Sempre gostei de arte, nada mais natural, então, do que me voltar, durante meus anos de estudo, às disciplinas ligadas à questão estética. Triste dissabor. Falava-se de tudo, nestas aulas, menos de arte. Comida, a meu ver, tem de encher a barriga e aquelas aulas me pareciam pratos bem decorados, com fios de chocolate, mas não me matavam a fome.
Discussão tão velha quanto aquela do ovo e da galinha era a questão da “alta cultura” vs a “cultura popular”; sem falar na cultura de massa. Tudo isso me parecia passar ao largo da dimensão afetiva, da força vulcânica com que a arte nos molda e nos muda. E dá-lhe filósofos alemães: Adorno, Horkheimer, Lukács, mas o que eu queria mesmo resgatar, quando escrevia, eram os afectos e perceptos que atravessavam meu corpo franzino quando meu pai preparava o lanche pra mim, antes de ir trabalhar, ouvindo Odair José. Que me importava a questão da cultura de massa? O que aquilo tinha a ver com o filósofo alemão que foi sofrer nos E.U.A? Eu queria, na escrita, era resgatar o episódio do Chaves em que o protagonista é acusado de ladrão e deixa a Vila. Levava meus poemas ao profº de teoria literária e ele me devolvia gráficos que terminavam numa linha descendente. A emoção, o afeto, eram considerados signos de mau gosto.
Hoje frequento os saraus espalhados pela periferia e os poemas já não pedem gráficos, mas continua a me afetar a questão da “alta cultura” vs a “cultura popular”. Questão antiga. Há, em boa parte dos poemas que ouço, uma ânsia de afirmar a identidade negra: estamos nas bordas. Nada mais natural depois de tantas barbáries, estupros, violência, abusos; mas, ainda me incomoda a falta de Sim, a ausência do afeto positivo. Para além da revolta e do ressentimento justificado será que nunca houve amor? Sabemos que não é possível comparar a escravidão à imigração europeia, a qual fazia parte de um projeto de branqueamento da população; no entanto, mesmo por trás de tais objetivos torpes, será que não ocorreu, num belo dia, num bonde, de um padeirinho português se apaixonar por uma balconista negra que ia para o trabalho? Ou será que, mais tarde, um funcionário da cervejaria Antarctica de olhos azuis e genealogia perdida (meu pai) não poderia se apaixonar por uma indiazinha empregada doméstica (minha mãe)?
Creio que não podemos esquecer o que fizeram de nós, mas também não podemos esquecer o que fizemos daquilo que fizeram de nós. Como seres humanos, não cabemos em teorias, ou medidas governamentais que não levam em consideração nosso corpo, nossa carne, nossa capacidade para o beijo. É no olhar do outro que nos tornamos inteiros.
Pouco me importam a eficiência germânica, inclusive no futebol, ou estadunidense, eu quero é participar da dança e louvar com tambores. Lampião, nossa imagem e semelhança “tenho certeza, ele também dançou um dia”.
quinta-feira, 29 de setembro de 2016
Tudo está tão claro em nosso mundo
Tenho um amigo filósofo que sofre com o acontecer
do mundo. O mistério o atravessa feito espada espartana, peixeira de baiano.
Ele não descansa. Estuda, lê livros de três mil páginas de pensadores alemães,
guarda o mar, escreve tese, conversa com um psicanalista... E se desespera.
-
E o outro? Deve haver algo mais! Isso pulsa, borbulha nas sombras, nos cantos,
explode fe3ito larva sob a terra. Está ali, mas não se mostra. O maravilhoso se
esconde. O tempo todo, o maravilhoso se esconde.
Durante
muito tempo, também pressenti o maravilhoso assim e tive forças para buscá-lo -
agulha no palheiro, The catcher in the rye – não no transcendental, mas no colo
de uma menina bonita, meio triste, meio misteriosa que costumava se cortar e
que um dia, talvez por acidente, partiu de vez as veias dos pulsos.
