sexta-feira, 11 de agosto de 2017

ALQUIMIA

Com o tempo, você transforma a dor por ter perdido uma pessoa em gratidão por tê-la conhecido.
Com o tempo, você troca a ferida purulenta por uma cicatriz em forma de roseira.
A juventude grita, berra e bufa, porque viver é um aprendizado
E a gente acaba ferindo quem mais ama por estar mais à mão.
Metade de mim era anjo; a outra metade, pornografia
Metade de mim era desenredo; a outra metade, magia
Como selar a cisão?
Com o tempo, você percebe que não precisa ser fiel ao que disse ontem porque a gente é correnteza.
Afirma hoje a certeza do hoje e amanhã a certeza do amanhã
Sê fiel ao agora.
Perdoa, Senhor, aqueles que não se entregaram à amizade ou ao amor por medo de ficar na palma da mão de alguém.
Senhor, perdoa aqueles que não rezaram porque nunca se desesperaram de fato,
não se entregaram; atravessaram mornos a vida e morreram de morte morna
Perdoa também aqueles que passaram pela vida sem olhar para o outro lado da janela,
Tirando fotografias do que não conhecia e não via
Quando ouço certa canção, choro de bondade
O mundo é um pulmão que muito se assemelha ao nosso
Aqueçamos a lareira, acionemos o fole, soltemos os cavalos
Serenidade é um dos nomes do vazio
Com o tempo você agradece os fracassos; os vencedores parecem tão fúteis
Com o tempo você aprende a transformar ferro e bronze em ouro
O puro ouro da vida

JARDIM DA FANTASIA

O Homem, que, nesta terra miserável / Mora, entre feras, sente inevitável / Necessidade de também ser fera? Não quero crer, minha amiga, já tomei este caminho e sei que é uma trilha para o abismo. Beber da raiva e do ressentimento é como tomar cianureto esperando que o outro morra. Creio antes em Aliocha, no príncipe Míchkin... Idiota? Não, puro por opção. Sem levantar estandartes, sem fazer barulho, que barulho nada resolve mesmo. Evitar agir de modo interesseiro. Concentrar-se sempre no que se faz, sem esperar recompensas aqui ou no além... E, diante da corrupção, manter a serenidade, a coragem de ser simples, de deixar a boca cantar um pouco daquilo de que o coração está cheio. Não ignorar a contaminação; mas combater o mal com um sorriso, não com mal semelhante. Míchkin, o príncipe, o herdeiro, o epiléptico, no romance de Dostoiévski, não aprova as ações de Nastácia Filíppovna, cortesã de beleza estonteante e provocadora; ele, o príncipe, entretanto, sustenta nela uma fé inabalável, que vai além das aparências e enxerga a chaga e a dor que Nastácia carrega no coração. Diante de tamanha compreensão, a dama perde o compasso, tropeça na festa, está acostumada a ser desejada, julgada, e não compreendida. Nela os outros viam a pura exterioridade, ao passo que o príncipe... Minha educação não depende da sua, Senhora, depende apenas de eu ser educado. Já tomei do veneno e quem teve úlcera fui eu. E, se não houver meio, se não couber mesmo no mundo; espero, feito Quixote, sair pela porta dos fundos. Não é que o Dom, o cavaleiro da triste figura, não enxergasse o real, é que preferia o delírio. E penso também naquele filme de Hollywood, Pecado Original, com Angelina Jolie e Antonio Banderas, naquela cena, sabe, em que a personagem de Angelina coloca veneno na bebida da personagem do Banderas e ele, mesmo sabendo que é veneno, sem titubear, mas sustentando o olho e o olhar, leva o copo à boca, porque ELA tinha colocado o veneno:
O ser herói, Marília, não consiste
Em queimar os Impérios: move a guerra,
Espalha o sangue humano,
E despovoa a terra
Também o mau tirano.
Consiste o ser herói em viver justo:
E tanto pode ser herói o pobre,
Como o maior Augusto. (TOMÁS ANTÔNIO GONZAGA)
O ser herói, Senhora, não consiste em almejar o poder e efetuar grandes façanhas, mas em sustentar o abraço e o sorriso em meio a um mundo que desmorona.
Quero ver você feliz.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

