domingo, 25 de agosto de 2019

IRA E TEMPO

São tempos de ódio. Não há como não odiar o que estes que estão no poder fazem. Por outro lado, das emoções humanas, o ódio é a mais perigosa. Claro, a ira move a história, todas as revoluções tiveram como combustível o sentimento de ira. Deve ser por isso que, triunfantes, todas elas se corromperam: Rússia, Cuba e China perseguiram artistas, homossexuais, religiosos; enfim, a sensibilidade. A China estuprou o Tibete. É que a ira cega, dinamite, termina por voltar-se contra si mesma. Entre os guerreiros gregos, a thymós era cultuada. Eles, no entanto, sabiam do risco e incorporavam a volúpia guerreira com cautela, sob as rédeas do logos. Sobre isto, entre os modernos, Nietzsche foi quem melhor escreveu. Voltando ao nosso aqui e agora, eu não consigo mais ler as notícias que aparecem no meu feed. Há muito ódio entre nós. E, pior, um ódio preguiçoso, que só reclama com a bunda na cadeira. Bem isso não faz; produz o fogo do fígado e só nos adoece enquanto a canalha dá risada. Tomamos o veneno e esperamos que o outro morra. Num nível inconsciente, todos estamos produzindo a escuridão. Quando era pequeno, e ainda hoje, gostava era do Bruce Lee. Por isto, admiro demais o Taoismo. O guerreiro pronto é aquele que não se deixa influenciar por nada que o inimigo faça. E não é a razão quem o conduz no combate, é o Tao. O rio revolto destrói as margens por onde passa; mas, quando a água observa a água, permanece impassível. Deixo nos comentários um conto de Chuang Tzu - aquele mesmo da barbuleta que Raulzito cantou. Morning.

A NOITE EM QUE ELA DESPENCOU NAS PEDRAS

Apesar da pouca idade, a senhora sabe que vi coisas que até Deus. Eles eram assim que nem abelha em volta da colmeia, marimbondo no casulo, criança atrás de doce em dia de Cosme e Damião. Raros eram os que não voltavam. Experimentou, voltou, já era; capeta abraça. A maioria, no entanto, consegue conciliar, espaçado, e tocar da vida. Mas tem aqueles que. Eu percebia no olhar. Homem, moça, menino, ladrão, sapa, veado. Eles têm olho triste. Igual olho de cavalo. Olhão que fala de falta e dói, assim, na veia artéria da gente. Aorta? Que seja. A senhora já reparou que cavalo fala com o olho? Eu conhecia de longe os que tinham aquele olho. Antes de se achegar, já tava tudo condenado. Os outros não. Na verdade, quase ninguém sabe, mas eu. Ninguém sonha crescer e ser noia na vida. Tô errado? A gente imagina ser médico, cantor, bombeiro, trapezista, porteiro, jogador de futebol. E aí acontece aquele machucado que nenhum mertiolate sara. Moça me contou que, anos antes, menina ainda, o moleque que ela gostava cumprimentou ela na escola. Ela ficou contente. Sorriu. Daí, escutou outro menino gritando. “Ficou maluco? Cumprimentando a gorda-crente assim na fila do lanche”. E riu. Bastou. Às vezes dá pra consertar; quase nunca, no. O que eu podia fazer depois de ouvir uma história dessa? Eu vendia. Dois por dez, vai. Ajudava a anestesiar. Tipo um médico, um anjo. Anestesista? Que seja. E, a senhora não crê? Na lata? Sim, na lata também e tinha de muito. Conto causo: teve um veado que a família internou. Ele parou. Só que, parado, pagava os menino pra bater nele e roubar todo o dinheiro. Ele dizia: “o dinheiro é de vocês, mas vão ter de tomar!” Ficou bravo comigo: “Quero você, mineirinho!” Faço isso nada. A senhora acredita? Pagava pra levar chute na cara. E depois ainda pedia desculpa. Mas usar não usou mais. E teve menina novinha que rodou banca. E, quanto mais a malandragem judiava, mais ela pedia. Queria até que cuspissem na cara. Quando a pessoa desgosta assim desse jeito, fico morrendo de dó. Penso em levar pra casa e cuidar; mas, qual casa? Dia frio assim, a senhora sabe, não gosto. Fico triste. Sem jeito de esperança. Lá em Minas era raro dia assim. Sol ano todo. São Paulo tem desses; aos magote. Diz que já foi pior. Foi num dia frio assim que a moça apareceu. Bonitona. Sobrancelha feita, unha igual. Cabelo tratado. A gente via. Mas tinha aquele olho de cavalo! Vi conversando com os menino. Queria pó. Pó não dura, mais que fosse. A turma cheira tudo. Pro patrão? Mesmo que ter caixa eletrônico. Pó não tem, só pedra. Que seja – olho pretim de cavalo triste – você me ensina a fumar? O outro menino: Isso é fácil. E pronto. Já foi. Eu tava lá na noite que ela despencou nas pedra. Sim, essa moça triste artista que deu no jornal. Foi. Quase que desobede, ramelava, eu, e apanhava depois, só paulada, ou morria. Pensei dizer: “moça, faz isso não. Você é das que fica”. Eu posso dar dessas? Sou dono não, aviãozinho e só. Que será que disseram ou fizeram pra ela vez na vida? Senti piedade. Se pudesse, garrava todas pena do mundo e me explodia com elas no meio dum buraco fundo. Quem sabe se, morrendo, não curava o mundo. E, senhora crê, era eu lá, vendendo, na noite em que ela despencou nas pedras.