As
coisas vão ficando para trás e, com o tempo, o mistério já não nos inquieta
como antes. Perdemos o menino na correnteza, no vagão do trem, no ônibus que
passou mais cedo. Multiplicam-se não os enigmas, mas as dívidas. Ainda
cultivamos rosa em vaso de plástico e, vez por outra, um arco-íris nos
surpreende. Entre a loucura de Van Gogh e a timidez de Drummond, ficamos com o
funcionário público, ex-mágico da taberna Minhota. Guardamos o poema na gaveta
da repartição. Desistimos aos poucos do conhaque, pois o conhaque nos faz
Artaud e nós temos os filhos que Artaud não tinha. Sem perceber, perdemos o
direito À loucura, à embriaguez, ao suicídio, à ferida. Que bom!
Voltando
da escola. Final de tarde. O filho sussurra no banco traseiro:
-
Gosto quando está assim de tardezinha e faz esse solzinho maneiro, pai.
Então
o maravilhoso esquecido nos salta outra vez aos olhos, sem máscaras, sem
mistérios, sem subterfúgios. O sentido é esquecer de si para cuidar de alguém e
compartilhar o poente em meio ao trânsito; em meio a atrocidades políticas e
policiais.
Entre
dívidas e dúvidas, cresce o cheiro de café. Estamos chegando. Em casa, alguém
também abandonou a metafísica para fazer o café como gostamos e falar um pouco
da dureza diária: o maravilhoso é preto e escorre do coador. Também tem queijo
e pão francês.
Quanto
ao meu amigo filósofo, embora mais calmo, continua procurando o que está diante
dos olhos e ele não vê por medo de se comprometer, de enlouquecer, entregar-se,
perder a liberdade, tornar-se responsável.
Louça
na pia, louça lavada; de mãos dadas, brincamos de roda na cozinha.
Há
muito não temo a minha morte, mas a do outro: tenho pesadelos. E se, às vezes
ainda temo por mim é pela falta que posso fazer aos outros que brincam na
ciranda. O círculo se parte sem um dos elos. Pela primeira vez na vida, meus
olhos estão abertos.
sábado, 30 de janeiro de 2016
Entrevista com Lisa Alves: POETA.
1-)
Arame Farpado é seu primeiro livro
publicado; como se deu a confecção deste livro e, uma segunda parte deste
primeira pergunta, como se deu seu início na escrita, como você começou a
escrever?
R:
Arame Farpado partiu de uma escolha de alguns poemas compostos ao longo de dez
anos. A princípio, a ideia era conceber um livro com poemas que expressassem
várias vozes – como se fosse um tabloide mundial. Recordo que o nome seria
Legião e depois Almagene. Com o tempo percebi um vínculo de significação em
vários poemas (um vínculo que não sabia denominar na época). A maioria dos
poemas fazia referência às barreiras materiais e imateriais: sempre havia um
sujeito preso, um sujeito tentando ultrapassar uma barreira. Enfim, foi a
primeira vez que notei que havia uma obra, que havia um corpo e que havia uma
criança para nascer e ela deveria se chamar Arame Farpado.
Em
relação à segunda pergunta: comecei a escrever muito nova, aliás, comecei a ler
com quatro anos e isso tornou minha experiência com a escrita muito precoce.
Nem sabia o que era um escritor, achava que era normal ler e depois escrever. Nasci
dentro de uma família muito simples – minha avó era benzedeira, meu avô um
homem do campo e eles tinham uma mania de inventar muitas estórias no final do
dia, só que não escreviam. E, se não me engano, o primeiro conto que escrevi
foi sobre um fantasma que vivia na porteira da fazenda dos meus avós, o nome
dele era Tonho e ele só deixava passar pela porteira quem cantasse uma música.
