quarta-feira, 21 de junho de 2017

QUANDO UM MIA COUTO FALA, O OUTRO ABAIXA A ORELHA

Confesso que tenho uma tremenda má vontade para ouvir artistas e, em especial, escritores falando. Acho um porre; mas, por insistência da patroa, fui lá ver o Mia Couto. De tanto que enrolei, quando chegamos, a palestra já tinha terminado. Dei graças a Deus, uma amiga, porém, convidou:
- Vamos tomar um café com o Mia, vocês não querem vir com a gente?
Se tivesse superpoderes teria fulminado a moça na mesma hora com um raio cósmico, mas sou apenas um homem comum.
E lá fomos nós.
Pra começo de conversa, desconfio de quem usa cachecol e camiseta e era bem assim que tiozinho estava vestido. Daí por diante, ele podia ter escrito O idiota que eu leria de má vontade. Inveja, vocês vão dizer.  E acertaram. O pessoal, professores universitários, escritores, artistas plásticos, gente de teatro, babava ao redor do bom angolano.
Sentamo-nos para o café. Ele pediu um pão de queijo. Bebericou o café com o dedo mindinho levantado, mordiscou a iguaria mineira e então fez menção de falar. Todos em volta fizeram silêncio. O gênio abriria a boca! Ó pá! Um dos professores, inclusive, acenou para que os pássaros nas árvores parassem de cantar: o pior foi que os pássaros obedeceram. Os carros na rua pararam...
- Exte paum d’caijo tem textura dilicada.
- ÓÓÓÓ!!! – disse um mar de vozes. – Ele podia dizer que o pão de queijo estava macio, mas não, quanta sensibilidade! E que inteligência! Um poeta! Textura delicada! Que coisa linda! Maravilha! Só um gênio mesmo... – Daí em diante trabalharam as selfies para o facebook.
Eu também tinha pedido meu pão de queijo, de modo que pensei: “dos livros não sei, mas posso fazer melhor que isso aí.” Mordisquei também meu pão de queijo e metralhei, levantando o pão de queijo como se fosse a hóstia sagrada:
- Exte paum d’caijo extá taum quente quanto a alcova da Lucíola, de José de Alencar.
A primeira que me deu um tabefe na  glândula pineal foi minha própria companheira. “Cala a boca, abestalhado”. Os outros se contentaram em me esbofetear com os olhos. Daí pra frente não disse mais nada. Pus as mãozinhas entre as pernas, igual criança arteira e fiquei pensando apenas na nossa necessidade de ídolos, de celebridades. Aquele povo ali não diferia muito das adolescentes que ficaram seis meses acampadas para ver a um show do Justin Bieber. Seu Justin Bieber era apenas mais estragadinho. Pensei também em nosso complexo de vira-latas; com tanto escritor ruim aqui para idolatrar, precisamos importar mais um de fora.
imagem: Ramón Muniz

terça-feira, 20 de junho de 2017

O CASO DO CABRITO

O áudio era Antônio Marcos, Roberto Carlos, Tião Carreiro e Pardinho, ou Gonzagão.
O bairro onde moro, no extremo leste de São Paulo, é um reduto nordestino em São Paulo. Temos até uma Av. Nordestina. Nos anos 90, pedi a conta da padaria no Bom Retiro onde trabalhava e, com a ajuda do meu pai que continuou trabalhando numa metalúrgica, abri uma Casa do Norte. O problema é que sempre tive mais dom para a farra que para negócios, mas isso não vem ao caso aqui.
Foi num domingo de tarde, depois do jogo, que combinamos de fazer um cabrito na quarta-feira à noite, também dia de jogo. Sempre fazíamos um galo. Mas alguém deu a ideia, os outros acataram, e ninguém aguentava mais tanto galo. Fizemos uma vaquinha e ficou combinado que, no dia seguinte, Mula-manca – aposentado - e eu compraríamos um cabrito ainda vivo para matar e preparar na quarta. Aí, era só descer cachaça e brahma gelada.
E na segunda-feira de manhã, lá fomos nós. O sítio não era muito perto e andávamos devagar porque Seo Mula-manca sofria de gota e não conseguia acelerar o passo. Compramos um cabrito exemplar. Amarramos o bicho com um pedaço de cordão de varal e nos preparamos para a jornada de volta. É árduo o caminho do autoconhecimento, irmãos e irmãs.
Como a viagem era longa e cada um de nós tinha uma pedra de sal na garganta, paramos para tomar uma gelada logo que saímos do sítio, com um quebra-gelo para acompanhar. Andamos mais um pouco e paramos em outro boteco, repetimos a dose. Mais um quilômetro e outro boteco. Aqui o que mais tem é igreja, boca e bar. Jogamos um pouco de dominó valendo cerveja. O cabrito amarrado no poste lá fora. Como éramos parceiros de longa data, ganhamos vários raios. Saímos de novo, mas tinha muitos bares mais antes de chegarmos até nosso destino.
Quando chegamos, meu pai já tinha aberto o estabelecimento. Passavam das cinco da tarde. A turma de sempre saboreava seus aperitivos.
- Ué, cadê o cabrito? – O Tonhão perguntou logo da porta.
O Mula-manca, com uma ponta da corda na mão, apontou para a outra ponta e foi então que vimos. Não era um cabrito, não era uma cabra, não era um porco, não era uma ovelha, não era o super-homem e nem a mulher-maravilha... Na outra ponta da corda estava um cachorro sarnento, banguela, mais feio que bater na mãe por causa de salsicha.
O jeito foi rir e cuidar do cão que morreu menos de um mês depois.

