quinta-feira, 13 de outubro de 2016

PRÊMIO SÃO PAULO

Assim como o Oscar não é o cinema, os prêmios não são a literatura. Entretanto, tanto em um caso como no outro, há uma estreita relação entre as partes. Apesar de todas as críticas magistralmente tecidas por Adorno sobre a relação entre arte e entretenimento, percebemos que a relação dialógica entre as partes permitiu aos americanos criarem uma das melhores escolas cinematográficas do mundo que produziu pérolas como Shane, Bring me the head of Alfredo Garcia ou The tree of life. Então existe a arte como investigação da condição e do destino humano – feita por artistas - e a arte como negócio – feita por executivos. Uma coisa não existe sem a outra. Só existe aquilo que se manifesta, que chega até as pessoas, que é visto, ouvido, lido. Um livro na gaveta só emociona a gaveta, bem como uma música tocada num quarto emociona apenas o autor. O mundo amaria A day in the life se jamais tivesse sido gravada? Então, por mais que não se queira ver a arte como produto, ela é sim um produto; cultural, vá lá, mas um produto. E como tudo o mais no capitalismo triunfante está aí para ser vendida; único modo de chegar às pessoas. Claro, boa parte dos artistas lida mal com esta esfera da produção artística. Há aqueles que se isolam, aqueles que pousam de rebeldes e passam as tardes no facebook dizendo que estão consumindo cocaína – como se alguém quisesse saber disso, como se isso tivesse importância, e como se isso fosse mote de algum orgulho - aqueles que verdadeiramente cheiram omitem o fato, estão dando seus tiros bem longe de casa, nas favelas, nos puteiros, nos becos. Eu mesmo não me dou muito bem com esta parte do negócio, sinto-me meio vendido, meio fake, como Pollock naqueles filmes que fez. Mas, como disse antes, só existe aquilo que se manifesta - Brian Epstein foi necessário aos Beatles quase tanto quanto John ou Paul - e isso é trabalho dos homens de negócio. Neste sentido, acho não só positivo como necessário todas as feiras de livros, saraus, baladas, festas, prêmios, o escambau, porque é isso que faz a roda girar, é isso que cria notícias nos jornais, na tv, nas redes sociais. É isso que faz aquela criação quase sempre solitária sobre uma comunidade de destino humano chegar aos demais humanos, ao professor, ao encanador, ao estudante, ao porteiro, ao frentista. Digo tudo isso porque ontem saiu o resultado do Prêmio Oceanos e vejo que meu chegado Marcelo Maluf ganhou em uma das categorias, sabia também que Santana Filho, outro amigo, chegou a finalista, ambos pela editora praticamente independente de Marcelo Nocelli. Anos atrás Chico Lopes levou um jabuti, Evandro Affonso Ferreira outro. Há pouco tempo Paula Fábrio ganhou o prêmio São Paulo pela Patuá e no ano passado Juliano Garcia Pessanha levou o APCA. Fico feliz por estas pessoas talentosas, de pequenas editoras, estarem ganhando estes prêmios. Mesmo porque quem hoje em dia está em condições de abrir mão de R$ 100.000,00? Eu não estou e tenho certeza de que nem mesmo aquele escritor rebelde de facebook que diz passar as tardes bebendo e cheirando também não está - já não se fazem aspiradores de pó como antigamente. O negócio é que como sinceramente pontuou Gore Vidal: “Há uma ponta de inveja em cada sucesso dos meus amigos.” Mas também há uma ponta de orgulho e de esperança; e, como disse lá no início, os prêmios não são a literatura ainda que gravitem em torno dela. Como assinala qualquer jogador de futebol quando é substituído, o negócio é continuar trabalhando. Um escritor escreve, escreve sempre, ainda que para apenas um leitor, ainda que apenas em diários, ainda que para si mesmo. A escrita é o vício mais difícil de largar. De cabeça, só me lembro do Raduan e do Rulfo, mas o segundo, quando perguntado o motivo do abandono dizia entre triste e irônico:

            - Es que se murió mi tio Celestino que me contaba las historias.

