quinta-feira, 30 de abril de 2020
REZA
Se eu rezo? Moço, tudo que faço é rezar, dia e noite, noite e dia, e até de madrugada, quando levanto pra mijar. Por quê? Porque tem muita dor em mim e no mundo e eu tenho pena.
AFORISMO 49
Enquanto as pessoas conseguirem apreciar a beleza que existe em um pôr do sol, o futuro será possível.🌻
QUANDO OS HOMENS CANTAM
Não creio que os outros sejam tão diferentes de mim. E eu sou louco. Tenho a loucura da raiva, da luxuria, da insegurança, do orgulho, da inveja; mas, um dia, segurei meus filhos no colo e, naquele instante, a loucura desapareceu; dissolvida pela força do amor. E, diante da incerteza sobre o destino deles, fiz uma reverência. Ante o quê? Não importa. O que importa é que a força do cuidado instalou a humildade. O que eu não sabia é que há conforto na posição de quem suplica: você se encolhe feito feto, baixa a cabeça, estende a mão; já não tem de suportar o mundo nos ombros. Talvez, no primeiro dia, você sinta algum conforto; é com a prática, no entanto, que a trilha que leva ao Originário se sedimenta. E o Originário é calmo e acolhedor como um útero. Hilda Hilst: “tu podes ir; mas, ainda que se mova o trem, tu não te moves de ti”. A quarentena está difícil, né? Mas trabalhar era fácil? A gente reclama se trabalha e se fica em casa. Se faz chuva, ou sol. E a gente reclama tanto porque não se sente em casa na gente mesmo, só que o Fora é a morte: ao menos do ego. Onde formos, estaremos condenados a nos levar junto. Foucault, na esteira de Nietzsche, foi um dos filósofos que mais cantou a alegria de criar a própria vida. Da boca pra fora. Michel: “Mas todas as manhãs, o corpo, esta ferida”. O homem científico criou vergonha de rezar; mas que mal há em se colocar na posição de pequenino, e solidário, e paternal – sim é o mesmo lugar que senti quando segurei meus filhos no colo – e baixar a cabeça e admitir que tem medo diante da incerteza, horror ante a escuridão, desespero diante do desamparo e da indiferença do mundo? Você não precisa saber, cientificamente, se há Deus ou não; isso é indiferente. O importante é que a atitude de reverência desloca o centro do ser. A mudança é psíquica. O centro já não é o ego, mas o incomensurável. A ciência, ao mesmo tempo que comprova nossa pequenez, alimenta nossa megalomania e os séculos mais científicos foram aqueles nos quais a mãe Terra mais sofreu. Estou a falar bobagens do tipo a Terra é plana? Não! A ciência tem seu lugar no modo como o homem toca o mundo; mas este toque pode ser de cuidado ou de destruição. Tem sido de destruição, porque tentamos aplicar ao interior a mesma ciência que aplicamos ao exterior: não cabe. Não há método que toque o mistério, o interior da diversidade humana. Os indivíduos, embora tenham traços comuns, não são equações. Aí a confusão interior faz o gesto em direção ao outro e o machuca. É por isso que eu rezo, sabe: o credo, o Om mani padme hum, o Odaimoku, o Pai nosso, o Hoponopono, o Silêncio, Valei-me meu pai Atotô Obaluaê, as canções do clube da esquina. É tão bonito passar diante de uma Igreja evangélica e ver as pessoas cantando hinos e chorando e acalentando seus corações: o órgão acompanhando baixinho. Fora do templo a loucura se instala outra vez, mas. Enfim, quando a gente consegue rezar, reclama menos e começa a fazer as mesmas atividades cotidianas de antes, só que com amor. A vida se torna espiritual. A busca leva aonde você sempre esteve. Todo o trabalho consiste em retirar o entulho de cima do coração.🌻
NO DESERTO
O anel que tu me deste, era vidro e se quebrou. E o amor que tu me tinhas, era muito; ainda assim se acabou. Mas há de retornar - Amor, coração de toda atividade criadora - com pés de pombo, como os pensamentos que movem o mundo.🐞
ÁGAPE
O inconsciente é o modo pelo qual a Desmesura move os seres humanos em direção uns aos outros; de acordo com suas necessidades. A filha, no seio do devir, torna-se mãe da mãe. Tive uma infância difícil, sabe? Era a oitava filha de uma família de onze crianças. Não passamos fome – sempre havia a macaxeira, o jerimum -, mas não houve luxo. Nunca uma festa de aniversário, dia das crianças, ovo de Páscoa ou presente de natal. Nunca. Isto não é grande coisa, reconheço. Não chega a constituir trauma neste mundo de agonias impensáveis. Eu, no entanto, invejava as crianças que tinham acesso a mimos. Hoje, graças a Deus, tenho uma vida estável e posso ofertar à minha filha todas aquelas coisas às quais nunca tive acesso. De modo que, nesta Páscoa, comprei meia dúzia de ovos de chocolate. Acontece que minha menina, cinco anos, tem uma amiguinha, a Vitória, vizinha aqui de lado. Domingo passado, Páscoa, as duas estavam conversando através da cerca:
“O que você ganhou de ovo de Páscoa, Vitória?”
