Pense num cabra
namorador! Agora multiplique por nove e some oitenta e três. Esse aí era
Miltinho. Quando o conheci, há vinte e tantos anos, ele tinha pouco mais de
sessenta e estava no quinto casamento, aceitando currículos para o sexto. Onze filhos... Vai vendo.
- Bicho, que
vantagem tem um homem nesse mundo sem mulher? Nenhuma, a não ser poder mijar de
porta aberta. Mas também a gente não tem de passar a vida toda com a mesma.
Esfriou o café, é melhor fazer outro que requentar.
Miltinho começou
cedo a vida sexual. Com seis anos, no Nordeste, já traçava tudo que era bicho:
de vaca a pardal. Com dez já frequentava a zona, onde mais tarde se apresentava
tocando flauta, violão e berimbau.
Era sujeito
galanteador, Miltinho. Gostava de dar presente às moças.
- Vinha passando ali no Brás, quando vi essa tiara
e me lembrei de você. Tome, Rosinha, é sua... Não há boniteza que não fique
ainda mais bonita com um adorno de tão fina elegância.
De vez em quando, na maioria das vezes quando o
dinheiro sumia, ele mesmo fazia o presente - era artista -, o qual podia ser
uma pulseira, um poema, um pingente de prata, uma balada para violão... Não
importava o tamanho da crise, tinha sempre alguma coisa em caixinha enfeitada
para presentear uma Dona qualquer.
Usava calças xadrez, sandália de couro, cabelo
grande; meio boiadeiro, meio hippie, outro tanto beatnik. Já disse que era
artista! E como todo artista era sensível. Não entendia porque, com o tempo, as
mulheres tomavam raiva dele.
- Olhe, Dani, veja você se sou um cabra ruim – não era
–, ajudo quem posso e quem não posso, canto, bebo, brinco, não guardo mágoa de
ninguém, mas tenho esse defeito de gostar demais de mulher. Quem nesse mundo é
perfeito, némemo? No final, elas sempre
jogam as coisas na minha cabeça... Minhas roupas no quintal... Uma tristeza... Quando
partem, não vão embora sem antes quebrar a casa inteira. Diz aí tem culpa eu?
Tinha não; mas eu, precavido mineiro que sou, sempre
que ia visitá-lo, por via das dúvidas, deixava a mulher em casa. O caboclo
tinha fala aveludada.
Ontem Miltinho morreu. Morreu Miltinho, coitado...
Tão sem-vergonha, tão safado, tão moço, não tinha nem noventa anos. Morreu como
queria, com um sorriso nos lábios. Em pleno dia dos namorados, foi flagrado por
um marido indignado dentro do guarda-roupa da família. Levou cinco tiros. Já
disse que não guardava mágoa. Quem o viu no caixão podia jurar que sorria.
Viveu bastante e morreu fazendo o que gostava, o danado. Tinha mais de sorrir
mesmo. Vá em paz, meu bom Miltinho boiadeiro, mas deixe pra trás o viagra e veja
se respeita as santas no céu, visse?!
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