sexta-feira, 5 de julho de 2019

O QUE É QUE HÁ?



Eles eram jovens; mas, mais que isso, eles tinham a jovialidade de todos os começos. Aquela coisa adolescente de encontrar um companheiro para atravessar a loucura de mãos dadas... E ficar conversando sobre a vida, na cama, de mãos dadas... E chorar sobre as feridas, para logo em seguida gargalhar na cara do câncer. A força de um encontro não está em um e nem no outro, mas no entre. E aquelas crianças puras falavam de casamento e brincavam de casinha e até o chiclete mastigado compartilhavam. Isso era entrega, né? E confiança, e fé; em outras palavras, amor. 
Mas os meninos. 
Um dia, coisa besta, ele escorregou. Os meninos nunca enxergam as cascas de banana esquecidas no caminho. Vê-la chorando, e saber ser o motivo de cada lágrima, foi pior que facada. Ele sentou só, na escada da casa onde antes costumavam se sentar juntos. A cachorra deitou no colo. Ela já tinha partido. As meninas perdoam; mas, quando partem, não olham mais pra trás. Ele era um grande músico, reconhecido já, só que, depois que ela pegou a estrada de tijolos amarelos, nunca mais conseguiu fazer canção que valesse à pena; isso, que era a coisa mais importante pra ele –a música - já não tinha qualquer significado: ele sabia que nunca conseguiria se perdoar. 
Seguiram. 
O tempo. O tempo. O tempo. 
Ela refez a vida. Dedicou-se à carreira. Casou-se com outro e se fortaleceu na força grande de um parceiro estável. Ele cambaleou pelo destino. Fez sucesso, ganhou dinheiro, seguiu; só que seguiu manco, meio penso para o lado esquerdo. Enquanto ela construiu um laço forte, ele se casou mais de dez vezes, sempre com meninas mais novas, as quais faziam de tudo pra cicatrizar aquela ferida que comia as próprias bordas. Como perdoar a si mesmo? Como? Era ele quem fumava mais de dois maços por dia, mas foi ela, ao lado do marido bom, quem primeiro adoeceu. Pela televisão, o velhinho que ele agora era viu a notícia de que ela tinha atravessado o umbral. Heathcliff agarrado a uma árvore em meio a ventania - murmurou sorrindo para os botões do próprio pijama:
- Eu também já estou indo, meu amor!
E cinco dias depois morreu. E foi enterrado numa tumba sem lápide, pois já ninguém sabia seu nome.🌻

DERRAMANDO

Ando com meu coração tão transbordante de amor que, quando passo na rua, até os cachorros começam a cruzar😱. Ainda assim, tão esburacado e dolorido.🌻

VIM TOMAR A BASTILHA

Vim tomar a Bastilha
Devoro os guardas, roubo as chaves
Bato minha cabeça nas grades e dissolvo barras e armaduras
A porta está aberta, irmã
Vem, vamos caminhar de mãos dadas
Faz um dia lindo lá fora
E a dor é a rachadura pela qual podemos mergulhar em Deus
Já não há problemas, preocupações, passado ou futuro
Tudo é presente: amanhã, hoje é ontem
Nada nos falta, nada nos sobra: somos
E eu entrego o que sou e o que tenho
Estou nu no umbral
De mãos vazias
E meu coração desencapado é tudo que tenho pra enfrentar o exército inimigo
Vim tomar a Bastilha:
“Faça um sinal, cante uma canção”.
A minha rebeldia é fruto de uma desmesura de amor.
Vim.

Asas

Ele era um anjo que ajudava todo mundo. Só não conseguia salvar a si mesmo.

A ATENÇÃO

E quando eu disse que vinha de Minas, ela me recebeu em casa com um café fresquinho e uma mesa de queijos

