domingo, 30 de setembro de 2018

O CAMINHO DO EREMITA


Quando eu for velho e sábio,
Quero me lembrar das agruras da vida com um sorriso nos lábios;
A vontade de competir, que me impele à batalha, já não será um fardo,
E vou olhar a vida sabendo que ela é o caminho e não o pódio.
Quando eu for velho e sábio,
Vou me lembrar do ímpeto da juventude,
E cultivar uma orquídea em homenagem a cada mulher que amei.
Meu sexo será calmo e escasso,
E, por isso mesmo, celebrado como a vitória sobre um vício.
Quando eu for velho e sábio,
Quero crianças por perto,
Pedindo doces, fazendo barulho, roubando a paz...
Quero ler textos sagrados, cultivar barba branca e adquirir lanterna e bastão.
Quando eu for velho e sábio,
Minha voz terá um tom mais suave,
E as paixões serão flexíveis como um broto de bambu.
Quando eu for velho e sábio,
Quero me despedir da vida como o som de um grande sino:
Suave, lento, distante, gradual, sincero, ondulante.
No fim, indiscernível do silêncio.
Quando eu for velho e sábio,
Vou encarar a morte como uma longa noite de sono,
E olhar meu corpo flácido como última cela
Para afectos, perceptos e ideias que agora vão morar em outros corações.

A FRUSTRAÇÃO É SOLO FÉRTIL PARA O FASCISMO.

Não deixe, meu irmão, que tua dor te torne cruel! E por que te digo isso? Porque a dor e, ainda mais que a dor a frustração, é um solo fértil ao fascismo. Onde Hitler prosperou? Na Alemanha frustrada por ter perdido a primeira grande guerra. Vejo o quanto anda frustrada minha gente por meio de sua capacidade de odiar; e não é necessariamente odiar o diferente; mas odiar, principalmente, o que gostaríamos de ter sido e não conseguimos. “Se não posso ser livre, que todos sejam algemados!” Então, a beata que arrasta por trinta anos um casamento fracassado, quer destruir a menina que distribui amor pelo caminho; odeia sua liberdade e, embora tenha casado grávida, discursa sobre a moral e os bons costumes! O pai de família que gostava de um rapaz, mas teve de abrir mão de seu grande amor para se tornar um homem de bem, quer matar os rapazes que andam de mãos dadas pelas ruas - certa feita, esses rapazes eram pai e filho. Pela moral e os bons costumes! O advogado pobre que queria ter sua opinião respeitada pelos homens poderosos, almeja o extermínio dos favelados; porque foi de lá que ele veio, porque aquele favelado é ele, é como ele se sente diante dos poderosos e dos pobres que conhecem sua origem e não reconhecem sua extrema sabedoria. Pela moral etc... É triste ser subgerente por toda a vida! Se o diferente ofende; o igual que teve coragem de encarar o mundo para ter a própria vida nas mãos, ofende mais ainda. Todos perdemos algo pelo caminho e doi. É uma delícia esconder-se, mas é uma tragédia não ser encontrado. E como ninguém reconhece nossa pereba, almejamos espalhar violência pelo caminho: vingança. Tornamo-nos, sem perceber, um monstro! Bob Marley nos diz em uma de suas canções: “Se você fica mal e briga todo o dia / Você está fazendo preces ao diabo / Por que não ajudar uns aos outros no caminho? / Torne isso mais fácil / Só um pouquinho mais fácil.” Mas, é claro, Bob Marley era só mais um maconheiro safado, então é mais fácil fazer como o cara da piada: “Certa vez, um homem encontrou um gênio, desses de lâmpada, e o gênio disse: “Concedo-te um desejo, mas tudo o que tiveres, teu vizinho terá em dobro!” Então, depois de muito pensar, o homem pediu: “Corta-me então uma perna!😱
É pelos afetos que nos manipulam. Ainda podemos deter nossa ânsia de destruição. O primeiro passo é reconhecê-la.
And Jah love protect us!


sábado, 29 de setembro de 2018

ORAÇÃO POLÍTICA

Senhor, 
Fazei com que minha ânsia de compreender seja maior que a vontade de revidar.
Onde houver violência, que eu abra uma janela para conversar com o vizinho.
Onde houver treva, que eu acenda uma lâmpada ou risque um fósforo.
Onde houver desejo de morte, que eu acalante o recém-nascido.
Não tenho medo de morrer, Senhor; mas sinto pavor de matar.
Que a compaixão e o destino comum sejam maiores que as crateras
Que me separam de meus irmãos.
E que nenhum manipulador me faça estender o punho contra meu semelhante.
Amém!


sexta-feira, 28 de setembro de 2018

PROXIMIDADE


É tolo quem imagina enganar uma criança.
Os miúdos não precisam das palavras,
Pois têm acesso direto aos segredos.
(Respiram inconfidências)
Sabem o divórcio antes mesmo dos pais.
E por sentirem tudo de tão densa maneira.
São os que mais sofrem com a ruptura:
Abismo em frente ao velocípede.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

DA NECESSIDADE DE PURIFICAÇÃO DOS SENTIDOS

Entre o carteiro e o poeta
A única diferença é a camiseta amarela.
Não sou eu que escrevo.
É Deus, disfarçado de circunstâncias,
Quem escreve através de mim.
E Ele não entra em casa suja.


A LENDA DA MARIA FUMAÇA

(Para Leandro Mendes, que me disse: "o ser é feminino na maria fumaça").
Sobre a Maria Fumaça, dizem que foi princesa de uma tribo moçambicana trazida como escrava para o Brasil. Certa noite, o Coronel Dito Simões, dono da fazenda, encantado pela beleza da negra, tentou devorá-la à força; mas a moça, por ter sangue guerreiro, resistiu e conseguiu fugir do vale rumo à serra; onde, até hoje, já envelhecida, a cabeça branca, vive sozinha, tendo por companhia um cachimbo e o fumo que faz lembrar distâncias. No entanto, nas noites em que a Lua se faz grande, ela rejuvenesce, bufa, vira máquina, e torna a correr, descendo a serra, rumo ao mar, com a esperança de poder voltar ao lugar a que sempre pertenceu.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

AULA DE SINTAXE

É um trem libertador,
Descobrir que ser é verbo intransitivo.
E que não há necessidade de ser isso, aquilo, ou aquiloutro.
Basta estar presente,
Que o amor nos preenche, 
Disfarçado de sopro.