domingo, 11 de agosto de 2013

Fissura


Goethe dizia, antes vender a alma para a corte de opereta de Weimar: Para mim não há jeito de acabar bem! (A força separada do que pode, divide-se em duas, desagrega-se, volta-se contra si mesma) Depois do pacto com o diabo, chegou aos oitenta e tantos anos e escreveu o Fausto. Haveria o Fausto sem o pacto do próprio Goethe com o poder? A obra guia o autor através daquilo que ele julga ser biografia, como o pica-pau naquele desenho que é sugado pelo cheiro cheio de dedos da comida.
            Goethe se vendeu, mas neste comércio com a representação, salvou-se. Há um quê de cinismo em todos os que se salvam. O que será que o ancião diria ao jovem escritor de Werther? Talvez, se o jovem Goethe pudesse prever o futuro, teria cometido suicídio sem pensar duas vezes. Talvez não. O artista é um bicho estranho, sacrifica qualquer coisa pela sua obra. Quem escreveu o Fausto merece nosso perdão. Quem escreveu Viagem ao Fim da Noite também. Seria preciso outro tipo de balança para gente assim. Todo gênio é um filho da puta, mas também tem um bocado filho da puta estúpido. Os primeiros não escapam do sofrimento, estão morrendo o tempo todo; os segundos morrem uma única vez.
            O que Goethe aprendeu, e por isto acabou escapando do trágico, foi a conviver com a rachadura. Fixá-la com a cola adequada. Ele nunca foi inteiro. Indivíduos? Só os estúpidos e os insensíveis. Os homens sensíveis-do-pensamento, mais cedo ou mais tarde, são divididos ao meio, rachados a golpes de navalha ou de machado.
            Eu tenho uma tendência natural ao negativo, mas não me entrego a ele numa orgia de depressão e The Cure. Não dou mole para a minha pereba. Esforço-me pelo SIM, ainda que viva com o horror nos calcanhares. Ele, o horror, não dá trégua. Mesmo nos momentos felizes, uma imagem sinistra me acompanha. Eu não posso vê-la, é uma sensação, como num sonho ruim. Ela, a imagem terrível, não está nos meus olhos ou fora de mim, não está nos meus pesadelos, ou nas montanhas do Afeganistão. Está por todo lado, como o ar. Vivo com a impressão de que, se tivesse olhos de ver, eu veria, e ela me destruiria imediatamente. Se conhecêssemos a verdade, a verdade nos destruiria. Algo espera do outro lado da ponte. Mesmo quando mexo nos cabelos do meu filho adormecido, sinto que a felicidade é pequena e que o terror não demora.
             Hemingway escreveu em Adeus às armas: “Aos que trazem coragem a este mundo, o mundo precisa quebrá-los, para conseguir eliminá-los, e é o que faz. O mundo os quebra, a todos; no entanto, muitos deles tornam-se mais fortes, justamente no ponto onde foram quebrados. Mas aos que não se deixam quebrar, o mundo os mata. Mata os muito bons, os muito meigos, os muito bravos – Indiferentemente”. Indiferentemente, todos aquele que esforçaram-se pelo sim, tiveram um final terrível, como se o corvo nunca deixasse de amaldiçoar: Never more!. A sífilis espiritual de Nietzsche... O colapso de Fitzgerald... O gatilho de Hemingway... O salto de Deleuze... Os óculos de Lennon na calçada em frente ao edifício Dakota. Quem sonhou, só vale se já sonhou demais. A rachadura não perdoa, amigos, por mais que fechemos os olhos e tratemos de ter bons sonhos, a rachadura cobra a conta com juros e correção.
            Os que me conhecem sabem que não sou de ficar choramingando, lambendo minha própria ferida, mas, mesmo nos momentos em que sinto minha energia vital pulsar com maior vigor... Mesmo quando a vontade de potência provoca uma ereção... Mesmo quando me sinto capaz de suportar o mundo, um corvo canta rasgado:
            Never more!
            E as palavras de Goethe ecoam em meu ouvido.
            - Para mim não há jeito de acabar bem.
            O cinismo é a cola que remenda a fissura, mas meu pote está vazio.

