uma minoria. O rapaz continuou:
            - Nós, negros, precisamos resgatar nossa identidade...
            Aí eu arregalei os olhos redondos, engasguei com o resto do bolo, tossi, soltei um peidinho sem som. Imaginem que o rapaz que se intitulava negro atendia pela singela graça de Matsunaga Yamazaki. Um japonês com dread nos cabelos. Como ninguém falou mais nada, fiquei na minha. Para ele, ser da minoria asiática era pouco.
            Pediram que eu começasse a leitura. Uma tradição do Grupo. Os novatos sempre liam.
            Por mim, tudo bem, estávamos no prefácio. Li duas palavras e lá veio a expressão: Dito de outro modo...
            Bastou. Filosofia é uma disciplina rigorosa, qualquer deslize pode provocar um desastre! Cada vírgula é importante! Enquanto líamos a tradução, nosso mestre Jacques Françoise, acompanhava a leitura no original em francês:
            - Alto lá! – gritou.
            Assustei, quase caí da cadeira, achei que tinha feito merda outra vez, como tenho feito a vida toda.
            - O certo seria outramente dito e não dito de outro modo.
            - Como está no original? - Perguntou a Luísa Fernanda Ovo, outra figura que participava do grupo e dizia saber os motivos pelos quais os navios boiam e os pregos afundam.
            - Autrement dit.
            Instalou-se uma discussão que durou quase quarenta minutos. Fui ao banheiro, voltei e eles continuavam discutindo. Então resolvi intervir, já não aguentava mais:
            - Escuta gente, acho que esse outramente dito não existe. De qualquer modo, não muda o sentido do que o autor quis dizer.
            Pra que fui abrir minha boca? Quem eu pensava que era! Um iniciante! Um verme rastejante dos pântanos férteis da ignorância! Jacques Françoise revirou o cachecol, ajeitou os óculos e sem aceitar intervenções sentenciou:
- Corrijam aí nos livros de vocês.
Ele era o cabeça, tinha feito curso com o próprio Deleuze. Assim, os demais participantes pegaram seus lápis e escreveram miudinho: outramente dito.
- Continuemos a leitura.
Li mais duas palavras e lá veio a pérola bergsoniana: duração. Desta vez foi a tal Luíza Fernanda Ovo, doutoranda em Bergson, quem parou a leitura.
- Gente, existe uma só ou várias durações? Porque segundo fulano de tal...
Lá se foi mais uma hora e tanto de discussões.
Depois de duas horas, demos a sessão por encerrada. Tínhamos lido cinco palavras.
- Hoje foi um dia produtivo – disse o negro do Japão.
- O importante é o rigor – continuou Jacques.
Rigor mortis pensei, mas fiquei calado.
Estavam estudando a obra havia dois anos e se encontravam na metade da segunda página do prefácio. Naquele ritmo frenético demorariam umas três encarnações pra ler o livro todo, mas o importante era o rigor.
Convidaram-nos para beber alguma coisa. Inventei uma desculpa, filhos pequenos e tals.
No fim das contas, acabei frequentando o Grupo de trabalhos de filosofia da diferença por três anos, porque masoquismo pouco é bobagem e Sacher-Masoch também fazia a cabeça do filósofo francês. A Márcia, muito... Malandramente, menina inocente, acabou saindo antes.
           





[1]Todo mundo reivindica liberdade, mas deixasse eu ter escrito primeiro um romance intitulado O putanheiro...  Ela, entretanto, não perde por esperar. Estou escrevendo a saga O gigolô, três volumes de mais ou menos setecentas páginas cada um. Deixe.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