Na quarta-feira, comemos galo outra vez. 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

QUEM SÃO ESSAS MULHERES NOS MEUS SONHOS?

QUEM SÃO ESSAS MULHERES NOS MEUS SONHOS? Quem são esses seres que me envolvem em orgias etéreas, ou acalantos maternais? Dizem os junguianos que são expressões da anima, a parte feminina da psique masculina. Certos pós-junguianos como, por exemplo, Roberto Gambini, Ginette Paris e James Hillman, ampliam o conceito e apontam que se, no fundo, toda psique é regida pelo inconsciente coletivo, então anima e animus seriam expressões do masculino e do feminino universais: o diagrama do taiji, como já sabiam uns chineses de muito, muito tempo atrás. Mas, por serem tão reais, duvido que sejam apenas imagens sem substância. Cada uma delas tem um caráter, uma silhueta que me aparece em detalhes, com espinhas, celulites, cabelos longos ou curtos, e tudo o mais... Todas têm um modo de falar próprio e, inclusive, um sotaque. Nunca saio de uma noite em que sonho com uma elas do mesmo modo que entrei. Essas mulheres em meus sonhos são seres que nunca encontrei na vida desperta. Há uma delas, a mais depravada de todas, que retorna mais frequentemente. Sempre vem acompanhada por outras mulheres. Sei pouco de sua vida. Seu assunto é o silêncio e o sexo; desenfreado, sem regras. Há outra, sempre vestida de azul claro, que tem sotaque português, mas fala um português muito, muito arcaico. Entendemo-nos, porque, nos sonhos, não precisamos de uma língua comum para nos entender. Ela é pálida, magra, parece meio adoecida. Sempre traz palavras de conforto e tem uma fé inabalável no Bem. Algumas delas, aparecem uma vez para nunca mais voltar, mas surgem com um riqueza de detalhes físicos, anímicos e psicológicos que não há como crer que sejam criações de uma mente adormecida. Seriam fantasmas? Seres de outro tempo e lugar? Expressões de desejos reprimidos? Se soubesse desenhar, faria retrato de cada uma delas, tamanha é a realidade com que me surgem. Como não desenho ou pinto, tento anotar tudo em detalhes num diário de sonhos