            Só por hoje.

domingo, 28 de julho de 2013

OCO

O homem de barba longa passava ao lado do poço, quando escutou o mais belo lamento ao violino que jamais sonhara. Estancou. "Há alguém aí embaixo?" Gritou. O violino parou por instantes, mas tornou a soar logo a seguir. Então o homem de barba longa chamou na igreja em ruínas e conseguiu uma corda. Amarrou-a numa árvore de grosso tronco e desceu, retornando em seguida com o violinista amarrado às costas. Como não notasse qualquer entusiasmo no rosto do rapaz cuja vida acabara de salvar, o homem de barba longa abriu a boca: "Como é que você foi parar lá embaixo, rapaz? Poderia ter morrido de frio e de escuridão. Não é bom estar de volta e contemplar o sol, e as árvores, e os pássaros?" O violinista descansou o instrumento no chão e respondeu: "Foi no poço que nasci e foi lá que vivi até agora. É da noite, do frio e da solidão que alimento meu instrumento. Como posso agora amar o colorido?" O homem de barba longa acendeu um charuto e balançou negativamente a cabeça. Não achava saudável alguém morar num buraco. O violinista, entretanto, agarrou a corda e desceu outra vez, voltando a tocar assim que alcançou o fundo.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Reflexões sobre o diagrama do Taiji

 
"Sem-Nome é o princípio do céu e da terra
Com-Nome é a mãe de dez mil coisas
Assim, a constante não-aspiração é contemplar as Maravilhas
E a constante aspiração é contemplar o Orifício
Ambos são distintos em seus nomes mas têm a mesma origem
O comum entre os dois se chama Mistério
O Mistério dos Mistérios é o Portal para todas as Maravilhas"
Lao-Tsé,  Tao Te Ching
 
Não sou feminista, o feminismo distorcido tem formado muito mais mulheres faludas, hipócritas e bundões que homens femininos, e o mundo precisa de um toque mais feminino. A panela de pressão não suporta mais tanto concreto, e obeliscos, e violência. O feminino concilia, acolhe, aquece, supera obstáculos sem fazer escândalo. “Vai ser gauche é maldição pra homem, mulher é desdobrável, eu sou.” Escreve Adélia Prado em resposta a Drummond. Da mesma maneira, enquanto Heidegger, o pastor alemão, maior filósofo do século XX, adere ao nazismo, numa das maiores cagadas filosóficas de todos os tempos  (talvez só comparada à de Platão quando foi se meter em assuntos de Estado), Hannah Arendt responde com o ser junto e o ser entre os outros do diferente. Tudo o que em Heidegger é indagação, em Hannah é colo, fidelidade aos amigos. Enquanto os homens queriam assassinar o mais rápido possível o monstro Eichmann em Jerusalém, Hannah vai adiante e, onde os outros vêm um bicho, ela só encontra um burocrata estúpido, a banalidade do mal. O problema não é aquele réu nazista em meio aos judeus, o problema é o toque masculino, que vê tudo ao redor como objeto... A matéria opaca levada ao paroxismo. Kafka já profetizara, nO Processo. Se construímos matadouros de bichos, qual o problema em se construir matadouros de homens? Morte em escala industrial, produção, produção, produção. Iluminada por Heidegger, Hannah enxerga que é a técnica que banaliza. Os dois juntos formam um só sistema filosófico, ainda que Heidegger, egoísta e inseguro (por mais que sejam inteligentes os homens são sempre infantis, não dá pra amar e ser esperto ao mesmo tempo), jamais tenha lido os livros de sua companheira espiritual. Mulheres são telúricas, envolventes, confidentes do mistério. Homens são solares, orgulhosos, impetuosos. A escultura é masculina; a música, uma mulher. O cientista é macho; a mitologia, uma ninfeta. Onde elas sugerem, eles exibem. Onde eles enterram, elas florescem. Onde eles contam histórias, elas fazem encantamentos. Clarice Lispector, Katherine Mansfield, Virgínia Woolf, Márcia Barbieri mergulham em abismos, em cujas bordas estanco, com medo de olhar. Escrevem palavras úmidas, sensuais, fecundas, seus livros escorrem entre os dedos. Maior erro de Freud, carrasco de Nietzsche, ventre que pariu o Cristo, Iemanjá em cada útero, sabedoria e ponto de convergência de qualquer família. Mona Gadelha cantando Belchior. Guardiãs dos teares e da cultura enquanto tecem a humanidade. Mistério puro. Enigma frágil que nocauteia boxeadores e dá a luz a bolhas de sabão. Sem portas e janelas as paredes são inúteis. Sem a Terra o falo solar seria broxa. Sem a Lua não há colheita. Sem o húmus o baobá não floresce, parceiro, nem o bonsai. É Apolo quem constrói, mas é Dioniso quem dá sentido e a Virgem entoa cantos em aramaico para ninar tanto o Cordeiro quanto o Leão.

