terça-feira, 16 de maio de 2017

O bico do pássaro e a fruta que apodrece antes de amadurecer

VOU FALAR DE PEDOFILIA. Gosto de me meter em assuntos espinhosos, de desafinar o coro dos contentes. Os extremos são sempre catastróficos. No ano de 1932, a psicanálise ainda engatinhava e a psicanálise infantil sequer saíra do berço: poucos eram os psicanalistas que aceitavam trabalhar com crianças; e, estes poucos que aceitavam, procuravam aplicar as mesmas técnicas que eram aplicadas aos indivíduos maduros. Assim, quando, na clínica, crianças relatavam casos de abusos, estes tendiam a ser encarados como frutos da fantasia ligados, na maioria das vezes, ao complexo de édipo. É neste contexto que o psicanalista húngaro Sándor Ferenczi publica o artigo Confusão de línguas entre adultos e crianças - a linguagem da ternura e da paixão. Para Ferenczi, uma vez que a criança se aproximava com a linguagem da ternura e o adulto respondia com a linguagem da paixão, em alguns casos, os abusos eram reais e causavam profundo trauma. Tais crianças eram como frutos que, ao serem violentados pelo bico faminto dos pássaros, apodreciam antes de amadurecer. Grosso modo, a partir daí, ocorreria a identificação com o agressor e a repetição futura do gesto. É importante ressaltar que as crianças têm sexualidade, mas enquanto a expressam com a linguagem da ternura, o adulto agressor interpreta os signos emitidos na linguagem da paixão. Daí a babel de línguas e a catástrofe.
Mais de oitenta anos se passaram desde o artigo de Ferenczi e hoje o que percebemos é a imersão no extremo oposto. A simples menção a qualquer gesto afetivo envolvendo adultos e crianças é imediatamente tomado pelas justiceiras e justiceiros de plantão como certeza do ato praticado. Há pouco mais de vinte anos, a vida dos proprietários da Escola Base, na Zona Sul de São Paulo, foi destruída depois de ser veiculado na grande mídia que, na escola, ocorriam casos de pedofilia. Em 2014, o dono da escola e marido da diretora Icushiro Shimada morreu. Vamos ser sinceros? Morreu de desgosto. Um adulto inocente ser acusado e, instantaneamente, condenado por algo assim é tão horrível e traumático quanto o abuso de uma criança. Têm dúvidas?  Assistam ao filme A caça - direção Thomas Vinterberg, 2013. Em 2014, na Inglaterra, Bijan Ebrahimi, de 44 anos, um deficiente físico afastado do trabalho, estava fotografando os jovens do seu bairro, em Bristol, os quais destruíam constantemente seu jardim. A ideia era mostrar as fotografias à polícia e registrar a queixa. No entanto, alguém viu Ebrahimi com a câmera e contou à polícia que ele estava tirando fotos inapropriadas de crianças. Resultado: Ebrahimi foi linchado e queimado vivo pelos cidadãos e cidadãs de bem.
            Caso perguntássemos a uma dona de casa alemã, partidária do nazismo na segunda metade da década de 30, se ela defendia uma causa nobre, certamente ela diria que sim. Minha intenção aqui não é defender criminosos, mas afirmar que não existem mais causas nobres ao serem elas defendidas de modo bárbaro. A ânsia de julgar é nosso câncer. Basta que alguém seja acusado e, nestes tempos de redes sociais, é imediatamente julgado, considerado culpado e punido. Às vezes se é condenado apenas por ser homem. Quando uma menina foi estuprada num baile funk por dezessete marginais, houve quem escrevesse que todo homem era um estuprador em potencial por conta de seus instintos. Em cada ser humano um policial, um promotor, um juiz e um carcereiro. Lembra-me Na Colônia penal, de Kafka, conto no qual a defesa é inútil, uma vez que a culpa é sempre pressuposta. Será que nossa vontade de punir tais crimes não esconde uma violência que habita nosso próprio coração nesta sociedade na qual os próprios pais erotizam as filhas (MC Melody etc e tals)?
No meu caso, prefiro deixar a justiça ao aparato judiciário. Não me sinto à altura de atirar a primeira pedra em quem quer que seja.
Foto: Fernando Rocha



