Tempos atrás escrevi dois textos tratando do luto, disponibilizo nos comentários, caso alguém tenha curiosidade. Hoje volto ao tema para observar outra forma de encarar a morte de alguém querido: o luto no morro. Quem já foi a um velório na periferia, quando a família não é inteira evangélica, sabe que se bebe bastante. Dia seguinte, você procura uma garrafa de água no boteco e não encontra, os enlutados beberam tudo, correram a vila fechando os bares, padarias, açougues e mercados. Como em todo velório, a cerimônia começa triste. É já a saudade, a tristeza de saber que nunca mais veremos aquela pessoa. Não é fácil! Por não suportar o ambiente, os mais tristes correm para o boteco mais próximo em busca de alívio. Quando retornam, já enxergam a questão por outro prisma🧐. Lembram casos engraçados do defunto. Um tio solta uma piada suja. As tias olham com olhos de repreensão. O jeito é voltar pro boteco, mas dessa vez o grupo é maior. Todo mundo tem alguma passagem interessante pra falar a respeito do morto. A turma retorna novamente ao velório, dá mais um tempo e arregimenta novos soldados. Já no bote, alguém saca de um cavaco, um violão, quem não tem pandeiro bate na palma da mão. Celebra-se a morte como conclusão natural da vida; assim como a formatura é a celebração dos anos de estudo. O pessoal chega à conclusão de que, entre altos e baixos, o defunto viveu uma vida plena. Realizou muita coisa. “Vá em paz, compadre, que agora é com a gente!” Por mais pobre que seja uma travessia, ninguém passa por este planeta em vão. Se Heidegger tivesse andado por uma quebrada, teria chegado antes à conclusão de que somos para a morte e que é a morte de alguém que dá a forma definitiva para sua vida. Até a morte, o dasein é sempre uma abertura. Com o último suspiro, a escultura está terminada. Mas deixemos o Heidegger de lado porque ele entendia pouco de samba. Lembro agora é das minhas primas pretinhas. As duas deixaram de trabalhar, namorar e estudar para cuidar da avó que precisava fazer hemodiálise duas vezes por semana. Eram meninas bem jovens, mas abriram mão por amor. Durante anos, zelaram a velhinha. No dia em que a avó morreu, tomaram todas as cervejas do mundo e terminaram o dia jogando bola na rua, debaixo de chuva. Era a celebração da avó, a maior demonstração de amor: “A arte de sorrir cada vez que o mundo diz não”. Claro, há sempre juízes em qualquer parte do mundo; mas, como diz meu amigo Robson: “É pau no cu dos paus no cu!”
E eu, quando a doer vier, quero ter a grandeza dessas duas primas. Beijo procês!
E eu, quando a doer vier, quero ter a grandeza dessas duas primas. Beijo procês!