sábado, 22 de junho de 2013

Poética da Diferença

 
O Amor? Um pássaro que põe ovos de ferro.
Guimarães Rosa
Para o deleuziano Leandro Mendes
 
A palavra, em seu uso cotidiano, é representação. Pagamos caro para nos entendermos, para que peçamos dez pãezinhos na padaria e o balconista nos dê dez pãezinhos quentinhos, recém-saídos do forno. Quando digo: “Isto é uma mesa”, apontando para a mesa, é como se colasse uma etiqueta na coisa. O uso da palavra no poema é diferente, só no poema devolvemos a palavra a si mesma e a libertamos de sua subserviência à coisa. De modo que o poeta chacoalha a palavra, desgruda as etiquetas das coisas, embaralha-as, usa-as como bem entende. Gil acertou, quando o poeta diz lata, pode estar querendo dizer o incontível. O que estou querendo dizer é que a palavra literária é a própria diferença. Já pressinto o tribunal, como assim? O que você está querendo dizer de fato? Explique-se! Calma, vamos por partes, como diria Jack. Um exemplo de um poeta de peso, embora magro. No Poema de sete faces, Drummond escreve: “as casas espiam os homens / Que correm atrás de mulheres”, estes versos abrem um abismo entre a palavra e aquilo que ela nomeia. Forçando uma analogia platônica, a casa de bloco, telha e concreto seria o modelo e a palavra casa, a cópia. Entre ambas há uma diferença. Ninguém pode se abrigar da chuva, do sol, ou dormir sob uma palavra. Quando retiramos da cópia o original, como o poeta faz quando escreve casa, resta a diferença, pois a casa de Drummond, esta que espia, não tem qualquer relação com as casas do mundo real. Pergunta: mas afinal do que esta casa difere, se, no caso, ela não é mais comparada ao original? Resposta: Difere de si mesma. A palavra poética carrega em si a diferença em estado bruto, do mesmo modo que a lembrança. Se uso corda para amarrar um cavalo selvagem ao toco e depois retiro o toco, o cavalo ainda terá a corda em volta do pescoço.  No poema, a palavra só remete a si mesma e de si mesma difere. Aqui perdemos a imagem, a analogia com o mundo real, a casa de Drummond não abriga gente, mas é viva e espia. O poema é a diferença tornada palavra, no entanto, mesmo a palavra poética, sim, até mesmo ela, é uma atualização, Clarice Lispector cravou: “Se for para escrever, que não se esmague com palavras as entrelinhas”. Um texto fala muito mais pelo que cala do que pelo que diz. Se a palavra é necessária, o é para apontar o silêncio. É no silêncio do texto que a diferença repousa em sua pureza múltipla, porque aí não há mais o modelo ou a cópia, nem a casa nem a palavra que a rotula, mas permanece a diferença entre uma e outra. Todo poeta sonha ser a flauta deste poema transparente, no qual, pelo branco da ausência de palavra, seria possível partilhar o ser (a diferença é o ser) da mesma maneira que duas crianças famintas partilham uma manga. Para a nossa tristeza, entretanto, tal experiência está reservada aos místicos, exige esforços sobre-humanos e é incomunicável: vai e vem como um oceano, só que sem água.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Ela me faz tão bem