quarta-feira, 10 de maio de 2017

TAGARELICES

Ninguém escapa do berço onde nasce, porque o berço é a pessoa. O ninho faz o pássaro e, seja por negação ou por afirmação, o lugar onde nascemos é o que vai definir que tipo de homem ou mulher nos tornaremos. Nietzsche passou a vida negando o cristianismo por ser filho de um pastor. Definiu-se pela recusa, pelo negativo. Não entendo como as pessoas podem gostar de Dostoiévski ou Tarkovsky e continuarem a ser materialistas, cartógrafos: pura afetação, busca de status intelectual. Esses autores são profundamente moralistas, não no sentido pejorativo que a palavra tomou, mas no sentido de que dizem verdades que não querem ser ouvidas. Verdades que se tornaram relativas para o homem contemporâneo e, no entanto, são mais estudados pelos aspectos formais de sua obra, como se se pudesse separar forma de conteúdo. O centro de suas obras é o sacrifício de um ser humano pelo outro, nada mais fora de moda: você já imaginou Brad Pitt se sacrificando por Angelina Jolie? Trata-se, para tais autores, do amor como encontramos em Coríntios e isso é incompatível com o modo como o amor é tratado no mundo contemporâneo. Pensemos em Sônia e na Lisa de Dostoiévski, na mulher do Stalker, nas mulheres bergmanianas. Hoje, amar é uma conveniência, lacinhos de fita vermelha e não correntes inquebrantáveis. Vem depois da carreira, da malhação, do jogo, da novela. De certo modo, esses autores são feministas, no sentido mais profundo; no sentido em que o cuidado com o outro é mais importante que a ânsia de poder. A força nascendo da fragilidade. Acho que o feminismo se perde um pouco na luta apenas por representatividade política - que é importantíssima - e não pela revolução em si que seria o trato entre seres humanos de um modo mais feminino. Já vi feministas reivindicando a desmistificação da função materna, como se isso fosse apenas uma construção social. No final de A paixão de Anna, do Bergman, depois de uma tremenda briga, depois de ofensas físicas e psicológicas e diante do silêncio da protagonista, o agressor, o marido, grita: Fale alguma coisa! E Anna responde: vim para lhe pedir perdão! E essa sentença simples expõe ao homem toda sua estupidez, desmonta-o. E que é Heathcliff se não um coitado? Tanto Dostoiévski, quanto Tarkóvsky situam o centro da vida em Deus, mas também podemos prescindir de Deus, se assim pretendermos. Para Schopenhauer, Nietzsche e Cioran, podemos prescindir de Deus e, ainda assim, nos interessar pela santidade. O termo übermensch foi mencionado pela primeira vez ligado à santidade. E, de fato, pouco importa se Deus existe ou não, podemos tomá-lo como potência do falso, como motor, força afirmativa da vida, do cuidado e do amor ao outro. É isso Deus na obra de Emerson. Em A delicadeza dos hipopótamos, o narrador afirma: o amor é Deus e não o contrário. Creio nisso. O que distingue o ser humano dos demais animais não é a razão, como a tradição ocidental consagrou, mas a capacidade de sacrifício, de criar laços, de se tornar responsável como disse a raposa ao pequeno príncipe. Volto a repetir, o ser humano é o único animal capaz de sentir prazer em fazer sofrer seu semelhante, mas também é o único animal capaz de dar a vida para salvar a vida de alguém completamente desconhecido.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Um herói banguela

