quarta-feira, 15 de maio de 2019

LUTO III – no morro

Tempos atrás escrevi dois textos tratando do luto, disponibilizo nos comentários, caso alguém tenha curiosidade. Hoje volto ao tema para observar outra forma de encarar a morte de alguém querido: o luto no morro. Quem já foi a um velório na periferia, quando a família não é inteira evangélica, sabe que se bebe bastante. Dia seguinte, você procura uma garrafa de água no boteco e não encontra, os enlutados beberam tudo, correram a vila fechando os bares, padarias, açougues e mercados. Como em todo velório, a cerimônia começa triste. É já a saudade, a tristeza de saber que nunca mais veremos aquela pessoa. Não é fácil! Por não suportar o ambiente, os mais tristes correm para o boteco mais próximo em busca de alívio. Quando retornam, já enxergam a questão por outro prisma🧐. Lembram casos engraçados do defunto. Um tio solta uma piada suja. As tias olham com olhos de repreensão. O jeito é voltar pro boteco, mas dessa vez o grupo é maior. Todo mundo tem alguma passagem interessante pra falar a respeito do morto. A turma retorna novamente ao velório, dá mais um tempo e arregimenta novos soldados. Já no bote, alguém saca de um cavaco, um violão, quem não tem pandeiro bate na palma da mão. Celebra-se a morte como conclusão natural da vida; assim como a formatura é a celebração dos anos de estudo. O pessoal chega à conclusão de que, entre altos e baixos, o defunto viveu uma vida plena. Realizou muita coisa. “Vá em paz, compadre, que agora é com a gente!” Por mais pobre que seja uma travessia, ninguém passa por este planeta em vão. Se Heidegger tivesse andado por uma quebrada, teria chegado antes à conclusão de que somos para a morte e que é a morte de alguém que dá a forma definitiva para sua vida. Até a morte, o dasein é sempre uma abertura. Com o último suspiro, a escultura está terminada. Mas deixemos o Heidegger de lado porque ele entendia pouco de samba. Lembro agora é das minhas primas pretinhas. As duas deixaram de trabalhar, namorar e estudar para cuidar da avó que precisava fazer hemodiálise duas vezes por semana. Eram meninas bem jovens, mas abriram mão por amor. Durante anos, zelaram a velhinha. No dia em que a avó morreu, tomaram todas as cervejas do mundo e terminaram o dia jogando bola na rua, debaixo de chuva. Era a celebração da avó, a maior demonstração de amor: “A arte de sorrir cada vez que o mundo diz não”. Claro, há sempre juízes em qualquer parte do mundo; mas, como diz meu amigo Robson: “É pau no cu dos paus no cu!” 
E eu, quando a doer vier, quero ter a grandeza dessas duas primas. Beijo procês!

sábado, 11 de maio de 2019

SORRISO

Quando acordei ainda há pouco, estava frio. Acho que vivo o tempo todo no coração, sem proteções, feito caramujo sem casa, lesma exposta ao sal; ou vivo o imenso, ou me dissolvo. Coração na epiderme. Sim, mas quando está frio assim isso ainda aumenta. Há alguns dias voltei a este Disintegration e descobri porque há uns vinte anos ele fez minha cabeça. O menino que ouviu o vinil pela primeira vez tinha razão. É como rever um amigo do peito: nunca perdemos a intimidade.
Mas o que eu queria falar mesmo era sobre o sorriso. Nessa faixa que abre o disco: Plainsong, o ambiente é frio como a morte, o cara se sente como se estivesse vivendo no limite do mundo, tudo tão pesado, e grave, e triste, e então... ELA SORRI! O som faz o resto, a palavra não chega lá: a vida se reconstrói, a esperança é, uma chuva de lantejoulas, algo cristalino escorrendo nas veias, ácido lisérgico talvez, ou o momento em que Edward Mãos de Tesoura faz nevar na vila colorida no filme de Tim Burton. Às vezes, me sinto como o personagem interpretado por Johnny Deep: tenho as melhores intenções, cultivo a pureza, mas não sei lidar com os outros; tenho lâminas nas mãos, estou sempre me ferindo – a face cheia de cicatrizes - e ferindo aos que amo porque são os que estão mais perto.
Voltando ao sorriso, que é do que eu queria falar mesmo desde o começo, lembro o sorriso do Kerouac, inchadão, na entrevista da tevê. Ele ainda sorria como menino que acabara de fazer um touchdown, mesmo deformado de tanto álcool. E o sorriso do Elvis denuncia toda sua pureza. Mais que o rebolado, aquele sorriso venderia milhões de discos. E o sorriso do menino Michael nos Jackson Five? O sorriso dos Beatles no começo. Clarice Lispector não ria em público. Dizia a Lygia que as mulheres não eram levadas a sério quando sorriam. O mundo patriarcal esmaga, mas uma mulher como ela também podia ter levantado mais essa bandeira - a do sorriso - no meio do ambiente artificial das rodas literárias e intelectuais. O artista se alimenta também de reconhecimento, mas deveria poder se alimentar só de sua arte.
Lembro o sorriso da Márcia, no tempo em que ela ainda ria das minhas palhaçadas.
Do riso mineiro, quase baiano, da minha mãe.
Do riso tímido do meu pai, quando conto alguma piada suja.
Quando faz frio assim, fico dolorido, meio tristão sem Isolda, às vezes tento sorrir frente ao espelho e não consigo. O rosto se desfaz feito máscara de cera derretida e acabo chorando, que diabo! “Respeito muito minhas lágrimas, mas ainda mais minha risada”. No entanto, não me abato, sei que, em algum canto, meu sorriso está lá, disfarçado de João, de Sofia, dos meus bichos, de jardim em estado-semente, esperando para florescer. Meu riso é minha esperança-sempre-viva😉.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

