quarta-feira, 17 de abril de 2019

DESTINO

Onde quer que eu esteja, cheguei.

CONSELHO

Quem carrega o peso mais pesado
Deve tomar por guia
Os mestres da leveza:
as crianças, o samba, bichos, borboletas e bolhas de sabão.
Porque a depressão é feito prédio que desaba:
O mundo irrespirável;
Mas, com o tempo,
Depois da chuva fina e do sol-abraço,
Em meio ao entulho,
Brotam pequenas flores vadias.
É vida, uai, que volta voraz no verão.
E lembre-se, meu amigo:
Nunca, sob qualquer hipótese, se volte contra a fissura.
O que se vê inteiro, não apreende.
Como disse o cantor canadense:
Há rachaduras em tudo, é assim que a luz entra.

domingo, 14 de abril de 2019

AFORISMO MATINAL

Não preciso de Igreja. Se não encontro Deus no meu próprio coração, Ele não existe. Se encontro, Ele está em toda a criação.

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Não foi o red bull,
Mas a Depressão quem me deu asas.
Como não conseguia caminhar,
Tive de aprender a voar.
Agora, já não pouso
E, sendo só, não me sinto solitário.

A CRIATIVIDADE

A criatividade humana é algo que encanta. Sempre gostei daquelas tiradas desconcertantes, do pensamento rápido. O humor está no tempo. A palavra inesperada pescada ao inconsciente no exato momento. Neste sentido, parece o drible no futebol. Lembro George Best, o jogador-gênio-autodestrutivo que era tido como o quinto beatle, e que, ao ser perguntado de modo moralista sobre sua vida desregrada e alcoólica, respondeu sem qualquer respeito à moral burguesa:
- Eu gastei muito dinheiro com bebida, carrões e mulheres. O resto eu desperdicei.
E, só pra continuar com a Inglaterra e os Beatles, lembro a tirada de John em face aos jornalistas americanos:
REPÓRTER: Como vocês encontraram os Estados Unidos?
JOHN: Viramos à esquerda na Groelândia.
Então, outro dia, eu estava na secretaria da escola e lá veio um garotinho da 2ª série. Todo malandro, o cabelo arrepiado, lambuzado de gel, mas fazendo cara enfastiada, eu já conhecia a peça:
- Tio, liga pra minha mãe que eu não tô aguentando de dor de cabeça😖.
Olhei bem para a cara do malandro, pensei um pouco, mas vai saber, né? Vai que o moleque passa mal mesmo na sala. Liguei sim; só que ninguém atendeu.
Aí deu o horário do recreio dele. Passei pelo pátio e lá estava o enfermo brincando de pega-pega, esconde-esconde, correndo para esquerda e direita sem dar seta. Fiquei ali, atrás da pilastra, só olhando.
Assim que o intervalo terminou, lá estava ele de novo na secretaria.
- Tio, você conseguiu ligar pra minha mãe?
- Liguei não. Você não estava doente? Como foi então que eu te vi lá no pátio correndo que nem louco para todo lado? Esbarrando nos outros?
- Sabe o que é, tio? É que quando eu brinco... passa🤣.
Eu ri. A secretaria riu. A senhora que estava no guichê riu.
- Ponto para você – brinquei -. Vou ligar só por causa dessa resposta.
E liguei, mas a mãe do malandro se recusou a vir buscá-lo. Ela conhecia a cria🧐.

O CORPO, ESSE CANALHA!

