Eu
estudava num dos melhores colégios da cidade, mas estava completamente perdida.
Faltava-me o que falta quase sempre nas famílias mais abastadas: amor. Era
filha única adotiva de um casal estranho. O pai era empresário, a mãe
psiquiatra. Ele tinha amantes da mesma idade que eu. Ela tinha um amante que
também era médico. Eu caminhava pela casa, arrastando sandálias. Nossos
diálogos eram mais ou menos assim:
-
Mamãe, o que você acha de eu dar um tiro na cabeça?
-
Deve estar na geladeira. É só esquentar.
Falávamos
línguas diferentes. Na escola, no entanto, havia alguém que se comunicava comigo
sem saber. Ele tinha uns quarenta anos e falava tanto de Shakespeare, quanto
dos Beatles. Era professor de Inglês. Todas as meninas comentavam. Não é que
fosse bonito, ele era divertido. Parecia estar sempre de bom humor, inundando o
mundo com piadas e trocadilhos nos mais variados idiomas. As pessoas pareciam
não ver nada de errado com ele, mas eu sabia que. Um ferido reconhece o outro
assim que o vê. Eu bebia demais, usava drogas - de bala a pó - e dormia com
qualquer um. Ele usava uma aliança. Na aula, eu gostava de encher a paciência.
Cabulava aula pra fumar no banheiro, fazia perguntas idiotas nos momentos
errados, criava caso à toa. Hoje sei que queria ser notada. Eu gritava por
socorro e sabia que só ele poderia entender o sinal, ele, no entanto, se fazia
de joão-sem-braço, ignorava as mensagens.
Lá
para o meio do segundo semestre, o professor de Inglês, que nunca faltava,
começou a aparecer cada vez menos na escola. Quando vinha, estava pálido, os
cabelos desgrenhados, todo amarrotado. Acabou sendo despedido antes do fim do
ano letivo. Pensei que nunca mais o veria. Eu estava acostumada a perder.
Trazia isso do berço. Fiquei triste, e me calei.
Então,
numa dessas noites de sexta-feira, estava com as meninas numa balada e não
acreditei quando o vi sentado ao balcão. Vou lá falar com ele! Duvido! Quer
apostar? – Risos-risos. E fui. Conversamos um pouco, mas as palavras estavam
truncadas. Sorte a nossa que não precisávamos delas. Ele estava mesmo mal.
Pediu que eu chamasse um Uber. O que fiz na mesma hora. Não morava longe. Entrei
na casa e, por Deus, nunca vi lugar que fosse retrato de alma mais triste. Era
imensa, a casa, mas nela não havia um único móvel, salvo uma vitrola velha.
Pelos cômodos perambulava uma cachorrinha ciumenta que latiu à beça quando
entrei.
-
Você mora só aqui. Desse jeito?
-
Minha família foi embora. Coisas da vida, sabe?
-
Também já fui abandonada. Dói, né?
-
Nem sei mais. Não sinto nada.
Havia
umas cobertas e um travesseiro no chão. Deitamo-nos. Ao lado do travesseiro, um
porta-retratos com a fotografia do professor beijando a barriga nua de uma
mulher grávida. Ele sorria.
-
Estou tão cansado – disse quando encostou a cabeça no meu braço.
-
Então dorme, meu menino – falei.
Foi
aí que ele começou a chorar. E chorou muito. Quase até o dia amanhecer, só
então pegou no sono, com a cadelinha deitada do outro lado do lençol.
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