Eu os ouvia contar sobre o Tonho e decidi inventar minha própria experiência
com o fantasma. Já a poesia eu comecei
na adolescência – tinha vários cadernos com poemas, tencionava ter uma banda de
rock, bem ao estilo punk/rock da Legião Urbana e Plebe Rude e tive a sorte de
conhecer uma turma da União Estudantil da minha cidade que também se
interessava por poesia e rock. Minha
poesia ainda caminhava com a intenção de ser musicada, mas, com o tempo isso
foi mudando, quando comecei a escrever contos e percebi que as letras era o
caminho para eu conseguir compreender minhas inquietações e fantasias.
2-)
Seu livro não saiu necessariamente por uma editora, mas por um coletivo: o Coletivo
Púcaro; como você enxerga a relação entre a arte de escrever e a indústria do
livro?
R:
Estou muito satisfeita de ter publicado pelo coletivo, tem sido uma experiência
muito generosa, além do que eu esperava. Eu posso afirmar que investi 10% e
lucrei mil. Sobre a pergunta: a relação que enxergo é que uma precisa da outra,
mas parece que não há um acordo justo entre as partes. Só há um lado que ganha
e nós sabemos qual. Eu nunca comprei um livro em branco e sei que sem a
contribuição do escritor não há livro. Nossa classe merece mais.
3-) Vamos estabelecer um diálogo com
outros escritores, Mário de Andrade disse “Sou trezentos, sou trezentos e
cinquenta, mas um dia, afinal, toparei comigo mesmo”, Walt Whitman escreveu “Me
contradigo? Tudo bem me contradigo, sou vasto por isso me contradigo”, Rimbaud enxergava o eu como um outro. Você
escreve, no poema Ecos: “O Eu original foi desconectado/ e tudo o que restou fomos Nós (esses
Eus sem paradigmas),/ no escuro de uma tabela periódica” e em Cartas para o Mundo: “Eu era todos: a menina do
tabuleiro, o cientista e a sombra.” Comente.
R: O Eu é um ser
multifacetado. Talvez Mário de Andrade, Whitman e Rimbaud em algum momento da
vida tenham se perguntado: “Quem sou eu?” e perceberam que a resposta ininterruptamente
variava. Eu pelo menos nunca conheci uma pessoa com comportamento imutável.
Acredito na metamorfose.
4-) Percebo no seu
livro um forte tom político, não partidário, mas político; como entende as
relações entre a arte e o mundo?
R: O mundo é minha
fonte, por isso tão inevitável o tom político. Tem um poema do Drummond que me
representa nesse sentido: “Sentimento
do Mundo” no qual o poeta empresta ao leitor o que ele assiste. E é exatamente
assim que me vejo como poeta: alguém que escreve sobre o que assiste. O final
desse poema é incrível:
(...)
Humildemente vos peço
Que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
Eu ficarei sozinho
Desfiando a recordação
Do sineiro, da viúva e do
microscopista
Que habitavam a barraca
E não foram encontrados
Ao amanhecer
Esse amanhecer
Mais noite que noite.
5-) Há algum assunto sobre
o qual você gostaria de falar, mas que não foi perguntado? Fique à vontade.
Agradeço pelo espaço e
pela entrevista. E deixo um poema do Arame Farpado aqui:
Eu bebia uma Irish Car Bomb
enquanto crianças eram
pulverizadas por bombas israelenses.
O Mal distante é legítima ficção
até o dia que
nos extraem de nós mesmos para
sermos outros.
Meu vizinho é um corpo de carne e
ossos
e se ele se incendeia eu penso em
performance.
Adel Kedhri (Tunísia): performer
Jampa Yeshi (Índia): performer
Lâm Văn Tuc (Vietnã do Sul):
performer
Prema Devi (Índia): performer
Contam que após o domínio do fogo
nossa espécie transubstanciou o
cérebro
para algo hábil a criar bombas e
rodas.
Adel Kedhri incendiou-se
Jampa Yeshi incendiou-se
Lâm Văn Tuc incendiou-se
Prema Devi incendiou-se
São Martinho articulava sobre o
Homem ser fogo,
Buda propunha que o coração é a
lareira
e Heráclito dizia: do fogo
tudo flui.