CARAVELAS

Volvi e vim falar de vô. Curiosa a senhora. Senta aí e escuta. Tem problema não. Si silencia é que entende, sem posse. Vô dizia de meu coração que era de potro, transplantado. Não aceito voz de mando. No carinho, me ganha. Na espora, me perde. Passei calado. Vida inteira. Tudo é incompreensão. Uno diz coisa e o outro entende às avessas. Em mim, sempre assim. Como se eu falasse língua estrangeira que ninguém mais. Babel de mim. Os outros têm só duas caixas, mas eu parlo é no aberto do sentimento. E medo mesmo só de trovão. Que se foda o mais. Sim, vô. Vô é Minas, uai: montanha-triângulo. No real, tem sempre reta que gente não vê. Guardo chapéu de herança. De nome era Marcíonilio; de conhecido só por Sinhô. Cavaleiro e domadô. Eu menino, contava estória. Nem precisava, eu sabia. De longe, vinha montado, mas era leve no cavalo. Atravessava fronteira, varava neblina. Até hoje, falecí, vem; tu crê? Eu emprestava meu olho ao céu e via de cima, esquecido de nascer naquele tempo. Até pra amansar morto, antes de crente, sabia tudo o que era reza, vô. Eu: o aborto; vindo de outra raça, branca, surrupiado. Me perco na palavra e a senhora não diz. Se deixar, vou, feito rio. Volto. Vô e o cavalo eram uma coisa só. É o dois que se faz um e torna dividir em três. Montar eu não montava – bem. Ele entristecia. Morando aqui, adquiri moto boa, senhora sabe, né? Em frente ao candeeiro, vô falava e meu coração se abria feito flor, sem conteste, só pra chupar o bonito do narrado:
- Nem sempre fui ansim desse modo, Dan – dizia – carinhoso no trato com bicho. Menino novo, era na espora. Ou o bicho obedê, ou morria. Força com força. Queda de braço. Quem pode mais que o homem na natureza? Matei teimoso no punhal. De raiva.
- E o quê, vô?
- Uma égua; que era meio mulher. Trabalho grande. Milhar de cabeça. De Januária até Nanuque, na Bahia. De noite, acampamos e eu fui atrás de colo. Sei vivê sem colo não, Dan. Tu é igual que vejo. Por outra, a gente tinha de atravessar uma pinguela. Mas Caravela, que era égua pretinha-brilhante sem um pelo branco, empacou. Serrei espora, à vera! Com força. Nada. Desamontei. Dificulidade de escuro. No meio da ponte, madeira cedeu e eu caí. Não fosse estar seguro pela rédea, tinha morrido. Caravela sabia - salvou. Avisou antes. E eu, no cio, desobedê. Todo bicho é bem profeta. Guarda isso, fi. Todo bicho é bem profeta. A gente precisa aprendê a lê.
Eu nascido, nunca vi vô destratar alimária, senhora sabe? Era no carinho e na conversa e tudo que era bicho, de onça a joão-de-barro, obedê.
Assunte aonde cheguei: é do mato que o homem precisa pra aprender o que esqueceu de ser.
É dito.
Outro dia.

