Sabe o que eu vejo por trás da ira, do egoísmo, da manipulação, da inveja, da violência, da esquizofrenia de olhos azuis, do modo como os homens e mulheres que têm alma me olham, do meu próprio medo? Dor. Tirando toda a tralha, peneirando o excremento, jogando fora o resíduo denso do disfarce: a dor da criança para a qual os pais deram as costas; a dor do cão que, ao lamber a mão do dono, foi esbofeteado. Há um espinho de peixe atravessado na garganta de todo vilão. Iago não sofria menos que Otelo e Edmundo é uma Cordélia sem sapato de princesa. Deus detesta aquele cuja fé não vacila, pois não passa de um puxa-saco travestido de humilde; e quem pode amar um lambe-botas? Nem Javé em sua infinita misericórdia. Ainda não confio naqueles cujos espíritos não oscilam e farejo em cada gesto a mentira da paz forçada. Não nego o semblante verdadeiro e pacífico de um Cristo, um Laozi, um Buda; mas são raros e não os vejo nos programas de televisão. Sinto tanta pena! Meu coração é um orfanato criminalmente incendiado e as crianças estão todas dentro, trancafiadas. Meu coração é o asilo onde o ser, ainda vivo, fede a mofo e flor de plástico; onde o amor entra em putrefação enquanto respira. Eu amo a Deus, mas será que Deus ama os homens? Sei que quem ama educa, mas as moderníssimas escolas pedagógicas não creem no castigo como método. E é cada cipoada que a gente leva no lombo toda vez que, sem perceber, transgride a Lei. E tudo isso, irmã, tenho suportado calado, tentando enxergar qual é a lição escondida em cada decepção. Não se pode culpar alguém por não vencer, só por não tentar e eu tenho tentado tanto... Tenho passado meus dias em silêncio, enquanto cada inspiração é uma pedra no rim, um parto de criança cabeçuda. Queria te mostrar; mas, como o silêncio não pode ser dito, lanço mão de mil artimanhas para torná-lo presente. E isto aqui não é literatura, essa puta velha bem maquiada, essa cadela do bom gosto e do requinte. Não, isso é uma súplica, um pedido, uma prece ajoelhada lançada por uma boca salgada de lágrimas nos ouvidos do Enigma: Senhor, Senhor, ou me mata ou tende misericórdia! Se eu pudesse mostrar-lhes os meus ontens, as minhas noites em vigília, o modo como continuo caminhando entre meus iguais com o coração desmoronando. Se fosse só minha dor que me doesse, seria tão fácil; mas fui nascido com uma alma sem contorno e, se vejo um cão abandonado, é em minha pele que a sarna se instala; se vejo um menino de rua, é meu corpo que fede a carniça e indiferença; se observo a boca anciã que já não consegue mastigar, é meu estômago que não digere a desgraça dessa vida. E se alimento o cão, dou cem reais ao menor abandonado e preparo a sopa da terceira idade em farrapos isso não disfarça ou diminui a ferroada da impotência. Viver é se equilibrar no absurdo.
Será que o mundo foi tomado? Será o universo um malvado demiurgo? Ferida que vira as bordas ao contrário para devorar a si mesma?