ODAIR JOSÉ E A FILOSOFIA

Segundo um bom dicionário, a palavra devir vem do latim devenire, que significa chegar. Em filosofia, grosso modo, trata-se de um conceito que aborda as mudanças pelas quais as coisas passam. O conceito foi criado por Heráclito que dizia que nada no mundo era permanente exceto a mudança e a transformação. Fragmento: “Não se pode entrar no mesmo rio duas vezes.” Nas antípodas de Heráclito está Parmênides que postulava que por trás das aparentes transformações, dos “devires” havia a pura perfeição em silêncio, a eternidade, a verdade suprema: o Ser.
Platão, assim como Sócrates, não se perguntavam o que era estar feliz, mas o que é a Felicidade? Haveria algo de transcendente, de imutável por traz da natureza, platonicamente, no mundo das Ideias. Toda natureza que, com o tempo se degrada, é engendrada pela Ideia perfeita e transcendente.
Boa parte da filosofia Ocidental versa sobre este assunto: o mutável e o imutável, Deus e a Natureza, o ôntico e o ontológico.
Como bem disse, nosso bom compositor baiano: “Se você tem uma boa ideia, faça uma canção / já está provado que só é possível filosofar em alemão.” E a contribuição tupiniquim sobre o assunto vem de uma das mais belas músicas do cancioneiro brega, a estupenda: “A noite mais linda do mundo (A Felicidade)”, cantada por Odair José.
Na canção, o moço goiano afirma “Felicidade / Não existe / O que existe na vida são momentos felizes.” Postulando, portanto, junto a filósofos tão diversos e distantes no tempo quanto Heráclito e Deleuze, que a única coisa imutável é a mudança, a única coisa que se repete é a diferença. Não há, pois, uma Felicidade eterna, Transcendental, mas apenas momentos felizes, cambiáveis, blocos de afetos, imersos no devir.
Não bastasse tamanho poder de síntese e lirismo, há ainda, na canção,  dois outros versos que se conectam à esfera ética do eterno retorno (não nos interessa discutir se do mesmo ou do diferente) nietzschiano, o qual aparece pela primeira vez num aforismo de A gaia ciência pela boca de um demônio hipotético, o qual pergunta, algo mais ou menos como: e se tua vida inteira retornasse eterna e eternamente, tu afirmarias cada segundo? O imperativo ético que se despende daí é “viva cada segundo como se fosse vive-lo eternamente.” Odair canta: “Vamos viver nesta noite / A vida inteira num segundo.”

Depois de muito tempo esquecido, Odair José vem sendo redescoberto. Hoje costumam compará-lo ao gênio canadense Neil Young. Na boa, não é para menos.