Meninos se vão, meninas se vão, mocinhos se vão, mocinhas se vão, velhinhos se vão, velhinhas se vão e sempre é cedo demais para quem fica, porque nunca dissemos tudo o que deveríamos ter dito. Não ouvimos o suficiente. Parece que o essencial se perdeu, nós não demonstramos. Tinha sempre uma ponta de orgulho lá, cobrindo a nossa face verdadeira, feito a máscara de monstro com a qual brincávamos na infância.  Quem disse o quanto foi importante ter saído do trabalho e encontrar o outro para comer umas esfihas com tubaína, hein? Isto salva uma vida. O mundo é grande e cheio de gente. Encontro é uma palavra poderosa, estala na língua. Dividir sonhos e angústias, encanações sexuais e tudo o mais. Precisamos ser pacientes um com o outro como duas crianças perdidas numa floresta em noite de tempestade: viver é mais imprevisível ainda. Escolhemos um caminho, nos programamos, imaginamos um final, mas, no meio, somos arrastados por forças poderosas. Todo dia é um tsunami, todo dia um Katrina. Tão imenso universo, dói a cabeça de pensar, infinito é mais longe ainda. Que Deus poderia imaginar que este planeta minúsculo, esta bolinha de gude que esfriou um pouco mais e criou algum musgo por cima, poderia abrigar tantas histórias extraordinárias? Não no corpo que habitamos, mas na história de nossas vidas somos maiores que os deuses, maiores que o universo imenso e o sem-fim. De que vale o big ben, um buraco negro, o infinito, diante do choro de uma criança? De um cachorro atropelado? De um rostinho sujo que espera o pai, e o pai não vem, o pai nunca vem, não há pai, nem paz, somos todos filhos do acaso como qualquer menino de rua. Sim, meninos se vão, meninas se vão, mocinhos se vão, mocinhas se vão, velhinhos se vão, velhinhas se vão e é sempre cedo demais, porque mesmo a velhinha ainda leva no corpo a menina que foi, a menina que é, aquela que anseia sempre por aprovação e importância. Dia desses fui ver a Lygia Fagundes Telles falar e ela falava como uma menina, faceira e terna feito uma adolescente. Sou um homem simples que não espera mais que um café quente e um sorriso, mas não aceito injustiça, nenhum tipo de injustiça e, para mim, não há injustiça maior que a Morte e é por isto que escrevo. Para onde vão as histórias das pessoas quando o corpo que as abrigava não está mais aqui? Será que nossa vida é mesmo sempre bela, breve e inútil, como as luzes que piscam nas árvores de natal, em casas do subúrbio, a cada final de ano? Cada piscar um emaranhado de sonhos de grandeza,  de mesquinharia e desejo que se acende e se apaga. Plin! E lá se foi uma vida em meio ao rio que nunca nasce e que não encontra mar. Plin! E lá se foi a menina que um dia sonhou ser poeta e foi fotografada tranquila e ingênua no capô de um fiat 147. Plin! E lá se foi Rogério, gnomo mais triste do mundo, com seus acordes certeiros no baixo e o índio de cartola tatuado no braço! Plin! E lá se foi Daniel, a ferida que sonhava sempre a cicatriz. Bom dia. Beijo para quem é de beijo, abraço para quem é de abraço. Hoje faz sol depois de uma semana de chuva, mas Scarlet Moon morreu. Eu não a conhecia, mas conheço sua história de amor com Lulu Santos, parceiro com o qual  ela foi casada por 28 anos. Uma única história de amor é a finalidade e, ao mesmo tempo vale mais, que todo o universo. O homem, meus amigos, não é o Senhor do ente, Poder é ilusão, o homem é o pastor do Ser. Meninos se vão, meninas se vão, mocinhos se vão, mocinhas se vão, velhinhos se vão, velhinhas se vão, mas não em vão. A terra se torna sempre um pouco mais fria e misteriosa quando cada um de nós parte, mas reaquece no instante seguinte, no choro que estreia o pulmão do amanhã.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Quase-Hermes


Não é exagero dizer que o ser humano é um ser hermenêutico. Tornamo-nos humanos à medida que compreendemos e interpretamos o mundo que nos cerca e compreendemos e interpretamos a nós mesmos. Há um corpo... Há um cérebro... Há um fígado... Um coração... Um rim... Para a ciência, somos feitos de átomos, mas isto apenas não nos define, somos feito, sobretudo, de histórias. É na palavra que o homem faz morada (Poeticamente, o homem habita) e a natureza até então viva, mas silenciosa se abre para compreender-se, refletir-se e cantar-se. A palavra é a fenda e o espelho em frente, por meio do qual a natureza se observa, se interpreta e se admira. Não fosse o homem, e o homem é linguagem, as coisas todas ainda estariam aí, os planetas em suas rotas, os pássaros nas árvores, o oceano em seu berço, mas não saberiam, elas, as coisas, apenas seriam, sem jamais saber que são. “A linguagem é a casa do ser”. (HEIDEGGER, Carta sobre o Humanismo, p.8).