Hoje é domingo, vou levar meu filho ao parque e tentar ensiná-lo a ser um bom homem. Vamos almoçar juntos e tomar sorvete. Vamos nos perder entre homens e mulheres sonâmbulos: elas - sempre puras, inocentes e injustiçadas - culpam seus maridos pela mediocridade; eles culpam-nas porque não podem saltar o fracasso. Seria cômico, não fosse terrivelmente. Mais tarde vou preparar o leite com Toddy - porque meu menino não gosta de Nescau - e levar na cama com tudo o que me sobrou de bom. Eu não sei como salvá-lo e minha fé foi passear de montanha-russa. Não pensem que sou mau ou niilista, tudo o que me dilacera é por excesso de amor. “Que vontade de ter, de querer te abraçar, de correr pela areia”.🌻
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020
VERMELHO
Eu queria ter um amigo calmo
Que sabendo que não posso beber
Me oferecesse um café e um pedaço de queijo
E, me abraçando, dissesse que tudo vai terminar bem
Eu queria ter um amigo em cujo colo pudesse descansar
meus tantos tormentos
Queria um amigo otimista, sem ser banal
Um companheiro pras horas difíceis da vida
Um cara que compreendesse os buracos e ribanceiras da estrada
E me lembrasse um pouco a paz de Minas Gerais
Um sujeito simples, honesto, sem competição
Que me vendesse o carro velho sem pensar em lucro
E, boiadeiro, tocasse em frente
Um amigo a quem eu também ajudaria
Porque sou sincero e amoroso
Queria tanto um amigo que dissesse que isso faz parte da vida
E que é normal se sentir tão só, mesmo no meio do mundo véio sem porteira
Queria um amigo para os dias de chuva e de sol
Alguém que me ajudasse a cantar a canção
E que, mesmo sem instrumento, batesse as palmas das mãos
Queria tanto ter um amigo - e tenho muitos,
Mas todos estão dispersos pelo mundo,
Disfarçando suas próprias feridas.
Que sabendo que não posso beber
Me oferecesse um café e um pedaço de queijo
E, me abraçando, dissesse que tudo vai terminar bem
Eu queria ter um amigo em cujo colo pudesse descansar
meus tantos tormentos
Queria um amigo otimista, sem ser banal
Um companheiro pras horas difíceis da vida
Um cara que compreendesse os buracos e ribanceiras da estrada
E me lembrasse um pouco a paz de Minas Gerais
Um sujeito simples, honesto, sem competição
Que me vendesse o carro velho sem pensar em lucro
E, boiadeiro, tocasse em frente
Um amigo a quem eu também ajudaria
Porque sou sincero e amoroso
Queria tanto um amigo que dissesse que isso faz parte da vida
E que é normal se sentir tão só, mesmo no meio do mundo véio sem porteira
Queria um amigo para os dias de chuva e de sol
Alguém que me ajudasse a cantar a canção
E que, mesmo sem instrumento, batesse as palmas das mãos
Queria tanto ter um amigo - e tenho muitos,
Mas todos estão dispersos pelo mundo,
Disfarçando suas próprias feridas.
O OLHAR DO OUTRO
Duas pessoas com as quais convivo e pelas quais nutro imenso afeto disseram, recentemente, coisas semelhantes a meu respeito. Uma delas disse: “Você se acha melhor que os outros”. E a outra: “Não vai se achando a última bolachinha do pacote”. Acusei o golpe. Como assim? um menino tão bom😱! Há no ser um vapor que embaça o espelho; o qual é chamado, o vapor, no popular, de ego. Aqui não é o ego da psicanálise. O primeiro ímpeto que a gente sente quando recebe críticas assim é se defender; o que é errado, porque as críticas não são endereçadas à totalidade de nosso ser, mas a um de nossos muitos defeitos de caráter. Como seres humanos, todos temos qualidades e defeitos e podemos nos tornar melhores se observarmos o que em nós não é motivo de alegria. Não sou advogado do meu ego ou dos meus defeitos, pelo contrário. Também já não faço como antes, quando tentava justificar meus defeitos apontando as falhas do outro; o que, inevitavelmente, gerava discussão. Hoje, é difícil, mas eu tento acolher críticas assim e mudar. Sim, porque todos estamos o tempo todo mudando, mesmo que permaneçamos os mesmos. Nada é pelo outro, tudo o que tento melhorar é para que eu mesmo sofra menos. Ainda sinto vontade de pedir desculpas por mancadas que dei há vinte anos; mesmo que aquele cara já não exista objetivamente. Por um ou dois dias, parei, pensando nessas críticas, e observei minha travessia até o presente e, de fato, há em mim uma coisa horrorosa: a tendência ao autoelogio. O elogio é sempre do