O CORAÇÃO NÃO TEM RANKING


Susan Sontag certa vez escreveu que, se tivesse de escolher entre Dostoiévski e The Doors, certamente escolheria Dostoiévski, mas, pergunta irônica ainda no mesmo texto:
- Por que é que eu tenho de escolher?
É numa posição semelhante à da ensaísta norte-americana que me coloco hoje.
Venho falar de música, música popular brasileira. Não pretendo escrever um grande tratado; deixo, pois, o samba, o frevo, o reisado e o maracatu de lado. Deixo a música caipira e o congado. Pulo a Bossa Nova, momento em que, segundo Tom Zé, o Brasil deixou de ser a fazenda que exportava comida para a metrópole para exportar a mais nobre produção humana, a arte - mesmo no rock dos Doors, de quem Sontag era fã, a bateria é, em diversos momentos, bossanovística.
Chegamos então ao final dos anos sessenta e início dos setenta. Efervescência cultural. Jovem Guarda, marchas contra a guitarra elétrica. No mundo, explodem Beatles, Stones, Dylan. E aqui duas das coisas mais importantes da música acontecem em menos de cinco anos: o Tropicalismo e a música mineira de Milton Nascimento e do Clube da Esquina.
A meu ver, o que difere os dois movimentos é a tônica que se dá ora ao sentimento, ora ao pensamento. No tropicalismo, pesa mais o cérebro; no clube, o coração. O tropicalismo é fruto de um conceito estético articulado principalmente por Caetano Veloso. Poderíamos até chamá-lo de arte conceitual, uma vez que o conceito vem antes. Caetano, antena tão poderosa quanto Chico Science décadas depois, estava ligado em tudo o que acontecia no Brasil e no mundo. Assim, feito Sontag, perguntou: - Por que é que eu tenho que escolher entre o violão e a guitarra? Bora misturar tudo isso aí. Havia um conceito de Brasil, um conceito de música, um conceito estético, por trás do tropicalismo, que ao mesmo tempo embasava e dava rumos. O Brasil não é outra coisa senão um liquidificador e dá-lhe Oswald de Andrade, Carmem Miranda, os poetas concretos, Teatro Oficina, Bossa Nova, Roberto Carlos. Mas, como uma andorinha só não faz verão, eram precisos parceiros criativos. Chamemos então Gilberto Gil - o irmão, Tom Zé, o sertanejo-maluco-de-vanguarda, o rock do bom dOs Mutantes e uma pitada orquestral com os maestros Rogério Duprat e Júlio Medaglia. Não era algo totalmente novo, os modernistas de 22 já haviam apontado o caminho, mas era jovem. O resultado todos conhecemos. E os epígonos também, quer coisa mais erótica que a guitarra de Pepeu?
Em Minas não houve plano. A Terra reuniu a todos, a voz de Milton clama do fundo da Terra desde há cinco mil anos, antecede seu nascimento em milênios. Caso Deus cantasse, teria a voz de Bituca. E, se a tônica no tropicalismo era o cérebro, em Minas era o coração. Não havia um conceito prévio. Lô vai comprar leite pra mãe e encontra um moço negro tocando violão sozinho nas escadas. Tem dez anos, esquece o leite e fica ali perdido ouvindo o Bituca improvisar. Lô vai brincar na rua e encontra o Beto Guedes recém-chegado de Montes Claros sobre uma patinete maravilhosa. Tempos depois, os dois descobrem os Beatles. Enquanto isso, Milton ganha um festival depois de encontrar os letristas Fernando Brant – autor de Travessia – Márcio Borges, pouco depois Ronaldo Bastos. Invadiram o Rio. Os músicos cariocas se embasbacaram. As harmonias não eram lineares, subiam e desciam, como as montanhas de Minas, jogavam a alma do ouvinte pra cima e pra baixo. E vem Toninho Horta com uma pitada de jazz, vem Wagner Tiso – maestro, vem Novelli, vem Naná com suas panelas, Nivaldo Ornelas, Solange Borges com seu jeitinho de menina marruda querendo brincar no quarto dos homens, ALAÍDE COSTA. Milton, o coração do grupo, teve uma ideia: é só reunir todo mundo. Não havia plano, quem acordava mais cedo escolhia o instrumento, os retardatários ficavam com o instrumento que sobrava. Há uma ordem no caos, nós é que não a entendemos. O Clube da Esquina é um movimento fenomenológico. E saiu o primeiro Clube, um dos discos que moldou minha vida e que contém canções como Cravo e Canela, Clube da Esquina, Nuvem Cigana, Cais, Um Girassol da Cor do Seu Cabelo, TREM DE DOIDO. É um disco completo. E tem uma qualidade incrível: não enjoa, o que é raro em música. Sei que vou ouvir estas canções a vida toda. Talvez não como se fosse a primeira vez, mas pelo menos a segunda.

Se tivesse de escolher? Escolheria os dois. O coração não tem ranking.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

A dimensão do afeto

Sempre gostei de arte, nada mais natural, então, do que me voltar, durante meus anos de estudo, às disciplinas ligadas à questão estética. Triste dissabor. Falava-se de tudo, nestas aulas, menos de arte. Comida, a meu ver, tem de encher a barriga e aquelas aulas me pareciam pratos bem decorados, com fios de chocolate, mas não me matavam a fome. 
Discussão tão velha quanto aquela do ovo e da galinha era a questão da “alta cultura” vs a “cultura popular”; sem falar na cultura de massa. Tudo isso me parecia passar ao largo da dimensão afetiva, da força vulcânica com que a arte nos molda e nos muda. E dá-lhe filósofos alemães: Adorno, Horkheimer, Lukács, mas o que eu queria mesmo resgatar, quando escrevia, eram os afectos e perceptos que atravessavam meu corpo franzino quando meu pai preparava o lanche pra mim, antes de ir trabalhar, ouvindo Odair José. Que me importava a questão da cultura de massa? O que aquilo tinha a ver com o filósofo alemão que foi sofrer nos E.U.A? Eu queria, na escrita, era resgatar o episódio do Chaves em que o protagonista é acusado de ladrão e deixa a Vila. Levava meus poemas ao profº de teoria literária e ele me devolvia gráficos que terminavam numa linha descendente. A emoção, o afeto, eram considerados signos de mau gosto.
Hoje frequento os saraus espalhados pela periferia e os poemas já não pedem gráficos, mas continua a me afetar a questão da “alta cultura” vs a “cultura popular”. Questão antiga. Há, em boa parte dos poemas que ouço, uma ânsia de afirmar a identidade negra: estamos nas bordas. Nada mais natural depois de tantas barbáries, estupros, violência, abusos; mas, ainda me incomoda a falta de Sim, a ausência do afeto positivo. Para além da revolta e do ressentimento justificado será que nunca houve amor? Sabemos que não é possível comparar a escravidão à imigração europeia, a qual fazia parte de um projeto de branqueamento da população; no entanto, mesmo por trás de tais objetivos torpes, será que não ocorreu, num belo dia, num bonde, de um padeirinho português se apaixonar por uma balconista negra que ia para o trabalho? Ou será que, mais tarde, um funcionário da cervejaria Antarctica de olhos azuis e genealogia perdida (meu pai) não poderia se apaixonar por uma indiazinha empregada doméstica (minha mãe)?
Creio que não podemos esquecer o que fizeram de nós, mas também não podemos esquecer o que fizemos daquilo que fizeram de nós. Como seres humanos, não cabemos em teorias, ou medidas governamentais que não levam em consideração nosso corpo, nossa carne, nossa capacidade para o beijo. É no olhar do outro que nos tornamos inteiros.
Pouco me importam a eficiência germânica, inclusive no futebol, ou estadunidense, eu quero é participar da dança e louvar com tambores. Lampião, nossa imagem e semelhança “tenho certeza, ele também dançou um dia”.