sábado, 17 de junho de 2017

, POIS OS ANIMAIS SABEM MORRER

A primeira gata que tivemos aqui em casa foi a Clarice. Ela tinha esse nome em homenagem à minha escritora predileta: Cecília Meireles. Clarice era uma gata siamesa, com os olhos azuis e os pelos do rosto mais negros que a asa da graúna. De todos os gatos que tivemos, ela era a mais geniosa, a mais orgulhosa: uma rainha. Não gostava de demonstrar carinho. E só aceitava receber carinho quando bem entendia. Certa vez, inventei de dar banho nela e quase fui parar no hospital para tomar pontos nos arranhões que, a bem da verdade, eram cortes e não arranhões.
A dureza de Clarice, entretanto, assim como a da escritora, era apenas superficial. No fundo, ela era pura ternura. Quando dormíamos, ela se deitava bem no meio da cama e ficava sem jeito quando acordávamos primeiro e a encontrávamos ali, feito uma menininha entre os pais. Saía miando brava, desconfiada, olhando para trás e pulava a janela.
                Clarice ficou conosco por pouco mais de um ano e então desapareceu. Foi terrível quando sumiu. O João, meu filho funkeiro, chorou. Saímos procurando a gata pelo bairro. Imprimimos fotos dela e colamos no açougue, na quitanda, na farmácia, na padaria... Eu, entretanto, tinha um segredo que não podia contar ao João: sabia que Clarice não voltaria mais, nunca mais.
                Eu não andava muito bom da cabeça naquela época, mas percebi, durante a tarde, que ela estava mais triste que o normal. Ela não era brincalhona, Clarice, era séria, mas não triste. Naquele dia, os olhos azuis dela estavam opacos, melancólicos. Quando a noite chegou, ela recusou a comida. A gente só percebe as coisas quando é tarde demais. Durante a madrugada, acordei. A coberta estava encharcada de vômito. Levantei e troquei; não dei, entretanto, a devida atenção. Clarice não estava, o que também não era nada anormal uma vez que os gatos têm hábitos noturnos.
                Dia seguinte, chacoalhei a vasilha de ração e ela não apareceu. Sempre vinha correndo, mas, naquele dia, não apareceu. E não voltou nunca mais. No mesmo dia, perguntei para o rapaz que recolhe material reciclável no bairro. Ele disse que tinha visto uma gata, com as características que eu tinha descrito, morta, embaixo de uma árvore, na outra esquina, duas quadras rua acima. Ela tinha partido para morrer longe das pessoas que amava. Não sei se a envenenaram, nem o que aconteceu, porque foi tudo muito rápido. Mas vi que era Clarice. Coloquei-a numa caixa de sapatos e a enterrei num terreno baldio, sob um pé de manga, enquanto o João estava na escola.

                Os animais não fazem escândalo para morrer. Não querem que aqueles que os amam sofram. Pensam no outro até na hora de partir... Encaram o fim com muito mais dignidade que nós, humanos, que estamos sempre batendo as pernas, gritando, fazendo barulho, Arte. Que é a literatura se não o trabalho de um sujeito que passa a vida toda brigando com a morte, dizendo sempre as últimas palavras?

quinta-feira, 15 de junho de 2017

SERÁ QUE AINDA PODEMOS FALAR DE PLÁGIO?


Já não sei se podemos falar de plágio. Talvez a única forma de plágio seria a cópia de um livro do princípio ao fim. De resto, tudo é apropriação, ou, como prefiro, roubo. Já não é possível inventar a roda, cuja idade soma mais de seis mil anos. Então tudo o que se faz, é feito de um topo de cultura; desviando, ou desenvolvendo elementos pré-existentes. Quando Duchamp expõe um mictório intitulado a Fonte, ele não precisa fabricar o mictório com as próprias mãos, basta desviá-lo, tirá-lo de seu campo semântico. Na filosofia, o mesmo se dá com um Deleuze, por exemplo, cujos conceitos mais famosos são extraídos – e retorcidos - das obras de outros filósofos, biólogos, matemáticos e escritores. O CsO já é em Artaud, mas Deleuze o desenvolve enquanto conceito. O próprio conceito de autoria, de sujeito, foi posto em xeque pelos estruturalistas e pelos franceses daquela turma de Deleuze, Blanchot, Guattari, Foucault, os quais, no entanto, jamais deixaram de assinar uma de suas obras e de receber os direitos autorais.
Então acredito no seguinte, se você insere algo que já existe num novo universo e isso - que pode ser um excerto, um sample musical, uma colagem – ganha novo horizonte de sentido, então não há plágio, mas arte.
Os filmes de Tarantino são colagens de cenas de milhares de filmes de ação obscuros anteriores que ele revigora e insere num outro contexto mais cult e sempre relacionado ao seu tema predileto: a vingança; que, a bem da verdade, também não é um tema novo: temos aí O conde de Montecristo, O morro dos ventos uivantes, etc... Então Tarantino é um plágio? Sim e não, acho que essa palavra não faz mais sentido, nem essa nossa gana de manter autoria em tempos de rede. Vejo gente se achando plagiada o tempo todo, principalmente nas redes sociais. O mais importante são as ideias e não o estrume de onde elas brotaram. Por outro lado, é certo que eu ficaria muito bravo se alguém estivesse ganhando muito dinheiro com um texto que eu tenha escrito. Tenho uma lei, nunca roubo dos pobres, só dos ricos. Então quem lê o que escrevo sabe que tem muita coisa lá, de Shakespeare a Murilo Rubião, mas esse monte de coisas, já não é nenhuma delas. É o que eu faço, meu retrato em palavras. Uma combinação de variáveis, roubos, leituras e experiências que só existe porque eu existo – eu acho.
Nos anos 1970, Neil Young lançou o melhor álbum de rock ao vivo de todos os tempos: Rust never sleeps – A ferrugem nunca dorme. Neil era um cara bruto - bem diferente de seu conterrâneo Leonard Cohen – e gostava de trabalhos manuais. Vivia, portanto, nas lojas de ferragens adquirindo material e ferramentas para os trabalhos em seu rancho. Foi lá que viu o anúncio de um produto para preservação do ferro: a ferrugem nunca dorme. Transposto para o universo dos anos 1970, quando muitos de seus amigos, inclusive o guitarrista da Crazy Horse, tinham morrido por conta das drogas, da tristeza, do sonho morto, como cantou Lennon, a frase ganhou uma conotação completamente nova. A ferrugem era a desesperança.

