O milagre o povo sabe o que significa. Ele mudou da água para o vinho - dizem. Querendo dizer que a pessoa parece outra, mas que, na verdade, apenas voltou pra casa. Resgatou a criança. É sintomático que, na parábola, isso ocorra numas bodas, em Canaã. No casamento com o Sagrado, ou melhor, em nossa reconciliação, mudamos, reencontramos a criança em estado de brincadeira e inocência. Quero largar a carcaça no deserto e regressar ao lar do meu coração, agora livre de toda fuligem e ferrugem. Em breve, será tempo de pipa outra vez. E o céu há de se vestir com a cor de todo menino.
Estou pronto.
A casa está limpa.
Venha pra morar de vez dentro de mim.
sexta-feira, 13 de setembro de 2019
COMO?
Já o que dói em mim não é a dor que a vida impõe. Julgo-me musculoso suporte para qualquer chaga. O que hoje me fere é a dor que espalho ao passar: o inseto esmagado pelos meus pés cegos, a vida ceifada - mesmo vegetal - que alimenta minha rotina, a mulher cujo anseio não posso atender. Ando tão difuso que já não sei se o que dói em mim é meu rim ou o rim do mundo. Não há delicadeza que nos impeça de ferir. E quando cravo a enxada no chão, ainda que seja para plantar amor e ternura, ouço os gritos sagrados da Terra. Como?
SERENADE
Deus num tem pressa; não há carreira no eterno. Age na lei do manso, Deus. Tem cavalo que. Uno passa a mão no focinho e o bicho oferece a cabeça; cheio de Deus por dentro e milagre no olho. Cachorro também. E gato. E os homens; na música, gente bruta fica delicada, um precisa do outro, outro necessita do um: vamo fazê isso junto? Um acompletando o outro, que nem humanidade, ciranda, criança de mão dada à roda do quintal. Serenade, sol, sereno, geada nas planta de man...hã; nuvem na baixa em riba do pasto. E na cidade também tem, mas é menos: vi criança de rua brincando com bebê que tava em cadeirinha, banco de trás de carrão importado, hein? E sorriam, os dois, sem saber de abismos. Mas o sinal: verde vã esperança: vrum. E foi. Deus. Deixou perfume de flor. Vontade de suspirar dentro da gente e ajudar a quem precisa. Passou passarim e era Deus de novo, se amostrando pra outro que nem percebeu. Num é só Diabo, Deus também mora no detalhe; tudo pequenim, delicado, amoroso: cafunês. Milagre não num faz estrondo. Eu via, pois, tempo que vendia doce, tinha vô, tiozim-já, que levava a neta no ponto, cinco hora da manhã, e só voltava pra casa depois que a menina entrava no buzo, sô. Como é o nome disso? É Amor. É Humano. É Deus. Oferenda de tudo que se é ao outro. Quem ama fica miudim pra se alegrar na grandeza do outro. É Deus no meio; na semente rompendo a casca, no pintim trincando o ovo. Quem quiser que explique, eu suspiro e choro. Sou cientista não. Menino admirado. U’a veiz, Senhora, fiquei tão triste que pensei morrer. Tenho disso. Triste que nem bicho triste. Que nem sinal de fábrica às sete da manhã. Que nem... Peguei faca na cozinha e tava em ponto de rasgar a goela de ponta a; mas Deus entrou na mão e eu desviei a faca pro bucho e a ferida se-fez-se filha e flor e Sofia; u’a rosa vermeia crescendo em mim; que era o Cristo mesmo feito em flor. Eu sinto, Senhora, que não estou dentro: neste cuerpo cheio de nervo, osso e veia; eu fico é Fora e me visito vestido de brisa, suavidá, Amor meso, uai. Que diferença faz se esse cuerpo não for? Se ele roxear e apodrecer? Eu continuo, no Fora, no meio de Deus, atravessando a brincadeira entre menino milionário e menino de rua. E o que fui – e que só eu podia ser – fica também, na palavra, dentro de quem cuido e amo: u’a rosa, u’a Benedita.
Meu nome já não pode ser Mineirim, só Amor.