Era um desses cidadãos de bem: ordeiro, cristão, liberal na economia e conservador nos costumes; pagador dos seus impostos. De vez em quando, sonegava um ou outro e não depositava o FGTS da empregada; mas, quem nunca não é mesmo? Tinha por volta de cinquenta anos e não frequentava médicos. Gabava-se de sua saúde de ferro e cria em Deus, o Deus Único de Jerusalém. O que de mal lhe poderia então acontecer?
Qual não foi então sua surpresa quando, determinada manhã, antes de ir para sua concessionária de automóveis, sentiu dificuldades ao urinar. A bexiga cheia tinha de se aliviar demoradamente, em gotículas. Seria a próstata?
Terminadas as orações matinais, chegou à conclusão de que o Senhor é o rei dos reis; mas que, em sua infinita sabedoria, deixou na Terra os médicos para casos assim.
No caminho para o trabalho, resolveu passar na clínica, ali na Avenida Pacaembu. Tudo seguia como; até que aconteceu a epifania, igualmente a uma narrativa clariceana. A rotina continuava numa realidade paralela, mas e o médico? O médico era lindo, ora pois! Um moreno alto, olhos verdes, bonito e sensual. Carinhoso em seus modos. E o cidadão de tremeu.
Requisitou exames, o médico, que foram de pronto realizados. Convênio bom! Enquanto esperava os resultados, o cidadão de bem ardia, o desejo entrava pela porta dos fundos e quem tem cu tem medo. Já deitado em quarto da clínica, de roupão, esperava ansioso a divindade pagã. Demorou, mas ele veio - o médico-deus-pagão. O paciente reparou que tinha mãos grandes, dedos longos, grossos, másculos; mas, ainda assim, delicados. E o cidadão de bem correu a língua pelos lábios imaginando o exame que, em seus devaneios, insinuava-se logo ali, ao alcance do ânus.
Qual não foi a decepção quando:
- Tudo bem com sua próstata, tá ok?
- Mas e essa dificuldade em urinar, doutor? – suplicou; os olhinhos marejados.
- Nada demais, o ultrassom constatou algumas pedrinhas e cristais nos rins. Nada que muita água e esse litocit que estou lhe receitando não resolva.
O cidadão de bem desmoronou. Seu rosto quase despencou da cara. Decepção era uma palavra pequena para tamanho sentimento.
Olhou mais uma vez as mãos, os dedos, enquanto o médico escrevia receita... E suspirou...
Já na rua, a realidade se reconstituiu. O empresário entrou em seu carro importado e deu a partida - não sem antes esculachar o flanelinha. - O vidro traseiro ostentava um adesivo verde e amarelo com o slogam: Brasil acima de tudo, Deus acima de todos.
Tá ok?

terça-feira, 2 de abril de 2019

FILOSOFICES E CRIAÇÃO DE CONCEITOS

Observando a mim mesmo e àqueles que me cercam, percebo ao menos dois tipos distintos de inteligência. Vou chamá-las de inteligência instrumental e ontointeligência. A inteligência instrumental é técnica, usada no dia-a-dia, quando calculamos o preço do pão. É a inteligência da serpente, dos engenheiros, dos programadores de computador, dos advogados, dos vestibulandos e concurseiros. É prática e produtiva, ela, a inteligência instrumental. Já a ontointeligência é a inteligência dos pássaros, debruça-se sobre as questões do ser, questiona o paradigma estabelecido, pensa a experiência da vida humana e seu mistério. É um meditar improdutivo e nobre. Inteligência do espanto; a qual lança, a cada geração, o mesmo questionamento sem nunca repetir a fórmula ao indagar. Os dois conceitos não existem isolados, em estado de pureza. Tudo o que é humano é lambuzado. Assim, o grande artista é aquele no qual prevalece a ontointeligência, mas que também tem certo domínio da inteligência instrumental, uma vez que se comunica por meio de uma linguagem pré-estabelecida, na maioria das vezes, virando-a ao avesso. Por outro lado, o grande eletricista, no qual prevalece a inteligência instrumental, tem vislumbres de ontointeligência, quando, por exemplo, encontra uma solução criativa para os problemas que surgem durante a instalação elétrica de um prédio. As duas formas de inteligência não se opõem. Antes convivem em harmonia e se complementam. A humanidade precisa tanto de poetas quanto de pedreiros. E Jesus de Nazaré foi tanto Deus quanto carpinteiro.