outro; quando a nós nos voltamos é vaidade: o horror. Investiguei as causas e não foi preciso ser um Sherlock Holmes para perceber que este meu comportamento é fruto de uma tremenda insegurança, de um complexo de inferioridade, como se diz por aí. Eu nunca sei se o que fiz foi bom. Acho que qualquer outro poderia ter feito melhor. E aí, espero o elogio e, quando ele não vem, eu mesmo o faço na esperança de que o outro confirme e eu me sinta um pouco melhor. Vou dar um exemplo: hoje não, mas quando era mais novo, era puro ciúme. No fundo, não achava merecer o afeto de uma pessoa que admirava. Por outro lado, pensava: é tudo uma grande coincidência, sou eu aqui, mas podia ser qualquer outro. Eu não sou especial. Caso eu não existisse, o mundo continuaria do mesmo modo. Hoje dou risada; mas, quando você tem dezesseis anos, um pensamento assim fere fundo. Eu não sei como resolver estes meus defeitos. Acho que reconhecê-los e estar atento já é um começo. Depois, o que faço é observá-los e colocá-los no sopro, durante a meditação. Você não precisa crer em Deus ou algo assim; mas tem de reconhecer que vivemos dependurados no Mistério. Há algo vedado lá no fundo. O ar que respiramos, por outro lado, é um presente-milagre que não valorizamos. Bastava faltar oxigênio e a vida se dissiparia. É um exercício de humildade, perceber-se menor que uma lufada e, quando coloco as falhas que percebo em mim no sopro, elas, aos poucos, perdem poder. Melhorar é coisa demorada. Tarefa de uma vida inteira. Enquanto isso, ouço Beatles🌻
TALARICO E PARAÍBA
Só quem corta meu cabelo é o Paraíba. Lá, o cabra entra bonito e sai imprecionante, como diria o ministro. Com o Paraíba, o sistema é bruto, nem cartão aceita e fica ofendido se o chamam de cabeleireiro: “Eu corto, mas não aliso cabeça de macho”. Além de ser o melhor barbeiro de São Miguel, Guaianases, Itaim, Itaquá e região, o Paraíba sempre tem um causo pra contar. E, você sabe, eu me amarro em estórias. Hoje tem setenta e dois anos e é da Congregação Cristã do Brasil, graças a Deus; mas, durante muito tempo, foi do mundo, como diz. Casou-se sete vezes e, não tivesse se convertido, estaria na oitava.
Estou sentado na cadeira de olhos fechados e ouvidos abertos:
- Pense numa doença ruim, menino: ciúme! O caba enlouquece. É, meu irmão! Uma vez, segui um ônibus até o Camargo Velho pensando que minha quinta mulher tava dentro e ia se encontrar com o outro. Fui até o ponto final. Daqui lá dá o que? Uns vinte quilômetro. Chegou no fim, a mulher desceu e, quer saber? Nem era minha mulher🤣! Assunta: eu tava cego, doido mesmo, de ciúme. Mas nem sempre fui. De novo, era seguro, mas depois que minha segunda mulher, perdi a fé. Aquilo foi paixão maior do mundo, rapaz! Eu não tinha olho pra mais. Enlouqueci. Foi. Larguei mulher com filho pequeno e fui morar com ela. A bicha era boa de cama e de carinho. Parecia que eu não tinha controle de mais. Era arrastado, tipo assim aquele troço, como é? Tsumena... Tsumane... Como é? Tsunami? Pois é, que seja. Vai vendo como o Diabo é sujo. Enrabichei bonito. Pois eu tinha um amigo que era mesmo que irmão. Tinha vindo do Norte comigo. A gente se conhecia desde berço, tu crê? Comia junto. Bebia. Emprestava dinheiro. Tô te falando! Pois foi que foi e, mais de uma vez, cheguei em casa, tarde da noite, depois de fechá o salão, e peguei o caba lá. É certo isso? Fiquei com a pulga. Aí, pastorando, um dia voltei pra casa antes. Entrei devagar, nas ponta, ouvi o gemido, olhei pela fechadura e tavam lá, os dois, na minha cama, bicho! Pense num desgosto grande! Que eu fiz? Nada. É, fiz não! Passou uma sumana e o caba tava sentado aí, nessa mesma cadeira que tu tá, o pescoço estirado e eu com a navalha na mão. Assunta: o cão quando não vem manda office-boy. Rapaz, por essa luz. As vista chega escureceu e eu vi o caba com o pescoço cortado de ponta a. Sim. Quando vi, foi Deus, joguei a navalha longe. Larguei mulher, esqueci de amigo. Eles se ajuntaram, só que não viveram um ano. Que se fodam pra lá, Deus que me perdoe. E eu nunca mais fui ingual. Peguei essa doença de. Agora que me converti foi que melhorei. Graças a Deus! Tô com essa mulher e até que nóis vevi bem; ainda assim, se chego em casa e ela num tá; o cão sussurra. Mas diga lá, e o pezim tá bom ansim?