Tudo está tão claro em nosso mundo

Tenho um amigo filósofo que sofre com o acontecer do mundo. O mistério o atravessa feito espada espartana, peixeira de baiano. Ele não descansa. Estuda, lê livros de três mil páginas de pensadores alemães, guarda o mar, escreve tese, conversa com um psicanalista... E se desespera.
                - E o outro? Deve haver algo mais! Isso pulsa, borbulha nas sombras, nos cantos, explode fe3ito larva sob a terra. Está ali, mas não se mostra. O maravilhoso se esconde. O tempo todo, o maravilhoso se esconde.
                Durante muito tempo, também pressenti o maravilhoso assim e tive forças para buscá-lo - agulha no palheiro, The catcher in the rye – não no transcendental, mas no colo de uma menina bonita, meio triste, meio misteriosa que costumava se cortar e que um dia, talvez por acidente, partiu de vez as veias dos pulsos.
                As coisas vão ficando para trás e, com o tempo, o mistério já não nos inquieta como antes. Perdemos o menino na correnteza, no vagão do trem, no ônibus que passou mais cedo. Multiplicam-se não os enigmas, mas as dívidas. Ainda cultivamos rosa em vaso de plástico e, vez por outra, um arco-íris nos surpreende. Entre a loucura de Van Gogh e a timidez de Drummond, ficamos com o funcionário público, ex-mágico da taberna Minhota. Guardamos o poema na gaveta da repartição. Desistimos aos poucos do conhaque, pois o conhaque nos faz Artaud e nós temos os filhos que Artaud não tinha. Sem perceber, perdemos o direito À loucura, à embriaguez, ao suicídio, à ferida. Que bom!
                Voltando da escola. Final de tarde. O filho sussurra no banco traseiro:
                - Gosto quando está assim de tardezinha e faz esse solzinho maneiro, pai.
                Então o maravilhoso esquecido nos salta outra vez aos olhos, sem máscaras, sem mistérios, sem subterfúgios. O sentido é esquecer de si para cuidar de alguém e compartilhar o poente em meio ao trânsito; em meio a atrocidades políticas e policiais.
                Entre dívidas e dúvidas, cresce o cheiro de café. Estamos chegando. Em casa, alguém também abandonou a metafísica para fazer o café como gostamos e falar um pouco da dureza diária: o maravilhoso é preto e escorre do coador. Também tem queijo e pão francês.
                Quanto ao meu amigo filósofo, embora mais calmo, continua procurando o que está diante dos olhos e ele não vê por medo de se comprometer, de enlouquecer, entregar-se, perder a liberdade, tornar-se responsável.
                Louça na pia, louça lavada; de mãos dadas, brincamos de roda na cozinha.

                Há muito não temo a minha morte, mas a do outro: tenho pesadelos. E se, às vezes ainda temo por mim é pela falta que posso fazer aos outros que brincam na ciranda. O círculo se parte sem um dos elos. Pela primeira vez na vida, meus olhos estão abertos.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Entrevista com Lisa Alves: POETA.