E então, meninas e meninos, será que ainda podemos falar de plágio?

segunda-feira, 12 de junho de 2017

A DOCE MORTE DE MILTINHO

Pense num cabra namorador! Agora multiplique por nove e some oitenta e três. Esse aí era Miltinho. Quando o conheci, há vinte e tantos anos, ele tinha pouco mais de sessenta e estava no quinto casamento, aceitando currículos para o sexto.  Onze filhos... Vai vendo.
              - Bicho, que vantagem tem um homem nesse mundo sem mulher? Nenhuma, a não ser poder mijar de porta aberta. Mas também a gente não tem de passar a vida toda com a mesma. Esfriou o café, é melhor fazer outro que requentar.
                Miltinho começou cedo a vida sexual. Com seis anos, no Nordeste, já traçava tudo que era bicho: de vaca a pardal. Com dez já frequentava a zona, onde mais tarde se apresentava tocando flauta, violão e berimbau.
                Era sujeito galanteador, Miltinho. Gostava de dar presente às moças.
- Vinha passando ali no Brás, quando vi essa tiara e me lembrei de você. Tome, Rosinha, é sua... Não há boniteza que não fique ainda mais bonita com um adorno de tão fina elegância.
De vez em quando, na maioria das vezes quando o dinheiro sumia, ele mesmo fazia o presente - era artista -, o qual podia ser uma pulseira, um poema, um pingente de prata, uma balada para violão... Não importava o tamanho da crise, tinha sempre alguma coisa em caixinha enfeitada para presentear uma Dona qualquer.
Usava calças xadrez, sandália de couro, cabelo grande; meio boiadeiro, meio hippie, outro tanto beatnik. Já disse que era artista! E como todo artista era sensível. Não entendia porque, com o tempo, as mulheres tomavam raiva dele.
- Olhe, Dani, veja você se sou um cabra ruim – não era –, ajudo quem posso e quem não posso, canto, bebo, brinco, não guardo mágoa de ninguém, mas tenho esse defeito de gostar demais de mulher. Quem nesse mundo é perfeito, némemo?  No final, elas sempre jogam as coisas na minha cabeça... Minhas roupas no quintal... Uma tristeza... Quando partem, não vão embora sem antes quebrar a casa inteira. Diz aí tem culpa eu?
Tinha não; mas eu, precavido mineiro que sou, sempre que ia visitá-lo, por via das dúvidas, deixava a mulher em casa. O caboclo tinha fala aveludada.

Ontem Miltinho morreu. Morreu Miltinho, coitado... Tão sem-vergonha, tão safado, tão moço, não tinha nem noventa anos. Morreu como queria, com um sorriso nos lábios. Em pleno dia dos namorados, foi flagrado por um marido indignado dentro do guarda-roupa da família. Levou cinco tiros. Já disse que não guardava mágoa. Quem o viu no caixão podia jurar que sorria. Viveu bastante e morreu fazendo o que gostava, o danado. Tinha mais de sorrir mesmo. Vá em paz, meu bom Miltinho boiadeiro, mas deixe pra trás o viagra e veja se respeita as santas no céu, visse?! 