Meu nome já não pode ser Mineirim, só Amor.
domingo, 25 de agosto de 2019
FILHOS, LENNON, BILAC E CARTOLA
Cada um cria os filhos do modo como consegue e acha melhor. Aqui em casa é na base da liberdade. Nunca mandei o João ou a Sofia lerem um livro, mas tenho muitos livros e eles me viam lendo muito um tempo atrás. Com a música é do mesmo jeito. A gente divide. Com o Lennon, por exemplo, numa parte da viagem, o rádio é dele; na outra, é meu. Gosto muito de ouvir uns funks, no flow etc e tals... A gíria é a língua em devir; língua menor, máquina de guerra, you know, toda essa baboseira conceitual. Mas, durante o meu comando, eu é que comando, uai; ainda que a Arte chegue sem precisar de mando. Outro dia, tocou Morro Velho, do Bituca, e, quando terminou, o Lennon - João - estava trêmulo, tocado por aquele enredo tão triste e aquela música mineira de carro de boi; som que viajou trezentos anos só pra chegar aos nossos ouvidos. É assim: um dia videogame, outro dia Cervantes, ou. Sem pressa e sem pressão. Funcionou muito bem com a Sofia. Ela se tornou um mulherão. Maior orgulho do papai aí. Mas eu queria mesmo voltar ao som do carro. Hoje, tocou Cartola, O mundo é um moinho, e eu expliquei a história da canção, dando uma enfeitada pra aumentar o drama. Vi o João em silêncio, sorvendo cada palavra, cada acorde. O milagre também é estético. Quer coisa mais bonita que um milagre assim, segunda-feira de manhã? Enfim, deixei o João na escola e voltei pensando no Cartola e no milagre que ele é. Não acho Bilac ruim, não; mas creio que sua obra maior foi mesmo o Cartola. Um acadêmico e um favelado. Coisas do Brasil. Como é que pode um homem sem qualquer instrução formal ser um gênio da língua feito Agenor? A forma como usa a segunda pessoa do singular, o tu, faz o amor ganhar um patamar transcendental: "devias vir para ver os meus olhos tristonhos". Fala de um amor que atravessou o mundo em caravelas, navios negreiros e foi aportar em meio aos barracos da favela. Os vivos do tempo presente somos a boca e a voz de todos os mortos. Quando digo olá, até Camões diz comigo. O grande barato de ser brasileiro, e que nada tem a ver com odiar, é ser liquidificador. O ponto exato onde o batuque de origem mama-África encontra o barroco-católico-português e o culto à mata do guerreiro-índio-menino. Foi uma boa aula pra mim e meu filho. Fomos visitados.
Boa dia e boa semana, amigos.
Boa dia e boa semana, amigos.
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Daniel Lopes
luminação
luminação - iluminada é a onda que, além de sua condição momentânea de onda, descobre-se sempre mar.
Eu? O que sou?
O surfista
Que leva no peito o seguinte verso tatuado:
She loves you, yeah, yeah, yeah!
Eu? O que sou?
O surfista
Que leva no peito o seguinte verso tatuado:
She loves you, yeah, yeah, yeah!