1-) Arame Farpado é seu primeiro livro publicado; como se deu a confecção deste livro e, uma segunda parte deste primeira pergunta, como se deu seu início na escrita, como você começou a escrever?
R: Arame Farpado partiu de uma escolha de alguns poemas compostos ao longo de dez anos. A princípio, a ideia era conceber um livro com poemas que expressassem várias vozes – como se fosse um tabloide mundial. Recordo que o nome seria Legião e depois Almagene. Com o tempo percebi um vínculo de significação em vários poemas (um vínculo que não sabia denominar na época). A maioria dos poemas fazia referência às barreiras materiais e imateriais: sempre havia um sujeito preso, um sujeito tentando ultrapassar uma barreira. Enfim, foi a primeira vez que notei que havia uma obra, que havia um corpo e que havia uma criança para nascer e ela deveria se chamar Arame Farpado.
Em relação à segunda pergunta: comecei a escrever muito nova, aliás, comecei a ler com quatro anos e isso tornou minha experiência com a escrita muito precoce. Nem sabia o que era um escritor, achava que era normal ler e depois escrever. Nasci dentro de uma família muito simples – minha avó era benzedeira, meu avô um homem do campo e eles tinham uma mania de inventar muitas estórias no final do dia, só que não escreviam. E, se não me engano, o primeiro conto que escrevi foi sobre um fantasma que vivia na porteira da fazenda dos meus avós, o nome dele era Tonho e ele só deixava passar pela porteira quem cantasse uma música. Eu os ouvia contar sobre o Tonho e decidi inventar minha própria experiência com o fantasma.  Já a poesia eu comecei na adolescência – tinha vários cadernos com poemas, tencionava ter uma banda de rock, bem ao estilo punk/rock da Legião Urbana e Plebe Rude e tive a sorte de conhecer uma turma da União Estudantil da minha cidade que também se interessava por poesia e rock.  Minha poesia ainda caminhava com a intenção de ser musicada, mas, com o tempo isso foi mudando, quando comecei a escrever contos e percebi que as letras era o caminho para eu conseguir compreender minhas inquietações e fantasias.

2-) Seu livro não saiu necessariamente por uma editora, mas por um coletivo: o Coletivo Púcaro; como você enxerga a relação entre a arte de escrever e a indústria do livro?
R: Estou muito satisfeita de ter publicado pelo coletivo, tem sido uma experiência muito generosa, além do que eu esperava. Eu posso afirmar que investi 10% e lucrei mil. Sobre a pergunta: a relação que enxergo é que uma precisa da outra, mas parece que não há um acordo justo entre as partes. Só há um lado que ganha e nós sabemos qual. Eu nunca comprei um livro em branco e sei que sem a contribuição do escritor não há livro. Nossa classe merece mais.

3-) Vamos estabelecer um diálogo com outros escritores, Mário de Andrade disse “Sou trezentos, sou trezentos e cinquenta, mas um dia, afinal, toparei comigo mesmo”, Walt Whitman escreveu “Me contradigo? Tudo bem me contradigo, sou vasto por isso me contradigo”,  Rimbaud enxergava o eu como um outro. Você escreve, no poema Ecos: “O Eu original foi desconectado/ e tudo o que restou fomos Nós (esses Eus sem paradigmas),/ no escuro de uma tabela periódica” e em Cartas para o Mundo: “Eu era todos: a menina do tabuleiro, o cientista e a sombra.” Comente.
R: O Eu é um ser multifacetado. Talvez Mário de Andrade, Whitman e Rimbaud em algum momento da vida tenham se perguntado: “Quem sou eu?” e perceberam que a resposta ininterruptamente variava. Eu pelo menos nunca conheci uma pessoa com comportamento imutável. Acredito na metamorfose.

4-) Percebo no seu livro um forte tom político, não partidário, mas político; como entende as relações entre a arte e o mundo?
R: O mundo é minha fonte, por isso tão inevitável o tom político. Tem um poema do Drummond que me representa nesse sentido: “Sentimento do Mundo” no qual o poeta empresta ao leitor o que ele assiste. E é exatamente assim que me vejo como poeta: alguém que escreve sobre o que assiste. O final desse poema é incrível:
(...)
Humildemente vos peço
Que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
Eu ficarei sozinho
Desfiando a recordação
Do sineiro, da viúva e do microscopista
Que habitavam a barraca
E não foram encontrados
Ao amanhecer
Esse amanhecer
Mais noite que noite.