Nós, que nascemos no final do século XX, fomos lançados do ventre materno para um mundo dado. O conhecimento já estava aí, os livros já estavam aí. Nós nos tornamos gente à medida que interpretamos o mundo ao nosso redor e que vamos construindo nossa identidade, melhor, nossa alma, enquanto somos rasgados pelo saber, pelas obras, pelas histórias que nossos antepassados mais remotos produziram. Isto que somos torna-se um eu à medida que é atravessado pelo mundo, pelas produções humanas e que reflete sobre o mundo e sobre si mesmo. Nós somos um diálogo. Compreender não se separa da vida, mas adere à vida e a transpassa em todos os momentos. Compreender é nossa atitude mais primária, o bebê compreende o olho da mãe. Compreender não é uma atividade que se faz trancado num escritório ou laboratório, observando o rio à distância. No momento em que nos afastamos da coisa, nós a perdemos e se depois a explicamos cientificamente é porque ela, a coisa, já tinha desaparecido. Explicamos sem ter compreendido. Se vamos falar de vida e, a nosso ver a questão primordial é onde está a vida?, então o imperativo não é o olhe o rio, mas entre no rio, coloque os pés na água, sinta o frescor e a turbulência, o musgo verde no fundo, o cheiro de lírios e os gritos dos afogados.
 
“A compreensão não vem depois da vida, mas a permeia em seus momentos todos. Compreendemos o outro quando com ele falamos; uma ferramenta quando a utilizamos; os acontecimentos cotidianos quando nos atingem; o ambiente ou o mundo em que vivemos.” (NUNES, Ensaios filosóficos, p. 270).

A obra é viva, é vida, se vamos falar da obra, então o imperativo não é observe a obra, conte as palavras e os tijolos, procure no dicionário os trezentos significados possíveis, mas sim: penetre a obra e seja por ela penetrado. Um provérbio zen diz “o sábio aponta a lua, mas o tolo olha para o dedo”, eu completaria; e ainda reclama da cutícula. Parece ser este o trabalho crítico que temos feito, reclamar da cutícula no dedo. É preciso penetrar a obra - que é atemporal e vive no eterno presente da origem, com suas raízes fincadas no solo da Arte - pela porta de nosso tempo, ano de 2013 da era comum e deixar que a porta permaneça aberta para que a obra fale uma vez mais. O homem é um ser hermenêutico e a Arte é a mais encantadora das produções humanas.

Bibliografia:

HEIDEGGER, Martin. Carta sobre o Humanismo. Trad. Rubens Eduardo Farias. São Paulo: Centauro Editora, 2010.

NUNES, Benedito. Ensaios filosóficos. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Uma entrevista

(ACIBEL): Quando descobriu que tinha vocação para ser escritor? Fale um pouco de seu início nas escritas.

(DANIEL LOPES): R: Antes de tudo era o desencaixe. A sensação de espanto diante do mundo. Lembro de uma vez que estava na igreja com minha mãe, ela era catequista, e fiquei espantado de ela existir e ser alguém, e ter um rosto, uma personalidade e de estarmos ali, naquele exato lugar, naquele exato momento, lançados neste planeta doido e doído, e eu me perguntava: pra quê, afinal de contas? Não seria mais natural o nada? Por que existíamos e sabíamos, e tínhamos certeza, de que um dia não existiríamos mais? Enquanto o homem é, está na aporia da morte. Foi o que desesperou Buda. Se eu fosse um homem de fé verdadeira, se tivesse certeza de que Deus existe, então tudo estaria resolvido, e eu talvez não escrevesse uma linha sequer, mas não consigo acreditar com este fogo. Todas as coisas podem não ser mais que mera coincidência. Talvez não tenha sentido algum as milhares de pessoas que já pisaram neste planeta e sofreram, e amaram, e morreram e... Drogas... Alcoolismo... Incestos... Amores mal resolvidos... Mais incestos... Humilhações... Assassinatos... A minha escrita é só o registro, com sangue e plasma, deste desconforto: a materialização de tantas questões que, apesar de tudo, não podem ser respondidas, sequer formuladas com palavras. Talvez a música toque. A escrita, entretanto, começou efetivamente na adolescência, em vários cadernos que eu preenchia, só porque registrar a angústia aliviava. Não há respostas, só o constante arranhar a face do enigma.

