Temos quatro gatos. Três meninas: Wendy, Nicolly
e Lisa; e um menino: o Fumaça. Com as meninas nunca tivemos problemas, são umas
ladys. Só fazem suas necessidades na caixa de areia. Comem apenas ração, em
horários regulares. Limpam-se duas ou três vezes por dia. Quando a caixa de
areia fica suja, miam ao lado até que troquemos a areia e só então fazem a toilet.
Andam pela casa de modo delicado, como se usassem salto alto em cada uma das
patinhas. Mas, como disse, temos um machinho: o Fumaça. Ele é o mais novo, deve
ter uns quatro meses, mas já deu mais trabalho que as outras três juntas.
Fumaça faz xixi em tudo quanto é canto. Não respeita sofá, cama, livro, roupa.
Outro dia, defecou em cima da pia da cozinha. Basta deixar a tampa da privada
aberta que ele enche a pança de água suja. Outro dia, estava atrasado para um
compromisso, larguei a roupa na cama e tomei um banho de três minutos. Vesti a roupa
rápido e saí. Só no carro foi que percebi o odor característico: Fumaça tinha
mijado nas minhas calças. Não dava tempo de voltar. De modo que, neste exato momento,
pensei no conto do Poe, vocês sabem.
Quando o Fumaça
chegou aqui em casa, as gatas perderam a paz. A Nicolly, mais velha, não pode
vê-lo se aproximar que bufa. Às vezes ela se deita na passadeira ao lado da pia
da cozinha. Sem fazer barulho, ele sobe na pia e despenca sobre ela lá de cima,
miando: - MADEIRA! E aí sai correndo com medo de apanhar. A Lisa, do meio, bem
gordinha, qualquer dia escrevo sobre ela, só se afasta, sem dizer nada; ela é
tímida, sofreu bullying no pet shop, ainda mama, esfregando as patinhas na
minha camisa, quando estou deitado. A única que dá bola pro Fumaça é a Wendy.
Ela, branquinha, branquinha; ele, pretinho, pretinho. Os dois brincam,
limpam-se mutuamente, fazem carinho. Às vezes dormem abraçados, que nem gente. Ele
mentindo pra ela: – Não sou um gato, sou um pantero, vim das savanas africanas,
já enfrentei todo tipo de animais selvagens. - Ela sabe que é xaveco dele, mas
finge que acredita.
Dias atrás,
estava deitado na sala ouvindo música - É impressionante como os gatos gostam
de música. Cada uma/um, tem gosto diferente. Nicolly gosta de pop anos 80;
Lisa, música clássica; Wendy é fã de Amy Winehouse e o Fumaça não tem paciência
pra nada, só quando meu filho põe um funk proibidão é que ele se anima. – Sim, voltando, estava ouvindo música, deitado
no sofá da sala. Ele chegou, todo bonzinho, o motor ligado; apesar de ser o
menor, é o que ronrona mais alto; deitou no meu peito, baixou a cabecinha e
ficou quietinho.
- Ué, que foi?
Entrou em depressão? – Perguntei. Não respondeu. Fiquei fazendo carinho até
sentir o calor. O endiabrado estava mijando em cima de mim, por isso o jeitinho
manso, a delicadeza. Fumaça quando está quieto, está aprontando.
Tempos atrás,
Fumaça pegou um fungo e passou pra toda a família. Gastei uma nota, mas agora
estamos todos bem. Nesse dia, contamos a respeito do comportamento dele à
veterinária. Ela foi enfática:
- Só melhora
castrando.
Então marcamos e,
daqui a pouco, às onze, levo o Fumaça para a castração, mas com o coração
partido em mil pedaços. Sei que quando voltar, ele já não será o mesmo.
Desculpe, menino.
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