O COTIDIANO COMO HORIZONTE DO ESPLENDOROSO
Outro dia, escrevi que a felicidade é questão de atenção e não de realização. Fomos educados sob a narrativa do heroísmo; seria, pois, preciso fazer algo grande para que a vida ganhasse sentido. A razão da vida, em tal vértice, está sempre no futuro, sob a imagem da façanha. Eu sonhei ser Dostoiévski😲. Tudo bobagem! O sentido da vida está no cotidiano, no corriqueiro, em tudo aquilo que fazemos sem atenção e, muitas vezes, praguejando. Quando conseguimos trazer o espírito de volta à casa do corpo e estar presente no nosso próprio agora, que é a vida mesma acontecendo, tudo se torna sagrado, esplendoroso: oração. Aí, você leva os filhos à escola e percebe que eles estão ali ao lado, crescendo, e que toca no rádio uma canção e isso tudo é o milagre do amor e você não se dava conta, pois queria escrever seu Os Irmãos Karamazov, mas você nem gosta de frio. Você rega as plantas e percebe que, mais que água, vai junto o cuidado, o concernimento, o carinho: amor, porra! E as plantas sabem e, quando você fica triste, elas gritam por você lá do jardim, pedem até desculpas sem saber o que aconteceu, sentem-se culpadas, coitadinhas: “volta, amigo! Prometemos ser comportadas”. Você alimenta os cachorros e eles balançam o rabo e te beijam e não cabem em si de alegria, porque eles estão derramando amor pela língua. Você tira o cocô deles, lava o quintal, cumprimenta o vizinho, tudo isso é milagre e, quando você consegue fazer com amor e atenção, percebe que é um privilegiado. Você está tendo a oportunidade de amar, de se doar, de cuidar e servir. Então por que você não ama? Preocupa-se em ter um carro melhor que o do vizinho! Em escrever uma tese melhor que a do colega! Em ser promovido! Puxa vida! Como é bom tomar o café que a gente mesmo fez numa manhã fria! E quando você dedica atenção e amor assim a tudo o que faz, você fica grato. Você não reclama porque não tem salmão, mas agradece de coração a sardinha. Você não olha a Scarlett Johanson com cobiça, mas percebe o valor e a força da sua própria companheira. Vivendo assim, você nem precisa mais rezar porque tudo o que você faz é uma oração e tudo é abençoado. Quando o dia chega ao fim, você se senta com a família e o violão e todos cantam juntos uma canção qualquer. Ou então você se senta sozinho, pega uma caneta e honra a vida não vivida; escreve, com todo o coração, um conto sobre aquela mulher que não pôde amar porque ambos tinham compromissos. E, depois de escovar os dentes, feliz por ter pasta, escova e dentes, você se deita e percebe que teve um dia feliz. E você consegue o milagre dos milagres: você fecha os olhos e dorme.
DE SOFRÊNCIAS E ASTERISCOS
Há pessoas que se acham sofisticadas demais para serem felizes. No fim das contas, o mal-estar nada tem a ver com profundidade; ele é fruto do eu-egóico. A camada mais externa do ser. Vaidade das vaidades, tudo é vaidade. As pessoas ficam tristes não por serem inteligentes, mas por não terem sua inteligência reconhecida pelos demais. O eu-egóico é o inferno e o Diabo, não há outro. E o homem ocidental achou que, para ser profundo, e o mais profundo é a pele, seria preciso cavar até o inferno: milhares de páginas da literatura ocidental são sobre esse mal-estar chique; mas Li Bai cantava apenas a natureza, a mulher e o vinho: é Chinês, mas é meio mineiro também: Beto Guedes, uai. E tem mais, é só no Ser, naquilo que Mestre Eckhart chamava de fundo da alma, que se pode amar. O resto é doença do ego: narcisismo, egoísmo, posse: o Diabo. O amor é como o sol, doa-se à roseira e à erva danadinha. O mais, barganha do egoísmo; o carrasco com autopiedade; o torturador cobrando gratidão do torturado. Hoje, aceito a escrita que me dilacera, mas dou valor também à que me deixa leve. Aprendi muito com as bolhas de sabão, os beija-flores e as borboletas. Tanto quanto aprendi com as toupeiras e insetos de Kafka e Dostoiévski. Então, não confunda melancolia profunda com melancia na bunda. Não sou filósofo, não aponto caminhos para a humanidade; encontrar um canto de língua e de mundo para que eu mesmo pudesse (r)existir deu um trabalho danado. Aquilo que me salva pode ser a perdição do outro. E cada um deve ser livre e responsável para construir seu próprio caminho. Se anoto nesses diários as clareiras que meus pés roçaram na mata, é porque cedo adquiri o hábito da escritura. Sartre, que era toupeira, escreveu que o inferno são os outros. Não existem outros. O mundo só vai melhorar quando destruirmos a noção de um eu separado; que não é o mesmo que destruir a singularidade de cada um, pelo contrário. Até lá, entretanto, estarei me ocupando de limpar a casa, plantar flores e acender incensos. Bom dia!
* Uma amiga mineira me disse certa vez que a simplicidade é o último grau de sofisticação.
* Uma amiga mineira me disse certa vez que a simplicidade é o último grau de sofisticação.
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