(Para kiko Nietzsche)
Imagine um triângulo. Um homem se equilibra sobre o
ângulo superior: à sua frente,
estende-se o mundo da forma, da ordem, da razão, do dia; às suas costas, o
caos, o sem-fundo e sem nome, o espaço da noite, da loucura e da morte: o fim
de toda unidade. Há uma força que suga o
homem para trás, buscando transformá-lo em abismo e dispersão. Por outro lado,
o homem tem uma corda, doada a partir do mundo frontal que o ajuda a manter o
equilíbrio. Essa corda é a escrita. De pé sobre a quina, a planta de seus pés
sangra; o homem sente os ventos frios que o tomam pelo fundo. Vira a cabeça e
olha. Tem o dom da profecia. Para ele é simples como prever uma tempestade ao
ver as nuvens carregadas no céu. Esse dom o assusta. Nunca pediu por ele. E se
algum dia vier a tragédia? A morte do amigo, ou pior ainda – isso não nunca –
do filho? Ele prevê, mas é de modo cego. Não sabe ao certo o que está prevendo;
tampouco pode interferir no processo. (Aquele que tem consciência da tempestade
próxima nada pode fazer para impedi-la).
Seres e não-seres cruzam a fronteira que o topo da
pirâmide representa. Ele vê os fluxos se aproximando do cume e ganhando
contornos, até que atravessam e nascem para a forma. Vê também os seres fazendo
o caminho inverso, da forma até a transparência e, de lá, aos poucos, até o
abismo. Este homem vive só com sua palavra. Não passa de uma testemunha. E a
palavra, ao mesmo tempo em que o mantém de pé, queima suas mãos, como se ele
segurasse uma corda de fogo. Destino assim nem a um inimigo se desejaria.
A princípio, o homem diz não; renega a tarefa de
amanuense. Percebe então que não pode deixar de escrever, sob o risco de já não
conseguir se equilibrar, de cair para trás. Em outras palavras, ou enlouquece
ou morre. O Não converte-se, assim, em Sim e ele aceita sua missão. Nunca pediu
por ela, mas aceita.
Sob a quina, horizontes e fronteiras são iguais.
O guardião.