5-) Há algum assunto sobre o qual você gostaria de falar, mas que não foi perguntado? Fique à vontade.
Agradeço pelo espaço e pela entrevista. E deixo um poema do Arame Farpado aqui:


Eu bebia uma Irish Car Bomb
enquanto crianças eram pulverizadas por bombas israelenses.
O Mal distante é legítima ficção até o dia que
nos extraem de nós mesmos para sermos outros.
Meu vizinho é um corpo de carne e ossos
e se ele se incendeia eu penso em performance.

Adel Kedhri (Tunísia): performer
Jampa Yeshi (Índia): performer
Lâm Văn Tuc (Vietnã do Sul): performer
Prema Devi (Índia): performer

Contam que após o domínio do fogo
nossa espécie transubstanciou o cérebro
para algo hábil a criar bombas e rodas.

Adel Kedhri incendiou-se
Jampa Yeshi incendiou-se
Lâm Văn Tuc incendiou-se
Prema Devi incendiou-se

São Martinho articulava sobre o Homem ser fogo,
Buda propunha que o coração é a lareira
e Heráclito dizia: do fogo tudo flui.

Adel Kedhri é uma mensagem
Jampa Yeshi é uma mensagem
Lâm Văn Tuc é uma mensagem
Prema Devi é uma mensagem

Sonho com uma tempestade de fogo,
sonho com olhos volvendo em cinzas,
sonho com o cheiro amedrontador do Deus dos Mortos
colhendo infanticídios nos campos de girassóis da Ucrânia.

Adel Kedhri é um noticiário
Jampa Yeshi é um noticiário
Lâm Văn Tuc é um noticiário
Prema Devi é um noticiário

E eu saboreio uma Irish Car Bomb.
(E eu saboreio uma Irish Car Bomb | Arame Farpado (2015) )

MAIS INFORMAÇÕES:
Página no facebook: https://www.facebook.com/Arame-Farpado-1034332163257619/?fref=ts

Site: http://lisaallves.wix.com/lisaalves

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Entrevista com o escritor Gláuber Soares

O escritor Gláuber Soares fala um pouco sobre o seu processo criativo, sua vida, suas leituras, suas influências, conversa ainda sobre a origem do seu segundo livro e primeiro romance publicado Face Emplumada, a sua estreia na literatura foi com o livro de contos Remédio Forte, o qual foi traduzido e será lançado esse ano na Argentina...

Seu primeiro livro publicado foi a coletânea de contos Remédio Forte; entretanto, você já escrevia textos de maior fôlego antes de se dedicar à forma mais sintética que constitui o conto. Como se dá a passagem de uma forma literária à outra no seu processo de criação? Quando começa a escrever, você já tem certeza da extensão? Ou aos poucos o texto vai se constituindo como romance, novela ou conto?

No início, só pensava em textos mais longos. Já imaginava o começo, o meio, o fim. No ano de 2000, comecei a escrever o meu primeiro romance finalizado (não publicado). Em 2002, ele estava pronto -- no formato tradicional de livro daria umas 160 páginas. Somente após participar de uma oficina de criação literária, em 2010, comecei a escrever contos, meio que por obrigação. Praticando, acabei me apaixonando também pela forma dos contos. Suas nuances. Hoje, geralmente, eu penso: tal enredo daria um romance ou conto. Mas Face Emplumada desorganizou a minha lógica. Comecei escrevendo o que seria um conto. O texto foi ficando mais longo, pedindo mais personagens, enfim, percebi que ali a melhor forma seria uma novela ou romance.

Já que  mencionou a criação de personagens, devo dizer que achei muito interessante a galeria de personagens que atravessam Face Emplumada, desde o cabeleireiro queer Sandrinho até o Seu Galdino da fazenda Asa Azul. Considerando que a construção de um romance envolve cinco instâncias que se interpenetram (a saber, o tempo, o espaço, a linguagem, o enredo e as personagens. Há romances cuja força motriz está no tratamento do tempo, como À sombra do vulcão, de Malcolm Lowry; há romances cujo centro é a desterritorialização, o tratamento do espaço, como On the road, de Kerouac; Clarice Lispector desconstrói a linguagem, Luiz Brás recoloca o enredo em evidência e ao falar de Dom Casmurro, logo pensamos na personagem enigmática de Capitu...) Você diria que, enquanto criador, a sua maior potência está na criação das personagens ou em uma das outras quatro instâncias? Sei que tais categorias não surgem compartimentadas quando se escreve algo, mas quando você relê o trabalho, onde você acha que está a maior força da sua escrita?

