Já não sei se podemos falar de plágio. Talvez a
única forma de plágio seria a cópia de um livro do princípio ao fim. De resto,
tudo é apropriação, ou, como prefiro, roubo. Já não é possível inventar a roda,
cuja idade soma mais de seis mil anos. Então tudo o que se faz, é feito de um
topo de cultura; desviando, ou desenvolvendo elementos pré-existentes. Quando
Duchamp expõe um mictório intitulado a Fonte, ele não precisa fabricar o
mictório com as próprias mãos, basta desviá-lo, tirá-lo de seu campo semântico.
Na filosofia, o mesmo se dá com um Deleuze, por exemplo, cujos conceitos mais
famosos são extraídos – e retorcidos - das obras de outros filósofos, biólogos,
matemáticos e escritores. O CsO já é em Artaud, mas Deleuze o desenvolve
enquanto conceito. O próprio conceito de autoria, de sujeito, foi posto em
xeque pelos estruturalistas e pelos franceses daquela turma de Deleuze,
Blanchot, Guattari, Foucault, os quais, no entanto, jamais deixaram de assinar
uma de suas obras e de receber os direitos autorais.
Então acredito no seguinte, se você insere algo
que já existe num novo universo e isso - que pode ser um excerto, um sample
musical, uma colagem – ganha novo horizonte de sentido, então não há plágio,
mas arte.
Os filmes de Tarantino são colagens de cenas de
milhares de filmes de ação obscuros anteriores que ele revigora e insere num
outro contexto mais cult e sempre relacionado ao seu tema predileto: a vingança;
que, a bem da verdade, também não é um tema novo: temos aí O conde de Montecristo,
O morro dos ventos uivantes, etc... Então Tarantino é um plágio? Sim e não,
acho que essa palavra não faz mais sentido, nem essa nossa gana de manter
autoria em tempos de rede. Vejo gente se achando plagiada o tempo todo, principalmente
nas redes sociais. O mais importante são as ideias e não o estrume de onde elas
brotaram. Por outro lado, é certo que eu ficaria muito bravo se alguém estivesse
ganhando muito dinheiro com um texto que eu tenha escrito. Tenho uma lei, nunca
roubo dos pobres, só dos ricos. Então quem lê o que escrevo sabe que tem muita
coisa lá, de Shakespeare a Murilo Rubião, mas esse monte de coisas, já não é
nenhuma delas. É o que eu faço, meu retrato em palavras. Uma combinação de
variáveis, roubos, leituras e experiências que só existe porque eu existo – eu acho.
Nos anos 1970, Neil Young lançou o melhor álbum de
rock ao vivo de todos os tempos: Rust never sleeps – A ferrugem nunca dorme.
Neil era um cara bruto - bem diferente de seu conterrâneo Leonard Cohen – e gostava
de trabalhos manuais. Vivia, portanto, nas lojas de ferragens adquirindo
material e ferramentas para os trabalhos em seu rancho. Foi lá que viu o
anúncio de um produto para preservação do ferro: a ferrugem nunca dorme.
Transposto para o universo dos anos 1970, quando muitos de seus amigos,
inclusive o guitarrista da Crazy Horse, tinham morrido por conta das drogas, da
tristeza, do sonho morto, como cantou Lennon, a frase ganhou uma conotação
completamente nova. A ferrugem era a desesperança.
E então, meninas e meninos, será que ainda podemos
falar de plágio?

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