CARNEIRO, CONSERVADOR E COPEIRO II – A MISSÃO

Outro dia escrevi aqui uma crônica sobre o Carneiro, o copeiro conservador da padaria que frequento. Devo confessar que eu mesmo, em algum nível, criticava o Carneiro, sua interminável ode ao trabalho, 18 horas por dia; mas, quando os amigos postaram comentários criticando também o Carneiro, algo me incomodou. Não sabia bem o quê. Refleti e cheguei à conclusão de que fiquei incomodado porque o Carneiro é um cara gente-fina, uma boa pessoa; sempre disposta a ajudar o próximo, na medida do possível. A SURPRESA: é possível ter ideias conservadoras e ser uma boa pessoa! Durante a ditadura militar, por vias diametralmente opostas, os militares acreditaram que sabiam o melhor caminho para o país e, aos que fossem contra tal caminho, a alternativa era a bala. Com o fim da ditadura, em algum nível, a esquerda pegou para si não a bandeira ideológica, mas a bandeira moral do militarismo; algo quase religioso. Quem é de esquerda é um ser humano melhor, mais altruísta, pensa mais no outro, no coletivo, põe o dinheiro em segundo plano e, todos sabemos, nem sempre é assim. Talvez a grande decepção de parcela da população com a esquerda que chegou ao poder é exatamente a decepção com o fato de que ela cometeu os mesmíssimos crimes que combatia: soou hipócrita. Mesmo com as melhorias conquistadas, não foi suficiente. Ainda pensando no Carneiro, outra ideia que me veio à mente, foi o seguinte: nós, da esquerda, temos pouco poder de convencimento. Somos bons de embate, debate e de briga, mas não conseguimos convencer o cidadão comum, o mais pobre, aquele que trabalha tanto que não tem tempo para pensar. Geralmente, nós o confundimos com o Hulk da Avenida Paulista, com o Alexandre Frota e partimos para o confronto, quando seria o momento de um diálogo desarmado.
                Sinto-me melhor agora que, de algum modo, situei o Carneiro em seu devido lugar, mas ainda tenho de citar um episódio no qual ele foi protagonista para demonstrar o quanto este cara tem de coração. Foi na época do meu divórcio, um dos divórcios mais complicados do planeta, que por fim pode ser resumido na fórmula: divorciaram-se e foram felizes para sempre; mas, antes disso muita água rolou debaixo da ponte; fica para outra oportunidade. Sempre tive dificuldade pra dormir e nessa época procurei um psiquiatra que me receitasse algum medicamento. Às vezes atravessava duas... Três noites sem dormir, mesmo fazendo exercício e trabalhando. Não tinha jeito. O médico receitou dois comprimidos de sertralina depois do almoço e um comprimido de diazepam 2 mg antes de dormir; severamente advertiu:
                - Não beba!
                Eu, entretanto, continuava deprimido, até dormia, mas muito mal, tinha pesadelos. Criou-se um abismo entre mim e o mundo, entre mim e os outros, entre mim e o futuro. Num repente, tinha perdido o compromisso com a vida.
                Então, numa noite entrei na padaria. Um amigo das antigas, que estudou comigo desde a pré-escola até o ensino médio estava lá tomando cerveja. Me chamou. Sentei junto. Tomei um guaraná, uma brahma sem álcool e, quando vi, estava na cerveja normal. O amigo foi embora e eu ainda pedi mais uma ou duas. Nem preciso dizer que deu merda. Eu sou o Rei - nem o príncipe, nem o conde - o Rei das Cagadas. Fiquei ruim, as pernas deixaram de obedecer. Um sono insuportável. Moro perto da padaria, na mesma rua. Paguei a conta e fui embora, mas não estava mesmo bem. O que fez meu amigo Carneiro, conservador e copeiro? Pediu permissão ao patrão e me levou até em casa.
                Fiquei uns dias sem aparecer, envergonhado.
                Tempos depois, num domingo, entrei na padaria para comprar um frango assado.
                - Olha aí a Bela Adormecida – brincou o Carneiro com o cara do caixa.
                - Fiz merda, pisei na bola, obrigado aí ter me acompanhado até em casa.
                - É perto, mas tem de atravessar a avenida, né professor, do jeito que tu tava, podia ter batido as botas.
                - Devo uma.
                - Pois não fique devendo, pague logo. Hoje tem culto na Igreja. O que é que tu vai fazer? Nada que eu sei, vai assistir o Faustão. Bora lá fazer uma visita.
                Querer ir eu não queria, mas aceitei.
                Às 18:30 em ponto Carneiro e família passaram em casa e fomos ao culto.
                Em frente à Igreja, todos estavam extremamente bem vestidos. As mulheres com suas melhores roupas, os homens de terno e gravata, barbas e cabelos bem feitos. Além de ser o lugar de sua religião, aquele era o lugar de sua diversão, de estabelecer vínculos, conversar, ver as pessoas. A outra opção era o boteco, e os que se enfurnavam no boteco, destruíam suas famílias, batiam em suas esposas. Carneiro mesmo se orgulhava de dizer que estava havia dezoito anos sem beber uma gota de álcool. A Igreja era saudável e a fé em Deus dava um sentido às suas vidas. Como a modernidade aboliu a verdade transcendente, Deus passou a valer como potência do falso. Existindo ou não, o fato é que torna a vida mais suportável, ordenada. E eu, com todas as minhas leituras, minha curiosidade, meus estudos, onde estava? Entregue ao caos, com um pé no abismo e outro na casca de banana. Por todo esse sentido conferido à vida - Deus se preocupa até mais com os menores - cobrava-se um dízimo, pois nada neste mundo, seja espiritual ou material, é de graça. Mas eu também não pagava o psiquiatra? E as pessoas não pagam psicanalistas?
                Quando o pastor começou a falar, percebi que o discurso do meu amigo Carneiro não era necessariamente dele, mas da Igreja. Assim como muita gente, quando fala, nada diz de próprio, mas tagarela o discurso do partido, da universidade, dos “formadores de opinião”. Lembrei da música do Paulinho Tapajós: Eu tantas vezes me sentei sozinho para jantar / Comprei milhões de pensamentos pra não ter de pensar. Eu estava irremediavelmente arruinado. Tinha perdido a capacidade de auto-ilusão. Provara da árvore do conhecimento. Não era uma escolha, para mim, eu já não podia optar pela Igreja. Tinha perdido o órgão da fé.
                Depois do culto, comemos alguma coisa na cantina da Igreja e o Carneiro me deixou em casa.
                Mesmo tendo tomado o remédio, não conseguia dormir. Imaginei um país dominado por Igrejas evangélicas. As mulheres, todas, queriam casar e ter filhos, três ou quatro, ao contrário das mulheres “seculares”. Basta uma projeção simples. A Igreja oferecia o que os seres mais humanos almejam: sentido. Dane-se a liberdade, ninguém quer ser livre, ela, a liberdade, só traz problemas e responsabilidade. Além disso, havia o sentimento de fazer parte, as vidas estáveis. A contrapartida? O machismo, a homofobia, o preconceito, o dízimo...
                Não tenho muitas certezas nessa vida, mas uma percebi no dia em que fui à Igreja com o meu amigo Carneiro, conservador e copeiro – nessa ordem: o poder político das Igrejas evangélicas está apenas começando e eles já têm uma bancada respeitável no congresso, governadores, prefeitos, canais de televisão e outras mídias e pessoas que têm a certeza de agir de acordo com o que Deus quer e Deus é a verdade contra a qual não há argumentos.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

