Assim como o Oscar não é o cinema, os prêmios não são a
literatura. Entretanto, tanto em um caso como no outro, há uma estreita relação
entre as partes. Apesar de todas as críticas magistralmente tecidas por Adorno
sobre a relação entre arte e entretenimento, percebemos que a relação dialógica
entre as partes permitiu aos americanos criarem uma das melhores escolas
cinematográficas do mundo que produziu pérolas como Shane, Bring me the head of
Alfredo Garcia ou The tree of life. Então existe a arte como investigação da
condição e do destino humano – feita por artistas - e a arte como negócio –
feita por executivos. Uma coisa não existe sem a outra. Só existe aquilo que se
manifesta, que chega até as pessoas, que é visto, ouvido, lido. Um livro na
gaveta só emociona a gaveta, bem como uma música tocada num quarto emociona
apenas o autor. O mundo amaria A day in the life se jamais tivesse sido
gravada? Então, por mais que não se queira ver a arte como produto, ela é sim
um produto; cultural, vá lá, mas um produto. E como tudo o mais no capitalismo
triunfante está aí para ser vendida; único modo de chegar às pessoas. Claro,
boa parte dos artistas lida mal com esta esfera da produção artística. Há
aqueles que se isolam, aqueles que pousam de rebeldes e passam as tardes no
facebook dizendo que estão consumindo cocaína – como se alguém quisesse saber
disso, como se isso tivesse importância, e como se isso fosse mote de algum
orgulho - aqueles que verdadeiramente cheiram omitem o fato, estão dando seus
tiros bem longe de casa, nas favelas, nos puteiros, nos becos. Eu mesmo não me
dou muito bem com esta parte do negócio, sinto-me meio vendido, meio fake, como
Pollock naqueles filmes que fez. Mas, como disse antes, só existe aquilo que se
manifesta - Brian Epstein foi necessário aos Beatles quase tanto quanto John ou
Paul - e isso é trabalho dos homens de negócio. Neste sentido, acho não só
positivo como necessário todas as feiras de livros, saraus, baladas, festas,
prêmios, o escambau, porque é isso que faz a roda girar, é isso que cria
notícias nos jornais, na tv, nas redes sociais. É isso que faz aquela criação
quase sempre solitária sobre uma comunidade de destino humano chegar aos demais
humanos, ao professor, ao encanador, ao estudante, ao porteiro, ao frentista.
Digo tudo isso porque ontem saiu o resultado do Prêmio Oceanos e vejo que meu
chegado Marcelo Maluf ganhou em uma das categorias, sabia também que Santana
Filho, outro amigo, chegou a finalista, ambos pela editora praticamente
independente de Marcelo Nocelli. Anos atrás Chico Lopes levou um jabuti,
Evandro Affonso Ferreira outro. Há pouco tempo Paula Fábrio ganhou o prêmio São
Paulo pela Patuá e no ano passado Juliano Garcia Pessanha levou o APCA. Fico
feliz por estas pessoas talentosas, de pequenas editoras, estarem ganhando
estes prêmios. Mesmo porque quem hoje em dia está em condições de abrir mão de
R$ 100.000,00? Eu não estou e tenho certeza de que nem mesmo aquele escritor
rebelde de facebook que diz passar as tardes bebendo e cheirando também não
está - já não se fazem aspiradores de pó como antigamente. O negócio é que como
sinceramente pontuou Gore Vidal: “Há uma ponta de inveja em cada sucesso dos
meus amigos.” Mas também há uma ponta de orgulho e de esperança; e, como disse
lá no início, os prêmios não são a literatura ainda que gravitem em torno dela.
Como assinala qualquer jogador de futebol quando é substituído, o negócio é
continuar trabalhando. Um escritor escreve, escreve sempre, ainda que para
apenas um leitor, ainda que apenas em diários, ainda que para si mesmo. A
escrita é o vício mais difícil de largar. De cabeça, só me lembro do Raduan e
do Rulfo, mas o segundo, quando perguntado o motivo do abandono dizia entre
triste e irônico:
- Es que se
murió mi tio Celestino que me contaba las historias.