(ACIBEL): Em seus livros você gosta de usar uma ordem cronológica ?

(DANIEL LOPES): R: Não, não me preocupo com o tempo ou com questões formais. Tanto pode haver uma ordem cronológica como não. Minha preocupação não é inovar a prosa, mas tocar o plasma, o humano. Não é uma literatura para a cabeça, mas para o espírito. Não quero ser inovador, quero ser verdadeiro, embora, às vezes, para ser verdadeiro, precisemos inovar. Mas não vem de fora para dentro e sim de dentro para fora.

(ACIBEL):Ao escrever PIANISTA BOXEADOR buscou inspiração em alguma historia cotidiana ou usou alguma técnica que facilitasse a criação?

(DANIEL LOPES): R: Acredito que o artista parte do cotidiano, mas enxerga o interior das coisas onde os outros enxergam a casca. Van Gogh só precisava de um girassol murcho e de seu próprio quarto pra revelar sua verdade. O artista enxerga o brilho de todas as coisas e percebe nelas portas para o Absoluto, uma espécie de panteísmo no qual tudo é santo. Para o arquiteto, ou engenheiro, ou político, uma janela é só uma janela. Para o artista, a janela pode ser o lugar onde um cachorrinho vira-latas esperava o dono todos os dias voltar da escola, até o dia em que o dono morreu atropelado e o cachorrinho continuou esperando. A Arte, a literatura, são humanas e o humano tem o dom de Mundificar a Terra, Larificar a Casa, enfim, encher de sentido a matéria, a primeira vista, opaca. Um balanço seria só um balanço, não houvesse crianças, a madeira seria para sempre opaca, mas o menino pode brincar nele e sonhar, enquanto vai e vem, e sentir saudades do pai separado que não o visita há muito tempo. Tanto o médium quanto o artista podem perceber isto. Também se pode tomar um ácido, ou ler Heidegger... Nosso planeta está destruído porque expulsamos o sagrado para o além. Começou com Platão e o processo só se intensificou com o cristianismo, que Nietzsche dizia não ser mais que platonismo para a ralé. Tinha razão. As sociedades primitivas respeitam cada árvore porque todas elas SÃO. Nossos Deuses estão no além, a Terra é o domínio do Mal, consequência da metafísica, podemos destruí-la de consciência tranquila. Jeová ainda fazia suas visitas à Terra, depois silenciou, retirou-se.

(ACIBEL): O livro  PIANISTA BOXEADOR traz em seus trechos partes interessantes de um personagem que retrata sua realidade e algumas vezes ficções, como "... ver brotar na sua barriga ... um botão de rosa" , há alguma momento em que você fica em duelo entre continuar a escrever com essa riqueza que traz a ficção ou escrever mais sobre a realidade?

(DANIEL LOPES): R: O que é a realidade? A imaginação é parte da realidade. Não é o mundo historicamente instituído, ou o que é científico, que é real. A desgraça de nosso tempo é que as crianças já nascem científicas. O real é o mundo que se constrói sobre a Terra. Os pré-socráticos chamavam de physis o abraço entre o ser e o ente, não havia uma separação metafísica entre o transcendente e o temporal. O mundo não era opaco, pois tudo tinha o brilho de ser e de abrir-se para o Ser. Não é o racional que é real. Não é o científico que é real. Não é o social que é o real. O real é o Todo. Neste sentido, sou o mais realista dos escritores. Ainda que seja um péssimo escritor, sou um um bom amanuense e vejo coisas que enganam a lógica e driblam a razão.

(ACIBEL):O que o leitor pode esperar de mais surpresa no livro e onde adquiri-lo? 

(DANIEL LOPES): R: Antes de terminar, gostaria de agradecer profundamente à Acibel. O que o leitor pode esperar do livro é que não seja um artifício técnico, ou uma mentira bem embalada. Foi um livro escrito por um homem, não por um autor. Durante a revisão, cada palavra que precisava ser cortada, era como uma parte do meu próprio corpo que era arrancada. Não moro só no corpo, moro no que vejo e no que escrevo. O livro é um abraço, um amigo que espera o encontro com aqueles que passaram pelos mesmo lugares. Pianista Boxeador pode ser comprado pela internet em quase todas as livrarias ou no site da editora Confraria do Vento.