SAVE THE BRAZIL

Que o brasileiro é um povo alegre, brincalhão, divertido, ninguém pode negar. É público e notório. Em cima do fato, aparece, de cara, não a notícia, mas a piada. Depois ainda falam do humor dos ingleses. Geralmente, a piada, anônima, surge num repente e está sempre ligada às classes menos abastadas: o boteco é a casa da piada. Vocês já viram ricos contando piadas? Já viram intelectuais contando piadas? Deus nos livre! Outro dia vi o Cortella, o bispo do óbvio, já que o papa é o Karnal, ensaiar uma piada tão sem graça que até ele ficou com vergonha de rir. A piada nasce das pedras do pobre. Sempre foi assim, desde a idade média. Como não se podia aviltar os poderosos: piada neles.
Agora, outra coisa que não se pode negar também é que o brasileiro, principalmente o que não é muito rico nem muito pobre, é cafona, brega até as últimas consequências e blusas de oncinha. De certo modo, querem esquecer suas origens humildes, seu bom humor, afinal chegaram a subgerentes, a postura tem de ser outra. Então não basta visitar Miami e colocar as fotos nas redes sociais. Como neste momento estão na moda os protestos, é preciso protestar também em inglês. Bem típico de quem está no primeiro ou segundo estágio. Um ano de inglês, no máximo. E aí colocam suas camisas da nike, suas calças adidas, seus tênis reebok e vão protestar. Ninguém tem uma porta pra consertar, um quintal pra lavar, um almoço pra fazer. A onda é protestar. Contra o quê? A resposta está na ponta da língua: corrupção! - Mas o sistema todo é corrupto, não seria o caso de pressionar firmemente por uma reforma política? E quem diabos vai saber o que é reforma política? E, mais, quem sabe que políticos sempre estiveram contra a tal reforma? Aí desconversam. Estendem os cartazes em inglês: “In moro we trust!”, “Save the Brazil!” “Bola de Neve Church”. A quem será que a mensagem está sendo dirigida? Ao Trump? À Theresa May? Nem eles sabem, mas imaginam que protestar em inglês seja mais elegante.
Estou para dizer que o problema do Brasil é um problema estético. Temos a maior parcela da população tão desinformada, cafona e brega que o problema ético ou moral fica em segundo plano. Trocar a feirinha da madrugada pela feirinha de Miami não faz ninguém mais sábio, ou articulado. Mesmo os extremamente ricos são estúpidos. Nos países mais desenvolvidos, as elites educam os filhos com viagens, visitas aos melhores museus do mundo, contato com as melhores obras da literatura e da filosofia ocidental, aprendem línguas. Aqui, compra-se um carrão pro moleque e tal e qual no conto do Rubem Fonseca, dizem:
- Vai lá tigrão, vamos ver quantos ciclistas você consegue atropelar esta noite!
Quando houver de fato uma educação estética (não a estética unicamente no sentido do belo, mas do existencial), as pessoas, talvez (talvez), perceberão que o dinheiro é um meio e não um fim, um instrumento de acesso às mais nobres criações humanas. Quando a arte, a fruição estética, substituir a ânsia de acúmulo, talvez (talvez) tenhamos um país menos corrupto e muito menos brega, pois o que será valorizado não será a picape tocando chego na balada/ dirigindo meu carrão/ subo pela calçada e atropelo uns pobretão, mas a capacidade de conduzir uma conversa de maneira culta, ou, ao menos, adulta. 

