quarta-feira, 19 de setembro de 2018

(Who knows when we shall meet again? / If ever – Alan Parsons)

Penso em uma mesa de pingue-pongue. 
Um jogador é o passado;
O outro, o futuro.
A bolinha: o agora.
Se por um lado o passado determina o futuro;
Por outro, o futuro conduz o agora.
Um tanto escolha, outro tanto destino.
O fado flui, o ser flutua.
A menor distância entre dois pontos é sempre um círculo.

domingo, 16 de setembro de 2018

A ÚNICA NOVIDADE É O SOL


Você se esforça por fazer o mundo à sua imagem e semelhança:
Crê que seu candidato tem as melhores propostas,
Que o seu time é o melhor,
Que sua arte é a SUBLIME,
Que seu modo de vida é o correto,
Que o seu ego vai migrar ao Paraíso,
Que sua verdade é a Verdade.
Tudo estaria bem,
Se os outros sete bilhões de habitantes não pensassem o mesmo.
Você se deprime.
Por que os outros não seguem suas instruções?
Por que, afinal, eles todos não se anulam se você está certo?
Por muito tempo eu também me esforcei por ser alguém,
Mas só criei crostas no coração.
Agora me esforço por ser ninguém.
É mais divertido.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

A BRAQUIÁRIA ESTÁ FLORINDO


Um homem sem expectativa não pode ser decepcionado.
Sem desejo, não há fracasso.
Quando o galo cantar, toma-o por maestro:
Cucurucá!
Se já temos a vida, que mais se pode almejar?
Vazar na braquiária, talvez.
O caminho já é o destino.
A travessia, a meta.
Desapego.

No fio, o pássaro espera a chuva passar.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

MEU AMIGO, O COQUEIRO

Habita em mim uma bondade erótica.
Desejo de partilhar a paz-manhã depois do amor.
Por outro lado,
Na periferia da pele,
Em casas sem reboco,
Pululam habitantes indesejados:
O ódio, a inveja, o Medo, a dor.
Como acolhê-los? Aceitá-los?
Construir pequenas casas para seus fantasmas?
Se fosse anjo, estaria íntegro no Bem;
Se demônio fosse, no Mal me refestelaria,
Mas ser humano é ser dúbio
E aceitar que eu também preciso de mimo,
Que eu também almejo ser compreendido.
No deserto, grito e não me ouvem.

domingo, 9 de setembro de 2018

ELA ERA GÓTICA

Isto se deu mês passado, no Guarujá. Fazia frio, eu tinha acordado cedo e fui caminhar na praia, enquanto a família dormia na pousada. Havia a areia branca e o mar azul. Surfistas se preparavam para enfrentar as ondas, enquanto outros já se encontravam em atividade avançada. Como é que os surfistas fazem para flutuar tão bem? É quase um milagre atravessar a vida assim, deslizando; sem oferecer resistência ao destino. 
De uma lado da realidade estava eu; e, do outro, ela. O vento soprava forte. Ela era magra, baixa, branca-branca, jovem, cabelos curtos, moletom preto e óculos escuros. Assim como eu, tentava entender os surfistas e os invejava. Se eu, por meu lado, caminhava descalço; ela enfiava as pontas dos dedos na areia, ali onde a água ainda molhava. Nossos rostos se cruzaram, assustados com a densidade da manhã:
- Um cadáver me contou, certa vez, que sentia cócegas com o trabalho dos vermes na sua carne, logo de manhã... – Juro por Deus que ela disse isso aí, quando fiquei um pouco mais longe.
Ela era gótica e eu estava velho.

MAL SECRETO


(Para Dolores O´Riordan)
Dizem que toda menina é uma máscara da água
E que, quando uma menina fica triste,
A água oferece seu colo como consolo.
Eu vejo você caminhar entre borboletas coloridas:
Crisálida ao contrário,
Interrogação tatuada na face da jornada.
Eu vejo seus cabelos curtos...
O lápis nas órbitas dos olhos...
Os coturnos...
Penso que espera, sei que almeja o fim das dores, Dolores.
A vida. A vida esconde a Maravilha depois do Inferno
E muitos se afogam durante a travessia.
Aquilo que nos tornamos algumas décadas depois
Não foi o projeto da nossa infância...
Você sabe: eu sonhei ser trapezista.
Dizem que é apenas minha imaginação,
mas a menina já não está;
Como não estão mil outras meninas a cada manhã.
Hoje estou triste,
Deve ser o tempo
Quero ver a criança brincar.

sábado, 8 de setembro de 2018

Avalokiteshvara


Há demasiada semelhança entre a vespa e o poeta.
Enquanto a primeira, seduzida pela orquídea, recolhe o pólen
Que origina nova flor
O segundo, seduzido pelo olhar, recolhe a vida
Que origina novo afecto
E o mundo já não será o mesmo.