E me lembro daqueles primeiros dias, quando não nos desgrudávamos. Quando me sentia como Colombo adentrando um mundo selvagem. Tudo o que você fazia era mágico. E o modo como me olhava preenchia minha ânsia por entendimento. Embora você já não se lembre, esse estado de amor na ponta dos pés durou, sim, alguns anos.
Depois, sem que percebêssemos, feito uma multa de trânsito atirada embaixo do portão, começou o distanciamento. Primeiro, deixamos de andar de mãos dadas. Eu estava sempre atrasado, com pressa para chegar a algum lugar. Depois, começamos a nos beijar cada vez menos... Até chegar ao ponto em que esquecesse por completo como se dá um beijo de língua. Já não fazíamos tanta questão de estar juntos. Eu sentia alívio quando você não insistia para me encontrar com seus amigos artísticos, artificiais e chatos. Não sou anjo, também tenho experiência na arte de detestar. Às vezes, reconheço, arranjava até confusão pra ficar em casa. Seu mundo já não era meu sol e meu mundo não fazia qualquer diferença. Você enxergou de um só lance todos os meus defeitos e, quando amanheceu, já não havia no olhar qualquer resquício de admiração. O Sol perdera seu poder de atração e a Terra, Marte, Saturno, todos os planetas enfim, perderam-se no infinito.
- Se não fosse por mim, você não teria conhecido Pachelbel – protestei criança. Ao que você respondeu:
- Outro teria me mostrado.
Eu já não era único ou especial. Era uma situação, uma coincidência. E AÍ: deixamos de fazer amor. Antes disso já tinha se tornado uma espécie de obrigação. Acordo tácito que ninguém tinha coragem romper. Era só virar de lado e terminar com aquilo. No fundo, no fundo, queríamos mesmo era dormir porque já era tarde da noite e levantávamos cedo no dia seguinte com as contas rugindo nas mãos do carteiro.
Foi você quem teve a coragem de procurar outra casa. E a distância nos fez lembrar os bons momentos. Tentamos:
- Deve haver algo de errado comigo. Já não sinto desejo – você disse. E talvez não sentisse mesmo; por mim.
Ontem, depois que subimos a cama nova para o andar de cima, li o trecho de um texto seu que estava jogado por ali, intitulado Ensaio para uma despedida. E, no texto, você dizia que fez um dia lindo no primeiro dia em que se mudou para a nova casa.
- Mais uma xícara de café? – era você, já tirando o texto das minhas mãos. E eu aceitei mais café; antes de me embrenhar no vale.
segunda-feira, 29 de abril de 2019
quinta-feira, 25 de abril de 2019
LE BONHEUR EST UNE ARME BRÛLANTE
Quando a manhã transborda
Acordo com uma vontade doida de cuidar e fazer o bem
E é tão bom encontrar uma velhinha precisando de ajuda com as compras
Uma planta barata precisando de água e esterco
Um cachorro velho pedindo salsicha
Quando transborda o amor
Não há sujeito ou objeto
Ama-se a vida sem querer nada em troca
(Como um Deus amou ao mundo)
No fundo, já fomos recompensados
Isso de estar vivo é tão imenso...
E eu sou do tamanho do Universo
Não é que tudo seja meu
Tudo sou eu:
a velhinha, a planta, o cão; o jardim no qual trabalho
Meu coração pulsa na última estrela cintilante
E então, já não sou um homem,
(Invólucro pequeno de carne e sangue)
mas um Deus:
O coração não tem bordas.
Acordo com uma vontade doida de cuidar e fazer o bem
E é tão bom encontrar uma velhinha precisando de ajuda com as compras
Uma planta barata precisando de água e esterco
Um cachorro velho pedindo salsicha
Quando transborda o amor
Não há sujeito ou objeto
Ama-se a vida sem querer nada em troca
(Como um Deus amou ao mundo)
No fundo, já fomos recompensados
Isso de estar vivo é tão imenso...
E eu sou do tamanho do Universo
Não é que tudo seja meu
Tudo sou eu:
a velhinha, a planta, o cão; o jardim no qual trabalho
Meu coração pulsa na última estrela cintilante
E então, já não sou um homem,
(Invólucro pequeno de carne e sangue)
mas um Deus:
O coração não tem bordas.
segunda-feira, 22 de abril de 2019
O SORRISO DO BOLÍVIA
E fala-se em empatia, que tem a mesma origem de compaixão e simpatia:
o páthos. Ao pé da letra, empatia significa sentir a paixão, o destino, o sofrimento
do outro; encontrar algo em mim que se assemelhe àquilo que o outro passa.
Difícil, porque sei o quanto me dói uma unha encravada, mas não tenho a menor
ideia do quanto dói a perna alheia amputada. No dos outros, é refresco – vovó já
dizia. Então não fiquei surpreso quando soube que o menino mais inseguro da
escola também zoava o Bolívia. O velho círculo de oprimido e opressor de que
Paulo Freire falava repetido ad infinitum. Enfim, o Bolívia era o mais frágil
de todos os meninos porque não tinha uma casa, uma língua, um amigo, nada. Quando
perdem o casco, os caramujos secam ao sol. Ainda na infância fora amputado de
seu mundo e nada mais fazia sentido. Em verdade vos digo que ele sequer
conseguia responder a chamada.