domingo, 4 de dezembro de 2016

BREVE TRATADO SOBRE CORNOLOGIA CONTEMPORÂNEA

Outro dia ouvi o Leandro Karnal, este novo papa do óbvio, dizer que nunca deveríamos começar um enunciado assim:
                - No meu tempo as coisas eram diferentes...
           Segundo o historiador, isso era coisa de velho. Pois bem; em primeiro lugar, qual é o problema com a velhice? A única alternativa é a morte prematura. Característico do nosso tempo, este preconceito quanto à velhice: o saber não está mais com os anciões, mas com a internet; por outro lado, você não vê velhinhos colocando fogo em índios nos pontos de ônibus. Ó sim, não sabiam que eram um índio, pensaram que fosse um mendigo.  Karnal é fruto de seu tempo e eu prefiro reflexões extemporâneas. É preciso encontrar as velocidades de cada idade, como bem disse Deleuze. Em segundo lugar, existem, sim, coisas que ficam restritas ao seu tempo: o espartilho, o chapéu, os sapatos de salto plataforma, ou as calças bag dos anos 90 e, no âmbito dos sentimentos a dor de corno.
                Desde a cultura mais erudita, até a mais popular, a dor de corno sempre foi combustível insubstituível para grandes obras. Otelo matou Desdêmona por causa da dor de corno; ou, pior ainda, por ser negro. Bentinho se tornou Dom Casmurro por causa da dor de corno. Na primeira peça de Nelson Rodrigues, A mulher sem pecado, Olegário se quebra contra o destino por conta da dor de corno. Todas essas obras têm em comum, além de se tratarem de criações ficcionais, o foco na dor de corno e não necessariamente no chifre, posto que, em nenhum dos casos, o adorno craniano foi confirmado. De todo modo, um livro calcado neste mote seria impossível nos dias de hoje (volto a isso depois)... Agora, feio mesmo ficou para o nosso querido Euclides da Cunha. O homem foi a serviço cobrir a guerra de Canudos para o jornal O Estado de São Paulo, voltou com Os sertões na cartola, praticamente inventou o sertão, o sertanejo, o nordeste, a luta, a terra, a mística, o bigode, uma parte imensa do Brasil. Para seu desprazer, entretanto, quando chegou em casa não era o maior intelectual do País, e sim o maior corno de São Paulo: a mulher estava grávida de um soldado, ou tenente, sei lá eu, do exército. Euclides, homem honrado, bigode pontudo, chamou o amante da mulher para um duelo. Dizem as más línguas que um amigo o advertiu:
                - Mas, Euclides, o homem é o maior atirador do pelotão, acerta pardal em pleno voo a cem metros de distância! Não seria o caso de resolver a pendenga numa partida de xadrez? Você teria muito mais chances.
                Euclides da Cunha ficou inflexível, não ouviu o conselho. Se Brás Cubas entrou para a eternidade como o primeiro defunto-autor, o pobre Euclides entrou para eternidade sem fim como autor, defunto e corno: o dono e inventor do chifre eterno. Já teve até série na Globo sobre sua galhada.
                Hoje em dia, como escreveriam meus alunos do curso de redação, o chifre já não é um problema, a dor de corno quase não existe. Por isso livros assim não podem mais ser escritos. Cafona é não ser corno. Já existem até lojas que vendem chifres postiços para festas e ocasiões especiais. Entre os grã-finos é moda levar galho, inventaram até um nome pomposo para o assunto: poliamor. Posso entender o porquê.  Outro dia fui visitar um amigo rico, nos jardins, e percebi que ali não há a menor possibilidade de o sujeito sentir dor de corno. As ruas são arborizadas, vazias, as casas extremamente fechadas, ninguém sabe da vida de ninguém. O camarada pode viver dez anos no mesmo lugar e não saber quem é o poliamoroso que vive ao lado. Não há botecos, tive de andar uns quatro quilômetros para achar uma lanchonete e uma lanchonete não é um boteco, muito mais impessoal e limpo.