“Mas, todas as manhãs, a mesma ferida”. Escreveu Foucault em O corpo utópico. Um texto denso e visceral, no qual o autor que, junto a Nietzsche, mais celebrou o corpo, trata-o - ele, corpo - como “uma jaula desagradável, na qual terei que me mostrar e passear”.  Acho que conheço bem a sensação: manhãs em que tudo nos falta, o tempo como abismo, eternidade, futuro infindável de desespero. O cérebro que se nega a produzir endorfina... Tudo falta. Se faz sol, o sol dói. Se chove, a chuva machuca... E o tempo não é horizonte de esperança, mas juiz que sentencia:
- Culpado por toda a eternidade!
Não sei quanto a Foucault, mas eu tenho minha receita: uma praça... Juntar as forças, caminhar, olhar os outros, os pássaros, as árvores, as flores, os adolescentes namorando, os velhos jogando dominó, os animais. Vira e mexe, chego em casa com um gato ou cachorro de rua.
Dizem-nos, quando estamos sofrendo, para visitar a ala de tratamento de câncer em um hospital qualquer. Para mim não funcionaria. Faria mal aos doentes e a mim mesmo. A esperança é irmã gêmea das flores; é no jardim que se deve colhê-las. De modo que eu caminhava, na praça. Fazia sol depois de dias de chuva. Uns garotos jogavam bola na quadra. Meninas andavam de patins e meninos, de skate. Num cantinho isolado, entretanto, a família brincava. Eram quatro pessoas. Duas meninas de uns sete, oito anos; um menino de uns dois e o pai: magro, alto, com o cabelo cortado do mesmo modo que o filho, um menino grande. Eram extremamente pobres. A pobreza tem rosto e uniforme: manchas na pele, micose, vestidinhos esburacados, camisetas e bermudas manchadas por gotas de água sanitária, chinelos gastos de borracha.
Ainda que não fosse natal, o pai tinha feito um trenó. Amarrara uma corda fina nas duas extremidades de um pedaço retangular de madeira, ajeitara os filhos ali em cima, colocara a corda ao redor da cintura e dava piques de um lado para o outro. As crianças gargalhavam. Às vezes, uma delas, não necessariamente a menor, caía na grama. As outras crianças gritavam. O pai parava. A meninada se ajeitava outra vez sobre a madeira e a brincadeira continuava. Sentei num balanço ao sol para observá-los. Não prestavam atenção em mim. Estavam se divertindo demais para prestar atenção ao entorno.
Brincaram por mais de uma hora. O pai estava esgotado, molhado de suor. Antes de partirem, o pai colocou o menininho sobre os ombros, pegou a mão de cada uma das meninas, a maior puxava o trenó com cuidado, feito bicho de estimação. Ao passarem por mim, os quatro sorriram. Só o menino tinha todos os dentes. Ao pai, tanto quanto às meninas, faltavam os dentes da frente. Ninguém se importava. Estavam felizes. Eu sorri de volta, esse meu riso de quem deseja ser aceito, e a manhã se tornou mais leve e o futuro já não era tão abismal. 
Antes de atravessarem a rua, o pai se virou e acenou pra mim. Era apenas um homem com a sensação do dever cumprido. Um herói banguela.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Compreensão

Para Scooby, que viu a Deus por meio do sofrimento.
Na noite em que morreu meu tio Kholia, sonhei com um anjo. Ele era azul, azul claro como os olhos de meu pai.
- Andrei, você é feliz? – Perguntou.
Eu tinha sete anos.
- Não sei. Que é felicidade?
- É ser compreendido.
- Então não sou feliz.
- Aprenda a se alimentar do que encontrar pelo caminho, como um cão. O pão da compreensão é raro.
***
Meu tio havia trabalhado por mais de trinta e cinco anos na mesma repartição. Tinha um cachorro. Todos os dias, quando voltava do trabalho, o cão trazia os chinelos dele entre os dentes e largava ao lado do sofá, abanando o rabo. Era um cachorro pequeno, gordo. Ele e meu tio dividiam a mesma sopa, o mesmo pão. A tia também era gorda e não era lá muito paciente. Quando bebia, e gostava de beber, puxava o tio pelos cabelos, arrastava-o pela casa. Depois que ele morreu, ela ficou com medo e, todas as noites, eu tinha de ir dormir com ela. Tinha tratado o marido muito mal por anos e anos a fio. Talvez agora, depois de morto, ele voltasse para se vingar, já que em vida jamais havia reagido. Tudo o que fazia era caminhar até a cozinha, nos fundos da casa, o cão choramingando atrás, colocava água no samovar e repartiam o chá, ele, meu tio Kholia, e Malchik, o cão.
Uma noite, semanas depois do enterro, antes de apagarmos as velas, Malchik começou a brincar, rolando no chão, do mesmo modo como fazia quando tio Kholia era vivo. A tia arregalou os olhos. O cachorro correu até a cozinha, apanhou as sandálias de couro do tio que ainda estavam junto à lenha, embaixo do fogão e trouxe para o lado da poltrona onde o velho Kholia costumava se sentar. A tia bebeu e chorou o resto da noite, até adormecer. Dia seguinte, Malchik estava morto. Era uma manhã cinzenta. Durante a madrugada caíra a primeira neve do ano. Pensei ter visto pegadas de homem ou de cachorro na neve, quando estava indo para casa, mas eram só os rastros de um porco que escapara do chiqueiro em algum momento da noite.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

