Pode
perguntar pra qualquer um: sem beber sou um gentleman;
mas, bebeu, fodeu. Não que eu fique
violento nem nada, só que quero ser o centro das atenções. Já viram criança
dançando na própria festa de aniversário? Então, sou eu quando bebo. Sem contar
a aceleração mental. Bato recordes de velocidade: é uma piada, uma mentira, por
segundo. Pode perguntar pra qualquer um: fica pequeno pra esses humoristas
cu-de-frango que empinam pipa no ventilador.
Quando chegamos no bar - meu primo
Nena, meu primo Dudu e eu - estávamos todos sóbrios. Silenciosos feito freiras
no convento. Como estava com uma moeda, comprei meia dúzia de espetinhos e pedi
que o dono do bar tirasse dos espetos e colocasse num prato com farofa. Em seguida,
ofereci de mesa em mesa, de bêbado em bêbado, na maior educação.
- Pô, que gentileza – disse um
motoqueiro, mas o deficiente físico que estava ao lado dele, com as muletas
encostadas à mesa, emendou:
- Enfia no cu, branquelo.
Não enfiei o churrasco no cu. Cada
espetinho custava quatro reais, de modo que era muito dinheiro para desperdiçar
assim.
Tenho um coração bom. Pode perguntar
pra qualquer um. Brigo, berro e bufo, mas não guardo mágoa, nem ressentimento...
Então bola pra frente e cada aleijado com sua muleta. Pedimos cerveja... Cachacinha
com Cambuci. A carne tava boa; a breja, gelada e a pinga bem temperada. Pedimos
mais cerveja e mais pinga. E mais uma rodada... E outra. Aí comecei meu stand up. Uma graça engendrando outra.
No meio do bar. Todo mundo ria. Mandaram descer cerveja de graça na nossa
mesa... E eu lá, contando uma mentira atrás da outra. Metralhadora ligada e
gatilho acionado. E aí o aleijado passou pra ir ao banheiro...
- Cê é o bichão mesmo, hein doido? –
disse e, sem mais nem menos, meteu uma das muletas na minha cabeça.
Relevei de novo. Tenho coração bom,
pode perguntar pra qualquer um. Continuei com o show...
- Por que você não vai tomar no cu,
hein, veado?! – era o aleijado outra vez, voltando do banheiro. Aí não aguentei.
Ele me deu as costas pra pedir alguma coisa no balcão e eu enfiei o indicador,
até o talo, no cu do aleijado. Quase arranquei uma casquinha de feijão. Ele
pulou, as muletas caíram pros lados e o tempo fechou que nem nO morro dos ventos uivantes. A simpatia
para com minha pessoa desapareceu no instante em que meu fura-bolo deixou de
beijar o cu do aleijado.
Meu primo Nena, ele é muito macho
até hoje, tinha ido ao banheiro. Quando voltou, eu cochichei.
- Vambora que o tempo fechou.
- Que aconteceu?
- Enfiei o dedo no cu daquele
aleijado chato do caralho.
- Nunca saí correndo de lugar nenhum
e não é hoje que vou sair.
É chato andar com gente corajosa.
Por mim, teria saído que nem o Roberto Carlos: a trezentos por hora. Mas o Nena
não arredou pé e estávamos todos no monzão 84 dele.
Sacaram-se as peças. Cada ferro mais
louco que o outro. O motoqueiro que tinha comido meu churrasco, puxou uma faca
igual a do Rambo. E vai e vem, e vai e vem. Os caras gritando:
- Vamo sentá o dedo nesse alemão do
caralho.
Empurra daqui, empurra de lá.
O Nena desarmado, só nas ideias,
apaziguou tudo. A coragem vale mais que mil berros. No final, pagamos uma
cerveja para a turma do aleijado, eles pagaram uma pra gente também. Eu perdi a
graça. Parecia criança quando toma cascudo. Quase pedi um doce. Não era digno
de estar no meio dos homens. Fiquei triste. Tinha aprontado de novo. Cruzei as
mãozinhas no meio das pernas e baixei a cabeça. Quando terminamos de beber,
pagamos a conta e estávamos indo embora - tipo cangaceiro, ou caubói, sem dar
as costas pro bar – só que, quando passei perto do aleijado, ele pôs a muleta
na frente, trupiquei e caí de costas. Tudo bem, como diz o clássico do
cancioneiro popular brasileiro composto por João Gilberto: é beber, cair e
levantar.
Na boa, por mais que queiramos um
mundo cor de rosa, com as pessoas dando flores umas às outras, o amor crescendo
junto ao trigo nos campos, digam aí: esse era ou não era um aleijado muito do
filho da puta?
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