                Na periferia, onde vivo, ainda cultivamos a dor de corno, mas não mais como antigamente. Agora os alto-falantes dos carros não cantam Deslizes, do Fagner, mas um funk ou sertanejo universitário qualquer. E os sertanejos, depois que se tornaram universitários, não querem mais saber de chifre. As letras em vez de doerem no coração dizem: chego na balada/dirigindo meu carrão/subo pela calçada e atropelo uns pobretão. Agora, o sertanejo é antes de tudo um universitário. Outra diferença é que, atualmente, o corno não é mais o último a saber, mas o primeiro. Já casa sabendo; sem problema algum. O inferno são os outros. Como em cada esquina há um boteco, tem sempre alguém para lembrar as infidelidades alheias. Vejamos o caso de Luís Gustavo e Verinha. Casaram-se jovens, ele tinha vinte e um, ela dezessete. A menina já estava grávida de três meses. E tinha fama de namoradeira entre xs fofoqueirxs do bairro. Logo que o menino nasceu, começaram os passeios e as visitas misteriosas.
                Um dizia ao Luís Gustavo:
          - Olha, não queria dizer, mas vi tua mulher lá na Praça do Forró com um vendedor da Marabraz.
                Outro dizia:
                - Vi tua mulher, em São Miguel, com um vendedor das Casas Bahia.
                - Não era da  Marabraz? – perguntava o Luís Gustavo, desconsolado.
                - Não, tenho certeza, era da Casas Bahia.
                Outro dia, no boteco, alguém informava.
               - Olha o entregador de gás da Ultragaz entrou aí na tua casa e ficou mais de uma hora pra trocar o botijão.
                Passava-se uma semana. E novo informante cochichava.
                - O cara da Liquigás ficou a tarde toda aí na sua casa.
                E o Luís Gustavo:
                - Não era da Ultragaz?
                - Não, rapaz, tava de uniforme verde. Tenho certeza, era Liquigás.
                Às vezes, quando passava na rua, vindo do trabalho, algum engraçadinho gritava:
                - Chifre foi feito pra boi, homem usa de enxerido!
                E Luís Gustavo sofria, mais com as informações que com os chifres. Era da natureza dela, ué, ele sabia desde o casamento. Ninguém pode ser corno em paz neste mundo. Às vezes os chifres inflamavam, juntava pus na junção com a cabeça. O rapaz tinha de tomar benzetacil, semanas e semanas de antibióticos. Havia, entretanto, épocas em que ele e os chifres se davam muito bem. Ele afiava as pontas de seus bichinhos, lixava, passava verniz. Alguns diziam que eram os chifres mais bem cuidados do bairro.
                Um dia, porém, algo aconteceu. Verinha trocou os shortinhos e minissaias por longos vestidos, deixou de se pintar, arranjou uma Bíblia preta de capa de couro. Os mais incrédulos diziam que ela estava tendo um caso com o pastor; qual o quê, o pastor era o homem mais sério do bairro e muito bem casado. Nunca ficava sozinho, sem testemunha, com mulher alguma... Tem muito malandro perdendo mulher pra Jesus na quebrada.
                E Verinha tornou-se de fato fiel, tanto a Jesus quanto a Luís Gustavo. Os chifres do rapaz foram diminuindo paulatinamente até que desapareceram por completo. No lugar ficaram apenas dois círculos onde não crescia cabelo. Luís Gustavo se desesperou... Não sabia mais o que fazer... Sentia falta de um membro, como o amputado sente falta da perna.
                Um dia chegou em casa e deu cinco tiros na mulher.
                Uma mulher que não era fiel sequer a propria natureza seria fiel a quê?
               A bala que sobrou no tambor do trinta e oito, ele virou para si e atirou no próprio coração, só que errou o lado. Atirou no lado direito e, todo mundo sabe, o coração fica do lado esquerdo.
                Lei do feminicídio nele, porque castigo pra corno é sempre pouco.