FORÇAS

Para Nietzsche, o cosmos é um jogo entre forças ativas e reativas. Esta é uma tradição que vem desde a Grécia antiga. Os gregos, de modo geral e não só os espartanos, eram um povo bélico. Nietzsche, em sua eterna pendenga com o cristianismo, valoriza as forças ativas; às quais, no âmbito humano, buscam afirmar seu valor e sua diferença: pensemos no herói Aquiles. No polo oposto, estão as forças reativas, cuja força consiste em seu poder de desintegrar as forças ativas e gerar, naqueles que são canais para tais forças, a má consciência. Para o filósofo alemão, este era o grande trunfo do cristianismo... E, contra a máxima: “bem aventurados os pobres porque deles é o reino dos céus.” Nietzsche escreve: “é preciso proteger os fortes dos fracos.”
Na China antiga, os sábios comiam arroz e também enxergavam o universo como um jogo entre duas forças: yang e yin, que não são necessariamente o masculino e o feminino, mas dois princípios opostos que, de algum modo, contêm um ao outro em si: dia e noite, claro e escuro, calor e frio, prótons e elétrons... À diferença de grande parte dos filósofos ocidentais, os quais enxergam o mundo e a natureza como uma guerra, vide Schopenhauer, os sábios chineses viam um princípio harmônico entre os dois peixinhos do diagrama do tai chi (taiji). O peixe claro tem o olho escuro e o peixinho escuro tem o olho claro. A meia noite guarda em si a luz do dia que virá e o meio dia já é o começo da tarde. A mescla entre o preto e branco dos peixes dá o cinza... E o cinza tem muito mais que cinquenta tons.
É preciso definir quem está certo e errado?
Adotando o próprio perspectivismo nietzschiano, creio que ambos acertam em cheio, ainda que isso seja paradoxal.
A filosofia é só um ramo da literatura fantástica.

A LIÇÃO DE DIADORIM

Ultimamente,
Tenho pensado mais nos livros que na vida, apesar de que o que sempre me interessou na literatura foram os fluxos de vida, com tudo o que têm de bom e de ruim: fé e fezes. Não me interesso por truques estéticos; embora reconheça que, por vezes, o que um autor tem a dizer extrapola os dogmas linguísticos. Heidegger apontava a necessidade de libertar a língua da gramática. Como diria Riobaldo, pão ou pães é questão de opiniães. 
Vinicius de Moraes disse que a vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida. Quando lembro dos versos do poetinha, lembro também do amor impossível entre Riobaldo e Diadorim... Tão impossível quanto o amor entre Cathy e Heathcliff... Tão impossível quanto o amor entre Romeu e Julieta.
O amor de Diadorim não é de salvação, nem de perdição, mas de doação. Todo o tempo, Maria Deodorina almeja a felicidade de Riobaldo, mesmo que seja junto a outra mulher; no caso, Otacília, a noiva... Isso sem contar os inúmeros envolvimentos de Riobaldo com prostitutas e ele, Reinaldo-Diadorim-Maria-Deodorina, ali, ao lado, zelando. O amor encarnado em Diadorim é puro despojamento, generosidade, alteridade, ou melhor, como conceituou Lévinas: sainteté... É um amor próximo, muito próximo, àquele evocado por São Francisco na parte final de sua oração:
"Ó mestre, fazei que eu procure mais consolar que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive
para a Vida Eterna."

sábado, 5 de agosto de 2017

KEROUAC, O ROSA E O TAO


Há um texto de Chuang Tzu no qual o mestre do Tao escreve que, quando um arqueiro atira flecha num torneio, seus olhos se turvam, ele perde a naturalidade, erra até quando acerta. O prêmio afeta o tiro. O tiro perfeito é aquele dado sem alvo sequer e, este, encontra sempre seu destino. Quando viajamos com um destino, uma meta, condicionamos a viagem à chegada, só estamos realizados quando chegamos; mas, quando viajamos sem destino, em qualquer lugar que estamos, chegamos. A viagem é sempre mais importante que o destino e se não houver destino então, a viagem se torna plena. A aranha tece sua teia e espera. É o tempo quem traz o alimento. O autista caminha, vai e volta, segue o fluxo subterrâneo da água. O gato se senta e, quando cansa de ficar sentado, levanta e sai, brinca, corre, senta outra vez, vislumbra Deus numa bolinha de papel. Dois livros que admiro tratam disso: a viagem sem destino. Como a vida, a viagem sem destino é travessia, não sabemos onde vai dar e, por não saber, nos centramos no caminho, na viagem, no presente, apreciamos a paisagem. O porto é sempre futuro e ansiedade, mas quando não há porto, instalamo-nos no agora e o mar se nos mostra inteiro. A baleia branca se levanta das profundezas e nos mostra sua cauda. Tanto o Rosa, quanto Kerouac descendem antes das aranhas que dos símios. Seus livros tecem teias. As viagens de Sal Paradise e Dean Moriarty, bem como as andanças de Riobaldo, o Urutu branco, e Diadorim são fios lançados sem destino nas mais variadas direções, seja cruzando os Estados Unidos de costa a costa, seja atravessando os Gerais das Minas. O homem se perde no tempo, instala-se sempre no futuro ou no passado, mas a vida só acontece no agora. O futuro é uma astronave que tentamos pilotar e não conseguimos e o passado é uma mochila de pedras. A distração é concentração, amigos. Quando agimos sem intenção, o wu wei, é que o outro nos mostra sua face e florescem o amor e a amizade. O nosso problema é que sempre desejamos algo em troca, sempre temos um alvo, um objetivo, uma meta: esperamos prêmio, fidelidade ou elogio e, quando nada disso vem, resmungamos, choramos, não queremos mais brincar. O sol brilha é agora.