Adel Kedhri é uma mensagem
Jampa Yeshi é uma mensagem
Lâm Văn Tuc é uma mensagem
Prema Devi é uma mensagem
Sonho com uma tempestade de fogo,
sonho com olhos volvendo em
cinzas,
sonho com o cheiro amedrontador
do Deus dos Mortos
colhendo infanticídios nos campos
de girassóis da Ucrânia.
Adel Kedhri é um noticiário
Jampa Yeshi é um noticiário
Lâm Văn Tuc é um noticiário
Prema Devi é um noticiário
E
eu saboreio uma Irish Car Bomb.
(E eu saboreio uma
Irish Car Bomb | Arame Farpado (2015) )
MAIS INFORMAÇÕES:
Página no facebook: https://www.facebook.com/Arame-Farpado-1034332163257619/?fref=ts
Site: http://lisaallves.wix.com/lisaalves
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
Entrevista com o escritor Gláuber Soares
O escritor Gláuber Soares fala um pouco sobre o seu processo criativo,
sua vida, suas leituras, suas influências, conversa ainda sobre a origem do seu
segundo livro e primeiro romance publicado Face
Emplumada, a sua estreia na literatura foi com o livro de contos Remédio Forte, o qual foi traduzido e
será lançado esse ano na Argentina...
Seu primeiro livro publicado foi a coletânea de contos Remédio Forte; entretanto, você já
escrevia textos de maior fôlego antes de se dedicar à forma mais sintética que
constitui o conto. Como se dá a passagem de uma forma literária à outra no seu
processo de criação? Quando começa a escrever, você já tem certeza da extensão?
Ou aos poucos o texto vai se constituindo como romance, novela ou conto?
No início, só
pensava em textos mais longos. Já imaginava o começo, o meio, o fim. No ano de
2000, comecei a escrever o meu primeiro romance finalizado (não publicado). Em
2002, ele estava pronto -- no formato tradicional de livro daria umas 160
páginas. Somente após participar de uma oficina de criação literária, em 2010,
comecei a escrever contos, meio que por obrigação. Praticando, acabei me
apaixonando também pela forma dos contos. Suas nuances. Hoje, geralmente, eu
penso: tal enredo daria um romance ou conto. Mas Face
Emplumada desorganizou a minha lógica. Comecei escrevendo o que seria
um conto. O texto foi ficando mais longo, pedindo mais personagens, enfim,
percebi que ali a melhor forma seria uma novela ou romance.
Já que mencionou a criação de
personagens, devo dizer que achei muito interessante a galeria de personagens
que atravessam Face Emplumada, desde o cabeleireiro queer Sandrinho até o Seu Galdino da fazenda Asa
Azul. Considerando que a construção de um romance envolve cinco instâncias que
se interpenetram (a saber, o tempo, o espaço, a linguagem, o enredo e as
personagens. Há romances cuja força motriz está no tratamento do tempo, como À
sombra do vulcão, de
Malcolm Lowry; há romances cujo centro é a desterritorialização, o tratamento
do espaço, como On the road, de Kerouac; Clarice Lispector desconstrói a linguagem, Luiz Brás
recoloca o enredo em evidência e ao falar de Dom Casmurro, logo pensamos na personagem enigmática de Capitu...) Você diria que,
enquanto criador, a sua maior potência está na criação das personagens ou em
uma das outras quatro instâncias? Sei que tais categorias não surgem
compartimentadas quando se escreve algo, mas quando você relê o trabalho, onde
você acha que está a maior força da sua escrita?
Rapaz,
neste ponto não sei se tenho a melhor resposta. Não costumo consumir energia me
autoanalisando. Nem tenho as
ferramentas teóricas para isto. Mas, sem fugir de uma resposta, eu me preocupo
mais com a linguagem e com o enredo, balancear essas duas instâncias. As
performances, forças das personagens, a meu ver, vêm como consequências deste
balanceamento.
