domingo, 9 de junho de 2019

O BODE EXPIATÓRIO

Toda família tem um membro que toma para si a tarefa de expiar a culpa e os segredos dos demais. Este membro entrega a si mesmo em sacrifício para que os outros possam seguir. Geralmente, as pessoas chamam esses seres de ovelhas negras. Em boa parte dos casos, os bodes expiatórios são tocados por alguma enfermidade mental, ou por um profundo desajuste social.

terça-feira, 4 de junho de 2019

PSICOLOGIA E ESPIRITUALIDADE

No fundo, no fundo, quase todas as pessoas são delicadas, mas foram feridas muito cedo e aí ficaram feito roseira que ainda tenta respirar sob camadas e camadas do entulho de um prédio que desabou. Às vezes, uma bobagem arrebenta o coração pelo resto da vida:
- Ah, mas por que você não faz como sua irmã? Ela é tão comportada e só tira notas boas!
Todo trabalho espiritual ou psicológico sério tem o intuito de alertar para o entulho e para o árduo trabalho de retirá-lo. E, quando a gente passa a ver as pessoas assim e vai cavando através do entulho, feito formiguinha, tentando vislumbrar a roseira, a gente fica mais paciente com as pessoas e com a gente mesmo.

NIETZSCHE, CAMILLE, O POTRO E EU

Em O nascimento da tragédia, a dinamite germânica Friedrich Nietzsche identifica duas forças modeladoras da cultura desde a Grécia: o apolíneo e o dionisíaco. O apolíneo seria o iluminado, racional, ordeiro; ao passo que o dionisíaco seria seu contrário. Nietszche, já ali, à beira da loucura, assinou alguns textos como Dionísio e outros como O crucificado. Mas o fim de Nietzsche não vem ao caso aqui. Estamos no primeiro Nietzsche, o qual identifica as duas forças modeladoras da cultura. A meu ver, há aqui uma correspondência com o Oriente: o par yin-yang. O yang estaria para o apolíneo, assim como o yin para o dionisíaco. Essas duas forças, em última instância, manifestam-se como masculino e feminino. Acho que tem a ver com o corpo: o homem mostra, ao passo que a mulher insinua. O órgão sexual masculino é um monte; ao passo que o feminino, um abismo. E, contudo, há muito da mulher no homem e muito do homem na mulher. Na natureza, tudo é lambuzado e, gente, tudo é natureza! De certo modo; o homem tem um útero na cabeça, ao passo que a mulher tem uma cabeça no ventre. No homem, até mesmo o coração tem de passar pela cabeça. Na mulher, ocorre o contrário. Mas é claro que há casos de homens regidos pelo feminino e mulheres regidas pelo masculino.
Falei tudo isso para chegar à escultura, que considero uma arte de predominância masculina, ao passo que a música seria feminina. Isso não impede, entretanto, que uma mulher seja uma tremenda escultora. Quero falar então de Rodin e Camille Claudel. As esculturas de Rodin são a forma em pedra do yang, do apolíneo. É um trabalho lento, racional, que busca a perfeição das formas e lapida até chegar à claridade da escultura que se escondia na pedra. Camille, por outro lado, é o obscuro, o emocional, o caos necessário. A perfeição não é meta. O filho é sempre perfeito aos olhos da mãe, mesmo em suas imperfeições. Acho que Camille não esculpiu, pariu suas obras. As suas são pedras da urgência, do desespero e do grito. O excesso é retirado às pressas e; breve-breve, ela já está em outro lugar. No meu coração e no que escrevo, estou mais próximo da Camille: não tenho tempo para ser ourives, só para a fúria do sentimento. Aí um analista amigo meu, disse que tenho coração de potro selvagem; ele acertou, porque sempre me senti atraído pelas naturezas que não se deixam dominar. Eu teria tido um fim trágico, parecido ao de Camille ou Nietzsche. Só que encontrei a disciplina de uma prática espiritual e me tornei - eu mesmo - condutor deste cavalo doido que sou. O apolíneo também tem seu lugar. Cavalo e cavaleiro andam calmos, em unidade, buscando o um; mas o potro nunca pode se desvencilhar de seu coração. E nem quer. Evoé Camille!

sábado, 1 de junho de 2019

ALERTA!

A criança machucada em ti precisa de abrigo. Se outros não fizeram quando era tempo, faze tu mesmo agora; ou naufragarás.

CUIDADO DO INCONSCIENTE

Se queres colocar a casa em ordem, começa limpando o porão.

O HEROÍSMO POSSÍVEL

QUANDO a gente se predispõe a fazer o Bem, pensa logo em coisas grandes: esconder judeus no porão para salvá-los dos nazistas, liderar uma revolução; mas, às vezes, o heroísmo possível é levantar uma vassoura caída na qual alguém poderia tropeçar. A bondade não se mede em termos de façanhas. Emily Dickinson escreveu: "Se eu puder ajudar um filhote que caiu a voltar para o ninho, a vida terá valido à pena". E há um ditado zen assim: "se você quer salvar o mundo, comece lavando seu prato". Ou é isto, ou algo neste sentido. Enquanto tua bondade depender de reconhecimento, irmão, ainda não será bondade de fato. Só disfarce do teu próprio narcisismo.

PITICO, OU DA ÂNSIA POR RECONHECIMENTO



Meu amigo Pitico morreu aos dezessete anos com dezessete tiros. Ele vinha de uma família de oito irmãos, os mais velhos já estavam na cadeia; ao passo que os mais novos se iniciavam no crime. A gente se deu bem desde a primeira série. Eu, o astronauta; ele, o Fora da Lei (Kafka gostaria desta expressão). Eu o ajudava com as atividades escolares, enquanto ele me protegia dos meninos maiores. Outro dia, vi uma frase num filme e me lembrei do Pitico. Dentro da cadeia, numa briga, o personagem diz:
- Eles pode ser grande, mas nóis é ruim.
Pitico não era grande, mas não perdia uma briga. Quatrocentas lutas, quatrocentas vitórias.
Além do desencaixe, havia algo mais que nos irmanava: a ânsia por reconhecimento. Eu tinha ambições artísticas; ele, criminosas. Pitico não entendia por que eu queria que lessem meus poemas; ao passo que eu não entendia por que ele, como os irmãos mais velhos, queria ter o nome temido no crime. Daí a gente percebe o tamanho da nossa idiotice. Pouco importam aos outros as nossas façanhas. Todos estão imersos na ilusão de que são especiais e buscando reconhecimento dentro de seu próprio viveiro. Alexandre, o grande, conquistou o mundo inteiro para ofertá-lo à mãe. Eu quis fazer o mesmo. Alexandre era um idiota; eu, outro. Quando deixamos de lado a ânsia por reconhecimento, ficamos mais leves, pisamos menos nos calos alheios. No caso da arte, ela flui sem barreiras. O melhor tiro do arqueiro é aquele que não tem alvo definido. Eu não sou meu nome. E o que vai ficar, se algo ficar, é só uma palavra vazia. Tremenda bobagem! Em busca disso, dessa ilusão de imortalidade, jogamos fora a única coisa real: a vida.
Não fosse a ânsia de eternidade - e de reconhecimento enquanto meio para isso - talvez meu amigo Pitico ainda estivesse por aqui e a gente poderia se encontrar num final de semana para jogar sinuca e falar dos filhos e dos velhos tempos.