Entrevista com Samuel Malentacchi: O abismo é um instante

1 -) Samuel, em Poética, Manuel Bandeira diz: “Estou farto do lirismo comedido / Do lirismo bem comportado / Do lirismo funcionário público com livro de ponto / Expediente, protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.” Em Tesouro, você escreve:  “me lembro da vez / em que você mijou nos meus pés / enquanto tomávamos banho / naquele hotel escroto na Armênia; / - foi a maior declaração de amor que já recebi.” Diz aí, você vê alianças entre a Poética do Bandeira e sua própria poética? Há uma conexão entre estas declarações viscerais?
bem, Daniel, vejo aproximações & distanciamentos. Bandeira teve um papel importante na minha formação de leitor de poesia! no decorrer do traço, fui me afastando, mas trago comigo as leituras excessivas do livro “a cinza das horas”, primeiro do Bandeirão, com aquele tom melancólico & delicioso sabor de hemoptise. Talvez, com o peso dos anos tenha mais conexão as visceralidades que com Manuel! me agrada muito a ideia de escrita enquanto queda & também horror, no sentido de relato (distorcido & delirante na mesma medida em que tenta ser registro fiel) do quanto existir é um espanto.

2-) Abismo é uma palavra recorrente nos seus poemas. Em Abrindo Abismos, você escreve: “pertenço à classe das fendas”. Além disso, o poema que encerra o livro intitula-se O Abismo é Um Instante. Quando abismo não aparece, surgem vocábulos similares como, por exemplo, oco. Certa vez, comentando a poesia de Artaud, Blanchot escreveu que, em Artaud, o que é primeiro não é o ser, mas a fenda e a fissura. Na canção Anthem, Leonard Cohen escreveu algo como: “Há rachaduras em tudo é assim que a luz entra”. E no Tao Te Ching, Lao-Tsé diz que erguemos paredes e casas, mas é pelas janelas e portas que a luz e nós mesmos podemos entrar. Sem mais delongas, qual é a importância do abismo, da fenda, do vazio na sua poética e na sua vida?
uau, que pergunta difícil! talvez nunca consiga respondê-la, o que não é a mesma coisa de não ter o que falar a respeito. a questão da fenda, da fratura, do abismo, são inquietações que me acompanham desde muito (sem que eu soubesse disso, claro), acho que o abismo me é ontológico! penso que talvez só seja possível estar no mundo humano através da fenda. a escrita se faz letra na fratura. e talvez possamos pensar esse vazio, que é diferente do Nada, ao menos pra mim, no sentido de um lugar. um lugar entre eu & o(s) outro(s). por exemplo: o que eu escrevo não é o que o outro entende, e o que o outro me comunica não é o que eu entendo. desse equívoco, desse tipo de ruído & desencontro, é possível criarmos um espaço potencialmente habitável. nem em mim, nem no outro. mas entre. um lugar quase, paradoxal e precário, um terceiro lugar viável onde talvez possamos construir um idioma possível ao “nós”. esse “fazer-junto” este terceiro lugar é possível através de um gesto corajoso, um convite ao diferente (o não-eu), para que ele coabite & construa comigo esse espaço quase, insustentável por natureza. possível por definição. esse espaço entre é lugar do Fazer, de um fazer poético, que não tem necessariamente ligação com um fazer poesia, verso. Vejo essa disposição poética no sentido de uma condição de Fazer existência no momento em que ela acontece, um viver criativo. podemos fazer um bolo criativamente e nunca escrever um poema e, ainda sim, sermos muito mais criativos que um tanto de fazedores de poesia & prosa!
com relação ao nosso traçado, meu amigo, acho que o escritor, nem tanto no que escreve (o produto de sua criação, sua escolha estética & de estilo etc.), mas na disposição a inscrever, faz registro dessa queda da certeza de sermos entendidos. entretanto, só é possível registrar (fazer letra) habitando esse espaço entre, que talvez nem seja um lugar, visto que fisicamente não é visível, hehe, mas uma disposição ao risco & ao encontro com a diferença, o nada, enfim, o abismo.

3-) A sua poesia, apesar de ser sempre muito suja, muito corporal, muito rueira é também uma poesia muito culta. Há nela desde Kierkegaard, até o Fiat Tipo. Como você concebe sua estética? Não gosto muito desta palavra; mas, na falta de outra melhor...
Hehe, também me incomoda um pouco essa palavra, mas talvez possamos pensa-la no sentido de uma sensibilidade & de um estilo mesmo. na verdade, nem eu sei muito bem como cheguei nisso. meus livros anteriores são completamente diferentes uns dos outros, acho que estava na procura de um “jeito”, e talvez tenha sido encontrado por ele. podemos pensar que tem algo a ver com o que escrevi na pergunta anterior, uma disposição existencial de tentar (nem sempre é possível) despir meu narcisismo (não abandoná-lo) da certeza delirante de ser entendido pelos outros. esse gesto é cruel, um pouco masoquista & quedante. Escrevo desse lugar e por conta dele. então, se posso pensar numa estética, é a estética do chão.

