sexta-feira, 14 de junho de 2019

NA COVA DOS LEÕES - UMA TOPOLOGIA DA QUINA


(Para kiko Nietzsche)
Imagine um triângulo. Um homem se equilibra sobre o ângulo superior:  à sua frente, estende-se o mundo da forma, da ordem, da razão, do dia; às suas costas, o caos, o sem-fundo e sem nome, o espaço da noite, da loucura e da morte: o fim de toda unidade.  Há uma força que suga o homem para trás, buscando transformá-lo em abismo e dispersão. Por outro lado, o homem tem uma corda, doada a partir do mundo frontal que o ajuda a manter o equilíbrio. Essa corda é a escrita. De pé sobre a quina, a planta de seus pés sangra; o homem sente os ventos frios que o tomam pelo fundo. Vira a cabeça e olha. Tem o dom da profecia. Para ele é simples como prever uma tempestade ao ver as nuvens carregadas no céu. Esse dom o assusta. Nunca pediu por ele. E se algum dia vier a tragédia? A morte do amigo, ou pior ainda – isso não nunca – do filho? Ele prevê, mas é de modo cego. Não sabe ao certo o que está prevendo; tampouco pode interferir no processo. (Aquele que tem consciência da tempestade próxima nada pode fazer para impedi-la).
Seres e não-seres cruzam a fronteira que o topo da pirâmide representa. Ele vê os fluxos se aproximando do cume e ganhando contornos, até que atravessam e nascem para a forma. Vê também os seres fazendo o caminho inverso, da forma até a transparência e, de lá, aos poucos, até o abismo. Este homem vive só com sua palavra. Não passa de uma testemunha. E a palavra, ao mesmo tempo em que o mantém de pé, queima suas mãos, como se ele segurasse uma corda de fogo. Destino assim nem a um inimigo se desejaria.
A princípio, o homem diz não; renega a tarefa de amanuense. Percebe então que não pode deixar de escrever, sob o risco de já não conseguir se equilibrar, de cair para trás. Em outras palavras, ou enlouquece ou morre. O Não converte-se, assim, em Sim e ele aceita sua missão. Nunca pediu por ela, mas aceita.
Sob a quina, horizontes e fronteiras são iguais.
O guardião.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

SÍSIFO FELIZ

Na mitologia grega, por desafiar os deuses, Sísifo foi condenado a trabalhar por toda a eternidade, rolando uma pedra até o cume de uma montanha. Quando, porém, chegava ao topo, a pedra despencava lá de cima e, no dia seguinte, Sísifo tinha de recomeçar o trabalho. Somos todos Sísifo: eu, você, nossos pais e filhos. Mais de um terço de nossos dias é comprometido com a dura tarefa de rolar a tal pedra morro acima. Para Sísifo, não havia férias ou feriados prolongados. Então, fico me perguntando: será que não pensou em suicídio? Claro que sim. O homem que passara uma coleira na morte pensou sim em dar cabo de si; só que não. Ao começar a cumprir sua sentença, Sísifo sofreu com o peso da pedra; praguejou, amaldiçoou seu destino. Depois, já nem via a pedra; perdido em devaneios no passado, no tempo em que tinha sido livre e feliz; ou no futuro, no tempo em que, por algum milagre, se livraria do jugo. Mas a eternidade é longa e Sísifo, como era de se esperar, perdeu as esperanças e, neste momento, quis morrer; mas já não podia morrer: já não podia dormir, nem acordar. É isso a agonia impensável: o escorpião encalacrado, nem sequer ter a possibilidade de decretar o próprio fim. E aí, foi neste exato momento que o milagre aconteceu. Sísifo percebeu que, embora o caminho fosse o mesmo, nunca era igual. A chave para a liberdade estava justamente na plena atenção ao caminho que tinha de fazer diariamente. E Sísifo ficou amigo das flores e percebeu que elas estavam diferentes a cada dia. Dia após dia, esperava a roseira botar seu botão, o girassol mexer sua cabeça grande na direção da luz. Percebeu também que o céu nunca estava igual, era impossível que as nuvens repetissem a mesma forma. Embora tudo fosse o mesmo, nada nunca era igual; e, ainda que estivesse preso à sua maldição, Sísifo se libertou. Habitar o presente é habitar a liberdade, independentemente das condições exteriores. O presente é um furo na eternidade. A única novidade é o sol. Então, este é o nome do milagre: eis que tudo se fez novo – Sísifo Feliz!
Hoje, quando vinha para o trabalho, vi um pai levando o filho no colo, embrulhado numa manta, para a creche. Vi também um velhinho passeando com o cão. E vi ainda um casal de namorados se despedindo para ir ao trabalho; ela acenou quando passava na catraca do ônibus. Vejo essas pessoas todos os dias, mas elas nunca vestem exatamente a mesma roupa. Como disse Camus: “É preciso imaginar Sísifo feliz”. Mais louco é quem me diz!
Eu sou feliz!