“Nada. Meu pai não tá tlabalhando, causa do cololavilus, não tem dinheilo.”
Eu observava da janela da cozinha, enquanto passava o café. A filha entrou triste, quase chorando. “Mamãe – disse – posso dar um dos nossos ovos pra Vitória?” Meu coração gemeu. “Claro.” Ela se alegrou. Pegou o ovo do qual mais gosta, Alpino, e se preparou pra entregar à amiguinha. Quando nos viu voltando, Vitória não se conteve. Atravessou a cerca pelo meio. E correu pra receber. As duas meninas, então, abraçaram-se e choraram juntas, como se fossem comadres dividindo o pão escasso entre os filhos. Naquele momento, eu era Vitória e minha filha tornou-se minha mãe. Algo se acomodou e, de dentro do meu próprio coração, ouvi a voz de minha mãe sussurrar: “Deus te abençoe, minha filha”.
Descanso.🌻
“O que você ganhou de ovo de Páscoa, Vitória?”
“Nada. Meu pai não tá tlabalhando, causa do cololavilus, não tem dinheilo.”
Eu observava da janela da cozinha, enquanto passava o café. A filha entrou triste, quase chorando. “Mamãe – disse – posso dar um dos nossos ovos pra Vitória?” Meu coração gemeu. “Claro.” Ela se alegrou. Pegou o ovo do qual mais gosta, Alpino, e se preparou pra entregar à amiguinha. Quando nos viu voltando, Vitória não se conteve. Atravessou a cerca pelo meio. E correu pra receber. As duas meninas, então, abraçaram-se e choraram juntas, como se fossem comadres dividindo o pão escasso entre os filhos. Naquele momento, eu era Vitória e minha filha tornou-se minha mãe. Algo se acomodou e, de dentro do meu próprio coração, ouvi a voz de minha mãe sussurrar: “Deus te abençoe, minha filha”.
Descanso.🌻
ESTADO E RESISTÊNCIA
No começo, vivíamos em harmonia com a Natureza, feito qualquer tribo. A estrutura da sociedade era uma extensão da Natureza. Como só retirávamos o necessário, a mãe doava sua ordem à ordem da tribo e a ordem da tribo respeitava a manifestação da Desmesura em cada ser. Se um homem nascia profeta, seria o profeta da tribo. A ordem natural é a recompensa que o homem ganha em virtude de sua humildade ante o solo que o sustenta. Mas, então, chegaram os carecas engravatados. Distribuíram máscaras de carecas engravatados para que todos tivessem o mesmo rosto. Cuspiram na face da Terra, desrespeitaram o chamado natural com o qual a naturalidade nutria cada ser para que nada faltasse na organização social. Fundaram o Estado. Todo Estado quer crescer, violentamente. Seu pressuposto é a agressão à Natureza. O Estado, por seu turno, criou um braço armado; bem como invadiu a infância. Não devíamos construir mais escolas nos moldes que aí estão, mas implodi-las; elas são as fábricas de ferramentas. Já ouviram a expressão material humano? O Estado invadiu, desde o berço, o interior de cada ser, de modo que o homem esqueceu sua origem ontológica. Não é só o supereu que é a estrutura do Estado dentro da gente. É a tríade Supereu, eu, id. Tudo isso é uma imposição exterior à naturalidade. A máscara estatal aplicada ao ser. Agora, o Estado-exterior-enquanto-imposição já não é necessário, porque ele vive dentro de cada um: liberal na economia, conservador nos costumes. O mal-estar é o Estado em nós, sufocando a voz ontológica, o colo da Natureza. O Estado é sempre antinatural. Se quisermos surfar de acordo com a naturalidade, devemos ser resistência ao Estado. Parte-se do menor para o maior e, de novo, do maior para o menor, em espiral. A resistência é sempre uma minoria que teima em afirmar a face no lugar da máscara. Assim, o ser humano autêntico, está sempre do lado da minoria e contra o Estado. E a minoria das minorias é o próprio indivíduo, dentro de qualquer grupo. Mas não o indivíduo cujo interior já é uma reprodução do Estado, mas aquele do interior selvagem, incapturável: o Homem-Equus! Ele é o indivíduo que não se reconhece como centro, mas como parte; do maior para o menor: parte-se do Universo (ou céu), passa-se à Terra, da Terra ao grupo e do grupo à singularidade que nunca representa a voz de um ego, mas da própria Consciência. Aquilo que o indivíduo diz e que o girassol manifesta devem ter a mesma origem: este falar é sempre poético. Desconfio sim da Ciência, mas creio plenamente na Arte. Contra os carecas engravatados, contra toda cultura antinatural, contra o Estado. Sempre a favor daquela ordem maior, que nutre a órbita dos planetas e a pequena serralha nascendo entre dois blocos de concreto.🌻
BILOCALIDADE
O real não é estático; nem está em movimento. E não pode ser dito, a não ser por meio do paradoxo.
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