Acho que a linguagem também é uma força da sua prosa: enxuta, desenvolta, variável; vai das gírias mais urbanas à musicalidade mais sertaneja. Penso, inclusive, ser um traço extremamente original da sua escrita esta mistura do provinciano e do cosmopolita, do urbano e do rural. Já na epígrafe, você une provérbio baiano e David Bowie. A trajetória de Gustavo vai do interior de São Paulo, à capital paulista e de lá à Quixadá. Na música, também muito presente no livro, nós vimos essa antropofagia, essa deglutição do pop pelo pelo sertanejo, tanto no tropicalismo, quanto no mangue beat. Diz aí, na literatura quais são suas influências na criação deste estilo híbrido? E nas outras artes? Quais são os artistas de esferas exteriores à literatura que influenciam sua escrita?
Acho que a linguagem também é uma força da sua prosa: enxuta, desenvolta, variável; vai das gírias mais urbanas à musicalidade mais sertaneja. Penso, inclusive, ser um traço extremamente original da sua escrita esta mistura do provinciano e do cosmopolita, do urbano e do rural. Já na epígrafe, você une provérbio baiano e David Bowie. A trajetória de Gustavo vai do interior de São Paulo, à capital paulista e de lá à Quixadá. Na música, também muito presente no livro, nós vimos essa antropofagia, essa deglutição do pop pelo pelo sertanejo, tanto no tropicalismo, quanto no mangue beat. Diz aí, na literatura quais são suas influências na criação deste estilo híbrido? E nas outras artes? Quais são os artistas de esferas exteriores à literatura que influenciam sua escrita?
Na literatura,
curto bastante o João Antônio, Luiz Bras, Marcelino Freire, Patativa do Assaré,
Lygia Fagundes Telles, entre outros. Nas artes plásticas, Carybé, o mais baiano
dos argentinos, sua vasta obra me desperta a atenção. A música sempre me
influenciou. Das batidas às letras; de Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi a Morrisey
e Ramones. Lembro-me que ainda no meu primeiro romance citado, imaginava o
projeto do livro com um CD encartado, ou seja, tinha a sua trilha sonora. Em Face Emplumada, Bowie foi um
dos músicos que me inspirou, ajudou a dar o tom.
O que mudou e o que se manteve na sua escrita de Remédio Forte a Face Emplumada?
Remédio
Forte foi uma coletânea de contos.
Havia a preocupação social, passagem do tempo, a morte – temas que dão
unidade ao livro. Algumas narrativas, como Próximo,
Juntinhos, Rio Cachoeira, Isabela e
o conto que dá nome ao livro já sinalizavam para este estilo
mais impregnado que em Face Emplumada. Acredito que não houve
mudança, talvez tenha tido um amadurecimento, uma afirmação.
Você publicou Face
Emplumada por uma editora independente, como enxerga o mercado editorial
brasileiro?
Para quem
está preocupado com a arte, e não em ser uma celebridade, o
comportamento do mercado não faz muita diferença. Levando em conta os
números da população brasileira, o nosso mercado editorial, principalmente o
literário, é incipiente. Somos um dos países da América Latina em que
menos se lê. As grandes editoras ganham dinheiro vendendo livros
didáticos para os governos. No gênero Literatura, meia dúzia delas formam uma
elite que se mantém no topo com os best-sellers importados. Com
alguma exceção, não estão preocupadas com a literatura brasileira, desejam
o lucro fácil. Os prêmios literários ajudam a maquiar. Tentam,
com o glamour, iludir, e até têm conseguido, como se a desprezada
literatura nacional tivesse, de fato, importância. O que sobrou da
mídia não percebe o engodo. Um outro vilão são as
livrarias. Não investem no processo de publicação – tudo bem, este não é o
papel delas, no entanto, as livrarias só querem levar vantagem. Muitas só
aceitam livros em consignação e pra pagar à editora, quando pagam,
pedem um prazo de 90 dias. É claro que os maiores grupos editoriais
têm poder de negociação. O que não impediu a excelente
Cosac Naify, há pouco, noticiar que vai fechar, dando como um dos
motivos este longo prazo. Ainda assim, diante de tanta
dificuldade, nem tudo está perdido. As pequenas editoras, com as
suas pequenas tiragens, continuam fomentando a nada incipiente
arte literária brasileira.