Aceno um sim com a cabeça.
- Então tá bom, mais um cliente sastifeito. Com o Paraíba é ansim: o caba entra bonito e sai impressionante!
Estou sentado na cadeira de olhos fechados e ouvidos abertos:
- Pense numa doença ruim, menino: ciúme! O caba enlouquece. É, meu irmão! Uma vez, segui um ônibus até o Camargo Velho pensando que minha quinta mulher tava dentro e ia se encontrar com o outro. Fui até o ponto final. Daqui lá dá o que? Uns vinte quilômetro. Chegou no fim, a mulher desceu e, quer saber? Nem era minha mulher🤣! Assunta: eu tava cego, doido mesmo, de ciúme. Mas nem sempre fui. De novo, era seguro, mas depois que minha segunda mulher, perdi a fé. Aquilo foi paixão maior do mundo, rapaz! Eu não tinha olho pra mais. Enlouqueci. Foi. Larguei mulher com filho pequeno e fui morar com ela. A bicha era boa de cama e de carinho. Parecia que eu não tinha controle de mais. Era arrastado, tipo assim aquele troço, como é? Tsumena... Tsumane... Como é? Tsunami? Pois é, que seja. Vai vendo como o Diabo é sujo. Enrabichei bonito. Pois eu tinha um amigo que era mesmo que irmão. Tinha vindo do Norte comigo. A gente se conhecia desde berço, tu crê? Comia junto. Bebia. Emprestava dinheiro. Tô te falando! Pois foi que foi e, mais de uma vez, cheguei em casa, tarde da noite, depois de fechá o salão, e peguei o caba lá. É certo isso? Fiquei com a pulga. Aí, pastorando, um dia voltei pra casa antes. Entrei devagar, nas ponta, ouvi o gemido, olhei pela fechadura e tavam lá, os dois, na minha cama, bicho! Pense num desgosto grande! Que eu fiz? Nada. É, fiz não! Passou uma sumana e o caba tava sentado aí, nessa mesma cadeira que tu tá, o pescoço estirado e eu com a navalha na mão. Assunta: o cão quando não vem manda office-boy. Rapaz, por essa luz. As vista chega escureceu e eu vi o caba com o pescoço cortado de ponta a. Sim. Quando vi, foi Deus, joguei a navalha longe. Larguei mulher, esqueci de amigo. Eles se ajuntaram, só que não viveram um ano. Que se fodam pra lá, Deus que me perdoe. E eu nunca mais fui ingual. Peguei essa doença de. Agora que me converti foi que melhorei. Graças a Deus! Tô com essa mulher e até que nóis vevi bem; ainda assim, se chego em casa e ela num tá; o cão sussurra. Mas diga lá, e o pezim tá bom ansim?
Aceno um sim com a cabeça.
- Então tá bom, mais um cliente sastifeito. Com o Paraíba é ansim: o caba entra bonito e sai impressionante!