OS PÁSSAROS E AS PESSOAS

As pessoas são como pássaros.
A princípio, se mostram desconfiadas.
Aproximam-se, mas pousam longe -
Em ponto de possível partida ainda antes da mágoa.
Com o tempo e a constatação de que não temos pedras nas mãos,
Os pássaros chegam mais perto.
Manhã cedinho, vêm cantar na nossa janela.
Se somos delicados e mostramos respeito pelo canto,
Entregam-se inteiros; pessoas e pássaros.
E acabam por se alimentar de nossa mão estendida.
Agora, se somos afobados, se os assustamos,
Tanto as pessoas, quanto os pássaros partem.
Às vezes, pra nunca mais.

domingo, 9 de junho de 2019

O SORRISO É A FLOR DA PESSOA

Uma flor quando desabrocha é um milagre, mas ver um ser humano desabrochar é uma emoção para a qual ainda não existe palavra. A gente vai dando tempo, carinho, atenção – sobretudo atenção – retirando as larvas, os pulgões, as formigas cortadeiras e, então, um belo dia, a flor desabrocha lá de dentro do coração e nem a planta crê que era capaz de produzir uma flor tão bonita. 
Hoje eu também aprendo muito com o jardim; mas, durante muito tempo, aprendi só com os bichos. Peguei muitos bichos na rua, sabe, e, na minha profissão, também vi muitas crianças largadas. Quando você pega um gato abandonado, ele chega inseguro, assustado, tem medo de tudo e, principalmente, quer agradar demais. Por medo de ser judiado, descartado mais uma vez, ronrona demais, se esfrega o tempo todo na gente, quer fazer de tudo pra ser aceito e acaba até enchendo um pouco o saco. A paciência é a maior virtude daquele que cuida. Aí, com o tempo - essa é uma verdade esquecemos: tudo demanda tempo –, a atenção (sobretudo atenção) e o cuidado, o bichinho vai ganhando confiança, se sentindo seguro, em casa. E aí, um belo dia, a gente vê o gato verdadeiro, que é a beleza do gato normal elevada à enésima potência - a flor que desabrochou. Com as pessoas acontece igualzinho. Quando a pessoa desabrocha, ela rejuvenesce, o rosto fica leve, há no olhar a generosidade de quem voltou a ser si mesmo, o bem transparece em cada uma de suas atividades, ela se torna criativa, brincalhona e... SORRI. Esse sorriso é a flor da pessoa. E, olha, a gente que acompanhou o processo desde o começo, que plantou a semente, cuidou das larvas ou carrapatos, teve paciência nos dias ruins, sente-se aí recompensado. Foi uma longa jornada, mas como valeu!
Bom dia, amigos e amigas.