                Todo homem tem uma vocação, algo que o chama, que dá sentido à sua vida. Alguns são construtores, outros poetas, outros políticos, outros pintores de parede e há os que têm vocação pra corno. Se tirarem uma freira virgem, de setenta anos, do mosteiro, farão de tudo, infernizarão a vida da coitada, até ela lhes presenteie com um par de chifres.
                Convém não brincar com eles, são muito perigosos.

                

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

SIMONE DE BEAUVOIR E AS FAXINEIRAS

... tudo isso sem contar o tremendo tapa que eu levei com a história do splish splash, mas esta história também é interessante.
Estávamos eu e João Francisco, aquele que mudou de nome depois da primeira viagem à França para Jacques Françoise, não aceita que lhe digam o nome sem se antepor o epíteto de Doutor e que usa cachecol tanto no inverno quanto no verão. Em suma, meu professor de filosofia, meu mestre, meu orientador, aquele cuja cabeça iluminava meus caminhos para que eu pudesse deixar de ser um verme rastejante dos pântanos férteis da ignorância. Íamos a um congresso de três dias, em Campinas, sobre o casal mais feio que já se formou sobre a face da terra: Jean Paul Sarte e Simone de Beauvoir. Antes, porém, precisávamos pegar uma professora no aeroporto de Guarulhos. Como conhecia melhor os caminhos da zona leste, eu dirigia.
- Daniel, mon cher, você vai ver a Elke, que maravilha! Escreveu recentemente o livro Como conversar com um machista. Estudou com Pierre Montebello, Sorbonne, absorva tudo, mantenha os ouvidos atentos, você tem muito que aprender. Ah! A Elke que saudade, que inteligência cortante, que cabeça maravilhosa!
A Elke não demorou muito a desembarcar. A primeira impressão que tive foi que ela era a própria Betty Boop, Jacques não estava mentindo: que cabeça maravilhosa! Chapéu ali, só por encomenda. Talvez eu esteja exagerando, talvez não fosse tão cabeçuda. Se ultrapassava uma caixa d’água de mil litros era coisa de centímetros.
Depois dos abraços, fui apresentado.
- Este é o Daniel, meu orientando. Esta é a Profª  Drª  Elke Veyne.
Ela ofereceu-me a ponta dos dedos, com nojo. Segurei as pontas dos dedos dela e entramos no carro. Antes de assumir meu posto atrás do volante, porém, dei uma cheiradinha nos dedos, eu podia estar fedendo e não ter percebido. Do jeito que ela segurou minha mão, parecia que estava suja de merda; mas não estava, perfume do mais nobre detergente ypê.
No caminho até Campinas, tudo normal.  Como quaisquer mortais, eles não faziam outra coisa além de falar mal dos próprios colegas. É que fulano tinha sido sacaneado por cicrano, o qual também tinha dormido com a mulher de beltrano e beltrano, por sua vez,  tinha enrabado fulano, que, pelo que entendi, só tomava no cu. Coitado de fulano! E eu ali absorvendo tudo para deixar de ser um verme rastejante dos pântanos férteis da ignorância. Como é empolgante o saber, a filosofia, a expansão de nossos horizontes, a experiência inigualável de pensar!
Pegamos um bom trânsito. Paramos para tomar café. Descafeínado, por favor – disseram os dois. Foi quando chegamos à universidade onde ocorreria o evento que pé do frango azedou. A Profª Drª Elke Veyne cismou que a sala não estava devidamente higienizada. Protestou.  Disse que só destilaria sua sabedoria depois que a sala estivesse devidamente limpa. Escreveu uma carta de próprio punho, duas páginas, à chefia da limpeza. O Profº Dr. Jacques Françoise, que era um dos organizadores do evento, quase teve um infarto, andava pra lá e pra cá, com o cachecol esvoaçante batendo na face de quem estivesse por perto. A sala estava de fato empoeirada e havia aqui e ali uma bolinha de papel, os cestos de lixo estavam pela metade. Nada comparado a uma sala de aula de escola pública.