E aí, neste feriado, estava em casa sem fazer nada e resolvi ir até a
escola para trabalhar no jardim que estamos fazendo. Queria pintar uns pneus e
plantar umas mudas. Liguei para o guarda e desci. Reguei as plantas, podei uns
galhos e estava lá pintando uns pneus para fazer de vaso quando vi o Bolívia do
outro lado do portão, de bicicleta. Chamei-o. Ele entrou e me ajudou a pintar
os pneus. Em seguida, plantamos umas mudas. Enquanto isso, conversávamos em
espanhol. Ele disse que vivia com a mãe e mais três irmãs. O pai fora
assassinado lá na Mátria. Tinha de estudar e trabalhar porque era o mais velho.
A mãe trabalhava o tempo inteiro. A língua espanhola trazia lembranças,
resquícios de lugar no mundo, de um um por do sol, e o menino falava, enquanto
sujávamos a mão com terra preta espalhando sementes.
Antes de irmos embora, dei ao menino um sonho de valsa. Era páscoa e
eu tinha comprado uma caixa de bombom. Antes de partir, já montado na bike, o
Bolívia gritou:
- Todo hay que se quedar bien, Maestro – sorriu, acenou e foi-se
embora.
Fiquei olhando.
Enquanto eu tentava calçar as sandálias do Bolívia, era ele quem
vestia meus sapatos porque eu agora teria de voltar para uma casa vazia. De sua
dor, de seu mundo sem mundo, ele percebera que eu também sofria. Afinal, o que
levaria alguém ao trabalho no meio de um feriado prolongado?
quinta-feira, 18 de abril de 2019
VOLTAS AO REDOR DA FONTE
Eu
estudava num dos melhores colégios da cidade, mas estava completamente perdida.
Faltava-me o que falta quase sempre nas famílias mais abastadas: amor. Era
filha única adotiva de um casal estranho. O pai era empresário, a mãe
psiquiatra. Ele tinha amantes da mesma idade que eu. Ela tinha um amante que
também era médico. Eu caminhava pela casa, arrastando sandálias. Nossos
diálogos eram mais ou menos assim:
-
Mamãe, o que você acha de eu dar um tiro na cabeça?
-
Deve estar na geladeira. É só esquentar.
Falávamos
línguas diferentes. Na escola, no entanto, havia alguém que se comunicava comigo
sem saber. Ele tinha uns quarenta anos e falava tanto de Shakespeare, quanto
dos Beatles. Era professor de Inglês. Todas as meninas comentavam. Não é que
fosse bonito, ele era divertido. Parecia estar sempre de bom humor, inundando o
mundo com piadas e trocadilhos nos mais variados idiomas. As pessoas pareciam
não ver nada de errado com ele, mas eu sabia que. Um ferido reconhece o outro
assim que o vê. Eu bebia demais, usava drogas - de bala a pó - e dormia com
qualquer um. Ele usava uma aliança. Na aula, eu gostava de encher a paciência.
Cabulava aula pra fumar no banheiro, fazia perguntas idiotas nos momentos
errados, criava caso à toa. Hoje sei que queria ser notada. Eu gritava por
socorro e sabia que só ele poderia entender o sinal, ele, no entanto, se fazia
de joão-sem-braço, ignorava as mensagens.
Lá
para o meio do segundo semestre, o professor de Inglês, que nunca faltava,
começou a aparecer cada vez menos na escola. Quando vinha, estava pálido, os
cabelos desgrenhados, todo amarrotado. Acabou sendo despedido antes do fim do
ano letivo. Pensei que nunca mais o veria. Eu estava acostumada a perder.
Trazia isso do berço. Fiquei triste, e me calei.
Então,
numa dessas noites de sexta-feira, estava com as meninas numa balada e não
acreditei quando o vi sentado ao balcão. Vou lá falar com ele! Duvido! Quer
apostar? – Risos-risos. E fui. Conversamos um pouco, mas as palavras estavam
truncadas. Sorte a nossa que não precisávamos delas. Ele estava mesmo mal.
Pediu que eu chamasse um Uber. O que fiz na mesma hora. Não morava longe. Entrei
na casa e, por Deus, nunca vi lugar que fosse retrato de alma mais triste. Era
imensa, a casa, mas nela não havia um único móvel, salvo uma vitrola velha.
Pelos cômodos perambulava uma cachorrinha ciumenta que latiu à beça quando
entrei.
-
Você mora só aqui. Desse jeito?
-
Minha família foi embora. Coisas da vida, sabe?
-
Também já fui abandonada. Dói, né?
-
Nem sei mais. Não sinto nada.
Havia
umas cobertas e um travesseiro no chão. Deitamo-nos. Ao lado do travesseiro, um
porta-retratos com a fotografia do professor beijando a barriga nua de uma
mulher grávida. Ele sorria.
-
Estou tão cansado – disse quando encostou a cabeça no meu braço.
-
Então dorme, meu menino – falei.
Foi
aí que ele começou a chorar. E chorou muito. Quase até o dia amanhecer, só
então pegou no sono, com a cadelinha deitada do outro lado do lençol.
quarta-feira, 17 de abril de 2019
DISPERSÃO
(para Mário de Sá-Carneiro)
O sol está para o fogo, como Deus para o coração.
Como todos os fogos se dissolvem no sol,
Os corações em Deus se dissolvem.
Os homens não são cascas, meu amigo.
Dentro do bombom há um licor a mais😉.
O sol está para o fogo, como Deus para o coração.
Como todos os fogos se dissolvem no sol,
Os corações em Deus se dissolvem.
Os homens não são cascas, meu amigo.
Dentro do bombom há um licor a mais😉.
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