ELE ESTÁ CRESCENDO

Vocês se lembram do Bruxo? Outro dia falei dele aqui. É o pastor alemão daqui de casa. Temos três cães: O Bruxo, a Dara e a Nina. A Dara é a adolescente maluquinha, que só pensa em paquerar. Infelizmente, tivemos de castrá-la. O bom foi que ela nem percebeu, continua paquerando a cachorrada da vila do mesmo jeito. Ela não gosta necessariamente de consumar o amor, gosta mesmo é da paquera, do fervo, do funk, da farra - me lembra a Debby Harry. Tem o Bruxo. E tem a Nina que é a chefona do quintal. O Bruxo está crescendo. Vou contar uma coisa. Outro dia, estava terminando de lavar o quintal, limpando os trilhos com o portão aberto e aí os escrotinhos desceram. Os escrotinhos, são dois cachorros sujos, com os pelos tudo bagunçado, caindo nos olhos. Chamo eles de escrotinhos por causa dos personagens do Angeli. Eles têm dono e tudo, só que o dono. Enfim, a bicharada aqui de casa odeia os escrotinhos, porque eles ficam soltos na rua e vêm cagar e mijar bem aqui no portão de casa. Quando eles passam na rua, a guerra é declarada; mas os danados sabem do portão e vêm bem aqui na calçada de casa, abaixam as calças, fazem coco dando risada, só pra provocar mesmo, e depois vão embora. Nesse dia aí, o portão estava aberto e a Nina saiu correndo pra dar um enquadro nos escrotinhos. Só que os bichos da rua não respeitam nem a carrocinha vão lá ter medo de uma vira-lata velhinha? Derrubaram a Nina e iam dar uma surra, foi quando o Bruxo veio correndo, latindo grosso, quase me derrubou, deu uma patada em um que mandou longe, derrubou o outro, colocou a pata enorme no meio do peito e arreganhou os dentes. Os dreds sujos caíram de lado e eu vi os olhos horrorizados. Aí o cãozinho da rua conseguiu se desvencilhar e saíram os dois correndo, latindo palavrões pra trás, jurando vingança. A Nina ficou olhando pro Bruxo sem entender. Ele, como se nada tivesse acontecido, voltou correndo pro quintal e começou a pular na Dara para brincar. Ele está crescendo, sabe; não obedece mais a Nina por medo, só por amor. A delicadeza não é ausência de força, é opção pelo amor quando seria bem mais fácil vencer pela violência. O Bruxo só finge que é fraco pra Nina não sofrer porque sabe que seria doloroso demais pra ela a perda de autoridade agora no final da vida. E ele é tão legal que nem fica se vangloriando de seu coração. Age como se não tivesse outro modo de agir. Amo meus bichos!🌻

sábado, 29 de junho de 2019

ÀQUELES QUE CHEGAM E INSTALAM A BELEZA

É fato que vivemos numa terra de juízes. Cristãos julgam o relacionamento de homossexuais; homossexuais julgam o relacionamento do velho que se apaixonou por alguém mais jovem. Outro dia, respondi a um post de uma amiga e ela me excluiu. Na postagem, havia a notícia de que o José de Abreu namorava uma menina de vinte e dois anos. O comentário dela dizia: “Onde a direita e a esquerda se igualam: no macho, branco, hétero”. Eu comentei apenas: “Achei que fosse na capacidade moral de julgar os relacionamentos alheios”. Essa minha amiga teve seu próprio relacionamento julgado por muita gente... E, no entanto, se acha no direito de dar o veredicto sobre o que vai dentro dos outros. Eu sou macho, branco e hétero, mas não sou o inimigo; sou o companheiro. O que querem dizer esses rótulos todos? 
Mas não é dessa gente que quero falar. Quero falar, sim, daqueles que estão no mundo a partir do coração. Outro dia, vinha vindo pra casa pela Dutra e passei em frente ao presídio ali de Guarulhos, o Marrey. Havia mais de uma dúzia de barraquinhas coloridas esperando chegar a hora da visita. Pensei naquelas mães na noite fria, debaixo da garoa. É muito amor demais da conta! Uma mãe, um pai - dignos de tais palavras - nunca abandonam o filho. E se atormentam, claro, pois há situações em que só o filho pode se ajudar. Pensei também nas mães cujos filhos foram mortos, muitas vezes por causa de um tênis, um celular... Ainda assim, acho que é pior ter um filho assassino que um filho assassinado.
E aí, dia desses, essa minha amiga me falava do tempo em que trabalhava com acolhimento de adictos e da irmandade que se instaurava entre eles. Sexta-feira era dia de pizza. Mas o dinheiro só dava para comprar pizza suficiente para que cada um comesse um pedaço. Quando alguém recaía e não voltava, os outros guardavam o pedaço dele para o dia seguinte. O cara podia chegar doidão, virado, fedido, mas tinha seu pedaço de pizza garantido. Irmandade de quem conheceu a dor da indigência e da invisibilidade. É de gente assim que gosto, sabe! Gente que erra feio, se esborracha, se arrepende, chora, ri, faz graça e dança na beira do abismo. Há canalhas por toda parte, mas algumas das pessoas mais sensíveis e bondosas que encontrei pela vida estavam na sarjeta, invisíveis, esquecidos, entregues. Acho que nunca chegaram a constituir a armadura, o rosto certo para enfrentar a rua e o olhar-julgamento do outro. Como eram sensíveis demais, foram mastigados e cuspidos pra fora da engrenagem. Peças defeituosas; doloridas. Resíduo. Tudo tão triste.
Eu tenho essa coisa de gostar de escrever, sabe. Escrevo para afagar àqueles que perderam qualquer possibilidade de colo e cafuné. Hoje, quis escrever para acariciar aquelas mães nas barraquinhas e seus filhos no inferno lá de dentro; para lembrar os amigos que conheci no meu próprio inferno: o Geslan, o Paulo, o Caíque. Queria que minhas palavras fossem para essas pessoas cheias de sabor, e amor, e cuidado, como aquele pedaço de pizza que os meninos engaiolados no vício guardavam para o irmão que, sem sombra de dúvida, voltaria com a alma fraturada no dia seguinte.
AMOR DA CABEÇA AOS PÉS.🌻