domingo, 14 de abril de 2019

O CORPO, ESSE CANALHA!

Era um desses cidadãos de bem: ordeiro, cristão, liberal na economia e conservador nos costumes; pagador dos seus impostos. De vez em quando, sonegava um ou outro e não depositava o FGTS da empregada; mas, quem nunca não é mesmo? Tinha por volta de cinquenta anos e não frequentava médicos. Gabava-se de sua saúde de ferro e cria em Deus, o Deus Único de Jerusalém. O que de mal lhe poderia então acontecer?
Qual não foi então sua surpresa quando, determinada manhã, antes de ir para sua concessionária de automóveis, sentiu dificuldades ao urinar. A bexiga cheia tinha de se aliviar demoradamente, em gotículas. Seria a próstata?
Terminadas as orações matinais, chegou à conclusão de que o Senhor é o rei dos reis; mas que, em sua infinita sabedoria, deixou na Terra os médicos para casos assim.
No caminho para o trabalho, resolveu passar na clínica, ali na Avenida Pacaembu. Tudo seguia como; até que aconteceu a epifania, igualmente a uma narrativa clariceana. A rotina continuava numa realidade paralela, mas e o médico? O médico era lindo, ora pois! Um moreno alto, olhos verdes, bonito e sensual. Carinhoso em seus modos. E o cidadão de tremeu.
Requisitou exames, o médico, que foram de pronto realizados. Convênio bom! Enquanto esperava os resultados, o cidadão de bem ardia, o desejo entrava pela porta dos fundos e quem tem cu tem medo. Já deitado em quarto da clínica, de roupão, esperava ansioso a divindade pagã. Demorou, mas ele veio - o médico-deus-pagão. O paciente reparou que tinha mãos grandes, dedos longos, grossos, másculos; mas, ainda assim, delicados. E o cidadão de bem correu a língua pelos lábios imaginando o exame que, em seus devaneios, insinuava-se logo ali, ao alcance do ânus.
Qual não foi a decepção quando:
- Tudo bem com sua próstata, tá ok?
- Mas e essa dificuldade em urinar, doutor? – suplicou; os olhinhos marejados.
- Nada demais, o ultrassom constatou algumas pedrinhas e cristais nos rins. Nada que muita água e esse litocit que estou lhe receitando não resolva.
O cidadão de bem desmoronou. Seu rosto quase despencou da cara. Decepção era uma palavra pequena para tamanho sentimento.
Olhou mais uma vez as mãos, os dedos, enquanto o médico escrevia receita... E suspirou...
Já na rua, a realidade se reconstituiu. O empresário entrou em seu carro importado e deu a partida - não sem antes esculachar o flanelinha. - O vidro traseiro ostentava um adesivo verde e amarelo com o slogam: Brasil acima de tudo, Deus acima de todos.
Tá ok?

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