domingo, 18 de agosto de 2019

A HUMILHAÇÃO

Certa vez, ouvi uma frase da Clarice Lispector: “só é humilhado quem não é humilde”. Pensei bem: é isso mesmo. Certos monges do deserto, inclusive, procuravam a auto-humilhação como forma de restringir o ego. Não é outro o sentido de esmolar arroz, por exemplo. Como Gautama, procuro sempre o caminho do meio. Acho que os extremos são armadilhas e só seguindo a serenidade da natureza – o olho de água ao romper a linha de terra – é que começaremos a vibrar de acordo com. Há uma grande mestra escondida sob o manto da Humilhação e sua lição primeva é a seguinte: sejam pequenos! O ego quer nos dizer o tempo inteiro que somos especiais – e somos mesmo, mas só na medida que tudo o que é, é também-, que fomos escolhidos para algo grande, mesmo que não saibamos bem o que é. No meu caso, a depressão foi essencial; porque, pra mim, a depressão foi uma doença do ego humilhado. Eu achei que tinha de ser grande pra ser amado. Bobagem. Sofri. Graças a Deus, o Universo não me deu o que pedi. Fui humilhado até o fim. Mesmo a escrita, que sempre julguei meu chamado e destino, me pareceu horrorosa quando reli. A minha dor era puro egoísmo frustrado. Eu queria receber o tapete vermelho e não estendê-lo para o meu irmão passar. O raio me fulminou, partiu-me ao meio, amassou-me; tornei-me só uma placenta jogada na calçada; no entanto, exatamente daí, surgiu o que há de Deus em mim: o amor de doação; em verdade, em verdade vos digo: o único possível. Mas quero voltar à Humilhação. Às vezes, Deus nos humilha para que retomemos nosso lugar de parte. Esta é a lição. Você olha o mar e se sente pequeno. Você escala uma montanha no sul de Minas, contempla a imensidão, e pensa: “Meu Deus, sou nada”. Tal constatação, entretanto, não nos causa tristeza, mas júbilo, êxtase, A-a-m-m-o-r! Deus se mostra conforme a pessoa: pode ter um rosto humano, se o indivíduo só consegue enxergar assim, pode ter barbas longas e cabelos brancos. E pode também ser invisível. No alto daquela montanha, percebi que tudo está sendo amorosamente cuidado. Os passarinhos sabem disso e, portanto, cantam sem se preocupar com o pão do amanhã. Tudo está sendo amorosamente cuidado por uma Consciência em desapego. O fio de água desce o morro e doa vida a tudo em seu entorno até chegar ao mar. A vespa se enlaça amorosamente à orquídea e fecunda o mundo de orquídeas novas. O sol abre os olhos e nos dá bom dia no desenho da criança. Parece uma canção, uma valsa, uma orquestração do Wagner Tiso. E eu só quero ser o jardineiro, o guardador, o menino da promessa. Se houver um caco de vidro no chão, que eu perceba e tire para que ninguém corte o pé. Almejo a grana necessária para dividir com quem vier me procurar precisando. Ando solto de tudo, sem qualquer objetivo, sorrindo, HUMILHADO de tanto amor. O destino que se cumpriu, de sentir Seu calor, Senhor, e ser inteiro mesmo enquanto parte. “E o grão de tão pequeno ser tão grande o que a gente é. Ser esse destino de pessoa que sonhou.”
Hoje é um bom dia pra perdoar, amar e fazer o bem. 🌻

OS RESSENTIMENTOS MORREM NO AGORA

As pessoas mudam, disseram-me, então por que você insiste em julgá-las pelo que elas fizeram há anos? Não se pode entrar no mesmo rio. Vou contar uma estorinha. Um homem agressivo cuspiu na cara do Buda em frente aos seus discípulos. Os discípulos ficaram brabos feito os cabras de Lampião e queriam dar uma pisa. O Buda respirou e impediu. Acho que conseguiu até abraçar o agressor. Dia seguinte, o cabra voltou arrependido e pediu desculpas. O buda disse: "Não há de que se desculpar. Você me fez descobrir quanto ódio pode haver em mim. Ademais, este homem que hoje me pede desculpas já não é o mesmo que agrediu. Eu também já não sou o mesmo. Então, nem há do que pedir desculpas. Agora deixe disso e vamos comer arroz". Se fosse no Nordeste, teriam partilhado o jabá😉. É o seguinte, re-sentir é deixar o passado envenenar o hoje. Você fica preso num momento - ou em alguns - que aconteceu há tempos e não consegue mais viver. De certo modo, morreu naquele momento. Quando voltamos a atenção ao presente, essa dor do passado se dissolve, porque ela só existe enquanto memória, enquanto virtualidade, não tem substância. Ó o Bergson aí de novo, uai. Primeiro pensamento, melhor pensamento: hoje é um bom dia para jogar os ressentimentos no lixo e perceber que a pessoa que tenta se desculpar já não é a mesma que agrediu. Ou mudou, ou está mudando. Aprendi isso num filme chamado Capitão Fantástico. Buenos días. E sextou, por onde a gente passa é show.🌻

Áquila

Ele vai. Ela vem. A gente planta sonho. Enquanto outros plantam despertadores. Sol e lua estão conosco. Um dia, deixaremos sementes boas.

A persuasão do cristal azul

Hoje, minha alma me chamou pra prosear: "Todos os problemas estão no futuro" - ela disse. "No instante-ja os problemas se dissolvem. Enquanto a mente se perde entre a ansiedade e o remorso, futuro e passado, o corpo sempre nos fala do presente. O corpo é o presente. É preciso trazer o espírito de volta 'a casa do corpo. Acabar com a cisão. Tornar presente. Fazer o espírito, tal qual o corpo, habitar o agora. Não deixe tanto trabalho para o momento da morte. Consegue-se consagrar a célula por meio do toque, da meditação, do sexo... Passe apenas a mão devagar sobre si mesmo, sentindo cada detalhe profundo da pele. O que nos rouba a brisa não são os problemas, mas a preocupação. Bom dia.