VISÕES DE MARCIONÍLIO

Nesta mesa me sento diante de Marcionílio
Entre nós, bigode e silêncio. Cavalo e freio
Nesta mesa, rústica, me sento diante de Marcionílio
E agora sei que percorremos os mesmos caminhos
Não estradas de Minas, ou Goiás
Não estradas que ligam o Tanque à Ponte,
Mas senderos que levam da infância à velhice e à morte
Em vão me justifico diante de tua rigidez de homem do sertão
Agora compreendo, vô, que a vida é só erro e perdão
Do meio do caminho estudo tua verticalidade 
E compreendo com o fundo do meu mistério a geometria do mistério teu
Nesta mesa me sento diante de ti, Marcionílio
Entre nós o tempo se dissolve
Contemplo teu silêncio entre couros:
A bota e o chapéu 
Sela, arreios e gibão
Admiro a destreza
o domínio sobre a natureza
a cavalgada segura
Quando estavas, teus filhos não ousavam se desentender
E Joana resmungava a mesma vida dura sobre as gamelas
É preciso envelhecer para entender o avô:
Silêncio de pedra
As mãos de chumbo sem carinho
Punhal
Bíblia aberta
A cabeça grande sempre dolorida
Nesta mesa nos sentamos neto e avô
Diante do mistério da travessia
O diabo em frente ao candeeiro
E jamais palavra solta em vão
Nesta mesa me sento, Marcionílio
Não é fácil sentir-se nada sendo neto de um rei
Tu: Minas Gerais da minha infância
Tu: olhar devoto da mãe
Tu: um tanto Riobaldo, outro tanto Diadorim
Tu: causos de cangaço e coroneis
Tu em mim, no Léo, no Marcos, nos meus filhos, tios e primos
Tu para além de teu corpo morto, de tua lápide quebrada
Nenhum homem desaparece com a morte
Diante desta mesa nos sentamos, Marcionílio
E repartimos leite e biscoito, café e requeijão
Ainda não agradeci a nesga de rapadura
Teu jeito de tratar o amor
Nesta mesa me sento diante de ti, meu avô, para dizer:
Muito obrigado.

terça-feira, 18 de abril de 2017

terça-feira, 11 de abril de 2017

A emergência da alma a partir da dor em Nietzsche e Kafka

      Introdução
            As questões o que é pensar? O que difere o ser humano dos demais seres vivos? O que vem a ser a alma? Como chegar à verdade? Sempre foram tema de investigação dos mais diversos campos do conhecimento humano, da filosofia às ciências, da arte à religião. Para Platão, fundador de uma imagem de mundo que atravessará mais de dois mil anos, a alma pertenceria ao mundo das ideias, ao âmbito da verdade, seria não só diferente, mas oposta ao corpo. A visão escolástica e renascentista permanecerá ainda atrelada a tal proposição. Para Descartes, por exemplo, jamais chegamos à verdade por meio dos sentidos, os quais estão sempre prontos a nos enganar. Com Espinosa, o transcendental perde força. O pensar seria fruto da interação entre os corpos. É em Nietzsche, entretanto, que o ocorre a perversão do platonismo. A alma não seria o solo eterno de onde brota o corpo, sujeito às intempéries do devir. Pelo contrário, as dores inscritas na carne dariam ao ser humano uma consciência, uma memória, a capacidade de fazer promessas; em suma, uma alma.
            Neste trabalho, investigaremos, na primeira parte, como a obra de Nietzsche se opõe de modo radical à concepção platônica, pilar da metafísica ocidental por milênios. Não chegaremos à crítica mais radical de Nietzsche, a crítica dirigida ao próprio conceito de verdade, nem comentaremos o perspectivismo como método. Partiremos da afirmação presente em Assim falou Zaratustra, na qual o mestre persa afirma que a alma seria qualquer coisa no corpo e, a partir daí, estabeleceremos uma conexão com a obra de Franz Kafka por meio do conto Na colônia penal. Para ambos, o transcendental, quando transcendental há, é inscrito na carne, em tudo aquilo que provoca dor.