Há algo que você gostaria de dizer, mas não foi perguntado
nesta entrevista? Fique à vontade.
Apenas
dizer para os leitores ficarem atentos com a cena literária paulista. Você
sabe, Daniel, temos uma geração de ótimos escritores. Poesia, romance, conto,
há muita coisa boa sendo feita por aqui. O seu romance A Delicadeza dos
Hipopótamos, por exemplo, é um livro sensacional. Enfim, prestigiem mais a
literatura brasileira.
quinta-feira, 13 de agosto de 2015
Outramente,
Você tinha um namorado gordo em alguma outra cidade do interior
& nós éramos jovens
Você tinha uma pasta com poemas
A alma colorida
& nós éramos jovens
Você me pagou dezesseis latas de brahma
Quando eu só bebia conti
& nós éramos jovens
Ainda há pouco éramos jovens
Parece que foi antes das três
Agora, depois de termos sorvido as nozes
& cuspido a casca de tantos anos
Procuro a pérola que ainda brilha
Em algum baú antigo
Sob a mágoa
Sob o tédio
Sob a carne podre
Sob o rancor
Não estamos velhos
Mas ela, a velhice, vem a galope no sentido contrário
As tetas murchas de fora
Tatuagens enrugadas
A resignação é uma lição que nos custa os cabelos
& a face lisa
O amor é mil & a cada dia veste uma face nova
Aproxima-se o tempo do companheirismo
Mas eu prefiro, ó como prefiro, os anos da fome
& do osso que me atravessava a pica rosada
& nós éramos jovens
Você tinha uma pasta com poemas
A alma colorida
& nós éramos jovens
Você me pagou dezesseis latas de brahma
Quando eu só bebia conti
& nós éramos jovens
Ainda há pouco éramos jovens
Parece que foi antes das três
Agora, depois de termos sorvido as nozes
& cuspido a casca de tantos anos
Procuro a pérola que ainda brilha
Em algum baú antigo
Sob a mágoa
Sob o tédio
Sob a carne podre
Sob o rancor
Não estamos velhos
Mas ela, a velhice, vem a galope no sentido contrário
As tetas murchas de fora
Tatuagens enrugadas
A resignação é uma lição que nos custa os cabelos
& a face lisa
O amor é mil & a cada dia veste uma face nova
Aproxima-se o tempo do companheirismo
Mas eu prefiro, ó como prefiro, os anos da fome
& do osso que me atravessava a pica rosada
domingo, 9 de agosto de 2015
As trincheiras de uma poeta
Lendo
Arame Farpado, de Lisa Alves, a
primeira impressão que tive foi que a escrita de Lisa engendra uma literatura
menor, no sentido em que Deleuze e Guattari constroem este conceito. O termo
menor, no caso, não tem qualquer conotação depreciativa, mas, antes, conecta-se
ao devir e todo devir é minoritário. Menor tampouco tem a ver com o status de
determinado idioma. Uma literatura menor não é a de uma língua menor, mas antes
a que uma minoria faz em uma língua maior, como no caso dos judeus de Praga, ou
dos negros e dos povos hispânicos nos Estados Unidos. Estas minorias, de certo
modo, violentam a língua, fazem dela um uso menor, levam o idioma para longe
dos dogmas sintáticos, semânticos e prosódicos instituídos. A primeira
característica de uma literatura menor é que nela a língua é afetada por um
enorme índice de desterritorialização. Os poemas de Lisa, no livro, são
agrupados em seis capítulos intitulados: Do
eu, Dos territórios, Da dominação, Da vindicta, Das contradições e Da poesia.