COMPARADO CONTIGO, TU ÉS TÃO BONITX

Tua beleza vem de dentro
Cresce feito semente no fruto
E daí que te chamaram de gordx, inválidx, veadx, esquisitx?
Comparado, tão bonitx!

És inteiro e sólido como uma maçã
E daí que te disseram que tinhas de ser
Assim ou assadx
Brancx ou pretx
Forte ou musculosx
Altx ou magrx?
E daí que disseram que tinhas de saber isso e aquilo e aquiloutro?

Sê teu próprio paradigma
Os que veem a casca não percebem o girassol


Comparado contigo, tu és tão bonitx!
Sê inteiro a cada fôlego
Não beba do veneno que te entregam
A perfeição pulsa no interior da tua pele
Escondida num cantinho da tua carne tenra
Comparado, tão bonitx!

Teus olhos brilham feito estrelas
Teu hálito tem o perfume do hálito de um filho
Tua perfeição é tão perfeita quanto a da rosa, do morango, da camomila, do girassol...
Se tu não existisses, o mundo seria menos mundo
E a manhã menos manhã
Algo faltaria nos confins do universo.
Então, chore quando tiver de chorar
E aceite o branco do sorriso
Tudo está tão claro agora:
Comparado contigo, tu és tão bonitx!

 


 

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

SEMPRE-VIVA

Numa das cenas mais pungentes da história do cinema, Roy Batty, em Blade Runner, recita pouco antes de morrer:
- Eu vi coisas que vocês, pessoas, não imaginariam. Naves de ataque em chamas ao largo de Órion. Eu vi raios-c brilharem na escuridão próximos ao Portão de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Tempo de morrer.
Sempre que vejo o mar, sentado quieto, em gratidão, lembro desse monólogo. Se um dia pudesse conversar com a personagem, diria que outros veriam coisas tão belas quanto e com os mesmos olhos de espanto. Cada ser humano encarna a humanidade inteira, é só a ponta do iceberg. Qualquer menina rebelde é um tanto Joana d’Arc, outro tanto Maria Madalena. Tudo flui, tudo corre, tudo vai. Construir uma prancha leve e surfar o tempo: em desapego, aceitando a impermanência das coisas. O amor termina no meio de um café com leite. A amizade se vai sem acenos. Pessoas queridas abrem a porta e se vão pra nunca mais. Nenhuma culpa de nada e de ninguém. As coisas têm um tempo para começar e para terminar: Duração, as coisas duram. Não há como dar nó no rio. O homem é um balde que se enche, durante a vida, de experiências. Quando morremos, o pote é despejado, não há modo de recolher a água espalhada; mas o balde permanece intacto, pronto para receber água nova. O vazio é o fio que liga o neto ao avô.
O mundo é tão bonito, mesmo com cicatrizes profundas que nos deixa e, quando chegar a hora, terei tanta pena de morrer. Barganharei com a Dama, assim que ela vier, ampulheta numa mão, a foice na outra:
- Mais uma primavera!

E, se ela disser que sim, trocarei meus olhos com os do recém-nascido para ver mais uma vez os ipês floridos, as rosas, as violetas, orquídeas, sempre-vivas na janela e a coragem da criança ao soltar o indicador do pai e ensaiar, sozinha, os primeiros passos. Estou mudando. A vida não é um fardo.