4-) No poema A Nick Cave´s Call - em minha opinião um dos mais tocantes do livro, principalmente o verso: “a ausência, já presente, de meu pai.” - você descreve seu início na escrita aos nove anos, já dedilhando na máquina de escrever “frases sem sentido”. Conte-nos mais a respeito. Que forças o impeliram a escrever? A poesia está em tudo quanto é lugar, mas como foi seu início nos poemas?
então, eu era poeta e não sabia. a gente nunca sabe na verdade, né? a poesia é “o princípio do prazer no uso da linguagem”, me disseram certa vez. e eu acreditei! então, ela não precisa ter um porquê, dar respostas, indicar caminhos, elevações espirituais ou qualquer merda dessas. poesia é. é fazer. demorei muito pra entender algo disso aí. dito isso, eu não tive uma criação “intelectual”, embora tenha aprendido a ler & escrever aos três anos de idade, minha família não tem uma tradição de leituras, pra você ver, aprendi a ler com as legendas do filme “a hora do pesadelo” que meus pais assistiam, hehehe. mas eu gostava de fazer letra, sempre gostei. empiricamente, meu primeiro contato com poesia foi através do punk. me envolvi com a cultura punk aos 13 anos & aquilo me virou do avesso. lendo zines, letras de bandas como Cólera e Olho Seco, aquilo me tomava o corpo (só de falar me lembro & me arrepio nos pelos do braço!). dali foi um passo para montar minha primeira banda. acabei tocando bateria por acidente, mas de um jeito ou de outro, eu sempre acabava escrevendo as letras. meus cadernos escolares eram cheios de letras, eu tinha ideia o tempo todo, era uma maluquice do caralho, mas era delicioso! nessa fase, descobri também a poesia, no verso mesmo. Augusto dos Anjos foi o primeiro poeta que li fora daquela chatice que nos ensinam que é poesia na escola. o ensino de literatura na escola muitas vezes é tão antierótico que torna a coisa traumática, bicho! O tempo foi passando e a poesia ficou no meu íntimo, não falava pra ninguém, escondi tanto que esqueci que gostava. fui relembrar na faculdade de comunicação. E através de uma pessoa que se tornou grande amiga pra vida. o nome dela é Cris Amorim, no meu primeiro ano de curso, super bicho do mato, achando que o ambiente acadêmico não era pra mim, encontrei com ela e através dos nossos papos, ela me disse: “cara, por que você não começa a escrever poesia? você é poeta, porra!”. Ela me apresentou Maiakovski, Augusto dos Anjos, que me foi um reencontro potente. A partir daí fui lendo & lendo & lendo, conhecendo mais poemas & poetas, quando me vi, estava também escrevendo.

5-) Velho, vejo em seus poemas tudo quanto é tipo de referência – do artista enquanto liquidificador -. Desde Nick Cave e Joy Division, passando por Burroughs e o já citado Kierkegaard. Quem são seus heróis? Os caras que dizem algo que fala ao seu coração e com os quais você estabelece, de algum modo, aliança?
putz, isso sempre é transitório, né? mas a gente tem uns de cabeceira, não importa a hecatombe que nos tome, é com esse pessoal que a gente conta no final. Como escrevi na pergunta acima, Augusto dos Anjos é um deles. Tenho um ritual obsessivo de comprar várias edições do “Eu”, é meio doentio, mas acho que quero guardar ele só pra mim, tirar do mundo, saca? Hahaha. É bizarro.
Bom, se eu puder listar, Augusto já está aí, colocaria mais ou menos assim: Freud, Sándor Ferenczi, Melanie Klein, Kafka, Burroughs, Poe, Lovecraft, Ginsberg, Sylvia Plath, Emily Dickinson, Juan Gelman, Hilda Hilst, Eunice Arruda, Roberto Piva e Manoel de Barros. Essa turma faz os dias melhores por aqui.

6-) Se houve algum assunto que você queria abordar, mas este entrevistador não perguntou, essa é a hora. Diga o que quiser. Faça aí suas considerações finais. Desde já agradeço a entrevista e a atenção. Abraço, compadre.
agradeço o interesse & a leitura de meu livro! Acho que por aqui está bom, falei pra caralho, haha,
grande abraço fraterno, bicho!
Penalux, 2017