No segundo capítulo do livro intitulado “Dos
territórios” encontramos poemas como Poésie
da Mula, cuja última estrofe mistura a língua portuguesa abrasileirada,
falada nas ruas, ao francês:
Se hoje sou
assim tão “gente”
Tão longe, “nas
bagaça do estrangeiro”,
Pagando de diplomatique
Heroína,
Cocaína: nomes de poésie.
A segunda característica de uma
literatura menor é que nelas - ao contrário do que ocorre nas grandes
literaturas, onde o individual tende a juntar-se com outros casos também
individuais – tudo é coletivo. Nas grandes literaturas o problema geralmente é
edipiano; ao passo que nas literaturas menores, o problema não é exclusivamente
de um indivíduo, de uma família, de um sujeito separado do mundo, aqui o problema
é sempre de um povo, de uma minoria. Não é que o escritor, ou melhor, ou
eu-lírico, não possua uma singularidade,
o caso é que nas literaturas menores, o individual é exagerado, conecta-se com
outras esferas, não existe isolado. Na literatura menor, em vez do individual
têm-se sempre o coletivo. Ao abrir seu livro, Lisa trata justamente da questão
do eu, mas este eu, assim como em Rimbaud, é um outro, ou melhor, é vários outros.
Mario de Andrade diria aí: “sou trezentos, sou trezentos e cinquenta, mas um
dia, afinal, toparei comigo mesmo.” É que o eu, para a poeta, não é um umbigo,
mas um agenciamento:
ECOS
O Eu original
foi desconectado
e tudo o que
restou fomos Nós (esses Eus sem paradigmas),
no escuro de uma
tabela periódica,
crédulos das ciências e dos teísmos,
cultivadores de
rótulos, diplomas e de imóveis habitações.
Segundo
Deleuze e Guattari, um agenciamento é uma mistura, uma abertura à alteridade.
Para os autores, o agenciamento é que é a unidade real mínima e não a palavra,
a ideia ou o conceito, muito menos o significante. O enunciado, deste modo, é
produto de um agenciamento e não de um sujeito, ou de um eu, e sempre põe em
jogo dentro de nós e fora de nós populações inteiras, multiplicidades, devires,
territórios e acontecimentos. Lisa escreve em Cartas para o Mundo:
Eu era todos: a
menina do tabuleiro, o cientista e a sombra.
Nós todos éramos
ultravidas – ninguém conhecia a direção
do outro ou qual a cor predileta.
Eu ouvia seus
zumbidos enquanto travavam suas missões.
Eu reconhecia
seus pensamentos, seus sistemas digestivos e os seus tutanos.
Eu era todos:
varão e fêmea, domínio e servilismo, guerra e silêncio.
Nós todos
compúnhamos uma orquestra de músicas mestiças
e marchávamos em
fios ou nos estreitos paredões.
Eu era todos:
guarda-chuva, estepe e carrinho de mão.
Éramos os substitutos,
os do final da fila, os stand-by. Sem mais.
Eu era todos:
rins, tesoura e pedra.
Filtros, cortes
e lapidações – editados pelos comerciais de um dia feliz.
Eu era todos: o
carbono, o silício e a saliva
fluída da boca
esfomeada ou
gananciosa.
Eu era a fila
para lugar nenhum e o orifício certeiro.
Eu era a banda
larga.
A
poesia de Lisa é um modo de questionar nossa identidade. Que é ser brasileiro?
Como se forma uma individualidade num país pobre e preconceituoso? Como podemos
ser com o outro? Não com os donos do poder e do capital, mas com “os do final
da fila”? Devir é sempre minoritário e optar pelo menor é uma opção política,
não partidária, mas política. Isto nos leva à terceira característica de uma
literatura menor.