Cinco minutos depois, apareceram duas meninas, vestidas com o inconfundível uniforme azul marinho. Digo meninas porque não deviam ter mais de vinte anos. Uma delas estava com uma barriga de uns sete, oito meses. Em menos de dez minutos deram uma geral na sala e saíram sob os olhares de reprimenda. Pobre é sempre invisível, quando é visto, é  pra levar uma esculachada.
Com os imprevistos, a fala da Profª Drª Elke Veyne, que abriria o congresso, acabou ficando para depois do almoço. O segundo palestrante começou a falar e o congresso seguiu adiante. Seriam três dias do mais puro blá blá blá: o ser, o nada, a opressão, etc... etc... etc... Eu já estava com o espírito preparado. Meditava feito um Buda: ommm, ommm, ommm...
Quando saímos para almoçar, vi as duas meninas chorando numa mesinha ao sol. Os outros não viram. Como disse anteriormente, pobre é invisível.  Os professores pegaram suas carteiras no carro e foram a pé almoçar num restaurante vegetariano. Preocupavam-se com as vacas e os porcos, mas fodiam a vida das faxineiras, era normal. Falei que ia comer no restaurante universitário mesmo, era mais barato.
- Ele ainda não se conscientizou – Disse Jacques Françoise à amiga.
- É um crime se alimentar de outros animais – ela emendou.
- Vou comer só a salada então.
Os dois foram para um lado e eu fui para o outro.
Sentei na mesinha com as faxineiras.
- Que aconteceu?
A grávida não parava de chorar.
A outra também estava triste, mas encontrou forças para responder.
- Levamos uma semana de suspensão. Sem pagamento.
A grávida sussurrou...
- Sem esse dinheiro não vou conseguir pagar a prestação do enxoval do bebê.
Se tivesse mais dinheiro, teria dado a ela naquele momento. Olhei a carteira. Exatamente setenta e oito reais. Doei, era tudo o que eu tinha. Não quis aceitar, a princípio, mas acabou pegando. Qualquer ajuda era válida naquele momento.
Fiquei indignado, brabo feito siri na lata. Como é que uma filha da puta daquelas, que talvez nunca tivesse arrumado a própria cama, que nunca tinha lavado uma louça, trocado um chuveiro, filha de fazendeiros do Rio Grande do Sul, fodia a vida das meninas daquele jeito e depois subiria num palco, na maior cara de pau, para falar de opressão?
Eu tinha de fazer alguma coisa, mas o quê? Deus às vezes se veste de acaso. No caminho de volta ao carro, encontrei um bloco de quinze, marcando, ali, no chão. Estavam reformando o refeitório. Peguei-o. Fui até o carro, abri a mala da Profª  Drª Elke Veyne. Ela tinha levado a bolsa, mas deixado a mala. Havia roupas e uns dois ou três livros. Apanhei o maior deles, O segundo sexo, de madame Simone de Beauvoir e coloquei o bloco no lugar. Fechei a mala. Não tranquei o carro. Em qualquer caso, este esquecimento seria minha prova de inocência. O carro aberto, Campinas anda cheia de delinquentes. Deixei o livro numa das mesas da biblioteca e fui almoçar.
À tarde, fiz questão de chegar atrasado à comunicação da Profª Drª  Elke Veyne. Mesmo assim pude ver o bloco de quinze no canto da mesa, junto a dois outros livros, enquanto a profe discursava:
- Provedora, vassala, acolhedora. Não importa como se apresenta, o lugar da mulher sempre foi definido pelo homem. Este configura a posição central na sociedade e...
E dá-lhe resenha, ainda faltavam dois dias e meio.
Sorri. A vingança é um prato que se come em qualquer temperatura: congelado ou queimando a língua.