O RASTA

Quando eu cursava Matemática e, para desestressar, atravessava os finais de semana calculando integrais; tinha, como companheiro de quarto, o Rasta. Acho que nunca conheci ser humano melhor. O Rasta cursava Ciências Sociais e estudava pouco, ocupava seu tempo ajudando os outros. Cuidava do jardim da moradia estudantil, ajudava uma ONG que acolhia e encaminhava para adoção animais abandonados; três vezes por semana, era voluntário no asilo público da cidade. Fazia tudo isso e, naturalmente, fumava e ouvia reggae. Em discussões políticas no campus, ele era criticado por não se posicionar:
- Mas eu tenho um lado – respondia. – O de fora.
Era um cara assim, o Rasta, se eu via a vida como um saco de cimento, ele a via como bolha de sabão.
- Meu irrrmão, negócio é focar nas vibrações positivas. Não existem problemas, só soluções.
Nos últimos anos, comecei a me preocupar com o Rasta. Ele andava perdendo a memória. Uma manhã, chamou-me:
- Irmão, tu tens esse jeitão de CDF, podia ir comigo contar pro meu pai que eu fumo maconha. Tô preocupadão com a reação do Coroa, saca?
Atendi ao pedido do meu amigo. Fui com ele à casa dos pais na cidade vizinha e me sentei à mesa em tom solene.
- Pai, preciso dizer uma coisa.
- Fale, meu filho.
- É que eu fumo maconha.
O velho balançou a cabeça, pegou mais salada. Ficou quieto, mastigando. Estranhei.
Depois do almoço, o pai me chamou de canto:
- Você que fica lá com o Didico, dá uma olhada no meu menino. Desconfio que anda fumando demais. Todo mês ele me conta que fuma maconha, esquece, e, no mês seguinte, volta com a mesma história😱🙃👽!
Tive vontade de rir; segurei.
Quando me formei, o Rasta continuou estudando. Ainda tinha umas matérias para cumprir. Dizia que estudaria mais se a faculdade não fosse um poço de tirania; se os assuntos não se chamassem disciplinas e não constassem em uma grade.
- Parece coisa de prisão, Bro... Grade, disciplina! Sai fora!
Da última vez que soube do Rasta, ele tinha se formado e estava na Amazônia, morando com uma tribo lá no meio da floresta. Torço para que esteja bem. É um ser humano raro.
Se estas linhas chegarem por aí algum dia, fica meu abraço de admiração, compadre. A paz de Jah!

