Achei que não escreveria outra
crônica este ano, mas os assuntos me abordam como bofetadas. Cioran dizia que nunca escreveu uma linha em
seu estado normal, escrevia sempre numa espécie de febre, de fúria. Só pra variar,
também me identifico com essa definição do Vampiro de Rășinari. A palavra é meu
trinta e oito; a forma de revidar as bofetadas que vou levando daqui e dali, no
decorrer da vida. Hoje gostaria de falar de três assuntos diferentes num único
texto. Não sei como costurar tudo, mas vou tentar. Vamos ver o que acontece no
final. Três assuntos: um texto; une-os, entretanto, o tema comum, que não é a
ascensão do idiota - desta Nelson Rodrigues já tratou exaustivamente em suas Confissões – mas seu poder cada vez
maior de mobilização, de exercer seus direitos democráticos, de expor o diabo
da sua opinião, seu preconceito, sua burrice.
Depois que Mark Zuckerberg
inventou essa aberração que é o brasileiro politizado, ninguém mais teve um
segundo de paz. Todo mundo tem uma opinião formada sobre tudo e faz questão de
compartilhá-la com os demais. Discute-se de política a física quântica. E como
nunca se escreveu tanto e tanta bobagem, para tudo há embasamento teórico. Outro dia, li uma postagem numa rede social
sentando a lenha no Ghandi. Dizia o usuário, que o líder pacifista indiano não valia o que comia. Como Ghandi não comia,
quase morreu de jejum, não consegui entender o que o formador de opinião queria
dizer. Também já vi muita gente descendo o pau no Cristo. Da mesma forma que
confundem o Cristo com o cristianismo[1]
e com alguns cristãos de hoje, confundem Ghandi com o hinduísmo; confundem
desconstrução[2] - que, a bem da verdade já deu no saco -, com falha hermenêutica.
E como o idiota é a raça menos solitária que existe; dois minutos depois, lá
estava outro idiota chamando Ghandi de comunista:
- Ficou com os trens da
Inglaterra. Era amigo do Fidel, queria transformar a Índia em uma Cuba.
Enquanto eu ainda digeria
tamanha abobrinha. Lá veio uma radical.
- Um misógino, pedófilo,
abusava de criancinhas.
Pelo que eu sabia o líder pacífico indiano pregava a abstinência
tanto gastronômica quanto sexual, mas vai saber... Não aguentei e intervi.
- De onde vocês tiraram tudo
isso?
O idiota nº 1 postou cópia de
uma página de livro. Pra essa gente, se está num livro, é verdade. Se passa na
televisão, é verdade. Se algum idiota de renome falou, é verdade. Contestam o
instituído, mas não contestam o contestador, ainda que ele, o contestador,
pertença à família Marinho. Uma inversão dos diabos.
Uma moça entrou no bate-papo,
desolada, desoladíssima. Achei que ia cometer suicídio sem sequer sair do
facebook:
- Gente isso é verdade? Se for,
é o fim do mundo! Como podemos continuar vivendo assim?
É o fim do mundo... O fim do
mundo já passou e continuamos aqui.
***
Saio deste caso virtual para um
caso real. Este ano, depois de quinze anos trabalhando 16 horas por dia,
acumulando cargo na Prefeitura e no Estado para garantir o frango assado no
domingo e o leite das gatas; dando aulas em classes com mais de quarenta
alunos, com idades entre 11 e 21 anos, não aguentei; colei os platinados, pirei
o cabeção. Fui a um psiquiatra e ele me passou um punhado de remédios, o mais
fraquinho é o diazepam 2 mg. Tenho de
admitir que o diazepam fez mais por minha espiritualidade que qualquer
religião, seja ela do Oriente ou do Ocidente. Acordo encantado com o som dos
passarinhos, dou bom dia aos vizinhos, ao sol, voltei a acreditar na humanidade. Acho
que Ghandi tomava diazepam, não é possível. Se levo uma fechada no trânsito,
sou o primeiro a pedir desculpas. Os pecados da carne já não me atormentam
mais. Se tem, tem; se não tem, passe bem. Graças ao rivotril, consegui certa independência ante minha mulher, a Márcia Barbieri – aquela que escreveu o
livro A puta. Enfim, encontrei a
serenidade junto aos psicotrópicos e a uma licença de sessenta dias. O problema
mora justamente nessa licença de sessenta dias, dos quais o perito do Estado
concedeu 30.
Em Morangos Silvestres, do Bergman, o médico e professor Isak Borg diz à nora,
enquanto viajam, que não respeita as doenças da alma. Fosse só ele estava bom. A maioria dos
idiotas também não respeita.
Ontem voltei à escola do Estado
onde trabalho. Para alguns, parecia que eu tinha cometido crime hediondo. Ouvi
de alguém na secretaria que eu tinha dado trabalho este ano. Para ela, o único
trabalho que dei foi pedir que emitisse a guia para a perícia. A coordenadora
disse que, se eu era doido, então por que é que não pegava uma licença
nas férias? Respondi que eu era doido, mas não era burro, são coisas
diferentes.
- Eu tenho 53 anos, trabalho há
mais de trinta e nunca peguei uma licença, quase não falto - emendou.
- Trabalha mais trinta que tá
pouco.
- Que?
- Nada não.
Pensei de mim para comigo que é
por estas e outras que os caras vão elevar a idade da aposentadoria para
setenta anos. De repente, de um instante para o outro, vários dos meus colegas
de trabalho – não todos, é preciso dizer – tornaram-se Geraldos Alckmins
mirins, Temeres Juniores (será que o plural está certo?), médicos, peritos, o
diabo. Cheguei à conclusão de que para o idiota, quanto mais trabalho, melhor.
Ele, o idiota, não pensa, não tem vida interior, não ouve música – salvo as
mais estúpidas do rádio -, não admira pintura, não cria, não se espanta diante da
beleza, do acontecer diário do mundo; para ele, tudo já está dado. Eu escrevo,
se bem ou mal é outro papo, mas preciso de um tempinho para alguma atividade
criadora.
Pensei dizer:
- Vocês têm mais é que
trabalhar mesmo, pois é a única coisa que sabem fazer, e quando se aposentam,
não duram seis meses e batem as botas. É bem feito – mas não disse nada, saí da
sala, assinei uns papéis e, assim que pude, vazei.
Eu ia falar ainda de um
terceiro caso, mas acabei esquecendo. Tomei café, dei uma volta, fui ao
banheiro, mas o assunto sumiu completamente. De qualquer modo, um caso a mais é
até pleonasmo, completamente desnecessário. Vocês devem ter os seus próprios
para se lembrar e, talvez, contar. Boas festas! E até ano que vem, se eu não
levar outra bofetada daqui até o dia 31.
[1] A maior
traição ao Cristo crucificado é o próprio cristianismo instituído.
[2] Não existem fatos, só interpretações. A pergunta é: a quem interessa desconstruir um homem como Gandhi?
[2] Não existem fatos, só interpretações. A pergunta é: a quem interessa desconstruir um homem como Gandhi?