TÃO BONITA
Talvez, há muito tempo, alguém tenha te humilhado em público. Talvez tenha sido teu próprio pai, ou mãe, ou o menino de quem gostava na escola. Pode ser que algum idiota tenha criticado teu nariz, teu corpo, teu cabelo, tua cor e tudo isso fez você se sentir a pessoa menos atraente do mundo. Alguém, por certo, mencionou seu jeito efeminado, se você fosse menino; ou seu jeito masculino, se fosse menina. Janis Joplin foi eleita o menino mais feio de todo o colégio! E cantou como ninguém, mas nunca se recuperou. Provavelmente, nas revistas, na televisão, as pessoas que ocupavam o imaginário adolescente não se pareciam nem um pouco contigo. E, no teu quarto, durante a noite, ou nos livros que lia, você se imaginava outra: Diana Ross? Molly Ringwald? Sharon Tate? Tua pereba é o que ilumina teu olhar. A pérola é o curativo da concha. E sua magia é sua pérola. Só quem sofreu se torna interessante. Aqueles que nunca despencaram do palco, ficam na superfície. Não correm o risco de seu tormento. Porque te feriram fundo e despertaram em você o poder da ira, você não tinha a obrigação de voltar esse ódio contra si e, por extensão, contra o mundo. Todos nascemos iguais, mas a ferida que encarnamos depois, que é muito anterior, nos torna únicos. Por vezes até charmosos, não para todo mundo, é claro, só para os raros. Aos que conseguem ver, há mais beleza e talento em Mama Cass que em Michelle Phillips. E daí que te chamaram de negra, narigudo, bicha, gorda, sapatão, vagabundo? Comparado contigo, és tão bonito! Não renegue o mundo porque alguém, algum dia, disse isso e aquilo e aquilo outro. Não encolha a cabeça pra dentro do casco, tal qual cágado, porque certa vez, algum idiota te deu um cascudo quando desafinou. Se a gente fracassa, os canalhas gargalham sobre nosso túmulo. Se você faz mil plásticas, até não ter mais nariz, é o monstro quem triunfa. O poder nasce dos traumas superados. E a magia que um sorriso espalha, não tem outra origem além do coração dilacerado. As pessoas desacreditadas são aquelas que movem o mundo. A dor lhes dá a autoridade de criar. O charme de uma gargalhada vem das agruras que deixou pra trás. Então, dirija sua raiva para a ação, pois não há combustível melhor e, enquanto cria, plante flores no caminho. Quero te dizer, baixinho, um segredo: comparado contigo, você é tão bonita!🌻
ASTRONAUTA APOSENTADO
Sabe o que admiro nas mulheres? A capacidade que elas têm de demonstrar afeto umas pelas outras sem a necessidade de estarem ébrias. Os homens precisam ao menos do álcool pra romper a barreira. Meninos são treinados assim. É por isso que, muitas vezes, a gente encontra um amigo que ama; mas não diz que ama, diz que o considera. E, logo que dois amigos assim se encontram, ficam sem saber o que fazer. O jeito então é quebrar uma pra engrenar o papo; o que, no fim das contas, pode acabar em vexame. Por muito tempo, nunca superei nada, adormeci tudo; mas, por baixo da casquinha, o pus proliferava, a coisa inflamava e, quanto mais inflamava, mais eu precisava de analgésicos, até que construí transporte e me tornei astronauta: Major Lopez, distante milhares de quilômetros da Terra, de onde nada me chegava além de ecos. E, na segunda-feira, perguntavam-me: você viu o avião que caiu? Assistiu ao jogo? Ao debate político? Eu não sabia de nada. Tinha estado longe. Preferira o princípio de prazer ao princípio de realidade. Naqueles últimos anos, estive completamente só, na minha nave, no meu mundo. Até que a nave despencou do espaço e o impacto da queda quase; mas, como disse Nietzsche: “o que não mata engorda”. Não, isso são os meninos que dizem quando pegam doce do chão. A frase é: “o que não mata fortalece”. Ou ao menos faz continuar. Que seja! Ao tomar por maestro o girassol, virei o rosto em direção à luz. Ainda anoitece, é claro. E, no inverno, as noites são mais longas. Acontece que, agora, estou certo das manhãs. E observo, extasiado, os feixes de luz brilharem de encontro à superfície de metal da minha nave em ruínas.
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