1.      Nietzsche, Platão: alma-corpo, alma ou corpo

“ – Críton, nós somos devedores de um galo a Asclépio. Pois bem, paga a minha dívida, não o esqueças.” (PLATÃO, 2002, p.107)
            No diálogo Fédon, de Platão, consta que as palavras acima foram as últimas proferidas por Sócrates antes de morrer. O sentido da frase é claro e concorda com todo o diálogo: Sócrates sente que sua alma, finalmente, está curada do mal que representa a união com o corpo. A gratidão de Sócrates é, pois, destinada ao deus que restabeleceu sua saúde: Asclépio.
Para Sócrates, a morte iminente não foi vista como algo a se temer; pelo contrário, segundo o filósofo, não existiria coisa mais absurda que o medo da morte por parte de um pensador, já que a todo instante o corpo leva o filósofo a enganar-se, conduzindo-o contra a maré da verdade. Segundo Sócrates, no diálogo, todos os nossos sentidos não são partes constitutivas da alma, mas do corpo e, como tal, também nos ludibriam, não nos deixam encontrar a verdade. Apenas o desprendimento do corpo poderia levar o filósofo ao verdadeiro conhecimento, uma vez que assim ele, filósofo, não mais estaria atrelado às paixões terrenas, não haveria mais fome, cansaço, sede ou desejo sexual. De acordo com essa visão, que começa com Platão, mas que perpassa todo o cristianismo e mesmo a visão positivista do século XVIII, não há maior inimigo do filósofo que o corpo e seus sentidos. Nas palavras de Sócrates:

- E, agora, no que diz respeito propriamente à aquisição do conhecimento, o corpo, dize-me, é ou não um entrave, se nas nossas indagações pedirmos o seu concurso? Penso, por exemplo, nisto: os olhos e os ouvidos fornecem alguma verdade ao homem ou, então, como mesmo os poetas nos repetem continuamente, nós não ouvimos nada, não vemos nada exatamente? Portanto, se entre os sentidos do corpo, os olhos e os ouvidos são inexatos e incertos, não se poderia esperar coisa melhor dos outros, todos inferiores, penso àqueles.” (PLATÃO, 2002, p. 28)


            Sob tal perspectiva, o filósofo só pode, pois, alegrar-se com a vinda da morte. Uma vida dedicada ao exercício da contemplação filosófica verá a morte como aliada, uma vez que ela significaria a libertação da alma do cárcere do corpo. Alma e corpo: inimigos mortais! Repete-se assim a afirmação: somos devedores de um galo a Asclépio!
            Contra a sentença derradeira de Sócrates, poderíamos opor uma outra, proferida por Zaratustra no capítulo Dos desprezadores do corpo, de Assim falou Zaratustra. Da mesma maneira que Platão coloca a sentença contra o corpo na boca de sua principal personagem conceitual: Sócrates; também Nietzsche coloca palavras que poderiam resumir sua filosofia, no que se refere à questão do corpo, na boca de sua principal personagem conceitual: Zaratustra. Diz o sábio persa:
            “Eu sou todo corpo e nada além disso; e alma é somente uma palavra para alguma coisa no corpo.” (NIETZSCHE, 2003, p.60)
            Para Nietzsche, não há divisão entre corpo e alma. Pensamos com o corpo, meio pelo qual estamos abertos ao mundo. A alma é a designação de alguma coisa no corpo. De maneira poética, Fernando Pessoa, por meio do heterônimo Alberto Caeiro, poderia assim descrever tal fórmula nietzschiana:

Sou um guardador de rebanhos,
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.[i]

                O que Nietzsche nos propõe não é simplesmente pensar com o corpo. A ideia é mais radical. Para o filósofo alemão, é impossível pensar fora do corpo, é o corpo quem pensa. A alma é o nome de algo no corpo. Mas, afinal, o que é um corpo?
Resposta: um corpo é uma relação de forças. Vejamos de que se trata quando dizemos relação de forças.

Segundo Deleuze, no livro Nietzsche e a filosofia, em se tratando da questão do corpo, Espinosa foi o primeiro a colocar a questão essencial, nos seguintes termos: “Ninguém, na verdade, até ao presente, determinou o que pode um corpo, isto é, a experiência não ensinou a ninguém, até ao presente, o que considerado apenas como corporal pelas leis da natureza, o corpo pode fazer e o que não pode fazer” (Ética, livro III, proposição II, escólio). Pelas leis da natureza, significa para Deleuze, a recusa de pensar o corpo a partir de qualquer categoria ou noção transcendental e a necessidade de pensá-lo no jogo de suas relações, de seus encontros. Não tomar o corpo como uma substância isolada, atemporal, mas fazê-lo percorrer e ser percorrido pelas forças que entram em contato com ele compondo-o e decompondo-o. Se Espinosa foi o primeiro a colocar a questão, Nietzsche foi quem a incendiou, quem a encheu de paixão. Em sua leitura de Nietzsche, Deleuze nos conclama a tomar a consciência pelo que ela é: um sintoma. Sintoma de uma transformação mais profunda e da atividade de forças que não são de modo algum de ordem espiritual. Deleuze coloca a pergunta: que é a consciência? Assim como Freud, Nietzsche pensava a consciência como a região do eu afetada pelo mundo exterior. No entanto, a consciência é menos definida em relação à exterioridade do que em relação à superioridade, em termos de valores. Tal diferença é essencial numa concepção geral do consciente e do inconsciente. Segundo Deleuze:

Em Nietzsche, a consciência é sempre consciência de um inferior em relação ao superior ao qual ele se subordina ou incorpora. A consciência nunca é consciência de si, mas consciência de um eu em relação ao si que não é consciente. Não é consciência do senhor, mas consciência do escravo em relação a um senhor que não tem de ser consciente. Habitualmente a consciência só aparece quando um todo quer subordinar-se a um todo superior... A consciência nasce em relação a um ser do qual nós podemos ser a função. Este é o servilismo da consciência, ela atesta apenas a formação de um corpo superior. (DELEUZE, 1976, p.21)


                À pergunta: o que é um corpo? Não podemos responder dizendo que o corpo é um campo de forças, um meio provedor disputado por uma multiplicidade de forças. O fato é que não há meio, nem campo de forças. Não existe quantidade de realidade. Toda realidade já é quantidade de força. O Cosmos nada mais é do que uma relação de tensão entre as forças. Toda força está em relação com outras, quer para obedecer, quer para comandar. O que define um corpo é a relação entre forças dominantes e dominadas. Quaisquer duas forças desiguais que entrem em relação já constituem um corpo. O corpo é um fenômeno composto por uma multiplicidade de forças irredutíveis, sua unidade é a de um fenômeno múltiplo, o que Deleuze chama de unidade de dominação. É, pois, por isto que não se pode pensar fora do corpo, o pensamento nasce a partir das relações entre as forças. Não há um além das forças, não existe uma instância que fique imóvel, no além, observando as relações, doando o pensamento àquele que quer pensar e que tem boas intenções e um bom método. Não há, em suma, uma bela alma de antemão! O pensamento é fruto do encontro de uma força com outra, de um corpo com outro, o que em Proust e os signos Deleuze chama de signo e, na sequência de sua obra, chamará, emulando Heidegger, simplesmente de acontecimento.
            Voltemos ao Fédon, de Platão. Em meio às inúmeras críticas feitas ao corpo, a maior delas é que ele, o corpo, nos afasta da verdade, é um empecilho para que o filósofo alcance a verdade. Vejamos um exemplo:

Mas o pior de tudo é que quando o corpo nos permite, afinal, um pouco de tranquilidade, para nos voltarmos para um objeto qualquer de reflexão, as nossas indagações são novamente postas em desordem por este intruso, que nos atordoa, nos perturba e nos desconcerta, a ponto de nos deixar incapazes de distinguir a verdade. Ao contrário, já tivemos realmente a prova de que, se quisermos jamais saber de alguma coisa em sua pureza, teremos que nos separar do corpo e olhar com a alma em si mesma as coisas em si mesmas. (PLATÃO, 2002, p. 30)

                Para Platão, o corpo seria um estorvo, o inimigo a ser combatido: um intruso. Seria necessário pensa exclusivamente com a alma. O pensar seria visto como reminiscência, fruto das divagações da alma. Em primeiro lugar, há a alma, na qual, meio que dependurada, encontra-se um corpo. Em sua perversão do platonismo, Nietzsche inverte a equação: o que é primeiro não é a alma, mas o corpo. A alma seria fruto de tudo o que é marcado a ferro e fogo no corpo. Não há escola mnemônica mais eficiente que a da ferradura. De certo modo, tais afirmações que se podem depreender de Nietzsche, principalmente na segunda dissertação de Genealogia da moral, vão ao encontro daquilo que em Na colônia penal, Kafka recriou com força ficcional. O primeiro fala por conceitos; o segundo, por afectos e perceptos. Vejamos.