A terceira
característica da literatura menor é que nela, ao lado da esfera coletiva, tudo
toma um valor político. Enquanto nas grandes literaturas abundam aqueles que
têm intimidade com o idioma e, por isto mesmo, facilidade para escrever; nas
literaturas menores, aquilo que se manifesta é sempre coletivo e político,
mesmo porque em uma literatura menor as condições de uma enunciação individuada
não são dadas. Tudo é então agenciamento. Em Arame Farpado, a esfera política atravessa cada poema, cada
estrofe, cada verso, cada palavra, a começar pelo título: Arame Farpado! Não, meus amigos, isto já não é um livro de poemas,
é uma declaração de guerra, de guerrilha, ao instituído, ao poder, aos
poderosos... É a formação de barricadas, de trincheiras. Cá estamos, do outro
lado, não protegidos, mas expostos a
versos cortantes como estes, do poema Renascença:
Quando as
fronteiras da Terra forem abertas
e exterminarem
essa falsa cultura made in,
confraternizaremos
como uma irmandade terráquea.
A América que
conheço não tem nenhum tio chamado Sam.
A América que
cresci foi desertificada
por um sonho que
não é meu,
que não é seu e
nunca foi nosso.
O
livro de Lisa Alves já não se configura como aquilo que chamamos texto, ele é
corpo. Parece feito de carne e sangue. Não baixa a cabeça, mas encara. Não fala
a meio tom, mas grita. Como certa vez escreveu Ralph Waldo Emerson: “Se
cortássemos essas palavras, elas sangrariam.” Leitura obrigatória, mas sugiro
luvas grossas ao manusear o livro, para que os cortes nas mãos não precisem de
pontos.
Arame Farpado. Lançamento Coletivo Púcaro. Vendas com a autora: lisaallves@gmail.com e www.facebook.com/lisaallves.
sábado, 21 de março de 2015
Levanta-te e anda
Pegue-se um ser humano, corte-lhe a língua materna, o lugar onde vive, as pessoas que conheceu, as aventuras porque passou, o que sobra de sua identidade? Voltemos ao bebê. Este que um dia será homem ou mulher ainda não tem um “eu”, ainda não tem qualquer traço de uma identidade, mas, enquanto mama, a mãe sussurra uma cantiga. Aí começa o gosto. Esta cantiga, a própria criança voltará a murmurar nos momentos de solidão e medo. É o gosto quem conduz as escolhas. Mais do que aquilo que vem de fora e nos condiciona - o sexo, a condição financeira, a língua materna, o espaço que ocupamos -, é o gosto que constrói nossa identidade. Aquilo que fará parte da nossa alma, que constituirá nosso “eu”, apanhamos pelo caminho, seguindo a beleza, o prazer ou a tormenta - existe um fundo de prazer em toda dor e existe um fundo de dor em toda obra de arte - que nos proporciona. O “eu” vem de fora, mas encontramos aquilo que constituirá o mosaico do nosso Ser por meio de uma opção estética. Escolhemos uma música, uma namorada, uma professora para adorar, uma língua estrangeira para aprender; escolhemos amigos, lugares, filmes, fotos, livros, roupas, corte de cabelo, a cor do cabelo, alimentos: no fundo de tudo paira uma decisão estética. Sim à estética e não ao estetismo. Mas como ter um “eu” se de manhã sentimo-nos como um pedreiro entre pedreiros, e os calos surgem em nossas mãos, e a língua gagueja em nossa boca, e o músculo é a única forma de habitar o corpo? Como ter um “eu” se durante a tarde somos a menina inocente que sonha o amor e chora assistindo a sessão da tarde? Como ter um “eu” se de noite somos a dona de casa que prepara o jantar para o marido que se diverte com a amante e, mais tarde, o adolescente que se corta sozinho no quarto ouvindo Joy Division? E mais, como estar no mundo sem Ser, feito um parasita que cola nos outros, vestindo a máscara do vizinho para fingir que é algo, que existe? Só na escrita mesmo, na palavra, na Poesia. Profissão de fé. Quem escreve quer criar um mundo onde possa Ser porque não se sente em casa no mundo. Aquele que escreve quer viver na palavra, ainda enquanto é, mas também depois que se for. Feito Lázaro.
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