SONHAR O SONHO CERTO



Calma.
A gente precisa sonhar os sonhos certos ou, talvez, o melhor mesmo seja nem sonhar, mas se entregar confiante à Força, como um pássaro confia ao se entregar a uma corrente de ar. Ao não desejar, abrimos espaço ao nosso destino verdadeiro e é como se a roda da vida corresse sobre o trilho de trem a ela destinado desde o princípio.
Por muito tempo, sonhei ser famoso e grande para conquistar um Amor que julguei insuficiente. Eu estava errado. Se meus sonhos tivessem se realizado, eu poderia ter sido um ser humano muito destrutivo. Meu sonho era ser mais que os outros e, enquanto estivermos imersos neste tipo de ilusão, o mundo não terá jeito. Aparecer na televisão faz alguém melhor? Eu achava que as pessoas me menosprezavam e queria provar pra elas do que eu era capaz... E aí fui corrigido; como uma mãe tem de corrigir o filho quando percebe que ele começa a se perder. 
A maioria de nós sonha os sonhos errados. E a grande benção em verdade é não realizá-los. Kurt Cobain realizou seu sonho e viu que estava errado, nada havia lá. Ele continuava o mesmo e a dor continuava a mesma. Tudo o que você precisa, está ao seu lado agora mesmo. É só vir para o presente e abrir os olhos. Se estamos o tempo todo com a cabeça no passado ou no futuro, ficamos cegos para o presente. Se só me permitirei ser feliz quando tiver isso e aquilo, não vejo as pessoas, os bichos, as plantas, a pipoca com a filha, as coisas boas que estão bem aqui ao meu lado. A felicidade é uma questão de atenção e não de realização. Todo mundo pode ficar feliz agora, só que precisa perceber isso.
Fico vendo o caso do Neymar aí na TV e tenho muita pena dele. Ele só tem fama e alguns milhões. Eu não trocaria minha vida pela dele nem por um segundo. Precisamos de muito pouco para sorrir. Bom dia.

DE VOLTA AO COMEÇO

"E É COMO SE EU DESPERTASSE DE UM SONHO QUE NÃO ME DEIXOU VIVER". Como isso se comunica comigo. Eu vivi a vida inteira dentro desse pesadelo e só há pouco despertei. É como se, pela primeira vez na vida, meus olhos estivessem abertos. Eu nunca tinha reparado nas cores bonitas do manacá nessa época do ano. Eu poderia ter dito que nunca avistara um único manacá e, no entanto, no caminho até meu trabalho, tem um monte deles, com suas flores brancas e roxas. E o sol ganhou uma luz nova. Dá vontade de parar as pessoas na rua, chacoalhá-las e perguntar: “vocês não vêm o tamanho disso que é o mundo e a vida?” Se fosse pintor, acho que isso se manifestaria como a diferença que há entre os Comedores de batata e os muitos girassóis de Van Gogh. Na capa desse disco aí, o Gonzaguinha tem a face fissurada. Ele também, um filho da fenda; esse sentimento profundo de orfandade. A fissura dói de uma dor impensável; mas é ela, ao mesmo tempo, que nos dá uma visão mais ampla das coisas e – ainda assim – essa impressão de viver dentro de um sonho que não deixa viver de verdade, como o menino que não pôde entrar na festa e fica olhando as outras crianças se divertindo, enquanto ele está do lado de fora, no frio. Não é possível curar a fissura, mas é possível aceitá-la e acho que é disso que essa canção fala. De um despertar espiritual, um segundo nascimento, nascer já não de um útero, mas de dentro do próprio coração. De volta ao começo, até aquele ponto no qual o menino se sentiu abandonado e retomar dali a caminhada com um sorriso nos lábios. Talvez eu esteja próximo da morte sem saber ou de um trabalho dentro do qual eu desapareça como indivíduo. Acho que foi o Dr. Gachet quem disse que, na manhã em que saiu para pintar os corvos no trigal, Vincent parecia um homem que tinha vencido sua guerra interior. Naquela tarde, ele deu um tiro no próprio peito. E Double Fantasy, último play do John Lennon, parece a solução de todos os problemas vociferados no Plastic Ono Band e então: Mark Chapman; e o Gonzaguinha faleceu num desastre de automóvel aos quarenta e cinco anos. Havia poucos anos que tinha se entendido com o velho Lula. O fato é que já não sou eu quem vive, mas o sagrado quem vive em mim. E tanto se me dá se eu for chamado para partir, ou para fazer um trabalho no qual meu nome se apague para sempre. De volta ao começo, ao fundo do fim.

O AMOR

E naquela noite, eles foram para o motel
Mas ninguém poderia imaginar que só queriam passar toda a noite de mãos dadas.