Rapaz, neste ponto não sei se tenho a melhor resposta. Não costumo consumir energia me autoanalisando. Nem tenho as ferramentas teóricas para isto. Mas, sem fugir de uma resposta, eu me preocupo mais com a linguagem e com o enredo, balancear essas duas instâncias. As performances, forças das personagens, a meu ver, vêm como consequências deste balanceamento.

Acho que a linguagem também é uma força da sua prosa: enxuta, desenvolta, variável; vai das gírias mais urbanas à musicalidade mais sertaneja. Penso, inclusive, ser um traço extremamente original da sua escrita esta mistura do provinciano e do cosmopolita, do urbano e do rural. Já na epígrafe, você une provérbio baiano e David Bowie. A trajetória de Gustavo vai do interior de São Paulo, à capital paulista e de lá à Quixadá. Na música, também muito presente no livro, nós vimos essa antropofagia, essa deglutição do pop pelo pelo sertanejo, tanto no tropicalismo, quanto no mangue beat. Diz aí, na literatura quais são suas influências na criação deste estilo híbrido? E nas outras artes? Quais são os artistas de esferas exteriores à literatura que influenciam sua escrita?

Na literatura, curto bastante o João Antônio, Luiz Bras, Marcelino Freire, Patativa do Assaré, Lygia Fagundes Telles, entre outros. Nas artes plásticas, Carybé, o mais baiano dos argentinos, sua vasta obra me desperta a atenção. A música sempre me influenciou. Das batidas às letras; de Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi a Morrisey e Ramones. Lembro-me que ainda no meu primeiro romance citado, imaginava o projeto do livro com um CD encartado, ou seja, tinha a sua trilha sonora. Em Face Emplumada, Bowie foi um dos músicos que me inspirou, ajudou a dar o tom.

O que mudou e o que se manteve na sua escrita de Remédio Forte a Face Emplumada?

Remédio Forte foi uma coletânea de contos. Havia a preocupação social, passagem do tempo, a morte – temas que dão unidade ao livro. Algumas narrativas, como Próximo, Juntinhos, Rio Cachoeira, Isabela e o conto que dá nome ao livro já sinalizavam para este estilo mais impregnado que em  Face Emplumada. Acredito que não houve mudança, talvez tenha tido um amadurecimento, uma afirmação. 


Você publicou Face Emplumada por uma editora independente, como enxerga o mercado editorial brasileiro?

Para quem está preocupado com a arte, e não em ser uma celebridade, o comportamento do mercado não faz muita diferença. Levando em conta os números da população brasileira, o nosso mercado editorial, principalmente o literário, é incipiente. Somos um dos países da América Latina em que menos se lê. As grandes editoras ganham dinheiro vendendo livros didáticos para os governos. No gênero Literatura, meia dúzia delas formam uma elite que se mantém no topo com os best-sellers importados. Com alguma exceção, não estão preocupadas com a literatura brasileira, desejam o lucro fácil. Os prêmios literários ajudam a maquiar. Tentam, com o glamour, iludir, e até têm conseguido, como se a desprezada literatura nacional tivesse, de fato, importância. O que sobrou da mídia não percebe o engodo. Um outro vilão são as livrarias. Não investem no processo de publicação – tudo bem, este não é o papel delas, no entanto, as livrarias só querem levar vantagem. Muitas só aceitam livros em consignação e pra pagar à editora, quando pagam, pedem um prazo de 90 dias. É claro que os maiores grupos editoriais têm poder de negociação. O que não impediu a excelente Cosac Naify, há pouco, noticiar que vai fechar, dando como um dos motivos este longo prazo. Ainda assim, diante de tanta dificuldade, nem tudo está perdido. As pequenas editoras, com as suas pequenas tiragens, continuam fomentando a nada incipiente arte literária brasileira.

Há algo que você gostaria de dizer, mas não foi perguntado nesta entrevista? Fique à vontade.

Apenas dizer para os leitores ficarem atentos com a cena literária paulista. Você sabe, Daniel, temos uma geração de ótimos escritores. Poesia, romance, conto, há muita coisa boa sendo feita por aqui. O seu romance A Delicadeza dos Hipopótamos, por exemplo, é um livro sensacional. Enfim, prestigiem mais a literatura brasileira.