1.      Entre a genealogia e a colônia

Na segunda dissertação do livro Genealogia da moral, Friedrich Nietzsche trata de questões como o castigo na constituição da memória, a culpa, a formação da má consciência. Para Nietzsche, a constituição da memória está intimamente ligada ao castigo e à dor. Não esquecemos aquilo que dói. Foi preciso muita dor para criar no animal humano uma memória, ou melhor, uma alma. Algo escolhe em nós o tempo todo. Assim como não escolhemos nascer, também nada escolhemos de fato nas situações que a vida nos apresenta, mas algo escolhe em nós, no âmbito mais profundo, muitas vezes sob a forma de intuição. Heidegger diria que não escolhemos, mas o ser se desvela em nós. Por outro lado, existem forças externas que condicionam aquilo que escolhe em nós: a comunidade em que estamos inseridos, a língua que falamos, nossas tradições étnicas e culturais. Não nascemos como uma folha em branco, mas também não somos inteiramente determinados por aquilo que nos cerca. A alma não está pronta de antemão quando nascemos. Pelo contrário, ela se constitui à medida que nos projetamos no futuro e que os demais corpos nos influenciam fazendo com que a vida, e vida é criatividade, escolha em nós. Na famosa e até batida sentença de Sartre, a existência precede a essência. Seria o mesmo que dizer que o corpo precede à alma, ou como mais acertadamente disse Zaratustra: a alma é qualquer coisa forjada no corpo. Para Nietzsche é a dor quem inscreve no corpo humano a alma. A consciência humana está na maioria das vezes entregue às forças do esquecimento, só algo cravado na carne pode se contrapor a tais forças. Tudo aquilo que fica na memória, mesmo na memória transgeracional por meio das tradições, foi forjado a ferro e fogo. Nietzsche se pergunta: “Como fazer no bicho-homem uma memória? Como gravar algo indelével nessa inteligência voltada para o instante, meio obtusa, meio leviana, nessa encarnação do esquecimento? (NIETZSCHE, 2010, p. 46)”. A resposta está ligada ao horror e à tortura. Pode ser que nada exista no mundo que seja tão violento quanto a mnemotécnica humana na pré-história. “Grava-se algo a fogo, para que fique na memória: apenas o que não cessa de causar dor fica na memória (NIETZSCHE, 2010, p. 46)”.
Mesmo no âmbito coletivo, quando falamos de povos inteiros, também é a dor quem doa as características alegres ou sombrias. De geração a geração, passa-se adiante a gravidade e o pesar que o compromisso, a capacidade de fazer promessas, incute nos membros de uma comunidade. Os castigos empregados pelos credores aos seus devedores forja na alma de um povo sua noção de compromisso, de responsabilidade. Isto não se apaga. Segundo Nietzsche (2010, p. 46):
Jamais deixou de haver sangue, martírio e sacrifício, quando o homem sentiu necessidade de criar em si uma memória; os mais horrendos sacrifícios e penhores (entre eles o sacrifício dos primogênitos), as mais repugnantes mutilações (as castrações, por exemplo), os mais cruéis rituais de todos os cultos religiosos (todas as religiões são, no seu nível mais profundo, sistemas de crueldades) – tudo isso tem origem naquele instinto que divisou na dor o mais poderoso auxiliar da mnemônica.


            Nada do que consideramos moral teria assim origem transcendente. A alma, os valores, aquilo que consideramos bom seria fruto das relações entre falta e castigo, crédito e dívida. Tudo muito terreno, humano, demasiadamente humano. E, mesmo as religiões, sempre conectadas a palavras bonitas como o bem, o altruísmo, a caridade, não seriam mais que um complexo e profundo sistema de crueldade. A ferro e a fogo a cultura amansa o animal no ser humano, a violência e o instinto que poderiam ser voltados para fora voltam-se para dentro e criam no bicho-homem uma alma. De modo ficcional, é isso que Franz Kafka nos conta na narrativa Na colônia penal.
            O conto de Kafka narra a visita de um explorador a uma ilha do extremo oriente, na qual é convidado a assistir a uma execução. Há um clima tenso. O comandante quer convencer o explorador a apoiar as execuções perpetradas por uma estranha máquina, quase um ser vivo, que escreve no corpo, até atravessá-lo de lado a lado, o crime cometido. As autoridades querem desativar a máquina, mas o comandante defende-a não como uma máquina de tortura, mas como um organismo de redenção. Neste estranho sistema judiciário, a culpa é sempre pressuposta. No dia em que o conto se passa, um soldado será executado por agredir seu superior. Todo o tempo, nós, leitores, ficamos tensos, acreditando que o explorador pode ser morto a qualquer momento, uma vez que não concorda com as ideias do comandante, o qual deseja mais que tudo seu apoio, e diz isso abertamente. O final da narrativa é surpreendente, mas o que mais nos interessa aqui não é o enredo e sim o aparelho de execução, o qual é composto por três partes: desenhador, cama e rastelo. Ao se inserir no desenhador as palavras com o mandamento que o acusado infringiu, o rastelo escreve, com a ajuda da cama que também se movimenta, na carne do condenado, o mesmo mandamento. Volta a ressoar em nossos ouvidos a frase de Nietzsche: “Grava-se algo a fogo, para que fique na memória: apenas o que não cessa de causar dor fica na memória”. Segundo o texto:

“O mandamento que o condenado infringiu é escrito no seu corpo com o rastelo. No corpo deste condenado, por exemplo – o oficial apontou para o homem -, será gravado: Honra o teu superior!” (KAFKA, 2011, p. 36)


            O texto indica que todos somos a encarnação, a corporificação, de uma única questão, a qual só formulamos e entendemos bem no momento da morte. Apesar de toda oposição nietzschiana, não estamos muito longe aqui da ideia cristã de que o sofrimento leva à transcendência. Também o cristo recebeu no corpo seus estigmas. O caso é que inverte-se a equação: o Cristo recebe e suporta suas feridas por causa de sua origem divina, ao passo que os condenados do conto adquirem uma alma, superam sua condição de simples animais justamente por causa das feridas e, na sexta hora:                                                                                                           
como o condenado fica tranquilo [...]. O entendimento ilumina até o mais estúpido. Começa em volta dos olhos. A partir daí se espalha. Uma visão que poderia seduzir alguém a se deitar junto embaixo do rastelo. Mais nada acontece, o homem simplesmente começa a decifrar a escrita, faz bico com a boca como se estivesse escutando. O senhor viu como não é fácil decifrar a escrita com os olhos, mas o nosso homem a decifra com seus ferimentos”. (KAFKA, 2011, p. 44)


                Como podemos perceber no fragmento, são os ferimentos mesmo, o próprio corpo esfolado, quem decifra a escrita. É do corpo ferido que a alma emerge. O encontro entre o corpo-máquina e o corpo-condenado faz surgir algo que está para além destes dois corpos.

            À guisa de conclusão

                Vimos que, na história da metafísica ocidental, desde Platão, corpo e alma têm sido colocados em polos diametralmente opostos. Para Platão, seria por meio da alma que chegaríamos à verdade, o corpo seria, de fato, um empecilho para chegarmos à verdade. Nietzsche inverte a equação, aquilo que chamamos de alma, mas que é também memória, consciência, capacidade de fazer promessas, seria fruto de tudo o que nos é talhado a ferro e fogo no corpo. O conto Na colônia penal, de Kafka, constrói de modo ficcional a mesma ideia. Ambos representam uma tremenda viragem e colocam fim à dialética entre corpo e alma. As coisas não são opostas, mas irmanadas, ainda que diferentes. Caberia aqui uma problematização a respeito das ideias tanto de Nietzsche quanto de Kafka. Por que tanta dor é necessária? Por que o encontro, o abraço, o beijo, o sexo e o amor não seriam também pontos de emergência da alma? Um psicólogo farejaria aí uma catástrofe na chegada ao mundo. Quem não encontra carinho, afago, cafuné, é atirado no frio, à solidão, enxerga tudo pelo prisma da opacidade, do chumbo, da angústia, mesmo que depois venha a se declarar trágico e diga sim também à angústia. Talvez a teoria das bolhas, no Esferas I, de Peter Sloterdijk vislumbre uma nova abordagem, a partir da leveza, para a emergência da alma. O mesmo nos vem à mente também a partir da obra do médico e psicanalista inglês Donald Woods Winnicott. Isto tudo, entretanto, seria material para novo trabalho. Por enquanto, creio que podemos declarar com Fernando Brant e Milton Nascimento: “Ponta de areia, ponto final”.

Referências Bibliográficas
DELEUZE, Gilles. Espinosa Filosofia prática. Tradução de Daniel Lins e Fabien Pascal Lins. São Paulo: Escuta Editora, 2002.
_________ Nietzsche e a filosofia, Trad. Ruth Joffily e Edmundo Fernandes Dias. Rio de Janeiro: Editora Rio, 1976.
KAFKA, F. O veredito / Na colônia penal. Trad. Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
NIETZSCHE, Friedrich W. Assim falou Zaratustra. Trad. Mário Silva. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2003.
___________ Genealogia da moral. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia da Letras, 2009.
PLATÃO. Fédon. Trad. Miguel Ruas. São Paulo. Editora Martin Claret, 2002.
SPINOZA, Benedictus de. Ética. Tradução de Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009.