domingo, 5 de maio de 2019

DE ONDE VEM O FADO

cuando meu homem se foi a buscar ouro naqueles garimpos no meio da floresta amazónica, tive d’aprender a danzar sólo y, para comer, fui danzar naquelle cabaré callede sertão. não era zona d’elegáncias, mas também não sou mulher de finesses. 
u'a cigana, antes, dissera-me que o diabo era ainda adolescente y circulava, nas noites d’ lua, em meio às alimárias. 
- Portuguesa - ela completou –; na Venezuela, os homens passam fome y o demónio tem de disputar, palmo a palmo, a ração com a porcalhada.
primeiros dias, só no novo mundo, há que se dizer, fiquei maníaca por limpeza. limpava y relimpava a casa - dia y noite, noite y dia. as porcelanas brilhavam quietas, brancas, no armarinho. depois, a cigana tornou:
- a vida é curta, Manuela, desencana, ora pois.
era uma cigana gorda, imunda y mundana.
deixei a casa cuidar de si mesma y, como deus não entra em casa suja, él veio. naquela manhã, cortei a mão num copo quebrado; não sangrei. tinha uns olhinhos assim puxados, él, o menino, como os olhos d’aquele povo d’oriente. enquanto eu danzava, él sacou d’seu saxofone e empurrou em mim, tudo-tudo, até o fundo. em minhas entranhas, tocou seu sólo violento, rústico, dilicado. alongou cada nota al limite y sustentou até. gemi d’amor e chorei.
foi o diabo,señor, quem m’encheu o ventre de música. nessa mesma noite, o demónio foi-se embora, com seus pezinhos de bode a deixar pegadas pela lama. nove meses depois, señor, pari esta cançãozinha que tu agora vês a correr pela casa.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

CANTIGA DE AMIGO XXI

Quando você partiu,
amigo,
para viver o novo e a aventura em terras distantes
Fiquei aqui, na areia da praia onde brincávamos na infância.
Aqui,
Construí cabana e, durante todas as tardes, espreitei o mar;
mas, o Tempo.
Pois bem,
neste exato instante desisto.
Quando voltar,
você não vai encontrar quem ouça suas aventuras
e lhe faça um café forte e sente contigo
- olhos de benção e admiração -
O que te espera de hoje em diante, irmão
é só areia e o fantasma enorme de um amor defunto:
carcaça de monstro marinho que encalhou.
Será que você vai ter a pachorra de dizer que não fui uma boa irmã?

BOYS

Quando as coisas acabam
os meninos querem novos brinquedos
trocam de carro
namoram outra bicicleta
compram jogo e videogame
e passam os fins de semana inteiros jogando bola
e contando mentiras e vantagens aos amigos.
Quando voltam pra casa no fim do domingo
no entanto
estão sempre sozinhos.
Procuram o leite e não há peito por perto.

BETH CARVALHO E A ORELHA DE VAN GOGH

Se Beth Carvalho tivesse sido contemporânea de Van Gogh, provavelmente o destino do pintor holandês teria sido outro. É que, em maior ou menor medida, o artista se alimenta de reconhecimento. A rosa não floresce em virtude do olho que a contempla; mas eu, que compartilho do coração das plantas, sei que a rosa fica feliz quando se faz veículo para que um casal apaixonado demonstre seu amor.
Então, o artista nasce do seio do povo; de suas praças, suas festas, suas alegrias, dores e ansiedades – a incerteza na luta pelo pão, o transporte lotado de manhã; e sofre muito, o artista, em tempos como estes em que o povo se volta contra seus cantores. Mas, e Beth? Que dizer de Beth? Da menina que começou cantando bossa nova nos apartamentos requintados da zona sul; mas foi ser feliz mesmo lá em Madureira, no Cacique de Ramos, embaixo da Tamarineira? Além de seu próprio talento, de sua contribuição incomensurável para cultura brasileira, a madrinha deve ser louvada também pela grandeza de seu coração, pela força de sua generosidade e pela inteligência de seus sentidos que percebiam a grandeza do novo lá onde o novo acontecia. Não é para qualquer um. Na música popular brasileira, só Elis Regina tinha um ouvido atento e generoso o suficiente para compartilhar com o mundo tanta gente boa. Sem Beth Carvalho, o país poderia nunca ter conhecido Almir Guineto, Jorge Aragão, Sombrinha, Arlindo Cruz, todo o pessoal do Fundo de Quintal, Zeca, entre tantos outros. O Rio seria menos Rio e o Brasil menos Brasil.
Lembro Andança; que ela agora deve estar cantando junto com o compositor, Paulinho Tapajós, num plano mais sutil: “Vagando em verso eu vim”. Isso é muito fundo em mim, sabe. Vou pela vida vagando em verso. Revolta a gente ver um canalha como o Wilson Witzel, governador que agora manda meter bala no mesmo povo preto com quem Beth ia dividir prato e copo, partilhar a voz e o coração, usar seu santo nome em vão; como se um coração podre pudesse reconhecer um ser de luz.
Enfim, Beth viveu, chegou aos 73. Cumpriu seu destino e ainda vive em seu som. A gente não morre, entra em estado de canção; en-canta-se. Hoje, vou passar o dia ouvindo.
Por onde for quero ser seu par, madrinha.